setembro 02, 2023

Nota de encerramento

Encerra-se aqui o Virtual Illusion que começou há 20 anos. Resolvi terminar este blog agora, por se relacionar com um ciclo académico que chegou ao fim. O Virtual Illusion foi criado quando iniciei a minha carreira académica e considero que cumpriu, excedeu, o seu propósito. É por isso tempo de refletir sobre o que foi feito, mas para isso preciso de o encerrar para poder distanciar-me e conseguir chegar a um olhar de fora.

THE END

O arquivo do Virtual Illusion permanecerá aqui enquanto a Google mantiver o hosting. Entretanto, iniciei uma nova etapa na plataforma Substack que intitulei de Experiências Narrativas, na qual vou continuar a publicar textos focados no domínico específico da minha investigação e ensino.


Atualização 25.11.2023

Acabei por ter de desistir do Substack, uma vez que a plataforma não permite a indexação dos textos pelo Google. Assim passei a publicar os resumos das narrativas que vou experienciando no Wordpress.

Atualização 25.12.2023

Acabei por ter desistir também do Wordpress, como expliquei num post no novo blog criado no Blogger, onde comecei a publicar os novos textos e intitulado Narrativa eXp.

agosto 31, 2023

A solidão do Ser

Em “Fora do Mundo”, o jornalista Michael Finkel conta a história de Chris Knight, o chamado eremita do Maine. Em 1986, com 20 anos, entrou no carro e conduziu pela floresta fora até ficar sem gasolina, abandonou o carro e as chaves, adentrou até encontrar um local suficientemente afastado da presença humana e estabeleceu-se, só voltaria a ser visto, e a falar com humanos, 27 anos depois, em 2013, quando foi preso por assaltar uma cozinha de uma área de piqueniques.


agosto 29, 2023

A escrita de Sara Mesa

Este ano voltei a ler Sara Mesa no verão, em espanhol em audiolivro, e gostei tanto que acabei lendo dois livros dela: "Cara de Pan" (2018) e "Cicatriz" (2015). Se gostaram de "Un amor" (2020), vão adorar, se não, é melhor passarem à frente. Sara Mesa (1976) criou um estilo próprio, construindo uma voz que nos serve como um olhar externo sobre as relações humanas, em particular a partir de jovens mulheres. Mesa não escreve para dar respostas, mas antes para se questionar, e é por isso que me atrai particularmente.

"Subitamente, Sós" de Isabelle Autissier

É uma pequena novela que tem algo muito bom para entregar, mas fá-lo de forma contida, nunca chegando a ser totalmente expresso, nem pelas palavras, nem pela forma da exposição. Estamos perante uma autora, Isabelle Autissier, que conhece de perto os sentires das personas criadas, não tivesse sido ela a primeira mulher a cumprir a volta ao mundo em veleiro a solo. O texto flui muitíssimo bem, ainda que se sinta que foi bastante editado para chegar a esta forma, o que acaba conferindo-lhe uma forma algo artificial, pouco orgânica. No entanto, começa-se a ler e não apetece parar, queremos, precisamos, de saber mais e mais. 


Mas o que realmente interessa é mesmo a capacidade de Autissier de expor passo a passo os níveis do isolamento humano, o avançar desse processo, o aprofundar dos seus efeitos, ainda que nunca se detenha para os enfatizar, fá-lo de forma natural, frontal e muito honesta. Não se procura aqui impressionar, mas apenas e só abrir espaço a um sentir humano pouco conhecido. 

agosto 27, 2023

Pessoa, o professor universitário

O heterónimo de Pessoa, Alexander Search, tinha um caderno de endereços assinado por si, datado de 1906 (Pessoa tinha 18 anos), em que a partir das correspondentes letras de busca, listou uma imensa bibliografia, cerca de meio milhar de livros, multilíngue — inglês, francês, espanhol e português — maioritariamente sobre filosofia, mas também psicologia, sociologia e religião, que pretendia ler nos tempos próximos. Pessoa leu muitos deles.


Como diz Richard Zenith, na biografia, se Pessoa em 1905 em Durban tivesse ido estudar, com uma bolsa, para Oxford em vez de voltar para Lisboa, é provável que o maior génio das letras portuguesas se tivesse perdido, mas em seu lugar teria dado "um professor universitário brilhante".
 

O caderno completo foi catalagado pela BNP como E3/144H, o PDF integral está acessível online.

"Sobrevivente do Gulag Chinês", por Gulbahar Haitiwaji

Em 2019 choquei de frente com imagens provenientes de Xinjiang que mostravam centenas de prisioneiros a serem encaminhados para comboios para seguirem para campos de concentração chineses que relembram as imagens reconstruídas pelo cinema do que se passou em Dachau, Treblinka e outros lugares. O livro "Sobrevivente do Gulag Chinês" foi publicado em França em 2021, e apresenta o primeiro testemunho de uma sobrevivente desses campos chineses, em pleno século XXI.

Os uigures vivem na região autónoma do Xinjiang, uma região enorme do noroeste da China, que além de funcionar como corredor central da antiga "Rota da Seda" e da atual "Belt and Road Initiative" (que procura impor a agenda chinesa no mundo), é ainda uma região rica em petróleo.

Li o livro na versão audiolivro (Scribd)

Europa: Digital Services Act (DSA)

O Digital Services Act (DSA) da UE entrou em vigor, esta sexta-feira, 25 agosto 2023, e representa um enorme avanço na proteção dos utilizadores das redes sociais e serviços digitais, que ao longo das últimas décadas têm sido usados como cobaias e carne para canhão pelas grandes empresas que se têm servido do melhor do design e tecnologia para proveito próprio, sem ter de obedecer a quaisquer leis.

