maio 22, 2022

Um Reino Maravilhoso

Chega-se ao final desta obra não só com uma enorme vontade de visitar o Reino Maravilhoso, mas também, estranhamente, com uma certa pena de não se ter nascido transmontano! Graça Morais foi por estes dias agraciada com o Doutoramento Honoris Causa pela UTAD, mas Miguel Torga deixou-nos há muito, ambos artistas transmontanos, aqui evocados conjuntamente, Torga com um conto dedicado a Trás-os-Montes e Morais com cerca de 50 pinturas e desenhos. O conto termina evocando outro vulto transmontano, Camilo Castelo Branco.

Um Reino Maravilhoso (2002)

maio 21, 2022

Projeções neuronais

"Projections" (2021) é um livro de memórias de um psiquiatra americano que desenvolve investigação no domínio da engenharia neuronal. Karl Deisseroth foi um dos primeiros cientistas, no início dos anos 2000, a demonstrar a possibilidade de ativar/desativar neurónios por via da luz, um processo que entretanto ficou conhecido como optogenética. Por este meio é possível reajustar o funcionamento de grupos de neurónios que se encontrem a funcionar incorretamente, conseguindo provocar alterações comportamentais ao nível da procriação, memórias, adicção ou alimentação, sendo vista como uma das técnicas mais revolucionárias das neurociências. Ao longo do livro, Deisseroth fala do desespero e frustração sentidos na sua atividade clínica como as principais forças motrizes para o seu envolvimento com a bioengenharia que o conduziriam ao desenvolvimento da optogenética. Em 2021, Deisseroth foi premiado com o Lasker Award, o chamado nobel americano da medicina pelo seu contributo para a optogenética.

maio 20, 2022

Quando o selo de qualidade não funciona

Este livro não é o que pensam. Não é sobre a Internet. E é altamente Não recomendado. O livro, "The Internet Is Not What You Think It Is: A History, A Philosophy, A Warning" de Justin Smith publicado pela Princeton University Press neste ano de 2022, é sobre um monte de interesses específicos do autor que só tangencialmente se relacionam com a internet. Mais, o autor não tem ideia nenhuma sobre aquilo que a internet é, seja na sua essência tecnológica, seja na sua função de comunicação. Partes do texto parecem tiradas de artigos de jornal, outras partes parecem discussões que tivemos nos anos 1990 sobre a internet. A grande questão que se coloca é porque é que este livro foi editado pela Princeton Press. Era suposto o selo da editora garantir qualidade académica ao que edita. Não era difícil olhar para o currículo do autor e perceber que a Internet, tanto pelo lado das ciências da computação, como pelo lado das ciências da comunicação, nunca fizeram parte da sua formação. Aceitar que alguém fale de tudo, apenas porque cola alguns nomes respeitados da história da filosofia, parágrafo sim parágrafo não, é meio-caminho para descredibilizar toda a editora.

Infelizmente, um livro altamente NÃO recomendado

maio 15, 2022

“Vladimir” (2022) de Julia May Jonas

“Vladimir” (2022) faz parecer que Philip Roth voltou para escrever sobre os efeitos do MeToo na academia e na arte, mas agora como mulher. Esta primeira obra de Julia May Jonas é irrepreensível na escrita, estrutura e erudição. Sob uma capa de aparente simplicidade narrativa — evocando "Misery" de King, "Rebecca" de Du Maurier e "Lolita" de Nabokov (autor que inevitavelmente se liga ao título) — Jonas vai lançando todo um questionamento avassalador sobre aquilo que somos em cada momento. Motivada pelos ataques institucionais do MeToo, Jonas coloca-nos na pele de uma professora universitária de 58 anos, muito certa do seu lugar, mas com fortes assaltos de dúvida sobre esse lugar. Entre a identidade que arquitetou com base no mundo para o qual erigiu as suas defesas, e o novo mundo que coloca em causa a existência dessas mesmas defesas, acaba colocando em causa a sua própria pessoa. Mas tudo isto é trabalhado num tom de comédia-negra, com a leveza entremeada por rasgos de incisiva análise do que fazemos e porque fazemos. É um ‘campus novel’ totalmente atual, capaz de ir além da crítica interna da academia, colocando o dedo no embate do MeToo com o Status Quo, não em defesa, nem contra, mas sim como provocação a ambos os lados.
"'Vladimir' contains far too many uncomfortable truths to be merely fun, but — especially for those of us with feet in the worlds of academia and literature — it remains, by turns, cathartic, devious and terrifically entertaining." Jean Hanff Korelitz, in New York Times

