domingo, junho 23, 2019

A ciência de Steven Pinker, e dos seus

Uma rápida passagem pelas discussões genéricas em redor de “Enlightenment Now” passa a ideia de que uma boa parte não o leu, focando-se mais nas entrevistas e textos promocionais da obra do que no texto em si. Parece existir uma fixação da elite intelectual, mais de esquerda, em atacar os dados quantitativos e otimistas de Pinker, e uma fixação da elite científica, mais à direita, em defender esses mesmos dados. Quanto ao progresso visível nos dados, passo a discussão, Pinker não diz nada que Hans Rosling não tenha já dito em “Factfulness: Ten Reasons We're Wrong About the World – and Why Things Are Better Than You Think” (2018) (análise). Por outro lado, é tonto, para não dizer algo mais rude, ver Pinker ao longo de todo o livro a acicatar estes dois grupos de pessoas, querendo ele próprio colocar-se de fora, citando amiúde a seminal obra de CP Snow “The Two Cultures” (1959) (análise), mas de cada vez que o faz só se afunda mais num desses lados. Repare-se que estas duas culturas — que prefiro sintetizar pelos perfis dos modelos mentais, lógicos e ambíguos —, não são uma invenção do século XX, elas estão presentes desde a oposição entre Platão e Aristóteles, passando pela oposição entre Descartes e Hume, chegando aos estereótipos delineados por William James — “tender-minded” vs. “tough-minded” — que C.P. Snow opta por diferenciar como — “cientistas” e “intelectuais literários” — e que podemos apresentar, nos dias de hoje como — positivistas e interpretivistas.

Este mapa de conceitos explica muitos dos problemas do livro de "Enlightenment Now" (2018). No entanto se Pinker se coloca do lado do positivismo para defender o seu modo de ver, quando lhe interessa passa para o lado do interpretivismo, nomeadamente no que toca a atacar académicos como Bauman ou Foucault ou filósofos como Nietzsche.

Dito isto, teria pouco mais a dizer sobre o livro, porque como já disse Pinker não diz nada, em termos de dados económicos mundiais, que Rosling não diga muito melhor. Por outro lado, ao longo do livro as leituras que vai apresentando sobre esses dados são não só pouco novas, como pouco estimulantes, nomeadamente quando comparadas com as de Yuval Harari (análises dos seus livros). No entanto, não posso deixar de dizer algo mais sobre esta obra, mais concretamente sobre a terceira parte, e em especial os últimos dois capítulos — “Ciência” e “Humanismo — nos quais considero que Pinker destrói completamente a sua credibilidade enquanto académico moderado e conciliador, para não dizer mesmo enquanto académico.


No capítulo sobre Ciência, Pinker ataca diretamente Bauman e Foucault, rotulando-os de pós-modernos, anti-verdade, anti-ciência, anti-dados, tudo rótulos que não colam com nenhum dos autores, mas de que Pinker abusa para assim poder agregar valor ao trumpismo, populismo, conspiracionismo, etc. etc. O pior é que ao fazê-lo, rotulou esses dois autores com estes mesmos rótulos, o que é do muito ponto de vista, não um erro grosseiro, mas uma filha-da-putice (peço desculpa pela linguagem). É inadmissível que Pinker para defender as suas ideias, atire para a lama dois dos mais respeitados pensadores das ciências sociais, duas mentes dotadas de uma capacidade visionária impar. Não vou defender Foucault, que tem andado na boca de muitos, mas sobre o ataque  a Bauman tenho de falar.

Pinker não compreendeu, ou não quis compreender Zygmunt Bauman. Optou por simplesmente pegar nele e metê-lo no saco duvidoso em que estavam Adorno e Horkheimer, levando de arrasto o próprio Foucault. Ao fazê-lo cometeu um erro que destruiu tudo o que tinha para dizer. Adorno era um filósofo da Estética, não era sociólogo, ainda assim não se pode dizer que tenha só dito banalidades, muito do seu discurso de ataque à Arte Moderna na relação com o Nazismo faz algum sentido, claro que no final as suas teorias valem o que valem, falo extensivamente sobre isto na análise do “Doutor Fausto” (1947) de Mann (análise). Mas Bauman não era crítico de arte, foi um dos mais importantes sociólogos do século XX, judeu-polaco fugido dos Nazis para União Soviética, o seu impacto cresceu durante toda a segunda metade do século, recebendo as mais diversas premiações e condecorações científicas. Pinker comete um erro que vejo amiúde, misturar a discussão sobre Arte pós-moderna com a análise sociológica que define o tecido social como pós-modernista.

Vejamos então como para defender a sua visão otimista Pinker opta por dizer que a ciência não trouxe mais guerra, antes o contrário, e por isso não aceita que Bauman veja os nazis, o Holocausto, como fruto do Iluminismo. Ora, em primeiro lugar, isso mesmo diz Bauman, a evolução científica trouxe mais paz, mas isso não serve para eliminar a ciência da leitura, antes serve sim para tornar o Holocausto uma aberração ainda maior. Pinker do alto do seu racional lógico é incapaz de aceitar a anomalia à regra. Repare-se então como o tamanho e a brutalidade do que foi feito no Holocausto não é igual a nada na História anterior. Desde logo aqui seria preciso questionar-nos, então porquê agora? Mas Pinker, em vez de questionar, atira para o lado, do mesmo modo como faz noutros assuntos ao longo do livro, e menoriza mesmo, dizendo sobre o Holocausto apenas e só que racismo sempre existiu.

É preciso ler Bauman, ler como ele desmonta toda a máquina Nazi desde a burocracia à criação de rotina e desumanização, todo o modo como se constrói o distanciamento moral do ato violento. Nada disto era possível noutro tempo, porque nunca antes houvera civilizações tão racionalmente avançadas e organizadas para criar uma máquina que funcionasse sem controlo central, em cadeias autónomas. Repare-se como passados 75 anos não se sabe se a ordem para uma Solução Final chegou alguma vez a existir, pelo menos registos escritos não existem (ver “Shoa” (1985) análise), porque talvez a ordem nunca tenha mesmo sido proferida, mas tenha resultado de um conjunto de ideias, ordens, pressões, que se foram amontoando e culminaram em algo que provavelmente ninguém conseguiria sequer imaginar enquanto sujeito humano normal, e sim, a maior parte daqueles alemães eram pessoas normais, empáticas, com aversão à violência, mas o sistema conseguiu furar essas barreiras do humano. Repare-se ainda no modo como a racionalização científica atuou sobre a ideia de raça, não pela simples ideia da diferenciação de raças, mas pela lógica e causalidade, como fica explanado num excerto de Goebbels que Bauman cita:
"There is no hope of leading the Jews back into the fold of civilized humanity by exceptional punishments. They will forever remain Jews, just as we are forever members of the Aryan race." Goebbels
Ou seja, o racional está ali, não há como transformar judeus em arianos, por isso só nos resta aniquilá-los. A razão é lógica, só a compaixão poderia derrubar este racional, algo completamente inaceitável num sistema brutalmente lógico como o Nazi. Veja-se como as pessoas foram selecionadas para ser levadas para os campos, no caso de judeus regulares era direto, mas para aqueles que tinham casado fora do reduto judeu, criou-se uma fórmula de cálculo das gerações até às quais se contava o parentesco e a presença de sangue judeu. Isto não é algo que um grupo de simples racistas se lembrasse de fazer, isto é feito assim para garantir a solidez da razão lógica, inquestionável, justificando plenamente a ação (leia-se “La Storia” (1974) (análise)).

É muito triste ver Pinker a desancar em Bauman e Foucault, dizendo barbaridades como o facto de eles não utilizarem dados quantitativos, ou de se dedicarem a meras abstrações (sendo a abstração o reino por excelência do racionalismo e positivismo) e depois pondo-os no mesmo saco de comentadores de jornais, e extremistas que atacam a ciência a partir do seu mero fervor religioso, ou simplesmente, porque financeiramente não lhes dá jeito, como no caso dos Republicanos e o aquecimento global.

Mas não posso dizer que me tenha surpreendido totalmente, Pinker é psicólogo, mas o seu discurso está completamente imbuído de positivismo, mesmo que ele vá dizendo amiúde que a ciência é um contínuo refinar de hipótese e teses, amiúde vai dizendo que a ciência é a última verdade. Ora um posicionamento destes é inaceitável. Não podemos querer tudo, não podemos querer fazer da ciência religião e política, porque ela nunca quis tal lugar. Sim, vivemos tempos de Humanismo, em que as religiões caíram e resta-nos a ciência, mas usemos a ciência para nos ajudar, não para nos controlar. Aliás, é isso mesmo que se discute em “Doutor Fausto”, o problema da racionalização é que impede o subjetivismo, levado ao extremo seremos todos tão racionais quanto iguais, e nisso a única coisa que poderemos ganhar é o fim da nossa liberdade interior.

No fundo Pinker ataca todos, tanto os que ousam duvidar do discurso científico, como aqueles que duvidam de tudo ou simplesmente são lunáticos, e assim acaba a juntar-se à turba de lunáticos, atirando indiscriminadamente sem olhar a quem. Se alguém ousa falar mal da ciência, deve ser imediatamente excomungado. Esquece Pinker que a ciência só existe enquanto criação humana, não nos foi enviada por nenhuma entidade exterior e divina. Como tal a ciência tanto nos dá a Penicilina como nos dá Hiroshima. Não se pode simplesmente contorcer o discurso, porque se não não estamos a falar de ciência, mas de política, de aniquilação do pensamento daqueles que não podem exercer pensamento crítico.