Imagem: 2022 Cristian Storto/Shutterstock

. As plataformas digitais, com mais de 45 milhões de utilizadores, passam a ser responsabilizadas legalmente pelos conteúdos que são publicados nelas: "o que é ilegal offline, deve ser ilegal online."
. As plataformas deixam de poder apresentar anúncios com base em dados sensíveis do utilizador (ex. origem étnica, opiniões políticas, religião ou orientação sexual);

. As plataformas têm de rotular todos os anúncios e informar os utilizadores sobre quem os está a promover;

. As plataformas são obrigadas a dar aos utilizadores o direito de optarem por não utilizarem sistemas de recomendação (For You vs. Following) 

. As plataformas são obrigadas a dar aos utilizadores o direito de optarem por não serem alvos de publicidade personalizada (ad targeting);

. As plataformas deixam de poder classificar os seus próprios serviços ou produtos de forma mais favorável (auto-preferência) do que outros terceiros nas suas plataformas. (Ex. os posts com links ou os vídeos do YouTube, não podem ser despromovidos por apontarem para fora das plataformas);

. Por outro lado, ficam obrigadas a partilhar dados essenciais com investigadores e autoridades, a cooperarem com os requisitos de resposta a crises e a realizarem auditorias externas e independentes.
Mas tudo isto acontecerá apenas dentro das fronteiras da UE, pelo menos até que esta abordagem se comece a universalizar.


+informação

agosto 25, 2023

"Filho Nativo" (1940) de Richard Wright

"Filho Nativo" (1940) é um clássico da literatura americana, um dos primeiros livros a colocar o dedo na ferida do racismo nos EUA. À altura, Richard Wright vivia sob a sedução do marxismo, que lhe serviria aqui para colocar em evidência a opressão dos valores identitários. Pouco depois haveria de abandonar a militância do comunismo por esta se recusar a sair da redoma restrita da luta de classes. Tudo isto é trabalhado segundo uma estética noir que não se coíbe de usar imagens de grande violência, a roçar o verdadeiro horror, trabalhada por uma trama repleta de surpresa capaz de envolver os mais diversos públicos. A mais recente adaptação ao cinema de 2019, por Rashid Johnson para a HBO, procura atualizar alguns dos tópicos em face da evolução da sociedade americana, mas sendo interessante diria que é menos conseguida, particularmente porque Wright impregna toda a sua escrita de uma raiva fervilhante que o filme é incapaz de atingir.

agosto 24, 2023

“Los Vencejos” de Fernando Aramburu

“Los Vencejos” (2021) é o sucessor de “Patria” (2016), o livro que trouxe reconhecimento internacional, incluindo direito a série HBO, a Fernando Aramburu. Se o estilo, de contador de histórias, permanece inalterado, o tema distancia-se, tal como a abordagem. Deixa-se para trás o terrorismo vasco e adentra-se agora os efeitos sociais do pós-patriarcado na figura masculina. Mantém-se a visão acutilante, mas em vez de sustentada pela tragédia, esta é agora baseada na sátira e humor negro que se tornam centrais no suportar de toda a vil misantropia ao longo de 700 páginas.

Imagem da web, lido na versão audiolivro com narração de Germán Gijón (Scribd).

agosto 18, 2023

Histórias da Noite

Há algum tempo que não começava a ler um livro e a experiência não fluía tão perfeita, agarrando-me, e clamando por mim sempre que dele me desligava. A escrita de Mauvignier faz lembrar Proust no modo como estende as frases de modo lírico, mas simultaneamente causal, ativando o nosso desejo por querer saber mais, e assim não conseguir parar de ler. O tema é a narrativa clássica de crime e mistério do ataque, a meio da noite, a uma casa de família por um grupo de malfeitores. Mas a forma não segue o género, é antes literária em profundidade, com uma escrita elaborada e erudita que acaba por criar uma experiência de leitura muito particular.

Imagem da web, lido na versão digital no Kindle.

agosto 16, 2023

" A Trilogia de Copenhaga" de Tove Ditlevsen

Tove Ditlevsen (1917-1976) foi uma das mais importantes escritoras da Dinamarca no século XX, tal como Sophia Andersen (1919-2004) foi em Portugal. Mas se Andersen tinha também raízes dinamarquesas, os estatutos sociais das suas famílias não poderiam ser mais opostos. Nascida numa família da classe operária, os pais de Ditlevsen estavam mais focados em empurrá-la para o primeiro que aparecesse disposto a casar e levá-la do que a educá-la. O seu principal legado são três pequenos livros de memórias romanceadas, escritas entre 1967–1971, só totalmente traduzidas para inglês em 2019 e publicadas num volume único pela Penguin, alcançando reconhecimento na imprensa internacional em 2020 e traduzidas para português em 2022 pelo João Reis. A sua escrita é lírica mas escorreita, centrada na compreensão psicológica de si através das suas atitudes, motivações e comportamentos.

Edição portuguesa da D. Quixote com tradução de João Reis

agosto 13, 2023

A Era das Intuições

Eric Kandel ganhou o Nobel de Medicina em 2000 pelo seu trabalho na área da fisiologia da memória. Depois do prémio, resolveu escrever vários livros de divulgação, sendo este “The Age of Insight” (2012) um dos mais citados nomeadamente na área dos estudos da consciência (ex. Anil Seth), pelo modo como relaciona os processos de consciência com os processos criativos. Dito isto, o livro é mais e menos, porque tenta fazer um dois em um, ao escrever toda uma primeira parte de enaltecimento à ciência criada na cidade de Viena, no início do século vinte, daí o subtítulo — “The Quest to Understand the Unconscious in Art, Mind, and Brain, from Vienna 1900 to the Present”; e uma segunda parte, dedicada à discussão da teorização científicia que suporta a existência da arte. A primeira parte é uma espécie de resposta, agradecimento, à oferta de cidadania da cidade após o Nobel, que tinha sido uma resposta de Viena ao facto de Kandel afirmar que o seu Nobel não era austríaco, mas americano-judeu