maio 12, 2022

O Instinto Humano

Miller passou as últimas décadas a defender a ciência por detrás da teoria da evolução em tribunais, apresentando argumentação contra os movimentos de criacionistas e defensores do design inteligente. Para quem ainda possa ter dúvidas sobre a evolução, nomeadamente fique reticente quando ouve que “tudo não passa de uma teoria”, Miller faz aqui um bom trabalho de desmistificação, apresentando evidências, ao nível do DNA, do processo evolutivo da vida na Terra. Mas Miller não escreveu “The Human Instinct”(2018) para explicar o suporte existente à teoria de Darwin, o seu objetivo é bastante mais vasto. A questão central aqui é a de saber se o evolucionismo por ter morto Deus, como disse Nietzsche, nos deixou realmente órfãos e entregues ao niilismo, ou se podemos encontrar no próprio processo evolucionário algo mais.

maio 08, 2022

O Massacre de Nanquim

Não tivesse Iris Chang cometido suicídio em 2004, provavelmente não teria lido o seu livro “The Rape of Nanking” (1997). Chang foi fortemente atacada pelo Japão na forma da sua desacreditação, mas não parece ter sido esse o único motivo do seu fim. Quando morreu estava a trabalhar o tema da “Marcha da Morte de Bataan”, mais um crime de guerra japonês pouco conhecido. A leitura de “The Rape of Nanking” foi uma das minhas mais violentas experiências de leitura de sempre, por duas vezes senti o vómito subir-me à garganta. No final do livro, percebe-se que muitos dos que sobreviveram àquele inferno pereceram precocemente pouco depois. Isto fez-me sentir que talvez a nossa capacidade cognitivo-emocional não esteja preparada para tamanha dissonância. Levar uma vida normal de empatia humana enquanto se convive interiormente com horrores deste calibre.

Estátua de Iris Chang no Memorial das Vítimas. Nanquim, China

maio 01, 2022

Como Compreendemos o que Lemos

Daniel T. Willingham é um professor e investigador da psicologia que se dedica ao estudo dos aspetos cognitivos da aprendizagem, de quem recomendo vivamente a leitura do anterior "Why Don't Students Like School?: A Cognitive Scientist Answers Questions About How the Mind Works and What It Means for the Classroom" (2009). Neste livro, "The Reading Mind: A Cognitive Approach to Understanding How the Mind Reads" (2017), aprofunda exclusivamente o processo de leitura enquanto processo cognitivo para nos dar a compreender como lemos, desde o momento em que interpretamos as letras até ao momento em que criamos sentido de um texto que lemos. 

"Stop for a moment and wonder: what's happening in your brain right now—as you read this paragraph? How much do you know about the innumerable and amazing connections that your mind is making as you, in a flash, make sense of this request? Why does it matter?"

abril 30, 2022

O humano Aristóteles

A partir de um apurado levantamento histórico Annabel Lyon especula sobre os três anos em que Aristóteles foi professor de Alexandre o Grande. Aristóteles tinha cerca de 40 anos e Alexandre 13. Mas não se espere um mundo perfeitamente delineado e amigável. Lyon construiu um texto minimalista, oferecendo muito poucas referências, raramente enquadrando os episódios supostamente mais conhecidos das vidas de ambos, ao mesmo tempo que constrói as cenas num modo abstrato, situa-as ligeiramente no espaço e tempo, mas apenas por forma a lançar o leitor numa mais profusa especulação sobre o que e como terá acontecido. Esta abordagem torna o texto em si distante e pouco envolvente, já que procura estimular o efeito dramático no leitor que para o efeito tem de recorrer à História. Por outro lado, Lyon apresenta um mundo de comportamentos com dois mil anos, distantes, mas também feitos de carne, de desejos e ódios, o que não raras vezes nos faz bater de frente com imaginários de uma suposta elevação da Grécia Antiga.

