setembro 25, 2020

Do poder, autoridade e responsabilidade

"O Consentimento" ("Le Consentement") (2020) é um livro de memórias que teve o impacto de uma bomba na sociedade francesa aquando do seu lançamento em janeiro de 2020, e que sai na próxima semana em Portugal. O livro de Vanessa Springora, editora literária francesa com 47 anos, dá conta de uma fase na sua vida, no início dos anos 1980, em que se viu envolvida sexualmente com o escritor francês, Gabriel Matzneff, reconhecido em França mas praticamente desconhecido no exterior, na altura ela com 14 anos, ele com 50. Matzneff não era apenas reconhecido como escritor, em surdina dizia-se também que era pedófilo, o que nunca impossibilitou a continuada publicação da sua obra pelas maiores editoras francesas, a receção de prémios de carreira e até subvenções estatais. Foi preciso esperar mais de 30 anos e por um livro de memórias para a sociedade francesa acordar.

O livro de Springora está muito bem escrito, é curto, não se perde em detalhes, vai direto ao assunto após uma breve contextualização familiar. Nota-se uma enorme atenção ao modo como tudo é dito, tanto na identificação de pessoas, como de lugares e instituições. Springora é uma editora, sabe o que faz, e aquilo que não se deve fazer. Não existem descrições gráficas, que seriam expectáveis num livro que é quase como um grito de revolta contra o seu país, tanto para exposição de raiva, como de vingança, assim como pela tentativa de trazer para junto de si as pessoas por via da tragédia. Mas ela não deixa de nos agarrar, pelo caminho contrário, expondo o seu sentir, antes, durante e depois. Questionando quem devia ter agido durante e desde então.

Springora escreve com enorme sabedoria, com enorme sensibilidade, vai ao fundo da questão que não é o pedófilo em concreto, mas o efeito do pedófilo sobre a criança que se é quando se tem 14 anos. O título fala de consentimento, mas que consentimento pode dar quem não tem direito a conduzir um carro ou a votar? E como pode a sociedade menosprezar e atacar quem por lá passou, sem se dignar a tudo fazer para defender estas pessoas e ajudá-las a sair do buraco para onde foram atiradas?

Não me apetece falar da história do escritor, a quem nada reconheço, nem sequer conhecia o seu nome antes de ler este livro. Dos 50 livros que terá escrito, só um surge amiúde referido quando se fala de si, "Les moins de seize ans" ("Os menores de 16 anos") de 1974. Um livro em que defende, de forma lasciva e atroz, o direito ao "amor" por crianças, rapazes e raparigas, mas que lhe serviria para defender, literariamente, aquilo que fazia na vida real, f@der jovens dos 8 aos 14 anos, em França e nas Filipinas. 

Aquilo de que tenho mesmo de falar, e que foi o que me levou a ler este livro, é a razão pela qual a sociedade francesa permitiu a um personagem desta envergadura reinar — escrever crónicas em grandes jornais, ser entrevistado pelas televisões, ganhar prémios nacionais — sem nunca ser questionado. É preciso regressar a Maio de 1968, para perceber como este dissimulado conseguiu tamanho feito. Num tempo em que era "Proibido Proibir" ele soube envolver-se na luta pela libertação sexual para defender o seu fetiche, e com isso levar nomes de peso atrás. Confesso que fiquei incomodado ao descobrir, neste livro, que manifestos de Matzneff, em defesa da despenalização das relações sexuais entre menores e adultos, lançados no final dos anos 1970, receberam o apoio de alguns dos monstros sagrados da elite francesa — Roland Barthes, Gilles Deleuze, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Louis Althusser, Jacques Derrida. Salva-se o facto de saber que entre os poucos que recusaram assinar estiveram Marguerite Duras e Michel Foucault. A influência de toda esta elite faria com que o personagem conseguisse chegar aos favores de poderosos, na política François Miterrand, no dinheiro, o riquíssimo Yves Saint Laurent. 

Repare-se que isto não são histórias de 1700, ou 1850, nem sequer 1950. Estamos a falar dos anos 1980. E Springora não foi a única, como se sabe mais no final do livro, existiu também uma Nathalie, e sabe-se agora por via do NYT, que existiu antes de Springora, Francesca Gee, para não falar das crianças em Manilla. Quantas mais existirão? A polícia francesa abriu um inquérito para apurar sobre mais vítimas. 

"Vanessa Springora Acreditamos em Ti"

O personagem tem agora 83 anos, tinha doado todos os seus manuscritos à biblioteca nacional francesa para serem preservados "para a eternidade". Nesses incluiam-se cartas escritas pelas mãos das meninas que violou, histórias pessoais e fotografias deslas que usou para escrever vários dos seus pseudo-livros. Temos de agradecer a Springora a coragem para obrigar toda a sociedade francesa a tirar a cabeça da areia, e a rever todo mal feito, porque como ela diz:

A longo de anos circulei dentro da minha própria jaula, cheia de sonhos de assassinato e vingança. Até ao dia em que a solução finalmente se apresentou, ali, na frente dos meus olhos, tão óbvia: agarrar o caçador na sua própria armadilha, prendê-lo num livro.


Mais info:

Dossier Le Figaro, 2020 

A Pedophile Writer is on Trial, NYT, 02.2020

Quand des intellectuels français défendaient la pédophilie, France Culture, 01.2020

Long-Silenced Victim of a Pedophile Writer Gets to Tell Her Story, NYT, 03.2020

Affaire Matzneff : son livre “Les moins de seize ans” retiré de la vente, la police s’en mêle, Telerama, 01, 2020

French publishing boss claims she was groomed at age 14 by acclaimed author, The Guardian, 27.12.2020

33 anos depois, Vanessa acusa escritor famoso de pedofilia, Sábado, 01.2020

setembro 21, 2020

Da Ficção Científica à Filosofia

“Stories of Your Life and Others” (2002) é um livro de contos dotados de boas estruturas narrativas, bom conhecimento científico e, acima de tudo, apurada crítica social. As ideias centram-se no domínio da ficção científica, com alguma fantasia à mistura, seguindo de perto alguns modelos especulativos reconhecidos, tais como “Black Mirror” ou “Twilight Zone”. Ou seja, aquilo que aqui importa não é a escrita, nem sequer a história, mas apenas as ideias. Podemos dizer que estas abordagens da ficção especulativa, que usam metáforas do dia-a-dia para elaborar abstrações críticas, muito suportadas em ciência, acabam evadindo-se da FC para a Filosofia. No fundo, o que preocupa o escritor e os leitores, é a discussão da ideia, a sua plausibilidade, aceitabilidade, exequibilidade, e por fim significado.

Este foi o primeiro livro de contos de Chiang, mas as histórias foram todas (exceto Liking What You See) publicadas previamente entre 1990 e 2001, em coletâneas com outros autores, revistas como a Asimov's Science Fiction, e uma delas — The Evolution of Human Science — foi mesmo publicada na Nature, a revista mãe das revistas científicas. Muitas destas histórias arrecadaram os Oscars e Emmys da ficção científica, ou seja o Hugo e o Nebula na categoria de contos, levando Chiang a conquistar mais de 10 prémios, desde 1991.

Arrival é uma adaptação do conto Story of Your Life 

Das 8 histórias a mais conhecida hoje é sem dúvida Story of Your Life (1998) por ter sido adaptada ao cinema por Denis Villeneuve com Arrival em 2016. Para quem tiver visto o filme, as ideias que ali se discutem, a sua importância e impacto nas sociedades humanas, serve bem de ilustração do trabalho de Chiang. Naturalmente, e como acontece em todos os livros de contos, não sentimos que todos valem o mesmo, nem que todos valem sequer a pena, por isso deixo-os listados por número de estrelas que atribuí a cada um.