No fundo, falta a Pinker tudo aquilo que ele passa mais de metade do livro a pregar: abertura suficiente para reconhecer que só podemos viver em paz se nos aceitarmos uns aos outros nos diferentes modos de viver. Porque o progresso científico sendo um ganho fenomenal para a raça humana, deve evoluir ao ritmo que for possível, e não ao ritmo que teoricamente, ou racionalmente, nos pareceria desejável.  Para fechar, deixo um apanhado do último capítulo, que entretanto tinha colado no Facebook, e que julgo falar por si, sobre o que podem esperar deste livro, em termos de cientificidade:
“If one wanted to single out a thinker who represented the opposite of humanism (indeed, of pretty much every argument in this book), one couldn’t do better than the German philologist Friedrich Nietzsche”
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“Nietzsche helped inspire the romantic militarism that led to the First World War and the fascism that led to the Second.”
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“Nietzsche posthumously became the Nazis’ court philosopher”
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“The link to Italian Fascism is even more direct”
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“The connections between Nietzsche’s ideas and the megadeath movements of the 20th century are obvious enough: a glorification of violence and power, an eagerness to raze the institutions of liberal democracy, a contempt for most of humanity, and a stone-hearted indifference to human life.”
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“So if Nietzsche’s ideas are repellent and incoherent, why do they have so many fans? (..) A sample: W. H. Auden, Albert Camus, André Gide, D. H. Lawrence, Jack London, Thomas Mann, Yukio Mishima, Eugene O’Neill, William Butler Yeats, Wyndham Lewis, and (with reservations) George Bernard Shaw,”
..
“he was a key influence on Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre, Jacques Derrida, and Michel Foucault, and a godfather to all the intellectual movements of the 20th century that were hostile to science and objectivity, including Existentialism, Critical Theory, Poststructuralism, Deconstructionism, and Postmodernism.”
..
“the [Nietzsche] mindset has sat all too well with all too many of them. A surprising number of 20th-century intellectuals and artists have gushed over totalitarian dictators, a syndrome that the intellectual historian Mark Lilla calls tyrannophilia (..) Ezra Pound, Shaw, Yeats, Lewis (..) H. G. Wells (..) Sartre, Beatrice, Sidney Webb, Brecht, W. E. B. Du Bois, Pablo Picasso, Lillian Hellman (..) Foucault, Louis Althusser, Steven Rose, Richard Lewontin (..) Graham Greene, Günter Grass, Norman Mailer, Harold Pinter, Susan Sontag"
Atente-se na irracionalidade dos pesos colocados nesta interpretação, pois aqui Pinker esquece completamente a sua preciosa busca pela verdade, pelos dados de suporte. Para Pinker, um movimento de transformação global da sociedade, em que a ciência tudo revoluciona pela força da tecnologia colocada ao serviço da industrialização, não tem qualquer relação com o Holocausto. Mas um simples professor universitário que passou por várias crises de insanidade, pode perfeitamente ser o responsável pelas guerras mais devastadoras até à data.

Leituras adicionais recomendadas:
The World's Most Annoying Man, Current Affairs, Maio 2019
Unenlightened thinking: Steven Pinker’s embarrassing new book is a feeble sermon for rattled liberals, New Stateman, Fevereiro 2018

sábado, junho 22, 2019

Filmando o sentir humano

Vi há duas semanas “Everybody Knows” (2018) e vi hoje “The Wild Pear Tree” (2018), de ambas as experiências guardo sentires em forma de hipérbole. Asghar Farhadi  e Nuri Bilge Ceylan são os meus realizadores preferidos desta última década. Não são apenas realizadores, são também quem escreve os filmes, e isso faz toda a diferença. Ambas as obras usam o meio, do cinema, para expressar o sentir mais humano possível. Não falo de drama, nem tragédia, não existe aqui puxar à lágrima, à tristeza ou sofrimento para gerar empatia, mas do sentir que todos sentimos em todos os momentos, emergente dos questionamentos a que não podemos escapar enquanto seres conscientes. Nem Ceylan nem Farhadi têm qualquer pretensão de dar respostas, mas apenas e só plasmar esse mesmo sentimento para que possamos ver-nos ao espelho e compreender que não estamos sozinhos.



Imagens de “The Wild Pear Tree” (2018)

“Everybody Knows” centra-se nas relações familiares, imagem de marca do autor, pode-se mesmo dizer que é a sua obsessão, explorar as pequenas quezílias que testam a força das relações, a força do que une pelo sangue, filhos e pais, assim como pela experiência, maridos e esposas. Farhadi desenha os seus filmes como se fossem acessos temporários a vidas e conflitos reais que decorrem num qualquer lugar, colocando-nos no lugar privilegiado da primeira fila para a tudo podermos assistir em  primeira-mão. E apesar de não serem nossa família dificilmente não compreendemos, não sentimos o que sentem. Farhadi não se socorre da estratégia clássica do arco narrativo, com princípio, meio e fim, mete-nos antes dentro do conflito em ebulição e faz-nos viver com eles, no final retira-se e retira-nos, sem respostas nem fechamentos. Cabe ao espectador compreender tudo aquilo por onde acabou de passar e sentir.



Imagens de “Everybody Knows” (2018)

Ceylan não é muito diferente, ainda que tenda a seguir uma estrutura mais progressiva, sem no entanto se coibir de lançar rasgos de fluxo de consciência por entre sonhos que por vezes nos deixam perdidos, ou rasgos de dissertação filosófica pura. Ou seja, tecnicamente é bastante diferente de Farhadi, mas não deixa de procurar tocar os mesmos modos do humano que este. Ceylan foca-se mais no indivíduo, no modo como o mundo o pressiona e com ele se relaciona, como ele se desenvolve, evolui e progride. Deste modo acaba servindo-nos experiências mais melancólicas, introspectivas. Neste “The Wild Pear Tree” atravessamos três gerações pelos olhos de um jovem a entrar na fase adulta, acabado de sair da universidade, sem saber o que se segue na sua vida, com o sonho de publicar um livro, num confronto entre o citadino e o rural, entre a educação e a religião.

quinta-feira, junho 20, 2019

“Pão de Açúcar” (2018)

Não posso dizer que tenha ficado desiludido, um segundo romance, depois de uma obra de excelência e premiada, representa sempre um enorme peso e responsabilidade para alguém que ainda neste segundo romance se mantém bastante novo para o tipo de mundos que a literatura a este nível exige. “Pão de Açúcar” não chega a ser Romance, é um exercício de escrita, bem conseguido tecnicamente, capaz de agarrar o leitor e levá-lo ao longo das 200 páginas encurtadas pelas largas margens e caracteres grandes. É uma história que exigiu bastante pesquisa ao autor, mas ainda assim todo o enquadramento estava definido à partida, diga-se mesmo já amplamente esboçado pelo extensíssimo artigo (20 páginas) de Catarina Marques Rodrigues, “Gisberta, 10 anos depois”, para o Observador.


Cabral cumpre, em parte, com o que se tinha comprometido, dar vida às vidas dos jovens envolvidos naqueles derradeiros dias. Lendo os jornais o que temos é apenas a ideia de miúdos sem nada na cabeça, dispostos a tudo para magoar os outros, sem empatia nem sentimentos, na falta de mais dados especulamos a partir dos efeitos, e vemos na nossa cabeça um bando de energúmenos. A obra de Cabral refaz esta ideia, não desculpando, mas racionalizando sustentando com emoção e realidade vivida alguns dos jovens envolvidos. Posso dizer que consegui chegar bastante perto dos jovens, dos seus mundos, das suas realidades, sentir as suas dúvidas, incertezas e medos do mundo vivido no dia-a-dia. Inevitável pensar em “Deus das Moscas” e olhar para um grupo de jovens que sem regra nem direção acaba seguindo a força do mais forte e o efeito de grupo. Cabral faz-nos sentir o lugar e os seus habitantes, onde viveram aqueles miúdos, os seus devaneios pela cidade do Porto, assim como o prédio abandonado, somos completamente transportados para lá.

Mas era necessário este livro? Senti-me a maior parte do tempo um voyeur. Existe ali uma história, sem dúvida, mas devemos questionar-nos se produzindo obras sobre estas contribuímos para algo mais além do prazer do sofrimento de outrem. Repare-se que não precisamos de um livro para chamar a atenção, o assunto foi amplamente dissecado pelos media, e o artigo referenciado acima foi feito para recordar os 10 anos. Ou seja, o que podia um livro dar-nos mais? Conhecer melhor os envolvidos? Correto, mas com que objetivo, desculpá-los, ou aceitar a normalidade do acontecido? Repare-se que não é um assunto ficcionado para testar temperamentos ou efeitos da fraca educação (que é parcamente definida no livro), trata-se de um caso real, com pessoas que existem e sobre as quais devemos ter uma posição enquanto sociedade. Humanizar é preciso, mas enquanto sociedade precisamos de balizas concretas sobre o que podemos aceitar e o que não podemos de forma alguma. Um livro destes coloca tudo em questão, faz-nos questionar, faz-nos sentir impotentes porque co-culpados pela falta de apoio que aqueles jovens tiveram nas suas infâncias, ou da aparente falta de apoio que Gisberta teve. Mas tudo isto não o sabíamos já antes de ler este livro? Onde está o rasgo da arte para nos despertar do sentimento cliché, para nos transformar? Tenho de dizer que não me preencheu enquanto obra, enquanto Romance, longe disso.

Falando da escrita, é boa apesar de não ser excecional. Cabral consegue algo difícil, encaixar um pensar e diálogos que tinham de ser bastante incompetentes e até incongruentes, num texto de grande elegância, sem que duvidemos todo o tempo da sua veracidade. O mesmo se pode dizer da crueza e calão que vão surgindo, mas muito longe daquilo que é a realidade destes universos. Nota-se um esforço de aproximação aos contextos e à potencial escrita, mas ainda assim muito longe do que seria verdadeiramente um texto escrito por alguém saído daquelas condições. Muito do que se lê percebe-se impossível de germinar ali, mas não deixa de parecer provir daquele mundo, daquele universo, por isso algo foi bastante bem feito por Afonso Cabral para nos fazer sentir deste modo.

quarta-feira, junho 12, 2019

Algo em que acreditar? A educação, sempre

Não querendo entrar na discussão que já vai grande sobre o João Miguel Tavares (JMT) e o 10 de junho, nem para laurear nem para desfazer, porque o seu discurso no geral parece-me bastante interessante, mas tendo-o lido depois de ouvir tantos comentários, quero apenas frisar um ponto do discurso, que apesar de bem trabalhado nas palavras e como clara intenção de defesa pessoal acaba por se contradizer.