abril 24, 2022

O último abraço

"Mama's Last Hug" (2018) é uma defesa, apoiada por décadas de ciência empírica, da existência efectiva de emoções nos animais não-humanos. Contudo, como livro, não vai além de uma conversa ligeira sobre o assunto, serve mais quem apenas quiser introduzir-se ao tema. O título do livro surgiu a De Wall pela visita realizada pelo professor Jan van Hooff à chimpanzé Mama, quando esta estava às portas da morte, originando um reencontro intensamente emocional, um momento mágico e profundamente humano entre seres de duas espécies.


"Jan van Hooff visits chimpanzee Mama" (YouTube)

abril 16, 2022

"The Mauritanian" (2021)

"The Mauritanian" (2021) de Kevin Macdonald, conta-nos a história de Mohamedou Ould Slahi que foi torturado e detido sem qualquer acusação em Guantánamo durante 14 anos. A história segue o livro "Guantánamo Diary" (2015) escrito pelo próprio Mohamedou Ould Slahi, e conta com a excelente performance de Tahar Rahim e ainda Jodie Foster.

O filme é uma chapada brutal na administração americana e na sua atitude sobranceira de polícia da democracia no mundo que constantemente demanda o "olha para o que eu digo e não para o que eu faço". Considerando o que foi feito, não só para com os prisioneiros, mas para com os próprios cidadãos americanos que tentaram por cobro à situação, podemos ver muitas semelhanças com aquilo que a Rússia está a fazer neste momento. Como se a guerra fosse sinónimo de carta branca, e as convenções que se assinam servissem apenas quando nos dão jeito.

O trabalho de Kevin Macdonald é sério, contido em termos emocionais. Existe um claro esforço no tratamento do caso para garantir a sua exposição que mesmo quando recorre a algumas sequências mais fortes e a cinematografia e montagem agressivas, nunca se deixa toldar por uma ideia de revanchismo ou acusação gratuita às autoridades, chegando mesmo a servir-se do anti-climax para passar as ideias da forma mais depurada possível.

No final, as imagens do verdadeiro Mohamedou Ould Slahi ajudam a compreender melhor quem ele é, e as particularidades da sua personalidade que tão bem Tahar Rahim emula no filme.

abril 15, 2022

Dinamarca na 2ª GG

"The Shadow in My Eye" (2021) de Ole Bornedal é um filme dinamarquês sobre a segunda guerra mundial que dá conta de mais um episódio pouco conhecido desta guerra. Da Dinamarca também, tinha visto "Land of Mine" (2015) de Martin Zandvliet, no qual se dá conta de uma costa oeste da Dinamarca pejada de minas. Para as retirar, foram trazidos milhares de soldados adolescentes alemães, que foram treinados e tratados de forma sub-humana, tendo metade sucumbido nas praias da Dinamarca.

"The Shadow in My Eye" (2021) e "Land of Mine" (2015)

Agora Bornedal traz-nos uma missão da Força Aérea Real Britânica, a 21 de Março de 1945, em que era suposto bombardear o quartel-general da Gestapo em Copenhaga, contudo a incursão acabou por se deturpar num acidente que conduziu ao bombardeamento de uma escola, matando mais de 120 pessoas, entre quais 86 eram crianças.

Zandvliet apresentava uma direção soberba, com um conjunto de atores quase desconhecidos a corresponder de forma intensa, passando agora a impressão de que Bornedal adocica um pouco o mundo representado. Ou talvez o facto de se tratarem de crianças completamente inocentes motive a criação de uma experiência menos crua e mais onírica. Por outro lado, o facto de ter visto o filme com Guerra da Ucrânia em pano fundo acabou por gerar em mim uma muito maior visceralidade.