5 *****

Tower of Babylon (1990)

Understand (1991)

Story of Your Life (1998)

4 ****

The Evolution of Human Science (2000)

Liking What You See: A Documentary (2002)

3 ***

Division by Zero (1991)

Seventy-Two Letters (2000)

Hell Is the Absence of God (2001)


setembro 20, 2020

Envelhecer e morrer

“Ser Mortal” (2014) de Atul Gawand é um livro sobre a experiência de morrer, ou de viver para morrer. Discute o processo como chegamos, fisiológica e psicologicamente, ao fim e avança com dezenas de casos e estudos sobre os diferentes modos de partir, e especialmente sobre o modo como nós, enquanto sociedade ocidental, temos vindo a tratar essa partida. Dá conta dos problemas criados pelas ilusões da medicina e dos hospitais assim como das angústias da morte, focando-se especialmente na área que se veio a definir como “cuidados paliativos”, que tem como missão exatamente evitar os problemas e as angústias da chegada ao fim. O livro está escrito num tom próximo e extremamente empático, abrindo-nos a território normalmente colocado à margem da discussão diária, mas inevitável para todos nós. Nem sempre concordando com Gawand, considero que o livro faz um excelente trabalho na discussão do tema, oferecendo matéria e espaço ao leitor para elevar a consciência de si.

Tenho algumas convicções sobre os últimos tempos de vida que me acompanham há muitos anos. Com a chegada de familiares a idades avançadas, e com a manutenção de conversas quase diárias com os mesmos, essas convicções manteram-se estáveis. O livro de Gawand ajudou-me a refletir sobre o melhor para os meus familiares, mas não me transformou. A vida, como ele próprio assume, é a história que nos contamos a nós mesmos. Existe um início, um desenvolvimento e uma conclusão. Aceitar que o final é inevitavelmente distinto do início faz parte da tomada de consciência daquilo que somos enquanto entidades biológicas. Não podemos escrever, nem reescrever o início, mas gostaríamos de fechar com algo bom, tanto para nós como para os que ficam. Nada mais direi, julgo que as palavras de Gawand abrem suficiente caminho à reflexão de cada um.

Deixo alguns excertos:


***

“O cérebro dá-nos duas maneiras de avaliar experiências como o sofrimento – há a maneira como apreendemos essas experiências no momento e como as encaramos mais tarde – e essas duas maneiras são profundamente contraditórias." 

Achamos que uma dor de longa duração é pior do que uma dor de curta duração e que ter um nível médio de dor maior é pior do que ter um nível médio de dor menor. Mas não foi nada disso que os doentes disseram. As suas classificações finais ignoraram em grande parte a duração da dor. Em vez disso, as classificações regeram-se mais por um fenómeno a que Kahneman chamou «a regra do pico-fim»: a média da dor sentida em apenas dois momentos: o pior momento em toda a intervenção e o final.” (ler mais sobre Daniel Kahneman)

“As pessoas pareciam ter dois eus diferentes: um que passa pelas experiências e vivencia cada instante, e outro que recorda as experiências e atribui quase todo o peso do juízo de valor a dois meros pontos no tempo, o pior e o último. O eu que recorda parece ater-se à regra do pico-fim, mesmo quando o final é uma anomalia. Bastou uns minutos sem dor no fim da intervenção médica para reduzir drasticamente as classificações globais de dor dos doentes, inclusive tendo sentido mais de meia hora de dor intensa. «Não custou assim tanto», disseram depois.”


***


“Devíamos escutar o eu que recorda – ou, neste caso, que antecipa – e se concentra nas coisas piores que ela poderia sofrer? Ou devíamos escutar o eu que vive e que provavelmente teria um nível médio de sofrimento mais baixo no futuro imediato e talvez até conseguisse voltar a comer durante uns tempos, se ela fosse operada em vez de ir simplesmente para casa?”

“No fim, as pessoas não veem a vida como uma mera média de todos os seus momentos que, no fim de contas, se reduzem a pouca coisa, uma vez que passamos uma parte do tempo a dormir. Para os seres humanos, a vida tem sentido porque é uma história. Uma história constitui um todo e o seu arco é determinado pelos momentos significativos, aqueles em que acontece qualquer coisa. As medições dos níveis de prazer e dor das pessoas de minuto para minuto não têm em conta este aspeto fundamental da existência humana. Uma vida aparentemente feliz pode ser vazia. Uma vida aparentemente difícil pode ser dedicada a uma grande causa. Temos objetivos maiores do que nós. Ao contrário do eu que vive – que está absorvido no momento –, o eu que recorda tenta reconhecer não só os picos de alegria e os vales de infelicidade, mas também como é que a história se desenrola como um todo. Isto é profundamente afetado pela maneira como, em última análise, as coisas acabam por acontecer. Porque é que um adepto de futebol deixa que uns minutos falhados no fim de um jogo estraguem três horas de prazer? Porque um jogo de futebol é uma história. E numa história, o final é importante.”


***


"O progresso da Medicina e da saúde pública tem sido uma dádiva enorme. No entanto, 

(...) 

Precisamos de ajuda, muitas vezes durante longos períodos de tempo, e consideramos isso como uma fraqueza em vez de o vermos como a nova realidade normal com que devemos contar. Estamos sempre a regurgitar histórias sobre não sei quem que, aos noventa e sete anos, ainda corre a maratona, como se casos desses não fossem milagres de sorte biológica e sim expectativas razoáveis para todos nós. 

(...)

A história do envelhecimento é a história das nossas partes constituintes. 

(...) 

Ao mesmo tempo que os nossos ossos e dentes se tornam mais moles, o resto do corpo torna-se mais duro. Vasos sanguíneos, articulações, os músculos e as válvulas do coração e até os pulmões ganham depósitos consideráveis de cálcio e ficam rígidos. Ao microscópio, os vasos e tecidos moles apresentam o mesmo tipo de cálcio que encontramos nos ossos. Quando abrimos um paciente idoso numa operação, a aorta e outras artérias principais parecem estaladiças ao toque. Estudos demonstraram que a perda de densidade óssea pode ser um indicador ainda melhor da morte por aterosclerose do que os níveis de colesterol. À medida que envelhecemos, é como se o cálcio se soltasse do esqueleto e se entranhasse nos tecidos. 

Para manter o mesmo volume de sangue a correr nas veias mais estreitas e rígidas, o coração tem de gerar uma pressão maior. Consequentemente, mais de metade das pessoas chega aos sessenta e cinco anos com problemas de hipertensão. O coração fica com as paredes mais grossas por ter de bombear contra a pressão e menos capaz de responder a um esforço tão grande. O rendimento do coração começa, por conseguinte, a diminuir a um ritmo gradual a partir dos trinta anos. As pessoas deixam aos poucos de conseguir correr tanto ou tão depressa como antes, ou de conseguir subir um lanço de escadas sem ficarem ofegantes. 

Enquanto o músculo do coração se torna mais grosso, os músculos do resto do corpo tornam-se mais finos. Por volta dos quarenta anos, começamos a perder massa muscular e força. Aos oitenta, perdemos entre um quarto e metade do nosso peso muscular. 