julho 22, 2023

No interior da mente de uma juíza

A Decisão” (2022), de Karine Tuil, apresenta uma primeira parte intensa em diálogos e introspeções que poderia facilmente ser transformada numa série de televisão de trocas acesas entre juízes e advogados. A segunda parte diverge, as discussões hipotéticas e potenciais passam aos atos, e tudo se transforma numa larga tragédia grega que nos agarra e impede de parar de virar as páginas. A autora trabalha muito habilmente a trama para nos enredar e suspender, mas não só, trabalha ainda melhor o questionamento interior das personagens, colocando-nos a assistir a tudo o que acontece na primeira fila desse espetáculo interior. Cria uma experiência que se consome sofregamente, com medo de acabar depressa demais, porque não queremos abandonar nenhuma daquelas personagens. A cereja colocada sobre tudo isto não enaltece, antes se desfaz numa subtil perceção de artificialismo, escolhas autorais certeiras para produzir emoção, ainda que possamos sem problema retirar a cereja para o lado, ou seja, suspender a descrença e deliciar com tudo o resto que a autora nos entregou.


O assunto de fundo é a vida de uma juíza que pertence à principal equipa francesa de instrução dos processos antiterroristas, situado temporalmente entre o ataque ao jornal Charlie Hebdo (12 mortos) e à sala de espétaculos do Bataclan (90 mortos). Somos colocados dentro da cabeça dessa juíza que todos os dias tem de tomar decisões quanto a manter presos ou soltar potenciais terroristas.

Biografia de Søren Kierkegaard

Quis ler “Philosopher of the Heart: The Restless Life of Søren Kierkegaard” (2019) porque tentei várivas vezes ler os livros de Kierkegaard, mas sem sucesso. A escrita de Kierkegaard é demasiado enrolada, rebuscada, escamada. Os temas demasiado fantasistas repletos de dor e sofrimento existencial entremeados por discussões religiosas. 


Contudo Kierkegaard é uma das referências pioneiras do existencialismo, mais particularmente da melancolia, o que me leva encontrar constantes referências ao seu trabalho. O livro de Clare Carlisle desenvolve uma biografia seguindo um registo próximo da escrita de Kierkegaard, que será excelente para quem leu avidamente o autor, mas para outros, como eu, acaba por não servir de ponte para o trabalho, mantendo tudo igualmente à distância. Interrogava-me no final se o problema estava na escrita e religiosidade do autor, ou se num desfasamento identitário promovido pela idade em mim, isto porque senti o mesmo amargo que senti no ano passado com “Nos Cumes do Desespero” (1933) de Emil Cioran, uma desconexão total. Palavras belas de enaltecimento total do interior para questionar tudo e todos teriam sido a minha delícia com 20 anos, hoje não me dizem nada. Tivesse Carlisle realizado um trabalho documental próprio, como fez Sarah Bakewell com o existencialismo de Heidegger e Sartre e talvez tivesse adorado, mesmo que me tivesse ajudado a desistir de uma vez desses autores.

julho 16, 2023

Exalação, Ted Chiang

Neste segundo livro, "Exhalation" (2019), depois de “Stories of Your Life and Others” (2002), podemos voltar a perscrutar o brilho da mente de Ted Chiang no laborar de design fiction, ou seja, na criação de cenários credíveis de experimentação conceptual. Algumas das ideias estão centradas em problemas contemporâneos criados pelos média digitais, tornando as histórias uma espécie de variação do universo Black Mirror. Outras, estão fundamentadas em conceitos da ciência, explorando metáforas que nos fazem questionar o nosso corpo, a nossa mente e a nossa relação com as outras espécies. Estes dois temas juntam as melhores histórias do livro. Depois temos duas histórias cliché, uma de viagens no tempo e outra de multiversos, que eu tendo, nos dias de hoje, a considerar mais fantasia do que ficção científica. Na última, Chiang diverte-se a explorar como funcionaria uma ciência baseada no criacionismo.

julho 15, 2023

I Am, I Am, I Am

Humano. Feminino. Maternal. “Estou Viva, Estou Viva, Estou Viva”. Quarto livro de Maggie O’Farrell que li nos últimos 2 anos, o que evidencia o quanto me apaixonei pelo seu trabalho desde que li “Hamnet”. A sua escrita não é meramente bela, é dotada de uma capacidade descritiva particular pelo modo como produz parágrafos longamente fluídos descrevendo ações a partir dos seus efeitos psicológicos. Tendo a compará-la, ainda que cada um na sua particularidade, a Jonathan Franzen e Zadie Smith. O conteúdo do que cada um destes tende a expressar não podia ser mais distinto, nomeadamente O’Farrell não é comparável em erudição, mas o seu realismo junto à pele é bastante mais cortante. O modo é tão relevante a ponto de neste livro de memórias discordar várias vezes da sua definição do mundo, mas a intensidade honesta e humilde da forma usada apaga toda a distância que existe entre esse seu mundo e o meu.

julho 08, 2023

Their Eyes Were Watching God (1937)

"De Olhos Pousados em Deus" é uma obra de 1937, e a principal ficção de Zora Neale Hurston, uma autora hoje reconhecida pelo seu legado humanista. Formou-se pelas Universidades de Howard, Barnard e Columbia, onde realizou estudos graduados e pós-graduados em Antropologia, ao lado de Margaret Mead. Hurston tornou-se numa força cultural pelo modo como usava a etnografia para compreender a comunidade afro-americana e depois trasladava esse conhecimento para a sua produção criativa e ativismo cultural, transformando-se no rosto de vários movimentos, nomeadamente o Harlem Renaissance.