Desconhecia ambos os episódios, baseados em factos reais, o que demonstra o quanto continuamos a desconhecer sobre muito do que aconteceu pela Europa fora ao longo dos 5 anos de guerra. E por isso mesmo, devemos obrigar-nos a refletir sobre tudo que está em jogo na Ucrânia, nomeadamente sobre tudo o que temos de fazer para que seja impossível uma nova guerra voltar a alastrar por todo o continente.

Subtextos de um Príncipe

Os livros de Iris Murdoch não se podem ler apenas enquanto histórias, a sua faceta filosófica está sempre presente no subtexto requerendo que nos debrucemos sobre as motivações do tema, buscando chegar ao que terá conduzido o pensar no engendrar do mundo ficcional e das ações dos personagens. No caso de “O Príncipe Negro” (1973), temos à superfície uma tragédia, um escritor de 58 anos divorciado que se apaixona pela filha de 20 anos de um casal que é constituído pelos seus dois melhores amigos de sempre, e acaba a desencadear reações trágicas e irreversíveis. Se a intriga mantém o nosso envolvimento até ao final e com boa intensidade emocional, aí chegados parece tudo saber apenas a “mais uma tragédia de amores”. Mas se refletirmos no sentido ético da filosofia de Murdoch (Duringer, 2022), podemos ver mais, podemos ver como todo o texto é um labor de dissecação do comportamento humano, numa tentativa de oferecer à compreensão aquilo que o nosso preconceito tende a impedir-nos de abarcar, sem recorrer a embelezamento nem persuasão. O personagem é apresentado na sua plenitude, com toda a carga negativa, reforçando mesmo a nosso recusa, contudo essa apresentação obriga-nos a repensar, a procurar compreender.

abril 10, 2022

"Shuggie Bain" de Douglas Stuart

Demorou 10 anos a escrever, e isso é mais do que evidente no labor da escrita, não apenas na sua beleza mas no intrincado detalhe com que vai descrevendo cena atrás de cena, representando não apenas o espaço e a ação, mas dando conta do sentir dos vários pontos de vista dos seus personagens. Existe uma sensação de completude, como se cada cena fosse um exercício estudado por Douglas Stuart, trabalhado como se de pequenas jóias se tratassem. Mas não é mera expressão o que aqui temos, nem poderia ser. Ninguém conseguiria chegar a tanto detalhe se não tivesse realmente vivido muito do que ali se conta. Por isso, quando pegamos na história de vida de Douglas Stuart e percebemos o decalque, não é apenas o horror do que nos foi contado que nos toca, o tremor acontece ao perceber que foi possível atravessar tudo aquilo e mesmo assim chegar ao topo do mundo da escrita, acrescentando ainda que levou mais 12 anos a publicar, tenso sido recusado 44 vezes pelas editoras. Se o livro termina como uma dor brutal, o reconhecimento da carreira do seu autor oferece-nos a admiração plena e uma esperança de esplendor máximo.

Sinopse: 1981, Glasgow. A outrora próspera cidade mineira sufoca sob o jugo férreo das políticas de Margaret Thatcher, lançando milhares de famílias para a miséria. A epidemia do álcool e das drogas aproveita para capturar os mais vulneráveis.

GoodReads

abril 09, 2022

Direitos da Revolução Francesa

 A Revolução Francesa (RF) é um dos eventos mais marcantes da História da Europa, em grande parte responsável pelo desenho societal que ainda hoje vigora no continente. Por isso, e porque tenho vindo a ler cada vez mais ficção histórica, foi com alguma pena que percebi que os livros passados na RF não são tantos como se esperaria. Ainda assim, tendo encontrado uma obra escrita pela notável Hilary Mantel — "A Place of Greater Safety" (1992) — fez-me acreditar que o assunto estava resolvido. Mas não estava. Pouco depois de o começar, sentindo a falta de contexto, acabei por ir atrás de suporte, acabando a ler simultaneamente "A Revolução Francesa 1789-1799" (1992) de Michel Vovelle, "Citizens: A Chronicle of the French Revolution" (1989) de Simon Schama, e ainda o mais recente, "A New World Begins: The History of the French Revolution" (2019) de Jeremy D. Popkin. 