Podemos ver todos estes processos em ação nas mãos, por exemplo: 40 por cento da massa muscular da mão está nos músculos tenares, os músculos do polegar, e se olharmos com atenção para a palma da mão de uma pessoa idosa, reparamos que na base do polegar a musculatura não é saliente mas sim achatada. Numa radiografia básica, vemos manchas de calcificação nas artérias e translucidez dos ossos, que, a partir dos cinquenta anos, perdem densidade a uma taxa de quase um por cento ao ano. A mão tem vinte e nove articulações, todas elas propensas a serem destruídas pela osteoartrite, que dá à superfície das articulações um aspeto irregular e gasto (...) A deterioração dos recetores mecânicos cutâneos das pontas dos dedos causa perda de sensibilidade ao toque. Perda de neurónios motores gera perda de destreza. A caligrafia degrada-se. A velocidade da mão e a noção de vibração diminuem. Utilizar um telemóvel banal, com os seus botões minúsculos e ecrã táctil, torna-se cada vez mais impraticável. 

Isto é normal. Embora possamos abrandar os processos – o regime alimentar e o exercício físico podem ajudar muito –, não os podemos travar. A nossa capacidade pulmonar diminui. Os intestinos abrandam. As glândulas deixam de funcionar. Até o cérebro encolhe: aos trinta anos, o cérebro é um órgão de quilo e meio que mal cabe dentro do crânio; aos setenta, a perda de matéria cinzenta deixa quase dois centímetros e meio de espaço livre. É por isso que pessoas idosas como o meu avô têm muito mais probabilidades de sofrer uma hemorragia cerebral se levarem uma pancada na cabeça, porque, de facto, o cérebro chocalha dentro do crânio. As partes que encolhem mais cedo são geralmente os lobos frontais, que gerem o discernimento e a capacidade de planeamento, e o hipocampo, onde se organiza a memória. Consequentemente, a memória e a capacidade de recolher e pesar múltiplas ideias – ou seja, de fazer várias coisas ao mesmo tempo – atingem o auge na meia-idade e depois diminuem gradualmente. A velocidade de processamento também começa a decrescer antes dos quarenta (e é por este motivo que normalmente os matemáticos e os físicos produzem os seus melhores trabalhos na juventude). Aos oitenta e cinco anos, a memória e o discernimento estão tão diminuídos que 40 por cento das pessoas apresenta as características típicas da demência. "


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“Uma das grandes vantagens do antigo sistema era que tornava estas decisões simples. Escolhíamos o tratamento mais agressivo que houvesse. Na realidade, não era uma decisão, era uma configuração padrão. Esta coisa de ponderarmos as nossas opções – de decidirmos quais eram as nossas prioridades e trabalharmos com um médico para encontrarmos o tratamento que melhor encaixava nelas – era esgotante e complicada, especialmente quando não tínhamos um especialista à mão de semear para nos ajudar a analisar os imponderáveis e as ambiguidades. A pressão mantém-se toda numa só direção, no sentido de fazer mais, porque o único erro que os médicos parecem temer é o de não fazerem o suficiente. A maior parte não tem a noção de que é possível cometer erros igualmente terríveis no sentido oposto: de que fazer demasiado pode ser igualmente devastador para a vida de uma pessoa. ”


***


“Pelo menos dois tipos de coragem são necessários na velhice e na doença. O primeiro é a coragem de enfrentar a realidade da mortalidade: a coragem de procurar a verdade sobre o que devemos temer e do que devemos esperar. Só essa coragem já é extremamente difícil. Temos muitas razões para nos retrairmos. Mas ainda mais assustador é o segundo tipo de coragem: a coragem de agir em consonância com a verdade com que nos deparamos. O problema é que o caminho sensato é tantas vezes pouco claro. Durante muito tempo, pensei que isso se devesse simplesmente à incerteza. Quando temos dificuldade em saber o que vai acontecer, temos dificuldade em saber o que fazer. Mas acabei por perceber que o desafio é mais básico do que isso: temos de decidir o que é que mais deve importar, se os nossos medos ou as nossas esperanças.”


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“Estamos com dificuldade em manter uma distinção filosófica coerente entre dar às pessoas o direito de suspenderem processos externos e artificiais que lhes prolongam a vida e dar-lhes o direito de interromper os processos naturais e internos que o fazem. ”

“No fundo, este debate é sobre qual dos erros tememos mais: o erro de prolongar o sofrimento ou o erro de encurtar uma vida preciosa. Impedimos as pessoas saudáveis de cometer suicídio, porque reconhecemos que o seu sofrimento psíquico é muitas vezes temporário. Achamos que, com ajuda, mais tarde o eu que recorda verá as coisas de maneira diferente do eu que as vive e, de facto, só uma minoria de pessoas resgatadas do suicídio volta a fazer uma tentativa de pôr fim à vida; a grande maioria acaba por se mostrar contente por estar viva. Mas perante os doentes terminais que enfrentam um sofrimento que sabemos que se tornará cada vez maior, só uma pessoa com um coração de pedra é que não sentirá compaixão.

“Nos Países Baixos, por exemplo, este sistema existe há décadas sem que tenha havido um movimento de oposição a ele, e é cada vez mais usado. Mas o facto de que, em 2012, um em cada trinta e cinco holandeses recorria ao suicídio assistido não é uma medida de sucesso. É uma medida de fracasso. No fim de contas, o nosso objetivo supremo não é dar às pessoas uma morte boa e sim uma vida boa até ao fim. Os Holandeses demoraram mais tempo do que outros povos a desenvolver programas de Cuidados Paliativos que pudessem alcançar esse objetivo.”

(...)

“Mas prejudicamos sociedades inteiras, se permitirmos que o dar às pessoas essa capacidade nos desvie do objetivo de tentarmos melhorar a vida dos doentes. A vida assistida é muito mais difícil do que a morte assistida, mas as suas possibilidades são bem melhores.”


***


“Quando cheguei à beira dele, encontrei-o alerta e infeliz por ter acordado no hospital. Queixou-se de que ninguém lhe dava ouvidos. Tinha acordado cheio de dores, mas a equipa médica recusava-se a dar-lhe analgésicos que chegassem para elas passarem, com medo de que ele perdesse novamente os sentidos. Pedi à enfermeira para lhe dar a dose que ele tomava em casa, na totalidade. Ela teve de pedir autorização ao médico de serviço e, ainda assim, ele só autorizou metade.

Por fim, às três da manhã -- fartou-se e desatou aos gritos. Exigiu que lhe tirassem as sondas intravenosas e o deixassem ir para casa. «Porque é que não fazem nada?», berrou. «Porque é que me estão a deixar em sofrimento?» A dor deixara-o incoerente. Ligou do telemóvel para a Cleveland Clinic – a trezentos quilómetros de distância – e disse a um médico perplexo, que estava de serviço: «Faça alguma coisa!» A enfermeira da noite conseguiu finalmente autorização para lhe dar um narcótico intravenoso, mas ele recusou. «Não funciona», disse. Por fim, às cinco da manhã, conseguimos convencê-lo a levar a injeção e a dores começaram a abrandar. Ele acalmou-se, mas continuou a dizer que queria ir para casa. Num hospital criado para assegurar a sobrevivência a todo o custo e pouco apto para agir de outra maneira que não nesse sentido, ele sabia que, ali, nunca seria ele a tomar as decisões. ”

(...)

“Não quero sofrer», repetiu, quando me apanhou a sós. «Aconteça o que acontecer, prometes-me que não me deixas sofrer?» 