Melhorámos muito, mas estamos ainda longe, falta outro tanto pelo menos...


Começa JMT por dizer:
"Os pais lutavam por isso – lutavam menos por eles, do que pelas suas crianças, para que elas tivessem uma vida melhor, estudassem, fossem “alguém”. Os seus filhos chegariam às universidades. Estudariam dezasseis, dezassete, vinte anos, se fosse preciso."
E termina a dizer:
"E se alguma pessoa emproada vos perguntar pelo vosso currículo, digam-lhe que currículo tem tanto o académico que decide dedicar a sua vida ao estudo como o pai que decide dedicar a sua vida aos filhos. Currículo tem tanto o cientista que dedica o seu tempo à investigação como o reformado ou o jovem que dedicam o seu tempo a ajudar os outros."

Ousar pôr numa balança dois elementos tão díspares — os que estudaram e os que fazem ciência — com — os que tomam conta dos filhos e dos outros — é um paradoxo no discurso de JMT, porque é ele mesmo quem defende a Educação como Elevador Social, é ele quem descreve como os nossos pais tiveram um projeto de vida: Estudar os seus filhos. Os pais não investiram tudo o que tinham para os filhos apenas tomarem conta dos seus próprios filhos, isso é aquilo que já lhes compete enquanto cidadãos, os nossos pais quiseram que estudássemos para que fossemos mais, tivéssemos uma profissão e conseguíssemos ir além deles.


Percebo que JMT pretendia dar uma estocada em todos aqueles que questionaram o seu currículo para presidir ao 10 de junho, mas ao fazê-lo desta forma atirou o bebé junto com a água. JMT acaba por dizer que agora que já somos todos "doutores", porque a geração anterior se esfalfou para isso, isso já não é assim tão importante. Chegados a "doutores" encontrámos o desencanto, perdemos a esperança, não valeu a pena, e pior, ficámos sem sonhos para vender aos nossos filhos! Por isso, o melhor será voltar ao antes e sonhar outra vez. Talvez sem querer, acabou caindo no discurso populista do "não precisamos de especialistas" ou "temos licenciados e doutores a mais" que nos tem sido vendido por todos os líderes populistas bem conhecidos.

No ensino superior melhorámos mais rápido, mas porque a fasquia a atingir é menor. Mas não é razão para desencantar, sem esta subida o que digo abaixo não existiria.

Julgo que JMT em vez de se ter focado em pedir, "Dêem-nos alguma coisa em que acreditar", devia ter-se focado em dizer o que precisamos para continuar a acreditar, seguindo Kennedy em vez de Trump. Sei que JMT terá pensado que dar sonhos exteriores — mais riqueza, mais conquistas, mais isto e aquilo — seria sempre fraco, por isso focou-se nas pessoas, no seu interior, na entre-ajuda. Sim, esse deve ser o bem maior, mas é apena a rede funcional sem a qual não existiríamos como país, sobre esta precisamos de algo mais, precisamos de objetivos maiores do que aqueles já anteriormente alcançados. Porque a entre-ajuda estava lá antes quando conquistámos o 25 de Abril, entrámos na CEE, entrámos no Euro, e estava lá também quando organizámos a Expo 98, o Euro 2004, quando ganhámos o Euro 2016 e a Eurovisão 2017. Mas tudo isto só foi possível porque os níveis de Educação do país se elevaram tremendamente, se criaram ordens, sociedades, associações e academias de ciência e artes, assim como de turismo, de futebol, de música, de moda ou videojogos e tal só foi possível porque antes se criaram muitos cursos profissionais e superiores, com professores muito mais formados, em dezenas de profissões antigas que o país nunca tinha conseguido sequer formar, entre outras tantas novas que antes nem sequer existiam, e tudo isto depois tornou possível o surgimento de  pessoas com conhecimento e condições para garantir um país muito mais qualificado — capaz de criar empresas, festivais, concursos, eventos, obras e produtos não apenas nacionais mas internacionais — para que alguns de nós pudessem brilhar e ganhar, mas ao ganhar fossem além, elevassem a fasquia e dissessem que era possível fazer ainda mais.

domingo, junho 02, 2019

História da Filosofia Ocidental (1945)

O melhor do livro é sem dúvida o derrube de vários mitos e ideias criadas no imaginário ocidental a propósito da extensa linha temporal de filósofos que liga Sócrates a Russell. Pode-se dizer que se aprende imenso, que no final da leitura se vê a produção de conhecimento, e os seus principais responsáveis, a uma luz totalmente distinta. Apesar de sabermos que temos de colocar algum travão nas impressões imediata, já que Russell não se coíbe nunca de ser crítico, mesmo quando está a falar de milhares de anos atrás, em contextos sociais completamente opostos àquele em que hoje vivemos. Leia-se com calma, sempre com o filtro crítico ativo, preparado para por vezes ter de dar a volta a cabeça tentando compreender o que Russell nos quer dizer, mas acima de tudo leia-se pelo prazer de viajar pela história das ideias.


Para se poder criar um bom crivo crítico desta leitura é preciso começar por compreender a bagagem de Russell, alguém que começou por estudar matemática e filosofia naquilo que mais une ambas as disciplinas, a lógica, a partir do que viria lançar a corrente de pensamento que ficou conhecida como: filosofia analítica. Como se depreenderá, este cenário faz de Russell um positivista, e é exatamente por isso que precisamos de ler todo o livro com algumas cautelas. O positivismo funciona a partir de propriedades imensamente relevantes no que toca à criação de conhecimento, assente numa base em que a argumentação lógica é o cerne, contudo padece de alguns problemas. Desde logo, os positivistas assumem que tudo tem de ter uma lógica, que tudo tem de ter uma causa, que o conhecimento se constrói à imagem de uma equação matemática que tudo pode explicar. Na verdade, existem domínios em que esta forma de inquirir faz sentido, contudo não é passível de se poder aplicar a toda a realidade, menos ainda quando entramos na órbita da definição do ser-humano.

Por isso, não é de estranhar que Russell ataque praticamente todos os filósofos que lista ao longo das várias centenas de páginas. Russell realiza a sua História como arguente de provas, estando sempre à procura nas teses dos outros de problemas e defeitos, falhando demasiadas vezes no enaltecimento dos seus feitos e contributos, agravando as acusações realizadas pelo olhar totalmente racional que usa. Ou seja, a sua filosofia analítica não comporta espaço para uma análise contextualizada pelo tempo em que as ideias foram produzidas, interessado apenas no como se comportam essas ideias quando passadas pelo filtro da lógica atual. Deste modo Russell começa logo por atacar fortemente Sócrates, seguido de Platão, e até mesmo Aristóteles que diz admirar, e a quem tece alguns dos maiores elogios, acaba bastante mal-tratado. Por vezes, é preciso dar alguma razão a Russell, a "República" de Platão é realmente um manifesto em defesa do autoritarismo, mas daí a dizer que Sócrates provavelmente nunca existiu e pode ter sido inventado por Platão... Noutro campo, e graças à sua veia crítica, é interessante ver como desmonta os mitos de Esparta, nomeadamente o seu criador Plutarco.

Repare-se também como Russell imbuído do seu espírito lógico descarta totalmente Seneca, numa única linha, simplesmente porque este foi imensamente rico, o que para Russell choca totalmente com os valores professados. Adianto que me deixei convencer alguns dias por esta abordagem, mas refletindo sobre alguns dos personagens mais ricos da nossa contemporaneidade como Warren Buffet ou Bill Gates, podemos ver como o facto de ser rico não é incompatível com os valores estóicos. O problema dos sistemas estritamente lógicos é que não admitem exceções. Do mesmo modo, ou talvez ainda mais agressivamente, Russell ignora completamente a Fenomenologia, apesar de no entanto nos apresentar nos dois últimos autores, toda a escola do Pragmatismo, ainda que essa sua apresentação sirva apenas para demonstrar o quão errada estava, para Russell.

Repare-se que aquilo que Russell apresenta e aquilo que ignora não é fruto de falta de espaço, Russell chega a dedicar um capítulo a Byron, um poeta. Por isso, na verdade aquilo que Russell faz é montar uma História que vá de encontro à sua mundovisão, e nesse sentido fá-lo com grande qualidade, já que não se limita a trabalhar ideias e conceitos, contextualiza, nalguns casos de modo muito profuso, com o sentir social e seus impactos políticos. Aliás, é por isso mesmo que cita Byron, pelo impacto que teve no desenvolvimento do romantismo que por sua vez viria a contaminar todo um século intelectual. Mas não deixo de considerar estranho que alguém profundamente ateu, e determinado na defesa do racional lógico, invista tanto tempo do livro à discussão da filosofia católica. Sobre este último ponto, tenho de dizer que é algo que sempre me tinha feito alguma confusão, o modo como a filosofia estava tão carregada de religião, de deuses ou forças universais que tudo explicavam. Russell interessantemente não embarca, antes expõe o problema como um dos maiores da filosofia: paradoxalmente os pensadores mais racionalistas eram quem mais acreditava numa entidade externa, já que ao definirem o universo como um sistema lógico, em que tudo tinha de obedecer a um conjunto de regras perfeitas, matematicamente puras, os tornava reféns de uma entidade superior, a única capaz de gizar tal molde. Seria apenas com Darwin, e a partir do seu evolucionismo que faria surgir a teoria do Big Bang, que os racionalistas se conseguiriam desprender dessa entidade.