abril 02, 2022

Da Mesopotâmia ao Helenismo

Apesar do título, “Babilónia”, o livro de 2010, foca-se verdadeiramente no subtítulo, a “Mesopotamia and the Birth of Civilization”. Paul Kriwaczek inicia o historiar com o império Sumério, passa ao Acádio, chegando ao Assírio e por fim Babilónia. A ideia do foco em Babilónia terá que ver com a representação do fim dos grandes impérios da Mesopotâmia que deram origem não apenas a uma das primeiras grandes civilizações, mas mais importante do que isso, porque deram origem à civilização em que ainda hoje vivemos. Kriwaczek, fala numa espécie de primeira metade da História, até ao final de Babilónia (1894-332 a.C.), e uma segunda metade, aquela que agora vivemos. E por estarmos a aproximar-nos, em número de anos, no sentido oposto, da extensão dessa primeira metade, vislumbra a tragédia, apontando o momento atual como de declínio já aceite e interiorizado por nós.

março 27, 2022

Expectativas e placebo

Começo a análise do novo livro de David Robson, "The Expectation Effect" (2022), citando a frase com que terminei a análise do seu anterior livro, "Intelligence Trap" (2019): "é um livro de divulgação científica, de leitura rápida e fluída, que apesar de alguns problemas abre caminhos para muitas abordagens distintas e permite rapidamente ficar a conhecer o que está em jogo na área, a partir do que qualquer um pode então iniciar o aprofundamento das questões."

março 26, 2022

Desenho de Personagens, segundo McKee

"Character: The Art of Role and Cast Design for Page, Stage, and Screen" (2021) é o mais recente livro de Robert McKee e o quarto livro que leio dele. Tinha demasiadas expectativas sobre o mesmo já que o tema da criação e desenho de personagens é bastante complexo. Ao contrário da discussão geral sobre o desenho de histórias ou criação de mundos, a criação de personagens assenta muito na particularização, na criação de personas completas que almejam à realidade do que somos. Nesse sentido, por mais fórmulas que se construam, a sua definição fica inteiramente dependente da capacidade de observação e expressão de quem cria. E essa é, talvez, a grande razão pela qual este livro fica bastante aquém daquilo que McKee nos habituou. McKee constrói um modelo de análise e trabalho com um conjunto alargado de categorias, que vão dos simples modelos — redondas/lisas — a grandes discussões filosóficas sobre o que significa estar vivo, numa ânsia por conseguir chegar ao âmago da definição da figura que denominamos personagem, mas fica a meio do caminho. Se por um lado nos oferece imenso sobre os fundamentos do que contribui para o desenho de uma personagem, por outro, sinto que chegados ao final não nos deu muito mais do que aquilo que já tínhamos no seu livro principal, "Story" de 1997

fevereiro 26, 2022

Composição em anel na arte narrativa

"Three Rings: A Tale of Exile, Narrative, and Fate" (2020) é um trabalho académico experimental que mistura memórias, crítica, clássicos e teoria narrativa. Conhecia Daniel Mendelsohn de um anterior trabalho de memórias criado a partir da estrutura de Homero, "Uma Odisseia. Um pai, um filho e uma epopeia" (2017) do qual gostei particularmente. Neste seu mais recente trabalho criou uma espécie de sucessor, realizando um trabalho maior de auto-crítica e análise do que foram as suas obras anteriores de memórias, e essa ideia de sucessão fica desde logo patente pelo trabalho de análise que dedica a "Les Aventures de Télémaque" (1699) em que François Fénelon tentou escrever uma continuação da "Odisseia".

fevereiro 12, 2022

Isaac Newton

Isaac Newton é talvez a mais importante figura da história contemporânea pelo modo como conseguiu extrair da natureza um conjunto de regras abstratas que permitiram a Revolução Científica, base do Iluminismo, que por sua vez impactariam fortemente a Revolução Industrial e todo o posterior progresso tecnológico. Gleick dedica-lhe este livro, no qual faz uma boa introdução, mas podia ter ido mais fundo e mais longe.