***


“Quando eu era pequeno, as lições que o meu pai me ensinava eram sobre perseverança: nunca aceitar os obstáculos que se pusessem no meu caminho. Já adulto, observando-o nos seus derradeiros anos de vida, acabei por aceitar as limitações que pura e simplesmente não podemos descartar à custa de força de vontade. Nem sempre é fácil perceber quando devemos enfrentar os obstáculos e quando devemos tirar o melhor partido deles. Mas é evidente que, às vezes, o preço de os contrariarmos é demasiado alto e não compensa. Ajudar o meu pai na sua luta para definir esse momento foi simultaneamente uma das experiências mais dolorosas e mais enriquecedoras da minha vida. 

Uma das maneiras de o meu pai lidar com as limitações foi encarando-as sem ilusões.”

***


setembro 19, 2020

Orgulho e moral

"A Hidden Life" (2019) de Terrence Malick provoca e coloca-nos no lugar do outro. Apresenta um personagem, baseado numa pessoa real, que abdicou de tudo, de si e da sua família, pela não submissão ao regime nazi, sendo condenado à morte. O filme rasga-nos em dois, por um lado a consternação com a teimosia e orgulho capaz de levar alguém a desistir de si, da mulher e três filhas, por outro, a necessidade de defender aqueles que ousaram defender a moral... como diz um personagem a meio do filme: "Don't they know evil when they see it?

Em termos estéticos, o filme é um festim sensorial capaz de nos fazer imergir ao longo de 3 horas. Deixo algumas imagens e a ligação para a belíssima banda sonora.













setembro 13, 2020

O Verdadeiro Criador de Tudo (2020)

Miguel Nicolelis (1961) é um médico formado pela universidade de São Paulo e professor de neurobiologia na Universidade de Duke, EUA. A sua carreira tem sido recheada de prémios, reconhecimentos e louvores. Tornou-se popular com o projeto "Andar de Novo”, criado para a abertura do Mundial de Futebol 2014 (Brasil), que por meio de um exosqueleto, interfaces cerebrais e inteligência artificial permitiu a um paraplégico andar, chutar e marcar um golo. O projeto fez correr muita tinta, dentro e fora da academia, mas o principal resultado está neste seu livro "The True Creator Of Everything. How The Human Brain Shaped The Universe As We Know It" (2020), sob a forma de uma grande teoria sobre a realidade e o cérebro. 
Nicolelis abre o livro com a discussão do “Projeto Andar de Novo” focando-se sobre algo que parece um detalhe, mas que se torna central na discussão subsequente. No momento em que Juliano Pinto chuta a bola e marca golo, ele não grita “golo”, mas grita “I felt the ball! I felt the ball!”. O projeto pretendia criar um sistema de apoio artificial à locomoção da pessoa, que por ser tetraplégica deixou de controlar as suas pernas porque simplesmente não as sentia. Com este projeto, e com a tentativa de por meio de interfaces cerebrais colocar o cérebro a mexer as pernas por via de motores, o cérebro do paciente parece ter ido além, tendo conseguido realocar as sensações das pernas por via do sistema providenciado (ver imagem abaixo). 

Os exemplos disto são muitos, Nicolelis numa entrevista explica como o podemos fazer nós mesmos:
“coloque uma venda em uma pessoa normal como eu e você, e deixe passar  10, 15 minutos. Depois pegue um aparelho de ressonância magnética e peça a pessoa vendada para fazer uma tarefa tátil com as pontas dos seus dedos. [Com esse experimento] vamos detetar respostas táteis no seu córtex visual já. Isso sugere que existe uma conectividade entre o sistema sinestésico e o sistema visual (...) A gente encontra esse crosstalk de funções cerebrais por todo o lugar do córtex.”
O autor parte depois para uma discussão sobre a criação e seleção natural do nosso cérebro que teve impactos não apenas na morfologia mas no seu funcionamento em concreto, a partir do que vai iniciar a apresentação da sua proposta com o novo conceito de “informação godeliana”. Este tipo de informação, segundo Nicolelis, aproxima-se da informação digital, segundo descrita por Claude Shannon, com a diferença de ser analógica, mas mais do que isso, dada a sua imbricação natural com os tecidos, não formalizável, seguindo Godel. Mas é exatamente por possuirmos esse sistema de informação, que podemos reutilizar o cérebro de inúmeras formas diferentes. Ou seja, não existem área específicas para executarem funções no cérebro, elas podem ser realocadas, migradas, transformadas, em função da informação que recebem, abrindo espaço à “Teoria do Cérebro Relativístico”.

Com esta ideia estabelecida Nicolelis parte para discussão do cérebro enquanto criador da realidade que conhecemos. Imbuído do sistema de “informação godeliana” que permite construir a realidade nas nossas mentes de uma forma determinada, dá conta da impossibilidade desta informação ser replicada informaticamente e do modo como diferiria de uma qualquer espécie que tivesse surgido noutro qualquer planeta. O relevante desta proposta é que sustenta ideias discutidas pela filosofia desde a Alegoria da Caverna de Platão, para o que Nicolelis se suporta em Godel e contrapõe a ideia de que a matemática ou física sejam capazes de explicar algo além daquilo que o nosso cérebro possa compreender. 

Para o efeito transcreve um diálogo delicioso entre Albert Einstein e o Nobel da literatura, Rabindranath Tagore, ocorrido em Berlim a 14 julho 1930, que passo a transcrever:
Einstein: There are two different conceptions about the nature of the universe: (1) The World as a unity dependent on humanity. (2) The world as a reality independent of the human factor. 

Tagore: When our universe is in harmony with Man. The eternal, we know it as Truth, we feel it as beauty. 

Einstein: This is the purely human conception of the universe. 

Tagore: There can be no other conception. This world is a human world—the scientific view of it is also that of the scientific man. There is some standard of reason and enjoyment which gives it Truth, the stan- dard of the Eternal Man whose experiences are through our experiences. 

Einstein: This is a realization of the human entity. 

Tagore: Yes, one eternal entity. We have to realize it through our emotions and activities. We realized the Supreme Man who has no individual limitations through our limitations. Science is concerned with that which is not confined to individuals; it is the impersonal human world of Truths. Religion realizes these Truths and links them up with our deeper needs; our individual consciousness of Truth gains universal significance. Religion applies values to Truth, and we know this Truth as good through our own harmony with it. 

Einstein: Truth, then, or Beauty is not independent of Man?

Tagore: No.

Einstein: If there would be no human beings any more, the Apollo of 
Belvedere would no longer be beautiful.

Tagore: No.

Einstein: I agree with regard to this conception of beauty, but not with regard to Truth.

Tagore: Why not? Truth is realized through man.

Einstein: I cannot prove that my conception is right, but that is my religion.

Tagore: Beauty is in the ideal of perfect harmony which is in the  Universal Being; Truth the perfect comprehension of the Universal Mind. We individuals approach it through our own mistakes and blunders, through our accumulated experiences, through our illuminated consciousness—how, otherwise, can we know Truth? 

Einstein: I cannot prove scientifically that Truth must be conceived as a Truth that is valid independent of humanity; but I believe it firmly. I believe, for instance, that the Pythagorean Theorem in geometry states it is something that is approximately true, independently of the existence of man. Anyway, if there is a reality independent of man, there is also a Truth relative to this reality; and in the same way the negation of the first engenders a negation of the existence of the latter. 

Tagore: Truth, which is one with the Universal Being must essentially be human, otherwise whatever we individuals realize as true can never be called truth—at the least the Truth which is described as scientific and which can only be reached through the process of logic, in other words, by an organ of thoughts [the brain] which is human. According to Indian Philosophy there is Brahman, the absolute Truth, which can- not be conceived by the isolation of the individual mind or described by word but can only be realized by completely merging the individual in its infinity. But such a Truth cannot belong to Science. The nature of Truth which we are discussing is an appearance—that is to say, what appears to be true to the human mind and therefore is human, and may be called maya or illusion. 