julho 02, 2023

Livros não terminados

Dois livros que queria muito ler, mas que não consegui terminar depois de perceber que não tinham nada  de novo para oferecer. Ficam duas notas breves sobre os mesmos:


julho 01, 2023

O Ponto Azul-Claro (1994) Carl Sagan

Voltar a ler Carl Sagan, em particular ouvir, aproveitando o facto de nos ter deixado uma versão áudio do livro “Pale Blue Dot”, é por si apenas toda uma experiência. Há muitos anos que não o lia. Os seus livros “The Demon-Haunted World”, “The Dragons of Eden”, “Contact”, mas muito particularmente “Cosmos” tornaram-se parte daquilo que hoje sou. Não tinha ainda lido “Pale Blue Dot”, considerado uma espécie de sucessor de “Cosmos”, mas quanto mais o tempo foi passando menos o considerava adequado ler. Sentia o receio de alguma desilusão. As leituras de fim de adolescência raramente são para repetir, nomeadamente se nos marcaram tão indelevelmente. Por isso, não me surpreendeu não ter “voado” com “Pale Blue Dot”, ainda que tenha andado muito perto. Já não vivo sob o manto da inocência de outro tempo, em que a crença otimista no humano dependia de acreditar na nossa capacidade para transformar o mundo. Sagan dá-nos uma lição de humildade, mas simultaneamente de enorme ambição, o que passado 30 anos sobre o livro, e analisada a evolução da nossa espécie nesse tempo, torna muito difícil de aceitar.

Versão portuguesa pela Gradiva. A versão audio inglesa apresenta apenas os primeiros 5 capítulos lidos por Carl Sagan, os restantes capítulos perderam-se, tendo sido lidos por Ann Druyan para uma nova versão em 2017.

Continua a valer pela beleza das suas descrições, e principalmente das suas metáforas. Continua a valer pela enorme paixão que transmite. Mas é inevitável sentir que se tornou datado.

Sobre o Ponto Azul-Claro, fica o link para a missão Voyager, onde podem encontrar toda a informação base que suporta este livro.

Black Mirror, Temporada 6, 2023

É a temporada menos conseguida, nomeadamente porque 2 episódios não possuem qualquer relação com o conceito Black Mirror (4º "Mazey Day" e 5º "Demon 79"), enquanto outros 2 ( 2º "Loch Henry" e 3º "Beyond the Sea") usam o conceito apenas como veículo para se focar noutros problemas, restando um episódio, 1º "Joan Is Awful", que se mantém totalmente fiel ao conceito. Pode pensar-se quem já tudo foi dito nas temporadas anteriores e por isso a série teve de seguir em frente, algo que não faz sentido porque o tema é simplesmente infinito. Quando muito, podemos dizer que Charlie Brooker se cansou do tema, preferiu voar para outras paragens, mas devia ter assumido isso mesmo e criado uma nova série.

junho 24, 2023

Românticos de Jenna

Depois de ler o belíssimo "The Invention of Nature" de Andrea Wulf senti vontade de continuar a ler Wulf e como "Magnificent Rebels: The First Romantics and the Invention of the Self" (2022) era o seu último livro, resolvi lê-lo de seguida. Interessou-me particularmente o subtítulo "the Invention of the Self", querendo acreditar que Wulf se centraria nessa discussão. Contudo não é disso que a autora nos fala. "Magnificent Rebels" usa como personagem principal a pequena cidade alemã de Jenna, e a sua Universidade, que em finais do século XVIII se tornaria no centro de ideias que viriam a definir o movimento hoje referenciado como Romantismo. Em Jenna conviveram alguns nomes de referência clássica como Goethe, Fichte, Novalis, Schiller, Schelling, Hegel, os irmãos Humboldt, os irmãos Schlegel e Caroline Schelling. Wulf dedica-se a dissecar os principais ideais, conversas e afetações de cada um destes autores, tentando apresentar o "Círculo de Jenna" ao nível do "Círculo de Viena" ou da "Escola de Frankfurt".

junho 18, 2023

Sendo Eu, uma ciência da Consciência

Anil Seth é professor de neurociências computacionais, com uma formação de base em ciências naturais e um doutoramento em ciências da computação. O seu trabalho no domínio das ciências da consciência tornou-se uma referência nos últimos anos, sendo não só altamente citado pela academia, como seguido pelos média tradicionais. Para esse reconhecimento terá contribuído a TED que realizou em 2017, “Your brain hallucinates your conscious reality”, que conta com 14 milhões de visualizações, e pode ser vista como uma síntese de tudo aquilo que nos apresenta neste livro “Being You: A New Science of Consciousness” (2021).

“Internato” (2017/2023)

“Internato”, de Serhij Zhadan, conta a história de um professor de Língua Ucraniana que parte da sua cidade, numa viagem de 3 dias, para trazer de volta o seu sobrinho que se encontra num internato situado num território ocupado pela guerra. Sabemos que tudo se passa no Leste da Ucrânia, mas pouco mais é dito sobre o local, assim como quem combate quem. O livro foi publicado em 2017, três anos depois da Revolução Maidan, a favor da aproximação da Ucrânia à UE, que provocou a invasão Russa que acabaria tomando a Crimea, mas não conseguiria tomar o Donbass. 


junho 12, 2023

"Infra 5" de Max Richter

O álbum "Infra" (2008) de Max Richter é talvez o álbum que mais vezes ouvi. Em particular a faixa "Infra 5" tem estado nos últimos anos quase sempre nos primeiros lugares das músicas mais ouvidas no meu Spotify. Existe algo por debaixo desta sonoridade que faz mover o meu interior. Assim que começa, desligo de tudo o resto. Fico ali, atento, a tentar seguir o tom, o ritmo, os instrumentos, tentando perceber para onde vai evoluir a cada momento, aonde me vai conduzir. Hoje, resolvi voltar a pesquisar sobre o álbum e encontrei um pequeno vídeo do compositor em que explica a motivação por detrás do álbum, e depois detalha a "narrativa" que suporta a "Infra 5". Deixo a transcrição:

"So Infra is a ballet [choreographed by Wayne McGregor] based around the events of 7/7 [subway bombings in London]. And I guess the other thing that feeds into that is the psychological landscape of the wasteland, T.S. Eliot's "The Waste Land", which sets up this idea of an unreal city, this kind of hallucinatory sort of vision of a city. The music of Infra is a series of reflections on those events."
"Infra 5 is probably the most, I guess, directly representative music on the record, in the sense that you have this music which basically gets faster and faster. So, the image of people running, that's what Infra 5 is about. And there are various kinds of other things buried in the music. Like, there's sort of melodic material, which is sort of basically sirens. The violins just play these kind of siren melodies. So it sort of embodies that people running, trying to get out. So, yeah, that's Infra." 
"Music is a sort of catalyzer for thought and reflection." 
-- Max Richter 

junho 11, 2023

A Floresta Sombria, Cixin Liu

Li o primeiro livro da trilogia "The Three-Body Problem", de Cixin Liu, em 2020 e disse que não leria o resto da série. Contudo, há dias parei na livraria a ler as primeiras páginas da recente edição portuguesa do volume 2 o que acabou por me reconquistar. Agora com as expectativas bastante mais baixas, não foi difícil gostar imenso de Cixin Liu, apesar de no revisitar da minha análise do primeiro volume tenha relembrado porque não me entusiasmou o primeiro livro. Assim, e como tantos outros leitores, acabei com a sensação de que este segundo volume supera o primeiro. Menos policial, mais existencial, mais humano. Ainda assim, Liu poderia deixar-se levar um pouco mais pelas questões que faz emergir das tramas que cria, ainda que isso fizesse perder algum público que procura ação, alimentaria mais um outro que se interessa pela especulação das hipóteses científicas.

"Emília" (2023)

"Emília" (2023), de Filipa Amaro, é a mais recente série da RTP, e apresenta um discurso inteligente sem nunca se levar demasiado a sério. Parecendo por vezes dirigida a um público mais jovem, apresenta um discurso cómico-existencialista, capaz de cruzar a realização pessoal pela arte com o síndrome do impostor e um certo niilismo suave.


junho 10, 2023

Drogas na Alemanha Nazi

“Blitzed: Drugs in Nazi Germany” (2015) chamou-me a atenção por ser um assunto muito pouco discutido, apesar da poderosa indústria química alemã. No início do século XIX, a Merck criava a Morfina a partir do ópio e no final desse século a Bayer criava não só a Aspirina mas também a Heroína que iria promover "para as dores de cabeça” assim como na forma de xarope "para a tosse das crianças”, recomendando-a mesmo para as “cólicas dos bebés", tendo conseguido manter a droga legal na Alemanha até aos anos 1950. Ainda na Primeira Grande Guerra, o nobel da Química, Fritz Haber, dedicava-se ao desenvolvimento de armas químicas, ganhando o rótulo de "pai da guerra química", acabando por impactar fortemente a Segunda Grande Guerra, uma vez que os processos químicos por si criados viriam a dar origem ao Zyklon B, o veneno que seria aspergido pelos chuveiros das câmaras de gás de Auschwitz. 

junho 04, 2023

Fukushima dramatizada

"The Days" (2023) é a mais recente série da Netflix. Conta a história do acidente da central nuclear de Fukushima, Japão, provocado por um terramoto seguido de tsunami, ocorridos em 2011. Em termos técnicos não está, de todo, ao nível de "Chernobyl" (2019), no entanto enquanto drama documental faz muitíssimo bem o seu trabalho, usando uma estética marcadamente japonesa, que a partir do 3º episódio se torna impossível parar de ver.

junho 03, 2023

Distorção da realidade

Dei por mim quase a chorar e a ter de me afastar da televisão quando esta semana estava sentado ao lado do meu pai que via um documentário no National Geographic sobre vida selvagem. Primeiro, foi um crocodilo que abocanhou o traseiro de uma cria de bufalo e ficou ali a prende-la durante uns agoniantes 10 minutos, enquanto a mãe da cria se limitava a lamber-lhe o focinho, até que o crocodilo a puxou para baixo e a afogou. Depois, veio um macho zebra que começou a atacar violentamente uma cria zebra porque esta não lhe pertencia, segundo o narrador para evitar que essa cria se revoltasse contra ele mais tarde, tendo a mãe da cria tudo feito para evitar que o macho se aproximasse, mas acabando por não conseguir evitar o pior.

maio 27, 2023

Alexander von Humboldt [1769 - 1859]

Começo por dizer que se conhecia o nome Humboldt era apenas porque ao longo da minha vida o tenho encontrado um pouco por todo o lado — de cidades a rios, serras, baías, cascatas, uma região na Lua, mais de 300 plantas e mais de 100 animais carregam ainda hoje o seu nome. Mas não fazia grande ideia sobre quem era ou o porquê dessa sua quase omnipresença, em sintonia com a grande maioria da sociedade no século XXI, apesar de em 14 de setembro 1869, na marca dos 100 anos do nascimento de Alexander von Humboldt, se terem realizado festejos por toda a Europa, Américas, África e Austrália. Houve discursos, paradas e procissões em seu nome de Melbourne a Buenos Aires, de Moscovo a Alexandria, com milhares de pessoas nas ruas de São Francisco a Nova Iorque a acenar bandeiras e cartazes com a cara de Humboldt. 

maio 20, 2023

Esquizofrenia em defesa da IA

A defesa da IA geralmente começa por identificar tecnologias anteriores que surgiram e que foram também atacadas, mas que demonstraram ser depois bem assimiladas pela sociedade. Fala-se da electricidade ou da calculadora, assim como se fala da automação de fábricas ou da internet. Apontam-se os ganhos, nada se diz sobre os impactos negativos, menos ainda sobre o enorme trabalho que foi necessário para criar regulação que sustentasse essa integração societal. Bastaria dar o exemplo do RGPD para percebermos que a internet não nos trouxe só maravilhas, e que sem regulação estaríamos bem mal. Esta mesma defesa, diz depois que a IA não está aqui para substituir o humano, é apenas um complemento. E vai mais longe, dizendo que quem não quer ficar para trás tem de entrar no comboio, usando uma expressão que já se tornou mantra no domínio: uma IA não vai substituir uma pessoa, mas uma pessoa com IA vai substituir uma sem IA. Analisemos ambos os argumentos mais em detalhe, nomeadamente o impacto das tecnologias mais recentes nas funções cognitivas.