"Isaac Newton" é um livro de James Cleick de 2004. Para aprofundar desde já o conhecimento sobre Newton aconselho uma visita à Stanford Encyclopedia of Philosophy.

fevereiro 10, 2022

A ciência de "O Clã do Urso das Cavernas"

Fui apanhado completamente de surpresa, não conhecia “O Clã do Urso das Cavernas” (1980) de Jean M. Auel, descobri-o porque procurava obras de ficção histórica, mas acabei descobrindo algo mais porque esta é uma obra de ficção científica, não num sentido futurista ou espacial, mas no de ficcionar o conhecimento científico sobre um passado muito distante. O livro que inaugurou a série “Filhos da Terra”, constituída por 6 livros que venderam mais de 45 milhões de volumes, foca-se na vida quotidiana de duas espécies humanas, o Neandertal e o Sapiens, há cerca de 30.000 anos, altura em que os neandertais se aproximavam da extinção e o Sapiens iniciava a conquista da Europa e do mundo. Apesar de ser um livro de ficção, o trabalho é extensivamente fundamentado em conhecimento existente nos anos 1970 das áreas da Arqueologia, Paleontologia e Antropologia. Como se não bastasse, muitas das ideias de Auel aqui apresentadas têm-se mantido relevantes em face das novas descobertas arqueológicas ao longo dos últimos 50 anos.

Foram publicadas duas edições em Portugal, uma pela Europa-América, e outra mais recente pela Esfera dos Livros.

fevereiro 07, 2022

"Syllabus" de Lynda Barry

Lynda Barry recebeu a MacArthur Fellowship em 2019, com 63 anos, com a seguinte menção: "Inspiradora do envolvimento criativo através de trabalhos gráficos originais e de uma prática pedagógica centrada no papel da criação de imagem na comunicação". Acabei de ler o seu livro "Syllabus: Notes from an Accidental Professor" de 2014 e fiquei completamente convencido do enorme valor desta professora da Universidade de Wisconsin-Madison da área de Criatividade Interdisciplinar. A sua forma de estar e trabalhar com os seus alunos é uma inspiração para quem quer que acredite no poder da arte e criatividade humanas.

janeiro 27, 2022

A Moral do Cão

A propósito de "O Poder do Cão", vi primeiro o filme de Jane Campion (2021) e li o livro de Thomas Savage (1967) depois, das duas vezes não funcionou, não consegui encontrar nem sentir aquilo que tem conduzido uma maioria de pessoas a nomear este o melhor filme do ano ou o livro como uma das melhores redescobertas literárias dos últimos anos. Assumo que o tema é extremamente relevante e que a sociedade está hoje muito mais preparada para compreender um livro que saiu em 1967, mas o tratamento realizado deixou-me com demasiadas dúvidas sobre a eficácia da comunicação narrativa por causa da sua indefinição moral. Para explicar o problema terei de dar conta da história, por isso se não leram ou viram o filme fiquem por aqui.

A capa da primeira edição do livro, de 1967, e o poster da versão cinematográfica de 2021.

janeiro 21, 2022

Primeiras obras literárias

As Primeiras Coisas” (2013) do português Bruno Vieira Amaral (1978) e “Antes de Partires” (2000) da irlandesa Maggie O'Farrell (1972) são obras que parecem não ter nada em comum além do facto de serem ambas primeiras-obras. Para mim, que as li em simultâneo, posso dizer que encontrei vários outros pontos de contacto, ainda que quando aprofundados resultem mais em contraste do que em similitude. No entanto, tratando estes pontos da abordagem e das competências de escrita dos autores pareceu-me suficientemente relevante agregar os dois num mesmo texto. Saliento ainda que ambas as obras foram premiadas com prémios nacionais para primeira-obra abaixo dos 35 anos, Amaral com o Prémio José Saramago, no valor de 25 mil euros, e O’Farrell com o Betty Trask Award, no valor de 20 mil libras. 