O livro é extenso, mas considero que uma parte demasiada grande foi dedicada à pre-história da filosofia e aos seus intervalos, isto porque ao chegar à Filosofia Moderna, final da era medieval, renascentismo, iluminismo e atualidade, teria sido bom dedicar-lhe muito mais espaço. São muito, demasiado curtas, as discussões sobre Descartes, Spinoza, Hume, Kant, James e Dewey e ficaram de fora nomes que mereciam ter sido chamados à discussão, nomeadamente homens da ciência, que como o próprio Russell diz, passou a fazer parte da própria história da filosofia: Galileu, Newton, Einstein. Por outro lado, a História termina em 1945, o que deixa de fora muito do que se germinava nesses anos e viria a ganhar relevo, para além de toda a segunda metade do século XX. Ainda assim, o trabalho realizado por Russell é imensamente detalhado, mais ainda se tivermos em atenção que foi feito sem recurso à internet que hoje a tudo dá acesso imediatamente, e num tempo de segunda guerra mundial.

Deixo um testemunho do próprio Russell sobre os vieses que lhe apontam no livro, que deixou num apontamento na sua autobiografia:
"I regarded the early part of my History of Western Philosophy as a history of culture, but in the later parts, where science becomes important, it is more difficult to fit into this framework. I did my best, but I am not at all sure that I succeeded.

I was sometimes accused by reviewers of writing not a true history but a biased account of the events that I arbitrarily chose to write of. But to my mind, a man without a bias cannot write interesting history – if, indeed, such a man exists. I regard it as mere humbug to pretend to lack of bias. Moreoever, a book, like any other work, should be held together by its point of view. This is why a book made up of essays by various authors is apt to be less interesting as an entity than a book by one man. Since I do not admit that a person without bias exists, I think the best that can be done with a large-scale history is to admit one’s bias and for dissatisfied readers to look for other writers to express an opposite bias. Which bias is nearer to the truth must be left to posterity.”
 Russell, (1968), "Autobiography", p. 444


Nota: A leitura foi feita entre a edição audio em inglês da Audible e a edição em livro em português da Relógio d'Água. Muitas vezes me vi obrigado a parar o audio, para poder mais tarde retomar a leitura no papel e em maior sossego para confrontar e compreender as ideias.

Resenhas consultadas:
"A History of Western Philosophy reviewed" (1947) de Isaiah Berlin

quinta-feira, maio 30, 2019

Ciência do movimento visual

Por esta altura já todos percebemos que vivemos numa realidade criada pela nossa cognição, montada sobre muitas ilusões, desde a história do vestido azul e dourado às imagens estáticas que se movem, passando pelos vieses cognitivos, tudo distorções sobre o modo como interpretamos o real que decorrem da ligação entre os nossos sistemas perceptivo e cognitivo. Contudo existe sempre espaço para novas surpresas e esta que a Wired nos traz agora é bastante interessante, nomeadamente para todos os que trabalham no domínio da imagem em movimento, particularmente em animação.



No vídeo podemos ver como o processamento visual das imagens na mesma frequência do movimento, permite aceder movimentos completamente distintos, incluindo alterações de direção de movimento. Claro que quem trabalha no audiovisual já viu isto, basta pensarem na última vez que filmaram uma roda de bicicleta ou de um carro, ou quando filmamos plataformas giratórias como as dos parques infantis. Mas ver o efeito na água é não só mais instigante como nos permite compreender muito melhor o que está a acontecer com o nosso cérebro quando ele está a processar o movimento que recriamos por meio dos 12 ou 24 frames. A percepção capta as imagens e a cognição interpreta as mesmas, quando os objetos mudam de lugar, a cognição cria uma história mental que explica que estão em movimento e que esse movimento decorre numa determinada direção. Por isso, se na percepção ocorrer alguma variação incoerente pode acontecer que o nosso cérebro comece a ver movimentos contrários aos que estão verdadeiramente a acontecer.


"Inside the Science Behind This Crazy Water-Based Illusion" (2019) da Wired

terça-feira, maio 28, 2019

As Duas Culturas (1959)

Este livro foi feito a partir de uma palestra dada por C.P. Snow em 1959, tendo gerado imensas ondas em toda a academia, muitas delas contra Snow, condenando-o por contribuir para o aumento da divisão que queria ilustrar entre ciências e humanidades. Devo confessar que fiquei surpreso por ler tais condenações, ainda mais quando feitas por pessoas como Stephen Jay Gould, e não menos fiquei ao procurar comentários mais recentes e encontrar pessoas defendendo que Snow se limita a afirmar o óbvio, para a seguir dizerem que as coisas são muito simples e deveríamos ser todos capazes de nos entendermos. Isto demonstra uma atitude baseada em ideais e não numa análise minimamente objetiva da realidade.


Talvez se fosse há alguns anos eu teria concordado com a ideia de que todos os grupos de pensadores se deveriam entender, independentemente da abordagem ao real que fazem, mas hoje, isto parece-me no mínimo ingénuo. Acreditar que Aristóteles discordou em quase tudo do seu professor Platão apenas por birra, só pode ser tonto. As suas discordâncias estão exatamente na génese daquilo que Snow aqui identifica, e têm que ver com as motivações e personalidades de cada um que os levaram a construir modelos da realidade distintos, no caso, opostos. Ou seja, não penso o mundo a partir de uma tábua rasa e do conhecimento que experiencio ou me transmitem, mas filtro-o através daquilo que sou, e do modo como desejo transformar o mundo que me rodeia.

É verdade que o livro não ajudou, porque Snow não ajuda, nada mesmo. Não há um método na divisão, nenhuma definição sequer é apresentada sobre ambos os lados, nenhuma caracterização dos diferentes perfis é apresentada, nenhuma análise social é feita, menos ainda qualquer traçado comportamental, cognitivo ou emocional é apresentado. Deste modo, Snow cria um argumento meramente no ar, a partir de uma ideia do senso comum que segue o erro, hoje clássico, de caracterizar pólos a partir de médias. Vemos muito isto quando se quer classificar atividades em termos de orientação: homem ou mulher. Nestes casos usam-se curvas de Bell que nos mostram que existem maiorias de homens que gostam de A e maioria de mulheres que gostam de B, e por isso diz-se que os homens gostam de A e as mulheres gostam de B. O problema destas abordagens é que esquecem que junto ao pico da média dessas curvas, existe uma divisão, e para um desses lado, existem faixas enormes de homens e mulheres que não se identificam, que não encaixam nessas classificações simplistas. E foi isso que aconteceu com este texto de Snow, porque usar cientistas contra estudiosos de literatura, não podia dar outra coisa se não um mar de cientistas que adora literatura, e um mar de estudioso literários que manifestam interesse pelas ciências, e que por isso consideram toda a conversa de Snow ridícula.

Se Snow tivesse apresentado um divisão por interesses, objetivos ou metas em vez de classificar as pessoas em etiquetas genéricas, teria com certeza conseguido gerar uma discussão mais equilibrada em redor desses argumentos, em vez de colocar grupos sociais uns contra os outros. Por outro lado, se o tivesse feito não teria conseguido chamar tanto a atenção, só um nicho se teria interessado pela discussão, e o livro talvez tivesse caído rapidamente no esquecimento.


Nota sobre a tradução: Acabei desistindo desta edição portuguesa, mas depois de pegar na original de Snow, percebi que o problema não era da tradução, o atabalhoamento da discussão está mesmo no original, talvez por se tratar de um texto transcrito de uma comunicação. Ainda assim considero que Snow poderia, deveria, ter revisto o texto antes de o deixar publicar.

Mitos da Investigação Fundamental e Aplicada na Europa e Portugal

Existe uma ideia, recente em Portugal, de que as Universidades devem ser os motores da inovação do país, que devem ser as responsáveis por toda a investigação nacional, desenvolvendo-se ali o futuro do tecido industrial nacional. Ora isto é uma ideia sem pés nem cabeça. Diga-se que para isto muito contribuíram as faculdades de Engenharia, do IST à Universidade de Aveiro, ao desenvolverem modelos cada vez mais próximos da indústria, ou seja, aplicados, mas que estão longe de poderem servir de modelos a aplicar a toda a Universidade Portuguesa como modus operandi. Antes de explicar porquê, vou apresentar alguns dados que desmontam algumas ideias feitas, ou mitos.

Apenas 6% do investimento em investigação nas universidades americanas provem da indústria, a maioria (60%) vem do estado, e outra fatia vem das propinas dos alunos (25%).

Nos EUA a investigação nas Universidades é sustentada pelo Estado, como se vê neste gráfico acima, apenas 6% do investimento em investigação feita nas Universidades provém da indústria. E isto inclui universidades privadas como MIT, Stanford, etc. Ou seja, a ideia de que a Universidade na Europa, e a portuguesa, deveriam ser auto-financiadas por recurso a investigação feita com as empresas, porque é assim que se faz nos EUA, é um Mito.

O investimento americano total em investigação é maioritariamente feito pela indústria. o que contrasta desde logo com o gráfico acima, demonstrando que a investigação nos EUA se faz nas empresas, não nas universidades.

Olhando para a R&D americana, o seu verdadeiro pulmão está na indústria. É verdade que é ela quem mais paga para que se faça investigação, mas ela não paga às Universidades para a fazer. Essa investigação é feita nas empresas. Na HP, IBM, GM, Google, Apple, etc. etc. Porquê? Porque estamos a falar de uma investigação diferente, daquela que deve ser feita nas Universidades.

Repare-se ainda como na Europa, o programa H2020 (2014-2020) mudou completamente a agulha do investimento, pondo muito mais dinheiro nas empresas, assumindo-se cada vez mais as empresas como coordenadoras de projetos, ao contrário do que acontecia nos programas quadro anteriores. Ou seja, procura-se o modelo americano, mas apenas pela divisão dos dinheiro, já que quando olhamos ao gráfico abaixo, percebemos que a essência não mudou, a quantidade de investimento na Europa já foi ultrapassada pela China.  Este gráfico, mostra que temos na Europa ainda a ideia de que a investigação deve vir das universidades, porque aí pode sair a custo zero para as empresas. Mas o que isso está a fazer é que a Europa continua a investir muito pouco em R&D e está a ficar cada vez mais atrasada no desenvolvimento industrial.

O investimento europeu global em investigação continua estagnado abaixo dos 2%, quando a meta dos 3% vem sendo apregoada há quase 20 anos. Entretanto fomos ultrapassados pela China.