maio 14, 2023

Sobre a Treta

"On Bullshit" (Sobre a Treta) é um pequeno livro de Harry G. Frankfurt de 2005 baseado num ensaio de 1986. Em 1986 o presidente dos EUA era Ronald Reagan, em 2005 era George W. Bush, eu ouvi falar do livro pela primeira vez em 2018, quando Trump era presidente dos EUA. Este enquadramento serve para perceber que o livro se foca no estudo da comunicação pública, nomeadamente de figuras com autoridade, apesar de não serem mencionadas no livro.

maio 13, 2023

Alucinando com Michel Foucault

"Hallucinating Foucault" (1996) é um romance de homenagem à obra de Michel Foucault. Patricia Duncker inventa um escritor de romances francês chamado Paul Michel e defini-o como espelho do verdadeiro Foucault. Se Foucault queria escrever romances e não escreveu, Paul Michel escreve-os e dedica-os a Foucault. Se Foucault teorizou sobre os processos de loucura e encarceramento, Paul Michel passa ele mesmo por esses processos. Se Foucault começou a sua carreira em Clermont Ferrand, é aí que Paul Michel termina a sua, internado depois de ter enlouquecido com a morte de Foucault. Se Foucault teorizou sobre a função do autor, Paul Michel centra-se na relevância do leitor. O livro leva-nos pela mão de um jovem doutorando que estuda a obra de Paul Michel e tenta compreender a pessoa por detrás da obra, apesar de defender que não lhe interessa a pessoa, o autor, apenas a obra. 

maio 12, 2023

As Visionárias: Rand, Weil, Beauvoir e Arendt

Wolfram Eilenberger, filósofo alemão, surgiu recentemente na cena internacional como divulgador de filosofia com o livro "O Tempo dos Mágicos" (2018), dedicado a Walter Benjamin, Martin Heidegger, Ernst Cassirer e Ludwig Wittgenstein, focado no friso temporal 1919-1929. Para dar continuidade à fórmula de sucesso, avançou para o intervalo 1933-1943, mas desta vez escolheu quatro mulheres — Ayn Rand, Simone Weil,  Simone de Beauvoir e Hannah Arendt —, intitulando o livro como "O Fogo da Liberdade" (2020). Eilenberger faz lembrar Sarah Bakewell, pelo modo como cruza bem história, filosofia e arte, contudo, falta-lhe alguma capacidade de síntese e visão holística, ficando-se por um tom mais jornalístico, de descrição cronológica de eventos. 

maio 10, 2023

O descarrilar de um romance filosófico

Vi o filme quando saiu, mas já não recordava nada além do Jeremy Irons passeando pelas ruas de Lisboa. Entretanto encontrei o livro numa lista de livros relacionados com romances filosóficos, e relendo a premissa fui a correr adquiri-lo. As primeiras 100 páginas foram ouro, com uma viagem por entre poesia, melancolia e existencialismo, do centro da Europa para a costa oeste portuguesa. Mas a partir do meio iniciou-se um declínio, atingindo o total estrambelhamento perto do final. Não se aproveita nada no fim da leitura. São demasiados erros narrativos a que se juntam ainda problemas morais que tornam os personagens insustentáveis. Ainda fui rever o filme, e nota-se que houve um esforço dos guionistas para resolver alguns problemas, mas não sendo o meio adequado ao tipo de premissa, fica também bastante aquém da experiência esperada.

maio 07, 2023

Educação: uma fraude promovida pelo Expresso

O Expresso promoveu conversas sobre o futuro do ensino universitário, tendo convidado para as conversas o diretor da Escola 42 e o presidente da Egas Moniz School of Health & Science, duas escolas privadas que tendo na sua missão objetivos dignos, não deixam de ser instituições com objetivos económicos muito claros, que para se diferenciarem oferecem um discurso, fundamentalmente, baseado em modelos de Ensino Profissional para o Ensino Superior. Pelo meio disto, o Expresso, no seu site e num post no Facebook, patrocinado para obter maior alcance, destaca numa frase, sem aspas, ou seja conclusão sua, que "5% é a taxa de retenção de conhecimento numa aula teórica". Esta frase é uma mentira construída a partir de um número que é uma fraude científica. 

maio 04, 2023

Plágio no Design Português: roubar à descarada

Em novembro de 2022 o jornal Público iniciou a publicação de uma coleção de livros — designada "História do Design Gráfico em Portugal" — criada pelo professor José Bártolo, um crítico e curador de referência do design português. Em dezembro 2022, dois professores da Universidade do Porto deram o alerta para problemas graves de plágio. Em poucos dias o Público retirou a coleção de venda e passados mais alguns dias anunciava que, em vez de abandonar a coleção e pedir explicações ao autor, iria ser realizada uma segunda edição com a revisão de todos os "erros", leia-se plágios! Foi dito aos leitores que poderiam depois pedir a substituição dos primeiros livros. Não houve uma palavra do Público para com os autores plagiados. No final de fevereiro 2023, saiu a reedição, alegadamente revista, e desta vez com nomes do design português a assegurar, dizem, uma completa revisão por pares. Hoje, 4 de Maio, e para nossa total estupefacção, os mesmos professores da U. Porto publicaram os resultados da análise desta 2ª edição e não só uma boa parte dos plágios da 1ª edição continuam lá, como surgiram novos problemas! Irá o Público agora realizar uma 3ª edição e substituir todos os livros vendidos da 1ª e 2ª edições? 