Einstein: So according to your conception, which may be the Indian conception, it is not the illusion of the individual, but of humanity as a whole. 

Tagore: The species also belongs to a unity, to humanity. Therefore the entire human mind realizes Truth; the Indian or the European mind meet in a common realization. 

Einstein: The word species is used in German for all human beings, as a matter of fact, even the apes and the frogs would belong to it. 

Tagore: In science we go through the discipline of eliminating the personal limitations of our individual minds and thus reach that com- prehension of truth which is the mind of the Universal Man. 

Einstein: The problem begins whether Truth is independent of our consciousness. 

Tagore: What we call truth lies in the rational harmony between the subjective and objective aspects of reality, both of which belong to the super-personal man. 

Einstein: Even in our everyday life we feel compelled to ascribe a reality independent of man to the objects we use. We do this to connect the experiences of our senses in a reasonable way. For instance, if nobody is in this house, yet the table remains where it is. 

Tagore: Yes, it remains outside the individual mind, but not the universal mind. The table which I perceive is perceptible by the same kind of consciousness which I possess. 

Einstein: If nobody would be in the house the table would exist all the same—but this is already illegitimate from your point of view—because we cannot explain what it means that the table is there, independent of us. Our natural point of view in regard to the existence of truth apart from humanity cannot be explained or proved, but it is a belief which nobody can lack—no primate beings even. We attribute to truth a super- human objectivity; it is indispensable for us, this reality which is independent of our existence and our experience and our mind—though we cannot say what it means. 

Tagore: Science has proved that the table as a solid object is an appearance and therefore that which the human mind perceives as a table would not exist if that mind were naught. At the same time it must be admitted that the fact, that the ultimate physical reality is nothing but a multitude of separate revolving centers of electric force, also belongs to the human mind. In the apprehension of Truth there is an eternal conflict between the universal mind and the same mind confined in the individual. The perpetual process of reconciliation is being carried out in our science, philosophy, in our ethics. In any case, if there be any Truth absolutely unrelated to humanity then for us it is absolutely non-existing. It is not difficult to imagine a mind to which the sequence of things happens not in space but only time like the sequence of notes in music. For such a mind such a conception of reality is akin to the musical reality in which Pythagorean geometry can have no meaning. There is the reality of paper, infinitely different from the reality of literature. For the kind of mind possessed by the moth which eats that paper literature is absolutely non-existent, yet for Man’s mind literature has a greater value of Truth than the paper itself. In a similar manner if there be some Truth which has no sensuous or rational relation to the human mind, it will ever remain as nothing so long as we remain human beings. 

Einstein: Then I am more religious than you are! 

Tagore: My religion is the reconciliation of the Super-personal Man, the universal human spirit, in my own individual being. 


** In a second meeting, on August 19, 1930, the extraordinary dialogue continued. **


Tagore: I was discussing... today the new mathematical discoveries, which tell us that in the realm of the infinitesimal atoms chance has its play; the drama of existence is not absolutely predestined in character. 

Einstein: The facts that make science tend towards this view do not say goodbye to causality. 

Tagore: Maybe not; but it appears that the idea of causality is not in the elements, that some other force builds up with them an organized universe. 

Einstein: One tries to understand how the order is on the higher plane. The order is there, where the big elements combine and guide existence; but in the minute elements this order is not perceptible. 

Tagore: This duality is in the depths of existence—the contradiction of free impulse and directive will which works upon it and evolves an orderly scheme of things. 

Einstein: Modern physics would not say they are contradictory. Clouds look one [way] from a distance, but if you see them near, they show themselves in disorderly drops of water. 

Tagore: I find a parallel in human psychology. Our passions and de- sires are unruly, but our character subdues these elements into a harmonious whole. Are the elements rebellious, dynamic with individual impulse? And is there a principle in the physical world which dominates them and puts them into an orderly organization? 

Einstein: Even the elements are not without statistical order: ele- ments of radium will always maintain their specific order now and ever onwards, just as they have done all along. There is, then, a statistical order in the elements. 

Tagore: Otherwise the drama of existence would be too desultory. It is the constant harmony of chance and determination, which makes it eternally new and living. 

Einstein: I believe that whatever we do or live for has its causality; it is good, however that we cannot look through it. 


O mais paradoxal de toda a apresentação do livro, e que dá conta também de alguns dos problemas do trabalho do autor e nomeadamente do relacionamento com outros cientistas, surge nas previsões relativamente catastróficas que faz para o futuro do humano, nomeadamente a partir da ligeireza com que discorre sobre os efeitos dos media, dos computadores e nomeadamente das redes sociais. 

Deste modo, quando fechei o livro fiquei a pensar: quanto do que li é tão novo como o autor nos quer dizer? Se gostei de ler, e ter contacto com as décadas de experimentos neurocientíficos de Nicolelis, também me questionei sobre quanto destas propostas não tinham já sido amplamente discutidas em profundidade pela filosofia, depois psicologia e agora pelas neurociências? O que liga Platão, Descartes e Godel se não exatamente esta ideia de que o cérebro é o criador de tudo? 

Aquilo que se pode dizer é que Nicolelis acrescenta à teorização os modos efetivos de funcionamento do nosso cérebro que suportam essa ideia. Mas que o cérebro modelo e filtra a realidade, e nos faz ver de uma forma particular, acho difícil ter hoje dúvidas disso. A questão que se coloca é antes perceber, de que é então feita a realidade externa a nós, além da simulação mental que criamos? Claro que aqui batemos contra a parede da impossibilidade de sair fora do nosso espartilho cerebral, e talvez por isso mesmo tenhamos de concluir que somos apenas aquilo que o nosso cérebro nos permite que sejamos.

setembro 12, 2020

Schopenhauer por Yalom

"A Cura de Schopenhauer" (2000) do psicanalista-romancista Irving D. Yalom é mais uma viagem de associação de ideias entre a Filosofia e a Psicologia. Depois de "Quando Nietzsche Chorou" (1992) recuou no tempo, à maior influência de Nietzsche, para nos falar de Arthur Schopenhauer. A abordagem é distinta do primeiro livro, desta vez não temos Schopenhauer em cena, antes temos alguém que o segue religiosamente e precisa de se tratar. O tratamento segue de perto as teorias de Schopenhauer, e enquanto dura Yalom aproveita para intercalar uma breve história da vida de Schopenhauer. Se o tratamento não me surpreendeu, já que as abordagens apresentadas pouco vão além do conhecimento que já tinha da obra de Schopenhauer, a sua breve história, que desconhecia, foi o que mais me impressionou. É um livro interessante e instigante, mas ligeiro, talvez menos por culpa de Yalom e mais do próprio Schopenhauer.

Há 25 anos, enquanto passava por uma depressão causada por um coração partido, li “Dores do Mundo” de Arthur Schopenhauer. O impacto foi intenso, poderoso, não posso dizer com certeza, mas acredito que me ajudou a sair do buraco, o que está em consonância com muito do que se discute neste livro. No entanto, agora ao reler muitas dessas ideias, que na altura revolucionaram a minha noção do mundo, senti-as ultrapassadas. Schopenhauer anteviu um conjunto de ideias a que a biologia e psicologia só iriam chegar 50 ou 100 anos depois, porém parece ter-se deixado enredar por elas, não tendo nunca conseguido progredir na compreensão de si mesmo ou do mundo.