Mas reparemos agora mais em concreto em Portugal, e voltemos à questão de partida. A razão pela qual não acredito na investigação de um país alicerçada exclusivamente na Universidade é porque a universidade não é uma empresa, e a investigação que uma precisa é diferente da que a outra precisa. A universidade não pode fazer-se apenas de Engenharia ou Design, ou seja Investigação Aplicada, precisa, e muito, de Investigação Fundamental. Ora as empresas não fazem, nem querem saber da investigação fundamental, aquela em que se discute se A deve ser mesmo A, ou se podia ser B. A indústria só quer saber se A dá dinheiro ou não, é indiferente definir A como A ou como B, desde que funcione. Mas ambos os domínios são necessários, pois sem os avanços no aprofundamento dos fundamentos da ciência, a componente aplicada acaba por estagnar.

Investimento em Investigação Aplicada (R&D) por sector na Europa, EUA, China e Rússia. Repare-se como Portugal apresenta quase uma igualdade de investimento entre as Universidades e Empresas, e como isso não é seguido em mais país nenhum, a não ser a Sérvia e Macedónia.

Ora o problema é que Portugal não teve criação de suficiente tecido industrial, e por isso não tem indústria para sustentar a investigação aplicada. Por outro lado, se começarmos a colocar o esforço de toda essa investigação aplicada nas nossas universidades, corremos o risco de cada vez mais nos limitarmos a aplicar a ciência fundamental que as Universidades exteriores criam. Isto foi bastante visível na última abertura de concursos investigação da FCT que deu primazia a projetos não pela componente científica mas pelo seu impacto socioeconómico. E podemos até perceber que não tendo as condições dos outros países, a Universidade deve ajudar, como têm feito e bem as Faculdades e Departamentos de Engenharia e Design, mas têm de haver avanços claros por parte da indústria nacional sem depender das universidades. As universidades podem ser chamadas a contribuir para a ideação e inovação, mas não devem continuar a servir a implementação, como vem acontecendo, por falta de recursos especializados na indústria.

Por outro lado, esta discussão é maior que Portugal, já que ela surge muito colada aos atuais modelos tecnológicos, e Portugal por acordar tão tarde apanhou o barco que encontrou no cais. Ou seja, a Engenharia e o Design assumiram o controlo e o poder, são estas que regulam o grande desenvolvimento mundial tecnológico, e oferecem os maiores avanços técnicos e industriais, mas, e este mas é enorme, elas vivem de todas as restantes ciências, tanto da vida, como sociais, e mesmo das artes. São as inovações na Física, na Biologia, na Psicologia, na Economia, na História ou nas Artes que permitem à Engenharia e Design estarem continuamente a brilhar, pegando no conhecimento em bruto e encontrado formas de o aplicar tornando o conhecimento teórico em práticas úteis à sociedade. Por isso precisamos de Universidades fortes a produzir ciência fundamental e não ciência aplicada. Porque não podemos esquecer que sem uma Universidade forte em ciências e artes fundamentais não só não teremos inovação para alimentar a engenharia e o design, como não conseguiremos criar os melhores recursos humanos que sustentem o desenvolvimento da nossa indústria.


Ligações para os dados usados:
R & D expenditure, EC Europe, 2019
Historical Trends in Federal R&D, 2019

sábado, maio 25, 2019

"Mindfoolness" (2019)

Trago uma curta estreada esta semana na rede que apresenta uma elevada qualidade técnica associada a um twist narrativo com capacidade para impactar fortemente o espectador. Não sendo recomendado a menores ou pessoas mais sensíveis, tem potencial para nos lançar em múltiplas direções de questionamento, desde o valor da arte ao sentido da vida até algumas práticas que procuram oferecer-lhe respostas. "Mindfoolness" (2019) foi criado por um grupo de estudantes e ex-estudantes — Inês Graça, Joana Beja, João Garcia Neto, Rúben Duarte, Ricardo Mendes — do DeCA/UA, e venceu esta mesma semana o grande prémio do festival Made in DeCA 2019.


O trabalho eleva-se no campo do audiovisual, com nota máxima, nas componentes de Realização e Cinematografia, apresentando uma Montagem e Sonorização boas, mas de menor qualidade, sendo tudo envolvido por uma história original e minimal, trabalhada por meio de uma narrativa no formato de thriller que mantém o espectador colado até ao final do genérico.

Chamo a atenção para a composição de cena e enquadramento, nomeadamente o modo como operam em sintonia com a narrativa. A composição do espaço e objetos comunicam de forma muito eficiente aquilo que a trama pretende, sendo apresentados por meio de um enquadramento ultra-largo que trabalha bem todo esse espaço e labora de forma bastante hábil toda a encenação que mostra e esconde o foco da nossa atenção. Criado o impacto estético, a história desenvolve-se de forma fluída, quase sem necessidade de se esforçar, até que toma as rédeas do filme, tira o tapete ao espectador e obriga-o, de um momento para o outro, a mudar o modelo mental, passando da apreciação estética para a resolução do nó narrativo.

"Mindfoolness" (2019) de Inês Graça, Joana Beja, João Garcia Neto, Rúben Duarte, Ricardo Mendes

terça-feira, maio 21, 2019

Quando é necessário dizer Não

Há cerca de um mês fui convidado para realizar uma palestra no evento Pint of Science que decorre este ano pela segunda vez em Portugal, em várias cidades, incluindo Aveiro. Aquando do convite fiz alguma pesquisa sobre a organização após o que aceitei participar. Entretanto fui confrontado com o facto do evento, organizado na cidade do Porto, estar a promover palestras que defendem o Reiki como terapêutica de tratamento do cancro (ver programa do Porto e vídeo). Este cenário colocou-me face a um dilema: ir ao evento significaria pactuar com aquilo que se promove nessa palestra; não ir, significava não cumprir com a palavra que tinha dado. Após alguma reflexão e face a nenhuma alteração de programa, apesar dos alertas realizados pela comunidade nacional, decidi cancelar a minha participação. Deixo algumas palavras que sustentam a minha atitude, sabendo que não repararão a minha falta, ainda assim espero que contribuam para uma discussão que é preciso continuar a fazer.


A ciência é um domínio frágil, os seus praticantes operam numa base de humildade permanente face ao conhecimento, aceitando por isso o questionamento constante dos seus princípios. Juntamente com isto, atravessamos toda uma era complexa de enorme e facilitado acesso ao conhecimento que em vez de tornar a sociedade mais informada e capaz de lidar com a ciência, tornou-a mais rude e desconfiada, nomeadamente de toda e qualquer fonte de autoridade. "Se tenho acesso ao conhecimento todo por via da internet, não preciso de especialistas para nada, posso saber o mesmo que eles sabem". "Basta-me umas horas de pesquisa e sei tanto como o meu cardiologista, ou como o meu advogado, ou como o especialista em aquecimento global". No fundo, temos na nossa frente aquilo que os teóricos do pós-modernismo vinham defendendo há décadas: uma sociedade de valores e princípios altamente fragmentada, descrente de qualquer autoridade ou meta-narrativas, vivendo numa realidade líquida em contínua e acelerada mutação.

Tudo isto sendo problemático, não o seria tanto se não fosse usado e abusado por políticos sem escrúpulos. Personagens como Trump, Bolsonaro ou os líderes da extrema-direita europeia tornaram-se populares graças a uma atitude de total desrespeito para com toda e qualquer autoridade instituída. Usam o princípio de que não existem certezas, de que existem cientistas que publicaram um ou outro artigo com reservas como se isso fosse suficiente, ou sequer evidência de algo, para atirar mantos de total descredibilização sobre todos os consensos da Ciência, para a coberto dos mesmos poderem promover as suas próprias agendas ideológicas, mas principalmente económicas.


E ainda assim, poderíamos enquanto membros da comunidade, desejar não nos imiscuir da política, que é um meio complexo, feito de ataques continuados, muitos deles pouco refletidos e menos ainda verdadeiramente sentidos, e que por isso mesmo não valeriam o nosso tempo. Contudo, o problema é grave, porque não se trata apenas de políticos à procura de benefício próprio, estas suas agendas têm impactos brutais sobre a sociedade, e até sobre o próprio planeta. Temos hoje milhares de pais a porem em risco milhares de crianças ao não vacinarem e ao apelarem à não vacinação. Temos milhares de pessoas que se colocam em risco e colocam outros em risco ao apelarem ao não tratamento químico de cancros. Temos milhares de pessoas que defendem que vivemos num planeta “plano”, mas pior, defendendo a inexistência de qualquer aquecimento global, usando a simples ideia de que tudo é questionável, e que a ciência não tem resposta para tudo. Claramente que a ciência não tem resposta, nem pretende ter, para tudo, mas as respostas que tem precisam de ser defendidas, e não colocadas à mercê dos ataques de quem não está minimamente habilitado ou sequer interessado na ciência. Assumir que tudo é igual, e todos têm direito à palavra com o mesmo grau de autoridade, deixou de ser uma condição aceitável, correndo o risco de tudo perdermos.

Temos que promover a ciência, temos de a defender, e isso implica tomar posições que por vezes são difíceis. Neste caso, os organizadores do evento no Porto preferiram o caminho mais fácil, defender as escolhas que tinham feito inicialmente, obrigando a que os investigadores ficassem com a escolha mais difícil, dizer que Não.


Notas Adicionais:
A tomada desta decisão foi feita no âmbito de um diálogo aberto com os organizadores do evento na cidade de Aveiro, que acabaram por compreender e aceitar a minha posição, manifestando a sua impossibilidade de atuação dada a autonomia que cada cidade organizadora do evento detém.

Do meu lado, esclarecer ainda que esta minha posição não deve ser lida como fundamentalismo científico, algo contra o qual tenho manifestado por várias vezes a minha posição, como se pode ver no texto que aqui publiquei no final de abril, "SciMed e a humildade em ciência".