abril 30, 2023

A Mente Sonora

Esperava mais de "Of Sound Mind: How Our Brain Constructs a Meaningful Sonic World" (2021), de um livro escrito por uma neurocientista especializada no processamento auditivo, Nina Kraus. Esperava aprofundar mais os modos como ouvimos, como damos sentido ao som e como este nos afeta. Kraus dá conta destes pontos, mas fá-lo de uma forma bastante superficial. O tom escolhido para a divulgação de ciência acaba sendo algo infatilizado, com demasiadas vezes a dar conta de suposições, repescando ideias do passado que entretanto a ciência demonstrou não estarem tão corretas como pensávamos. A ciência faz-se de constantes incertezas, mas no caso de temas tão amplamente estudados esperamos que se siga o conhecimento atual, e não aquele que tem mais alcance poético. Ainda assim, vale a leitura rápida pela primeira parte, já a segunda parte, fragmentada nos impactos em múltiplas áreas distintas, poderá interessar a quem trabalhe em cada uma dessas áreas.

abril 25, 2023

Humanamente Possível (2023)

Sarah Bakewell é reconhecida por dois belíssimos livros, um sobre Montaigne (2010) e outro sobre a corrente do Existencialismo (2016), neste seu último livro — "Humanly Possible: Seven Hundred Years of Humanist Freethinking, Inquiry, and Hope" (2023) — foi à procura da definição de Humanismo. Partindo do estilo que a caracteriza — a fusão fluída de biografia, arte, história e filosofia — atravessa 700 anos de ideias para dar conta das origens, evolução e relevância do Humanismo, um termo apenas cunhado no século XIX, e para o qual ainda hoje temos dificuldade em encontrar uma definição que sirva a todos. Para o efeito, convoca as vidas e ideias de Petrarca, Boccaccio, Da Vinci, Erasmus, Montaigne, Voltaire, Spinoza, David Hume, Thomas Paine, Frederick Douglass, Robert G. Ingersoll, John Stuart Mill, Harriet Taylor, Bertrand Russell, Zora Neale Hurston, Thomas Mann e Vasily Grossman.

abril 22, 2023

O Retrato do Casamento (2022)

O livro abre com a seguinte nota histórica: "Em 1560, com quinze anos, Lucrezia de' Medici, deixou Florença para iniciar a sua vida de casada com Alfonso II d'Este, duque de Ferrara. Menos de um ano depois estaria morta. A causa oficial de morte foi "febre pútrida", mas houve rumores de que teria sido assassinada pelo marido." E fecha com uma nota da autora, em que aprendo uma nova palavra "uxoricídio" (do latim uxor, esposa + cídio, matar; "assassínio da mulher pelo próprio cônjuge"), apresentada a propósito do rumor do uxoricídio da irmã de Lucrezia, Isabella em 1575, e ainda da cunhada Dianora, pelas mãos do irmão Pietro de' Medici, que tendo-o admitido nada lhe aconteceu.

abril 20, 2023

Valores humanistas

Em 1952, no primeiro Congresso Humanista Mundial, os fundadores da Humanists International acordaram numa declaração sobre os princípios fundamentais do Humanismo moderno, a que chamarm "Declaração de Amesterdão". Essa declaração foi actualizada em 2002, na comemoração dos 50 anos, novamente em 2022, para comemorar os 70 anos, para reflectir as realidades modernas da época. A seguir apresenta-se a declaração completa. Toda a informação pode ser encontrada em Humanists International.

Desenho de Leonardo da Vinci baseado nos escritos de Vitruvius que definiu as dimensões proporcionais do ser humano por meio da cricunferência e quadrado por forma a demonstrar a centralidade do ser humano na natureza.


abril 16, 2023

Assassin's Creed Valhalla (2020)

85 horas. São muito poucos os jogos em que investi tanto tempo. Mas surpreendente é ter feito isto apesar do jogo apresentar uma história fraca, cutscenes horríveis e um gameplay por vezes sofrível. Então porque andei tanto tempo por ali? Julgo que a explicação está no facto do mundo interactivo ser deslumbrante, visualmente assombroso. De cada vez que entrava no jogo, imergia, e ficava não menos de um par de horas a explorar o mundo. As mecânicas conhecidas da série tornam o universo muito amigável, permitindo que entremos no trilho da experiência e nos deixemos levar pelas atividades que conduzem à progressão ao longo do jogo. Tirando algum grinding, a viagem fez-se sem grandes sobressaltos, oferecendo a cada investida espaço de descoberta para contínua exploração e diversão.


abril 10, 2023

"Pachinko", emigração e humildade

"Pachinko" é maravilhoso pela forma como nos enreda na saga de uma família de emigrantes coreanos que migra para o Japão no início do século XX, levando-nos a experienciar os efeitos profundos dessa decisão sobre múltiplas gerações posteriores. É uma lição de História sobre o modo intolerável como o Japão tratou os seus vizinhos no século passado, com Min Jin Lee a dar conta do mais profundo racismo japonês, algo de que já aqui tinha dado conta na relação com os vizinhos chineses. "Pachinko" não é um grito ativista, como “The Rape of Nanking” (1997), é uma novela de ficção histórica, dá-nos a conhecer pessoas "reais" repletas de medos e desejos. Mas através da imensidão de personagens apresentadas consegue transportar-nos para cada uma das décadas desse século, consegue acima de tudo dar conta de um modo de estar que aparenta ser próprio da emigração coreana, mas que aproximo tremendamente da emigração portuguesa ocorrida nesse mesmo século para a Europa. É um modo baseado numa enorme humildade e simultaneamente numa vontade de trabalhar e aprender para oferecer às gerações seguintes mais do que aquilo a que tiveram acesso. Pessoas com muito pouco, mas dotadas de enorme resiliência, capazes de aguentar a humilhação, a infâmia, e ainda assim continuar a remar para que os seus, a sua família, possa encontrar um porto seguro. Quando chegamos ao fim da odisseia de Sunja, a protagonista, é impossível não sentir o peso das decisões que cada geração foi forjando, mas também do acaso que contribuiu para a transformação de cada uma das personagens, ecoando um sentimento de orgânico, de vida vivida, plena de significado. 