De forma sucinta, Schopenhauer apresenta algumas ideias revolucionárias para o seu tempo, nomeadamente quando trabalha o amor e a paixão como atributos biológicos que nos impelem, enquanto espécie, para a reprodução. Esta ideia antecede, muitos anos, o surgimento da Teoria da Evolução Humana de Darwin, num tempo em que ainda não existia sequer a disciplina da psicologia, quanto mais psicologia evolucionária. Deste modo, Schopenhauer retira o peso do indivíduo e coloca-o sobre a humanidade. Não somos únicos, não somos nós que desejamos, é o facto de sermos humanos que nos compele a esse desejo, à "vontade de". Para Schopenhauer somos uma espécie de máquinas biológicas com instruções pré-gravadas das quais não podemos escapar. Somos continuamente levados a querer mais e mais de tudo, a desejar ter ou conseguir, para assim que se consegue o que se desejou, nos deprimirmos até que reiniciamos um novo ciclo de querer e desejo. Schopenhauer escreveu a sua obra máxima, “O Mundo como Vontade e Representação” sobre a vontade e o desejo, e passou toda a sua vida ao redor destes conceitos, o que fez afastar o meu interesse e não chegar nunca a terminar a leitura dessa sua obra maior.  Deixo um excerto da "A Cura de Schopenhauer" que trata a ideia central:

“Todos os temas principais da vida passam pela ousada análise filosófica de Schopenhauer, inclusive o desejo sexual, assunto que os filósofos anteriores evitaram. Ele iniciou a discussão com uma afirmação surpreendente sobre a força e omnipresença desse desejo.

[Schopenhauer] “Depois do amor à vida, o sexo é a maior e mais ativa força e ocupa quase todas as vontades e pensamentos da porção mais jovem da humanidade. Ele é a meta final de praticamente todos os esforços humanos. Exerce uma influência desfavorável nos assuntos mais importantes, interrompe a toda hora as ocupações mais sérias e às vezes inquieta por algum tempo as maiores mentes humanas. (...)

(...) A resposta de Arthur (...) antecipa em um século e meio muito do que iria tratar a psicologia evolucionária e a psicanálise. Ele afirma que não somos guiados pela nossa necessidade, mas pela necessidade da nossa espécie. "Embora os dois envolvidos ignorem, o verdadeiro fim de toda história de amor é gerar uma criança", continua ele. "Portanto, o que realmente dirige o homem é um instinto dirigido para o que é melhor para a espécie, embora o homem pense que procura apenas a intensificação do próprio prazer".”

O problema de Schopenhauer foi a sua resignação à descoberta desta nossa condição. Podemos saber que a nossa biologia nos orienta e predestina, mas sabemos também que a nossa psicologia nos liberta. Somos parte natureza, parte cultura, não somos só uma, nem outra, somos fruto da mistura. Julgo que Yalom acaba dando conta dessa questão ao querer aqui curar Schopenhauer, mas fá-lo de uma forma muito indireta. Gostaria de ter visto uma maior incisão na questão, contudo compreendo que Yalom não pretendia redimir Schopenhauer, nem alterar a História do filósofo. 

Como disse, na abertura do texto, a história de Schopenhauer foi algo que me impressionou, a sua origem familiar, nomeadamente a sua mãe, Johanna Schopenhauer. Pode ler-se a sua pessoa de muitas formas, mas a emancipação realizada após a morte do marido, a sua entrada em grande no mundo das letras alemãs, assumindo a sua posição de mulher, numa altura em que as mulheres não eram aceites nos círculos intelectuais, é impressionante. Aliás, fez-me pensar sobre o quanto da obstinação e lado destemido da personalidade de Schopenhauer não foi herdado da sua mãe, algo que fica patente na forma como chocaram. Por outro lado, um ponto relevante, apesar de nada de novo, é o constatar mais uma vez que a fama e o sucesso da arte nada têm que ver com o valor das obras. Johanna foi uma das mulheres mais lidas na Alemanha enquanto viveu, tendo escrito cerca de 20 livros. Porém, do que escreveu apenas um livro foi traduzido para inglês, e outro para espanhol, sendo muito difícil encontrar livros seus, com a sua obra praticamente esquecida. Já o filho, que enquanto vivo pouco ou nada vendeu, tendo vivido da pequena herança que o pai lhe deixou, tem hoje a sua obra traduzida em dezenas de línguas, continuando a ser editada, impressa e vendida por todo o mundo.

setembro 10, 2020

O problema das redes sociais

Saiu ontem o documentário "O Dilema das Redes Sociais" (2020), na Netflix, que procura dar conta de vários dos problemas que têm sido atribuídos às redes sociais: viciação, invasão de privacidade, propaganda, manipulação, fragmentação de identidade, etc. O protagonista do filme é Tristan Harris que começou por ser responsável pelo design ético da Google, tendo-se demitido para criar a fundação Center for Humane Technology. O filme é relevante, aconselhável a todos os que usam as redes sociais, dos adolescentes aos mais velhos, mas com algum espírito crítico para evitar entrar em estado de alarme.

Para quem trabalha na área nada é dito aqui de novo, mas o que é dito é importante que chegue a todos, e não apenas a quem trabalha no domínio. As pessoas que falam fizeram todas parte destas empresas — Facebook, Google, Twitter, Instagram, Snapchat,... — mas nem tudo o que dizem é tal como nos querem dar a entender, existe algum excesso, alguma falta de enquadramento principalmente de teoria dos media e análise histórica da psicologia humana. Mas no cômputo geral, o filme funciona bem no acendimento de algumas campainhas, podendo ser relevante para uma grande faixa da sociedade que passou a usar estas ferramentas sem compreender como funcionam, sem qualquer noção do que está por detrás daquelas imagens, menus e comentários que a toda a hora solicitam a nossa atenção. 

O discurso alarmista tende ao exageramento das capacidades e potencial, mas aceito-o como discurso que procura gerar uma preocupação societal. Sem essa preocupação dificilmente poderemos levar os políticos a tomar as decisões que são necessárias. Não se compreende como andamos há uma década a pedir regulamentação para estas ferramentas, e tudo continua na mesma. Na Europa criou-se o RGPD, lançaram-se algumas multas, mas pouco mais foi feito. Se temos todo um conjunto de estruturas que regulam os media tradicionais, da rádio à televisão, porque é que ainda não criámos regulação para estas redes sociais? Simplesmente porque não há pressão. 

Repare-se no que aconteceu com a Uber, a pressão dos taxistas tem obrigado os políticos a agir. No caso das redes sociais, a pressão surge apenas pelo lado de algumas das pessoas que trabalham na área, e depois quando se fala de roubo de dados ou do muito dinheiro gerado pelas companhias. Por outro lado, sabemos que não é algo simples ou fácil. A regulação das redes sociais, ao contrário dos media tradicionais, tende a chocar com as liberdades e garantias individuais, que é no fundo o mesmo problema da Uber, por isso é tão complicado legislar. Mas se pensarmos no modo como funcionam os regulamentos dos media tradicionais, esses também chocam com os mesmos direitos, a diferença é que a proibição atua de modo indireto e por isso parece menos intrusivo.