Ler mais:
A Ciência não é Crença, Virtual Illusion
O Reiki funciona?, FFMS
Carta aberta à Pint of Science Portugal, Comunidade Céptica Portuguesa

domingo, maio 19, 2019

La Storia (1974)

Adorei o tratamento do interior da personagem principal, Ida, principalmente as primeiras 100 páginas, é delicioso. Assim como, mais a frente, tudo aquilo que envolve Ida e os filhos. Ela, eles, e a suas relações, seus medos e anseios, assim como Roma e os mundos criados pela imaginação deles, é tudo soberbo, sublime. Morante tem uma capacidade extraordinária para metaforizar os sentires, que são depois apresentados por uma escrita elegante, de elevada elaboração sem nunca se deixar levar em excessos de forma. Se tivesse permanecido no nível dessas primeiras 100 páginas, teria entrado diretamente para a minha lista de livros de sempre, o problema é que à medida que vamos avançando os problemas vão-se avolumando, muito por força das idiossincrasias da autora, e que passo listar:



— Inúmeras descrições de sonhos que não acrescentam nada ao relato. Uma abordagem claramente colada às ideias muito em voga da psicanálise dos anos 1970.
— Personagens com capacidades supranaturais, como falar com cães, sem qualquer razão nem motivação.
— Personagens que são aprofundadas e imensamente alongadas, mas que nada acrescentam à narração.

E a mais grave:

— Apresentação da epilepsia como algo maléfico.

Sente-se uma escritora demasiado presa a ideias dos anos 1970, o que não será alheio ao imenso sucesso do livro em Itália, tendo vendido mais de meio milhão de exemplares quando saiu, apesar da crítica não lhe ter sido favorável. Umberto Eco diria mesmo: "Talvez um dia venhamos a perceber que o romance aparentemente popular, era na verdade uma obra culta, muito meta-literária, quem sabe..." Apesar da crítica desfavorável, e do quase esquecimento da obra, ela marca presença na conceituada lista de 100 Obras do grupo do livro norueguês, criada em 2002.

Do meu lado, acredito que a popularidade do livro se deve a dois elementos: um histórico e sentimental; o outro de posicionamento político. O livro retrata a Itália no período do fascismo seguido do nazismo, entregando uma visão do interior de Roma em tempo de guerra e ocupação, que funciona como registo e ao mesmo tempo, pela forma como está escrito, parece transportar-nos para dentro dessa altura com imensa força. Por outro lado, Morante apresenta uma crítica política devastadora contra o capitalismo mas também contra o comunismo, parecendo colocar-se ao centro, que como sabemos é a área mais popular na política. Por causa disso acabaria por afastar dela alguns dos conceituados artistas italianos dessa época (ex. Pasolini), contudo eu não diria que Morante defende um centro político, apesar de algumas críticas apresentadas à anarquia, ao longo de todo o livro, são várias as vezes em que o movimento surge como o último reduto possível para a autora.

Libertação de Roma em 1944 pelos Aliados

Morante teve uma vida algo atribulada, sempre mergulhada em depressões, com vários suicídios no seu caminho, tendo ela inclusive tentado pôr fim à sua vida já na reta final. Deixo um excerto de uma carta escrita ao marido Alberto Moravia:
"Se tu soubesses a desordem da minha mente, que mal-grado tudo consigo esconder, e a incerteza que tenho a cada momento, a impressão de esterilidade, a que se junta a paixão deveras estranha e quase inaudita que em diferentes formas me calhou, terias ainda mais pena de mim do que já tens.
Não penses que não te sou grata pela maneira como me tratas e da qual me recordarei sempre. Estou muito mal, não sei se conseguirei tornar a encontrar um equilíbrio em alguma coisa. Queria poder trabalhar verdadeiramente, ou amar verdadeiramente, e seria feliz em dar a alguém ou a alguma coisa tudo aquilo que posso, contanto que a minha vida se cumprisse finalmente e encontrasse descanso no coração."
(fonte)

Ler mais:
Nazismo: ouro e livros, VI

sábado, maio 18, 2019

O que fazer da Curiosidade?

"Curiosity" permitiu-me conhecer melhor Alberto Manguel, e se numa primeira fase do livro criou em mim enorme admiração pela sua pessoa, à medida que fui avançando na leitura essa admiração foi-se desvanecendo. No final, a maior conclusão que tiro não tem nada de novo, ler muito não chega, ler muito é essencial, mas é preciso aprender a fazer algo com esse muito que se lê. Manguel leu toda a sua vida, é um dos maiores connaisseurs internacionais do cânone literário, mas na hora de criar obra não vai além da compilação daquilo que os outros fizeram. E talvez o maior problema desta obra tenha sido o ter acreditado que podia ir além, que podia criar um género de escrita novo, sair do seu domínio de Editor.


Em "Curiosity" Manguel recorre a uma mescla entre memórias da sua vida e as obras do cânone ocidental que faz desfilar na nossa frente por meio dos eventos da "Divina Comédia" (1320) de Dante. Posso dizer que nas primeiras 100 páginas funciona brilhantemente. Manguel sintetiza imensas visões literárias ao longo dos últimos 2500 anos sobre o que é a curiosidade e a sua importância para a nossa espécie. Contudo depois perde o foco, mesmo utilizando Dante e Virgilio para o guiar no resto da jornada, dedica as restantes 300 páginas a simplesmente vaguear pela literatura mundial, pescando ideias soltas aqui e ali, sem qualquer objeto ou motivo.

Manguel é dono de uma impressionante biblioteca com mais de 30 000 volumes, que tem transportado consigo ao longo da sua vida pelos vários países em que viveu — Israel, Argentina, Canada e França.

No final fica uma enorme sensação de tempo perdido. Claramente é interessante avaliar o que foi dito na literatura sobre um tema, mas é preciso dar sentido a tudo isso, e é aí que Manguel falha. Mais ainda porque Manguel nunca sai da sua área de conforto, a literatura. Dedica-se a discutir temas complexos como a linguagem ou consciência, a partir de obras com milhares de anos e textos literários, atirando borda fora todo o conhecimento humano produzindo ao longo dos últimos 100 anos pela psicologia, linguística e neurociências. No final passa a ideia que a ciência é um objeto estranho para Manguel, e que para si tudo pode ser compreendido por meio da literatura e alguns filósofos e religiosos.

Não posso deixar de apontar o dedo a mim próprio que me aproximei da obra com o intuito de aprender algo específico sobre curiosidade, já Manguel estava apenas interessado em compilar textos em redor da construção de outros textos. Mesmo as suas memórias são meras introduções a cada capítulo, muitíssimo curtas, e sem conexão abrangente com o que se vai discutir depois nas passagens literárias. Por sua vez, as passagens literárias acabam contaminadas por Dante, o que no início resulta interessante, mas rapidamente se torna cansativo por nada acrescentar. Percebe-se que Manguel utiliza a Divina Comédia apenas como estrutura, seguindo talvez o caminho de Joyce colado à Odisseia, mas totalmente incapaz de se apropriar da Comédia, como Joyce se apropriou e soube criar uma Odisseia para Bloom. Aqui não temos qualquer rito de passagem de Manguel, nem sequer da curiosidade, não partimos de lado algum, e menos ainda chegamos a qualquer lugar, como acontece com Dante na sua viagem através dos 3 estágios do além. Temos apenas um conjunto de capítulos que podem resultar interessantes soltos, pelo enorme conhecimento de Manguel, mas completamente incapazes de saciar a curiosidade que o livro prometia discutir e apresentar.

Manguel lembra-me Leonardo Da Vinci, ambos imensamente curiosos, mas apenas focados na busca por mais e mais, não conseguindo nunca parar para refletir, para analisar sobre aonde tudo o que já sabem os pode conduzir. Apenas parece interessar-lhes a novidade constante, sempre insatisfeitos, sempre necessitados de mais, do diferente, para acrescentar peças novas ao que já sabem.

Por fim, se tiverem encontrado, ou procurado, este livro de Manguel para saber mais sobre a curiosidade humana, aconselho antes a leitura de "Curious: The Desire to Know and Why Your Future Depends On It" (2014) de Ian Leslie.

sábado, maio 11, 2019

Nazismo: ouro e livros

Por mais que acreditemos saber já o suficiente sobre a Segunda Guerra Mundial, nunca saberemos tudo, é impossível, e acabamos sempre por nos surpreender sempre que lemos ou acedemos a novas histórias desses tempos, que alargam o espectro da maldade muito para além dos horizontes por nós já trilhados. A história que trago, nunca a tinha ouvido, porque ao pé de tantas outras, parece menor, não tem números impressionantes, aconteceu pela calada, e rapidamente foi silenciada por todos, mas não deixa de me impressionar pelo nível de dolo implícito.

Rua do Gueto Judeu de Roma (2018)

A 8 de setembro 1943 os nazis ocuparam Roma. Dos 8 mil judeus que aí viviam pouco mais de mil ficaram na cidade no Gueto de Roma, estabelecido em 1555. Neste encontrava-se a Biblioteca della Comunità Israelitica recheada com mais de 7 mil livros raros ou únicos, datados desde o século XVI.

No dia 26 de setembro 1943, o comandante da Gestapo em Roma anunciou que se não lhes fosse entregue 50 Kg de ouro, 200 famílias seriam deportadas. No dia 28 setembro ao meio-dia, o prazo dado, os 50 Kg apenas conseguidos graças ao contributo de toda a cidade de Roma, foram entregues.

No dia 14 de outubro 1943, menos de um mês depois, os 7 mil livros da Biblioteca della Comunità Israelitica foram levados, carregados em duas carruagens e conduzidos alegadamente para Alemanha. Estas duas carruagens nunca voltariam a ser encontradas, tal como todo o seu conteúdo, até hoje.

No dia 16 de outubro 1943, dois dias depois, os militares alemães cercaram e selaram o gueto. Cerca de 1030 judeus foram presos e deportados para Auschwitz. Apenas 16 sobreviveram.



Nota: Pesquisa realizada por via da Wikipédia, confirmada por meio de alguns artigos científicos, seguindo o rasto dos 50 kg de ouro, mencionados no livro “A História” (1974) de Elsa Morante.

sábado, maio 04, 2019

Talento ou motivação para criar?