Seria fácil para Lee usar e abusar da tragédia, algo que abunda, mas nunca o faz. Por vezes, somos surpreendidos com um murro no estômago, mas Lee desvia dali o foco. Cabe ao leitor dar significado ao que está a ler, e não ser subjugado pelo sentimentalismo imediato. Por isso, não se esperem acusações gratuitas contra o Japão e japoneses, mas elas estão lá. Ler, compreender e interpretar fará com que sintam um nó bem fundo com todo o normativo xenófobo e divisor de classes que contribui para a destruição interior de cada ser humano. Ainda assim, os personagens dotados de uma resiliência avassaladora, inspiram-nos e continuam a fazer-nos acreditar nesse humano, mesmo quando a alguns essa resiliência falta... Mas é de realismo que Lee nos fala, algo que se torna claro quando chegamos aos agradecimentos finais e percebemos que o livro esteve quase 30 anos em desenvolvimento, tendo sido suportado não apenas por pesquisa literária, mas também por muito trabalho de campo.

abril 07, 2023

Guerra do Peloponeso, 431 a.C. a 404 a.C.

"História da Guerra do Peloponeso" foi escrito no século V a.C por Tucídides, sendo por isso mesmo um registo histórico de incomensurável valor, mas é também um marco da História enquanto disciplina académica. Neste último sentido, fez-me compreender que apesar de na última década me ter dedicado a ler mais e mais História, na verdade continuo longe da mesma, em termos académicos. Interessam-me as histórias sobre a História, não me interessam tanto os relatos descritivos, mesmo que mais fidedignos ou verdadeiros. Não me move chegar “à verdade”, move-me mais a ideia de que aquilo que se conta é baseado numa realidade. Desde logo, porque mesmo num livro tão descritivo, tão emocionalmente neutro e objetivo, é possível denotar viés a ponto de hoje alguns historiadores o classificarem mesmo como apenas literatura. Claro que falo de um ponto de vista externo, não leio estas obras para documentar a minha investigação, se assim fosse falaria de modo distinto. Como leio apenas pelo prazer de ler, esse é maior quando a História usa o melhor da arte narrativa para chegar a nós, mesmo colocando em causa parte da sua factualidade que aceito bem quando é feito por via da especulação, mas não tanto quando pela mera invenção.

abril 02, 2023

Os Europeus e a cultura cosmopolita do século XIX

A experiência de "The Europeans" (2019) de Orlando Figes funciona como uma grande viagem cultural através de toda a Europa — da Rússia a Portugal — ao longo de todo o século XIX. Figes escolheu para companheiros de viagem: o ícone literário Ivan Turgenev, a renomeada cantora de ópera Pauline Viardot, e o seu marido Louis Viardot, crítico e historiador de arte. Três inseparáveis companheiros que percorreram toda a Europa durante as suas vidas, pondo em contacto as mais diversas culturas, dando assim suporte ao subtítulo: "Three Lives and the Making of a Cosmopolitan Culture". O registo apresenta uma simbiose perfeita entre a exposição de factos e o contar de histórias que poderiam quase ser ficcionais, quase checkovianas, mantendo-nos enredados ao longo das mais de 500 páginas. Figes faz-nos sentir nostalgia daquilo que não vivemos, nomeadamente quando dá conta do nascimento de correntes, de movimentos e renovados interesses da sociedade pela cultura e arte florescentes num tão diverso continente suportadas pela evolução tecnológica desse século, em particular os caminhos de ferro, o telégrafo, a imprensa, a fotografia, assim como a criação do copyright e do canône literário.

Lessico famigliare (1963)

Depois de uma certa desilusão com Elsa Morante, com "A História" (1974), agora foi a vez de Natalia Ginzburg, com "Léxico Familiar" (1963). Ambas autoras italianas recuperadas no início deste século XXI por força do êxito estrondoso de Elena Ferrante. Morante e Ginzburg são contemporâneas, viveram tempos muito diferentes dos de hoje, por isso dificilmente podem ser colocadas ao lado de Ferrante, mas se não bastasse, estão elas próprias nas antípodas uma da outra. Se Morante usa e abusa do sentimentalismo, Ginzburg usa e abusa do desapegamento. No entanto, a comparação com Ferrante é inevitável e resultado, para ambas, é pouco favorável.

abril 01, 2023

um problema de comunicação

Os livros "The Chaos Machine: The Inside Story of How Social Media Rewired Our Minds and Our World" (2022) e "Otherlands: A Journey Through Earth's Extinct Worlds" (2022) não têm qualquer relação entre si, mas se os juntei neste texto foi porque de formas opostas ambos quebraram uma regra básica da comunicação humana, a definição da audência para quem queriam falar. O primeiro pretende falar sobre um fenómeno novo, mas apresenta informação que qualquer pessoa minimamente interessada no tema já possui. O segundo pretende apresentar uma nova perspectiva sobre uma realidade distante da atualidade, mas não contextualiza a realidade distante, deixando o assunto à mercê apenas de quem estuda o tema.

março 26, 2023

O não-consciente de Cormac McCarthy

"Stella Maris" é o segundo volume da obra que Cormac McCarthy lançou em 2022, 16 anos depois do seu último livro, agora com 89 anos. Se no primeiro volume, "O Passageiro", nos introduziu a um mundo denso e complexo de ações humanas para as quais não parecia possuir uma ideia concreta a transmitir, "Stella Maris" é todo o contrário, quase vazio de ação, completamente focado naquilo que tem para dizer, ainda que o faça por meio de alguém em quem não podemos confiar totalmente, pelo diagnóstico de loucura a que está votada. É uma viagem científica realizada por meio de um vertiginoso diálogo entre um terapeuta e uma paciente, 20 anos, que desistiu de fazer o seu doutoramento em matemática para se auto-internar no hospital pisquiátrico Stella Maris.