A questão dos sistemas informáticos e os algoritmos desenhados para o engajamento é em si menos relevante, porque não difere daquilo que fazemos quando criamos qualquer obra de arte, quando criamos uma peça musical, filme, livro ou uma peça de teatro, ou um espetáculo de televisão, circo ou ilusionismo. Recorrem-se às técnicas mais eficazes na captação da atenção. Claro que ter pessoas a passar dias inteiros fixados nos sistemas não é bom para qualquer pessoa, menos ainda crianças ou adolescentes, mas aí cabe aos pais atuar. Como tenho defendido no caso dos videojogos, as rede sociais devem seguir o mesmo regime, não proibir mas regrar o tempo. Um adolescente tem de ter tempo para ler, ver cinema, correr, brincar, ouvir música, pintar, etc. etc. não pode estar todo o dia no café virtual do Instagram ou na discoteca virtual do Tik Tok. Por isso o que mais desperta a minha preocupação é a relação com o discurso social, a construção de comunidade sócio-política sobre a qual as redes sociais intervêm cada vez mais.

No passado recente o discurso comunitário era construído quase em exclusivo pelos media e os políticos. As redes sociais vieram dar voz, não a todas as pessoas, mas a todas as ideias, e é aí que surge aquele que considero ser o principal problema. Quando empresas estão dispostas a promover qualquer ideia em função de ganhos financeiros. Onde fica a chamada responsabilidade social das empresas? Como é que podemos aceitar que estas empresas promovam textos e vídeos que debitam informação falsa, errada, que busca manipular a percepção de realidade de outras pessoas? O problema não são os algoritmos, os seus truques de engajamento. Porque esses são bons para mim quando procuro informação relevante, como quando quero comprar um livro e os sistemas me apresentam os livros próximos. Agora quando tenho o Facebook a apresentar-me mais e mais informação sobre a Terra Plana apenas porque vi uma qualquer imagem relacionada, não faz sentido. 

Repare-se que o problema não é alguém publicar um texto dizendo que a Terra é plana, mas é o facto das redes sociais, para ganharem dinheiro, aumentarem a distribuição desse texto. Isto está errado, porque quando os algoritmos apresentam esse conteúdo não o fazem porque foi pedido conscientemente por alguém, mas antes porque a empresa quer apresentá-lo para manter a pessoa agarrada ao sistema, por forma a conseguir enviar-lhe mais e mais publicidade. Ou seja, não se trata de proibir ou censurar, mas trata-se de impedir a manipulação empresarial de informação que se sabe ser falsa e nefasta para a sociedade que queremos.

Todos nós experienciamos o poder do algoritmo quando publicamos duas coisas distintas e verificamos que uma tem o dobro de likes da outra. Sabemos que não é por nossa vontade, mas também não é por acaso, é antes porque o algoritmo do Facebook considera um conteúdo melhor do que outro e por isso apresenta-o a muitas mais pessoas, aumentando a sua visibilidade e inevitavelmente o número de likes. Agora não podemos aceitar que o algoritmo considere mais uma notícia falsa, que por ser chocante tem enorme potencial de captar atenção, e a apresente a mais pessoas do que uma notícia verdadeira que é menos chocante. Mas isto só vai mudar quando for regulado, é de uma ingenuidade tremenda andar a fazer pressão sobre as redes sociais para que elas se auto-regulem quando elas são empresas cotadas em bolsa.

A mensagem no final do documentário é, do meu ponto de vista, para ser levada à letra. Desliguem as notificações. Sempre que comprarem um novo telemóvel ou computador, comecem por desativar todas as notificações de todas as Apps, mantenham apenas as das chamadas e SMS. Se não o fizerem, abrem a porta a que o vosso tempo seja regulado pelo telemóvel e não por vocês.

setembro 09, 2020

A publicação de "Engagement Design" (2020)

O meu mais recente livro, "Engagement Design: Designing for Interaction Motivations", foi publicado a meio de março 2020, exatamente aquando do início da quarentena provocada pela pandemia COVID-19. Tinha intenção de dar conta da publicação do mesmo no blog e nas redes sociais, mas com a quarentena e todos os impactos da mesma acabou por ser algo sempre protelado. Aproveitando agora o início do novo ano letivo fiz um pequeno texto sobre a publicação do livro, focado na génese e motivação por detrás da sua escrita, assim como na inovação da proposta que apresenta.

Este livro começou a ser germinado no ano 2014/2015, como obra de introdução ao design de interação, com um forte enquadramento no domínio da Interação Humano-Computador (IHC), na altura com o intuito de publicar o mesmo na editora portuguesa FCA, onde tinha publicado o "Videojogos em Portugal: História, tecnologia e arte" (2013). Contudo, pouco depois de anunciar que ia escrever o livro dei por mim dentro de uma espiral de acumulação de material sobre a área, não conseguindo parar de colecionar obras, textos, capítulos, modelos, projetos... Quanto mais informação acumulava mais me questionava sobre a relevância de escrever um livro introdutório que iria ser igual a tantos outros, mesmo que sendo em português, língua em que existiam parcos recursos.

Foi apenas quando resolvi escrever o primeiro capítulo que me dei conta da minha insatisfação com a área, em particular na aplicação das metodologias do design de interação ao design de jogos e em geral ao design de media interativos. Tinha ocorrido uma mudança grande no discurso da IHC, com o foco a mudar da Usabilidade para a Experiência, mas quanto mais lia sobre a experiência e o tão em voga UX, mais me desolava. Na verdade, parecia-me que pouco tinha efetivamente mudado. A experiência era algo tão vago e ambíguo que parecia servir apenas de moldura, mantendo-se em uso muitas das mesmas metodologias que eram utilizadas nos estudos da usabilidade.

Foi então que me dei conta da necessidade de concretizar o conceito de Experiência, e ao fazê-lo acabei chegando ao conceito de Engajamento. O que importava a quem discutia a Experiência era que essa fosse significativa para os utilizadores, mas o significado em si não podia ser medido, sequer antecipado, já que cada indivíduo tem um mundo de experiências prévias que contaminam sempre qualquer nova experiência. Por isso era preciso trabalhar algo mais formal que fosse generalizável, e o engajamento permitia isso mesmo. Ao trabalhar o design para o engajamento podíamos aperfeiçoar a experiência sem depender dos elementos subjetivos, porque estávamos a adequar a forma estética, funcional e de criação de significado a um conjunto de generalizações humanas. 

Para chegar a generalizações relevantes no modelo tive de trabalhar perfis e esses acabariam por ser desenhados em função da personalidade, de modo que os traços de personalidade humana acabariam por traçar a base daquilo que viria a definir no livro como "streams of engagement" (fluxos de engajamento). Ou seja, usamos a personalidade para generalizar o design da interação, a partir do que podemos, nas fases subsequentes, aprofundar em função da resposta dos utilizadores particulares de cada universo cultural, e em função do tema concreto do artefacto a desenvolver. Para ter uma noção rápida do que o livro pretende e como pode ser utilizado, podem ler o texto “Applying the Engagement Design Model” que fiz para acompanhar a saída do livro.

Com o capítulo escrito, que acabaria por ser o segundo do livro, enviei a proposta para a Springer, em inglês, e o retorno acabou sendo imensamente positivo, o que me motivou a avançar com os restantes capítulos e a criação do modelo final proposto no livro. Ou seja, o livro que tinha começado como estudo introdutório a uma disciplina, acabaria por tornar-se num livro de investigação sobre um tema e apresentação de um novo modelo de design não apenas teórico mas aplicável. Quando terminei o livro, enviei o mesmo ao Jeffrey Bardzell que fez o favor de escrever o prefácio que acabaria por surgir depois no livro.