Quando uma filha (14) ganha um concurso ficamos contentes, imensamente alegres por ela, mas quando ganha um concurso a nível nacional de escrita (criativa em inglês), que descobrimos apenas que ela participou quando soubemos que ganhou, além de nos fazer sentir felizes, questiona-nos: como e porquê? Não podendo deter-me no artefacto, foi escrito na hora do concurso em resposta ao tema e à mão e por isso não o pude ainda ler, detenho-me então sobre o seu percurso, não meramente escolar, mas essencialmente no ambiente que lhe foi proporcionado. Muito rapidamente me dou conta de algo que já há algum tempo vinha desmontando sobre a criação de talentos, não basta o ambiente social, nem sequer o investimento e trabalho árduo. Existe algo mais.


Nos últimos anos tenho-me dedicado a tentar compreender o modo como se criam os chamados talentos, no sentido de compreender a motivação e envolvimento humanos. Trabalho com media interativos, e por isso tenho como objeto central da minha investigação compreender o modo como o ser humano se envolve ou engaja com a realidade e os outros, descobrir o que é necessário para convencer alguém a agir, a sair da sua passividade do mero consumir para interagir. Dos estudos que fui lendo, notei uma ênfase enorme na necessidade de esforço e trabalho, relatados em análises de grandes nomes das mais diversas áreas, desde o Cristiano Ronaldo a Pele, passando por Kournikova, mas também Avicii ou Lady Gaga, passando pelas estrelas criativas do cinema romeno Cristian Mungiu ou Cristi Piu, ou inovadores tecnológicos como Bill Gates e Steve Jobs, ou ainda nomes maiores como Mozart ou Proust [1, 2, 3, 4].

A ideia que passa, no final de entrarmos nestes universos de desmontagem académica dos processos de formação de talento, é de que é tudo criado por nós, que existe uma fórmula que podemos seguir para desenvolver qualquer talento, a ponto de podermos concluir que pode ser atingido por qualquer ser-humano desde que se esforce para tal. Mas em todos esses estudos fui sempre apontando um detalhe, que parece menor, mas é fundamental, a motivação intrínseca. Aquilo que nos move internamente. Não estou a falar do célebre “jeito”, menos ainda “dom”, mas de motivação para investir horas diárias a chutar numa bola, a programar, ou a escrever, porque todos os exemplos dados acima tiveram isso, nenhum deles foi formatado para ser o que é, foram eles que foram sempre além daquilo que o ambiente lhes pedia, porque queriam mais. Ou seja, não nascemos com um dom para ser cantores ou escritores, mas nascemos com inclinações que nos predispõem a sacrificar tudo o resto em nome daquilo que mais gostamos.

O exemplo que tenho em casa mostra bem isso. Claramente que é uma miúda privilegiada, com acesso a centenas e centenas de livros espalhados por toda a casa, assim como centenas de DVD e videojogos, ao que se acrescentam vários serviços de conteúdos online na televisão, consolas e computador. Mas tem as suas inclinações que a separam totalmente do irmão (10), que tem acesso exatamente ao mesmo entorno material e social. Adora cinema e séries mas não gosta de jogos de mestria ou abstratos, é boa aluna, mas não é brilhante, não se colocando ao lado das suas colegas que correm as pautas a cincos. Se os mando continuamente ler aos dois, já que os ecrãs são a sua maior perdição, ela vai lendo vários livros ao longo do ano, enquanto ele parece estar sempre a fazer provas de superação sempre que vai ler, a única coisa que vejo capaz de agarrar o seu foco, até agora, tem sido os jogos, digitais ou físicos.

Ela não lê desenfreadamente, pois por uma qualquer razão só gosta de ler quando vai para a cama à noite. Ainda ontem lhe perguntava pelo Harry Potter, só leu até ao 5º volume, por outro lado, viu os 8 filmes provavelmente mais de meia-dúzia de vezes. Do mesmo modo, leu ainda apenas os primeiros quatro livros do Game of Thrones, mas está quase a acabar a série. É alguém que adora histórias, independentemente do medium. Começou a ver longas-metragens completas da Disney aos 2 anos, enquanto o irmão, já com 10 anos, continua a perder o interesse nos filmes antes de chegarem ao fim. Quando era mais pequena levava-a a eventos com performers que contavam histórias e ela deliciava-se. E isto é talvez aquilo que vem inscrito na sua motivação, o universo das histórias, contadas, visualizadas, escritas e imaginadas. Não fomos nós em casa que lhe dissemos que as histórias eram relevantes, é algo que a atrai, que a motiva, que puxa pela sua curiosidade e a faz mover. Agora, claramente que precisa de alguém que a vá guiando que lhe mostre a diversidade criativa existente, mas mais do que isso, que existe algo para além do mero consumo, que ela também pode ser parte desse mundo de criação, e isto tem sido algo para o qual a mãe tem dado o maior contributo cá em casa. Entretanto, do que conseguimos perceber, tem vindo a dar os seus passos, mas tudo no segredo do seu quarto e dos seus cadernos pessoais, desconhecendo nós que qualidades ou fragilidades possui, mas a julgar por este concurso, parece estar a dar alguns frutos.

Desta pequena súmula volto a retirar o essencial daquilo que considero ser o papel principal da Escola, ajudar as crianças a encontrarem o seu próprio filão interior. O que gostam, como se vêem, o que os move e demove. São muitas as disciplinas que se ensinam na escola, e eles não precisam de ser bons em todas, menos ainda excelentes, e por isso talvez devessem ser ainda mais as disciplinas, as áreas abordadas, dada a amplitude de possibilidades de realização que o mundo complexo em que vivemos nos proporciona, ou pelo menos abrir-se mais o leque em termos de valências extra-curriculares. É por isso que além do que a escola oferece, lhe proporcionamos ainda o acesso a escolas de dança (ballet) e música (orgão). Acredito que é na frequência da multidisciplinaridade que as crianças e jovens poderão encontrar o seu modo, a sua força intrínseca, criar o seu espaço de ação interior e exterior, e virem a ser capazes de agir no seio dos outros de modo consequente.

Deixo ainda uma nota de agradecimento à escola e aos professores portugueses, que a sociedade teima em desprezar, em apontar o dedo atirando farpas de que tudo está sempre igual a quando por lá passaram. Mas a escola de hoje é diferente, porque os professores de hoje têm uma formação muitíssimo superior à que tinham os nossos professores. São muitas, imensas as atividades que todos estes professores criam e gerem ao longo do ano em cada escola, de Norte a Sul, desde os concursos de escrita criativa, a debates argumentativos, a construção de robôs, e modelação e impressão 3D, passando por programação de jogos, simuladores, jornais escolares, reportagens, olimpíadas de matemática, experiências, audições, intercâmbios, exposições, etc. etc. Claro que a maior parte de tudo isto está nas mãos dos professores individualmente, são eles sozinhos que retiram do tempo da sua família para dedicar sábados e fins de dia para que os alunos tenham mais do que aquilo que vem inscrito nas matrizes estandardizadas de conteúdos. Provavelmente precisamos de mudar essas matrizes, precisamos de uma matriz menos sobrecarregada e de fazer dos projetos individuais dos professores projetos de escola, e julgo que de certo modo é isso que está a ser feito com a chamada Autonomia e Flexibilidade Curricular, aguardemos pelos seus frutos. E bem-hajam.


[1] O Talento é Sobrestimado, 2012
[2] Outliers, 2011
[3] Código do Talento, 2014
[4] Necessidades e Realização Pessoal, 2018

terça-feira, abril 30, 2019

SciMed e a humildade em ciência

Entro na rede à procura de clínicas para fazer um exame de endoscopia, encontro uma perto de casa, entro e vejo que fizeram um vídeo explicativo do processo, acabo de ver o vídeo e como sempre faço, talvez por deformação profissional, vou ao YouTube ver de onde vem o vídeo, quantos o viram, comentaram, e que vídeos o YouTube me sugere mais. Surge um tal de "Dr. Lair Ribeiro - Ozonioterapia", não faço ideia do que seja, mas pelo título parece mais uma medicina alternativa. Começo a ver, invisto vários minutos e começo a pensar que o YouTube se tornou na maior arma de charlatanice da história. Pego no nome do senhor e faço pesquisa, nos primeiros cinco resultados aparece-me uma página do SciMed que me diz que o senhor, médico brasileiro, esteve recentemente em Portugal a debater com Rui Unas no Maluco Beleza. Em dúvida, entro no vídeo do Unas, vejo que se trata de uma entrevista de uma hora e meia, fico boquiaberto. Passo os olhos pelos comentários ao vídeo, só elogios ao senhor Lair!!! Volto ao artigo do SciMed, intitulado "Lair Ribeiro é um Charlatão – Análise Crítica às Suas Afirmações no Programa Maluco Beleza" no qual o médico João Júlio Cerqueira se dispõe a desmontar as falácias de Lair ao longo de um artigo longuíssimo (18 páginas). Se começo concordando, pensando em partilhar o texto para louvar o exemplo e esforço de desmontar falácias, quanto mais vou lendo mais incomodado me vou sentindo, já perto do final só sinto um trago amargo por cada novo parágrafo, até que bato com os olhos nos comentários dos leitores, uma enxurrada de ataques ao João em defesa de Lair, já com discussão xenófoba Brasil-Portugal pelo meio...


O sr. Lair pelos vistos perdeu-se no caminho da medicina, já que em tempos foi um médico de valor, inclusive investigou e publicou quase uma centena de artigos científicos, mas num certo momento da sua carreira algo lhe terá acontecido, porque abandonou a ciência, e começou a dedicar-se "à salvação dos mais necessitados" por meio das medicinas alternativas. Não sabemos se teve alguma experiência paranormal, ou se foi mera vítima da gula charlatã. Mas se o senhor é hoje um charlatão, não deixa de ter grande número de seguidores, tal como tem Edir Macedo, Olavo Carvalho ou Jordan Petersson. São pessoas dotadas de grande carisma, que acreditam estar imbuídas de uma missão, ou então são apenas pessoas despudoradas, capazes de tudo em nome de poder, fama e proveito económico.