janeiro 16, 2022

O Triunfo do Cristianismo. Como uma Religião Proibida Mudou o Mundo

Não é um tema que me tenha atraído nos últimos anos, contudo a leitura de "Heaven and Hell" (2020) de Bart Ehrman despertou-me o interesse, diga-se também que combinado com o meu crescente interesse pelos clássicos. Neste livro, "O Triunfo do Cristianismo" (2017), Ehrman situa a análise da afirmação do cristianismo entre o século I e o século V, levando-nos pela mão, permitindo que aprendamos imenso, fazendo da leitura uma experiência imensamente compensadora. Apesar da complexidade das questões, Ehrman partindo do trabalho de muitos outros académicos e seu, apresenta uma teorização credível sobre o modo como o cristianismo suplantou não só o judaísmo, mas em particular o paganismo, e como se afirmou e tornou na religião de facto de  todo um império.

"Irmão de Alma", ou, "De Noite Todo o Sangue é Negro"

Não há muitos elogios novos que se possam fazer a "Frère d'âme" (2018) (em português, traduzido com base no título inglês, "De Noite Todo o Sangue é Negro") que já ganhou alguns dos prémios literários mais cobiçados por todo o mundo — França (Prix Goncourt des Lycéens (2018)), Itália (Premio Strega Europeo (2019)), Holanda (Europese Literatuurprijs (2020), EUA (Los Angeles Times Book Prize for Fiction (2020)) e Inglaterra (International Booker Prize (2021). 

janeiro 10, 2022

"Invasion" (2021)

"Invasion" (2021) faz lembrar "War of the Worlds" e “A Quiet Place”, com aliens que quase não se dão a ver, com pouca vontade de comunicar, apenas parecem interessados em destruir. Contudo a série foca-se mais nos personagens humanos, nas suas histórias de vida, e fá-lo bem. Conhecemos personagens nos EUA, Europa, Japão e Médio-oriente, e ficamos a saber sobre o modo como reagem à chegada. Por outro lado, são 9 episódios, mas os primeiros precisam de ser vistos em modo acelerado porque as cenas foram completamente esticadas para encher tempo de ecrã. Acontece bons momentos dramáticos, grandes picos de tensão, mas o essencial fica para os dois últimos 3 episódios que juntam tudo e tornam a experiência imensamente gratificante, não só pela banda sonora de Max Richter, mas também pelo final com Major Tom de Bowie. Ficam muitas pontas soltas, mas a segunda temporada já teve luz verde.


janeiro 09, 2022

"A Perspetiva Científica" de Bertrand Russell

"The Scientific Outlook" foi publicado em 1931 e está hoje um pouco datado. Apesar de ter sido reeditado em 1949, com pequenas alterações pelo autor no domínio histórico, permanecem problemas científicos como o otimismo para com o behaviorismo, a fazer lembrar "Walden Two" (1948) de Skinner, e a psicanálise de Freud, assim como apresenta dúvidas quanto ao darwinismo. Mas mais importante do que essas falhas, explicáveis pela época, é todo o trabalho especulativo realizado ao redor da sociedade científica do futuro, pelo modo como abre caminho a todo uma forma de olhar a realidade que nos obriga a questionar o lugar da ciência.