Claro que tudo isto é passado, o meu interesse é agora procurar aplicar e melhorar o modelo proposto nos projetos a desenvolver no DigiMedia, e que possa servir a comunidade científica na busca por uma melhor compreensão do próprio design de interação e de experiência. Com o feedback que for recebendo, continuar a trabalhar para otimizar o modelo, nomeadamente nos diferentes domínios do design de interação em que possa vir a ser aplicado.

setembro 03, 2020

Tragam os Corpos (Thomas Cromwell, volume 2)

A saga continua com grande desenvoltura, a descrição e o enredo funcionam em torrente tornando a leitura deste segundo livro muito mais rápida. Ajuda também o facto de Mantel ter aligeirado o labirintismo da escrita, é tudo bastante mais claro, ou então já aprendemos a respirar nas suas malhas. Por outro lado, fiquei um pouco desgostoso com a primeira parte na qual Mantel parece querer corrigir algum exagero do primeiro tomo no que toca a pessoa de Thomas More, e acaba por apontar o dedo a Cromwell. Passa mesmo a ideia que Mantel parece querer rever o que disse, talvez por ter sofrido duras críticas dos historiadores, não sei, mas sei que o seu Cromwell perde brilho, torna-se menos visionário e mais vingativo, afastando-me dele a ponto de a meio do livro dizer para mim que já não leria o terceiro. Contudo a segunda parte funciona num crescendo tão grande, imparável em direção à apoteose final, fazendo esquecer tudo o que de menos bom tinha encontrado.
"O Livro Negro" é a tradução portuguesa de "Bring Up the Bodies"

Contribui talvez para esta minha percepção mais crítica de Cromwell e benevolência com More, o facto de entre os dois livros ter revisto o filme "A Man for All Seasons" (1966) no qual Cromwell é muito mal tratado, e More é elevado a patamar de santo. Mas tudo isso se apaga porque este segundo tomo já não pertence a More mas a Boleyn. É ela quem sobe ao cadafalso, e assim percebemos, pela lógica, quem subirá ao cadafalso no final do terceiro volume.
Tower of London, local central da ação desta saga, para onde eram enviados os nobres para aguardar julgamento

Este livro tem as suas nuances, momentos altos, tal como por exemplo a discussão política sobre o que deve ou não deve fazer o Estado:

“It was too much for the Commons to digest, that rich men might have some duty to the poor; that if you get fat, as gentlemen of England do, on the wool trade, you have some responsibility to the men turned off the land, the labourers without labour, the sowers without a field. England needs roads, forts, harbours, bridges. Men need work. It’s a shame to see them begging their bread, when honest labour could keep the realm secure. Can we not put them together, the hands and the task? But Parliament cannot see how it is the state’s job to create work. Are not these matters in God’s hands, and is not poverty and dereliction part of his eternal order? To everything there is a season: a time to starve and a time to thieve. If rain falls for six months solid and rots the grain in the fields, there must be providence in it; for God knows his trade. It is an outrage to the rich and enterprising, to suggest that they should pay an income tax, only to put bread in the mouths of the workshy. And if Secretary Cromwell argues that famine provokes criminality: well, are there not hangmen enough?”

Mas talvez o ponto mais alto seja mesmo a descrição que Cromwell faz do modo como se gere a comunicação com um Rei, no caso particular com Henry VIII é genial. Claro que o génio aqui é Mantel, a forma como ela planeia e preenche e todas as frentes, e imagina o xadrez político em redor do Rei:

“As a child, a young man, praised for the sweetness of his nature and his golden looks, Henry grew up believing that all the world was his friend and everybody wanted him to be happy. So any pain, any delay, frustration or stroke of ill-luck seems to him an anomaly, an outrage. Any activity he finds wearying or displeasant, he will try honestly to turn into an amusement, and if he cannot find some thread of pleasure he will avoid it; this to him seems reasonable and natural. He has councillors employed to fry their brains on his behalf, and if he is out of temper it is probably their fault; they shouldn’t block him or provoke him. He doesn’t want people who say, ‘No, but…’ He wants people who say, ‘Yes, and…’ He doesn’t like men who are pessimistic and sceptical, who turn down their mouths and cost out his brilliant projects with a scribble in the margin of their papers. So do the sums in your head where no one can see them. Do not expect consistency from him. Henry prides himself on understanding his councillors, their secret opinions and desires, but he is resolved that none of his councillors shall understand him. He is suspicious of any plan that doesn’t originate with himself, or seem to. You can argue with him but you must be careful how and when. You are better to give way on every possible point until the vital point, and to pose yourself as one in need of guidance and instruction, rather than to maintain a fixed opinion from the start and let him think you believe you know better than he does. Be sinuous in argument and allow him escapes: don’t corner him, don’t back him against the wall. Remember that his mood depends on other people, so consider who has been with him since you were with him last. Remember he wants more than to be advised of his power, he wants to be told he is right. He is never in error. It is only that other people commit errors on his behalf or deceive him with false information. Henry wants to be told that he is behaving well, in the sight of God and man. ‘Cromwell,’ he says, ‘you know what we should try? Cromwell, would it not reflect well on my honour if I…? Cromwell, would it not confound my enemies if…?’ And all these are the ideas you put to him last week. Never mind. You don’t want the credit. You just want action.”

Enquanto lia estes livros fui também pensando o quão errado estamos quando pensamos que ser Rei, ou nobre, significa poder fazer tudo o que se quer. Ter acesso a tudo como mais ninguém. Ser nobre implica um tal espartilho de responsabilidades sociais que não deixa espaço para mais nada. Qualquer passo ao lado pode ditar a perda dessa nobreza, e o fim do aparente sonho cor-de-rosa. Ao longo destes dois livros percebemos como Henry VIII queria apenas um filho varão, mas toda a sua vontade, dinheiro e súbditos não eram suficientes para lhe dar o que mais queria. Percebemos também que Boleyn foi mais do que um capricho, foi uma necessidade imposta pelo espartilho das obrigações de ser-se Rei. Aliás, isto mesmo parece ter sido o que esteve na base da recente saída de Harry da monarquia britânica, pois se lá continuasse teria de obedecer a um conjunto tão apertado de protocolos que dificilmente se poderia considerar como uma pessoa livre.

Anne Boleyn in the Tower (1835) de Édouard Cibot

Mantel é brilhante na escrita, mas são os rasgos psicológicos que nos agarram que nos fazem sentir aquele mundo-história e nos permitem não só viajar no tempo mas aprender com as vidas de pessoas que à partida nada teriam que ver connosco. São homens e mulheres, não são deuses, carregados de fragilidades, receosos do dia de amanhã como qualquer outro mortal que foi posto neste mundo para todos os dias lutar pela sua preservação e sobrevivência.

Nota final para a tradução. A tradução do primeiro livro — Maria Beatriz Sequeira — está primorosa, a do segundo livro — Miguel Freitas da Costa — está boa, não posso dizer que seja inferior, mas senti-a diferente, não sei o quanto terá que ver com as próprias alterações introduzidas por Mantel no seu discurso. Mas se puxo este assunto é porque me desgostou a tradução do título. Se no primeiro se manteve um titulo inglês, ainda que sendo um nome, quem é que os autorizou a mudar o nome da obra criada por Mantel? Se em inglês se intitula "Bring Up the Bodies" e a frase aparece traduzida quase no final do livro como "Tragam os Corpos", porque é que o livro em português vai assumir o título de um capítulo muito anterior — O Livro Negro. Este título diz respeito a um conjunto de códigos de conduta real que ainda que imensamente relevantes, e relacionados com as tais questões de protocolo, mas distintas daquilo que é o objeto de destaque escolhido pela autora, e que está mais focado na apoteose por ela criada? Não se compreende, não deixando de irritar esta vontade de se procurar sobrepor ao autor.

Anne Boleyn, a única desta saga a ser deacapitada com espada, uma suposta clemência do Rei (autor desconhecido)