Dito isto, não é difícil compreender que se movem ânimos intensos a favor e contra estas personagens. Não são apenas os seus defensores que se jogam na frente e dão o corpo em sua defesa. Todos aqueles que todos os dias trabalham em prol da sociedade, sentem-se de algum modo injustiçados por indivíduos que por graça do seu carisma contribuem apenas para destruir aquilo que vai dando tanto trabalho a criar, e por isso quando podem alinham-se também na primeira fila do pelotão, prontos a fuzilar. O João apresenta-nos um texto de puro fuzilamento. Em defesa do João podemos dizer que apresenta evidência, que desmonta os argumentos contrapondo com factos, reportando a estudos da comunidade internacional, que tornam claro quem tem razão, ou quem está mais próximo da verdade. Contudo, todo esse trabalho é destruído pelo tom do discurso, que por vezes conta mais do que o teor do conteúdo, mais ainda se tratando de esgrima argumentativa. E não adianta falar em falácias, ou conhecer as comuns falácias argumentativas, sem comunicação apropriada as ideias não se sustentam.

Começa logo na imagem usada para o artigo que dá o mote para a chacota que percorre todo o resto do texto. O João ainda começa por dizer que vai fazer uma “análise crítica”, mas logo a seguir inicia com termos como “missa habitual” seguido de “paletes de mentiras”, e ao longo de todo o texto, aqui e ali, vai como que encostando a ponta da faca da espingarda à barriga de Lair — “quem percebe o mínimo de medicina”, “ser evangelizado pelo Lair Ribeiro”, “é uma treta”, “tretólogo”, ”crendice”, “está tão gasto que dói”, “cheirar a mofo“ — ou até puro ad hominem disfarçado com “oligofrenia” e “culto oligofrénico”. Mas vai mais longe, embevecido pela sua luta, e vontade de fuzilar, leva tudo na frente cometendo erros graves como dizer: “Nenhum cientista que se preze cita livros para justificar posições.” Posso até conceder que na sua área não usem, mas a sua área não é toda a ciência. E mais, atacar assim o livro, enquanto objeto central do conhecimento, acaba por só levantar dúvidas à sua argumentação, mais ainda de todos aqueles que não trabalham com ciência e nem sequer sabem o que é um paper. Acrescentando por fim que o João acusa o Lair de se autocitar, vangloriando o Eu em vez da ciência, e depois acaba por ele próprio autocitar-se ao longo do texto várias vezes.


Chegado ao final, pergunto-me: o que retira o João de todo este trabalho, são horas e horas que estão ali (de análise de vídeos, desmontagem de argumentos, composição de imagens e diagramas, pesquisa e escrita)? É capaz de se sentir realizado porque despejou o saco, ventilou, pôs cá para fora toda a irritação de ver a ciência, e o seu trabalho, maltratados. Mas o João já se perguntou se aqueles que seguem o Sr. Lair deixam de o seguir depois de ler o João? A julgar pela discussão nos comentários ao texto do João, é fácil perceber que não. Para que serve então tudo isto?

O que me apraz dizer é algo que não é novo, que fazem falta nos cursos de medicina disciplinas que trabalhem a empatia dos médicos, que os ajudem a colocar-se no lugar do outro, neste caso teria sido muito útil ao João, perceber que ele não está a escrever para o seu Eu. Mas talvez mais importante do que isso, e já que vivemos tempos em que o Japão (já voltou atrás) e o Brasil (espero que volte atrás) querem acabar com os cursos de Filosofia, seria importante que todos os alunos de Medicina, mas não só, tivessem disciplinas de Filosofia, porque a Humildade Científica é o valor mais importante de qualquer aprendizagem científica.

sexta-feira, abril 26, 2019

Sobre o Mito: “desde que se leia”

Um dos grandes mitos que surgiu nas últimas décadas com a elevação do discurso pós-moderno a discurso popular e consequente queda de reconhecimento dos especialistas, foi o da colocação ao mesmo nível de qualquer texto, independentemente da sua forma ou conteúdo. Diz-se e lê-se um pouco por todo o lado: “o que é preciso é ler, desde que se leia, não importa o quê”. Nada podia ser mais erróneo. Vamos usar um modelo simples de análise textual para perceber porque importa e faz diferença aquilo que se escolhe para ler.


A desconstrução, simples, de texto pode ser feita nas suas três unidades básicas que funcionam como camadas: sintaxe, semântica e pragmática. Assim, temos:
1º nível – Sintaxe: conjunto de regras e princípios que governam a estrutura das frases (Ex. explica como se conjugam verbos, ou plural e singular, etc.); 
2º nível – Semântica: é onde se atribui sentido às palavras e frases (Ex. “bola”, quer dizer pedaço de borracha esférica; mas “bola de futebol americano” quer dizer pedaço de borracha oval).
3º nível – Pragmática: aqui elevamos a complexidade, é onde se atribui sentido às palavras e frases em função da relação que temos com os significados ou com a pessoa que as emite. (Ex. “cruz”, um católico pensará em Cristo, mas um matemático tenderá a pensar em sinal de multiplicação; se um professor e um médico nos dizem “que não estamos a ir bem”, apesar da mesma sintaxe e mesma semântica, não querem dizer o mesmo).
Quando iniciamos os nossos passos como leitores, perto dos 6 anos, começamos pela sintaxe. Aprender as letras, depois palavras, depois regras que nos permitem juntar palavras e formar frases. Quanto mais lermos, mais exemplos vamos conhecer sobre como juntar letras e palavras para criar frases. Depois disso, começamos a perceber que existem muito mais palavras do que aquelas que usamos no dia-a-dia e que exigem durante o processo de leitura o uso do dicionário, o que nos vai fazendo ampliar o vocabulário, assim como acrescentando novos significados a frases compostas que antes desconhecíamos. Depois disso, começamos a perceber que apesar de poderem ser as mesmas palavras ou frases, elas variam em função de quem está a falar, do contexto, do local ou momento em que estão a ser ditas, e por isso vamos ampliando a nossa bagagem das múltiplas interpretações possíveis da linguagem.

Tendo em conta estes processos, podemos dizer que ler sempre o mesmo, ou um conjunto restrito de estilos textuais, é suficiente para o domínio sintático. Ou seja, para uma criança pequena, a dar os primeiros passos, não interessa muito o que vai lendo, desde que leia. O que se pretende é que memorize as letras, palavras, frases as suas posições, organizações e usos. Mas a determinada altura, temos de começar a guiar as leituras, temos de lhes oferecer textos que eles compreendam para que se mantenham a ler, mas que ao mesmo tempo vão exigindo mais e mais conhecimento de significados, de forma a garantir que eles vão ampliando o vocabulário, os diferentes usos frásicos, assim como as noções de composição diferentes dessas mesmas frases. Chegados à terceira fase, temos de começar a ler aquilo que numa primeira leitura não nos atrai, por ser diferente do que estamos habituados, ou seja, "sair da zona de conforto". Porque já não chega ampliar o vocabulário, precisamos de ler diferentes versões da realidade para podermos começar a comparar, a confrontar e a contrastar, e assim começar a compreender porque as mesmas palavras, e as mesmas frases, e as mesmas ideias podem conter outros significados até aí desconhecidos.

É por isso que ler qualquer coisa não é indiferente. Se lermos todos os dias, mas a leitura for colocada sempre ao mesmo nível de desafio, ou seja, não forem apresentados significados novos de palavras, frases, ou dos seus diferentes usos, é como se não estivéssemos a ler nada. O texto está a servir apenas de condutor, de envelope, ao qual nem sequer prestamos atenção. É como passar todos os dias na mesma estrada, não aprendemos mais sobre ela depois de passar por ela 100 vezes, não é por acaso que na maior parte dos dias não nos lembramos sequer de ter feito a estrada para o trabalho, nada de novo chamou a nossa atenção, foi mera repetição, por isso nada ficou dessa passagem.

Ou seja, ler Dan Brown ou José Rodrigues Santos pode até saber-me bem pela intriga e aventura, pode funcionar como umas horas bem passadas de entretenimento, mas por mais horas que os passe a ler, as minhas competências tanto de compreensão textual como de escrita não vão melhorar em nada (a não ser que seja um adolescente, ou seja alguém que leu muito pouco, e ainda não tenha atingido um nível médio). Lê-los, será como passar pela mesma estrada para o trabalho todos os dias, com a vantagem de poder ser divertido.

Do mesmo modo, se for um livro de não-ficção — sobre Astronomia, Vinhos ou Cinema — aprendo sobre o assunto em questão, mas não devo esperar que essa leitura altere ou contribua para melhorar as minhas competências de leitura e escrita. Por outro lado, se não incrementar o nível de detalhe, aprofundamento e erudição dos tópicos sobre esses temas, pela ausência de variação continuarei apenas a solidificar o que já sei, não passando disso. É por isso que as novelas de amor e traição se revelam tão pouco relevantes para além do mero divertimento, não só são limitadas no uso das funções textuais, como não vão além do baralhar e voltar a dar das tramas amorosas, descurando toda a restante complexidade humana.

Nunca se leu tanto no planeta como hoje, porque nunca as pessoas viram a sua realidade tão mediada por ferramentas que operam com imagens e texto, sendo o texto o principal meio de que as pessoas dispõem para se fazer ouvir. Desde os jornais e suas caixas de comentários ao Facebook, Twitter ou WhatsApp, nunca nos vários milhares de anos que levamos como espécie, houve tanta pessoa alfabetizada e obrigada a ler todos os dias para poder levar a sua vida por diante, no entanto essa prática diária não alterou propriamente as competências de leitura e escrita das pessoas. Basta perder um pouco a ler essas mesmas caixas de comentários e deter-se sobre o uso dado ao texto, a sua sintaxe, semântica e pragmática.


Podia terminar com o último parágrafo, mas não estaria a dar um contributo completo, por isso deixo duas recomendações: The Greatest Books e PNL2027.