Galatea 2.2 de Richard Powers

"Galatea 2.2" é um livro sobre Inteligência Artificial (IA) escrito em 1995, algo que poderia ditar imediatamente todo um texto datado, no entanto não é daí que surgem os seus maiores problemas. Powers é uma mente brilhante, capaz de um olhar analítico em profundidade e a IA acaba sendo aqui uma ótima desculpa para dissertar sobre a vida e o ato de viver. Mais ainda porque o livro é escrito num tom autobiográfico, com o protagonista a ser nomeado com o nome do autor, um escritor escrevendo o seu quarto romance, aquele que estamos a ler, variando os países e a língua em que a sua mulher é profissional de tradução, mas mantendo intacta a vontade do autor de nunca ter filhos. Esta sua vontade acaba sendo central para compreender o desígnio final da IA criada.

janeiro 08, 2022

A Filha Obscura (2006)

Ler a "A Filha Obscura" foi uma experiência extremamente estimulante, do ponto de vista do ganho de conhecimento sobre o mundo interior das crises da meia-idade, particularmente, para mim, por me mostrar o lado feminino dessa crise. Mas foi também imensamente estranha, porque senti que estava a ler partes desconhecidas de um universo que conhecia em detalhe, a Saga Napolitana, nomeadamente o último volume "História da Menina Perdida". Nem todos os contornos batem certo, mas começa nos nomes — Leda, Nina, Elena, Gino Vs. Elena, Lenu, Lila, Nino —, passa por Florença onde vive com o marido; num uma escritora, na outra professora universitária; mas essencialmente sonhadoras e fortes numa contínua luta interior com as pressões daquilo que querem ser e aquilo que a sociedade espera que sejam. Como diz Rachel Cusk, "Elena Ferrante escreveu a sua história duas vezes".


janeiro 04, 2022

História Íntima da Humanidade

Confesso que parti para este livro cheio de expectativas. O que procurava era a vida vivida por pessoas reais e comuns. Em termos históricos, estou um pouco cansado de ler sobre imperadores, reis, filósofos, artistas ou heróis de guerra. Queria saber mais sobre o modo como viveram as pessoas comuns ao longo do tempo, e como se têm alterado as vivências. Sei que isto não é um modo de historiar muito convencional porque naturalmente existe menos material sobre as pessoas comuns do que sobre os que a História decidiu imortalizar, mas é algo que se vai fazendo em obras como "A History of Private Life" (1987) assim como em muitos outro livros sobre a "everyday life". Contudo, não foi nada disso que encontrei em "História Íntima da Humanidade" (1994) de Theodore Zeldin.

janeiro 03, 2022

O conforto que suporta o Estoicismo

"A Enfermaria nº6" é um conto alargado, uma novela, de Chekhov que trata questões existenciais a partir  da exemplificação prática. Chekhov coloca em cena dois personagens que dialogam, filosofam segundo Sócrates, e depois conduz esses personagens a passar pela prática das doutrinas defendidas. A novela funciona como um ataque ao estoicismo e à sua tendência para ignorar a emoção em função da razão, defendendo a racionalização como único caminho possível na vida:

janeiro 01, 2022

"Hamnet" (2020) de Maggie O'Farrell

"Hamnet" (2020) dificilmente não se tornará num clássico. Escrito num modo que dificilmente conseguimos separar da trilogia Cromwell de Hillary Mantel, pelo uso distinto dos verbos presente, e também futuro do presente, que cosem a descrição com estranheza e, tal como em Cromwell, contribuem para criar a peculiar atmosfera do século XVI. Maggie O'Farrell usa, muito habilmente, este espaço atmosférico como espaço imaginário para alargar aquilo que conhecemos da História. Sabendo nós pouco, quase nada, sobre a vida privada de Shakespeare, O'Farrell consegue a proeza de nos transportar no tempo e dar a ver, num tom imensamente credível, como poderá ter sido essa. Se o título se foca sobre o filho perdido aos 11 anos, Hamnet, fazendo por vezes recordar a tensão mágica de Lincoln e o seu também defunto filho Willie, imaginado por George Saunders, o foco é na verdade a mulher, Agnes Hathaway. É este foco que revitaliza o nosso imaginário sobre Shakespeare, sendo-nos oferecido numa descrição feminina e poderosa, mágica mesmo, do seu mundo privado desconhecido. Shakespeare nunca é nomeado, mas o livro não é sobre ele, o artista, é sobre as relações de uma família, a sua.