outubro 30, 2021

Nação de Dopamina (2021)

Anna Lembke é psiquiatra e diretora da Clínica de Medicina em Dependências da Universidade de Stanford. Uma especialista no vício em ópio, sobre o que escreveu um livro em 2016, "Drug Dealer, MD: How Doctors Were Duped, Patients Got Hooked, and Why It's So Hard to Stop". Neste seu novo livro, "Dopamine Nation: Finding Balance in the Age of Indulgence" (2021), fala-nos do vício em geral, mas dedica-se à discussão do que tem vindo a ser discutido como "vício comportamental", visto por vezes como menos relevante que o vício em substâncias, as chamadas drogas. A abordagem realizada começa pelo próprio título que dá conta de uma nova era que Anna Lembke designa por "idade da indulgência" e que tem conduzido a própria sociedade aceitar desvios comportamentais com vícios como "comida, notícias, jogos de azar, compras, jogos digitais, mensagens de texto, sexting, facebooking, instagramming, youtubing, tweeting" como algo natural. A sua abordagem não é meramente crítica, mas construtiva, procurando essencialmente contribuir para a tomada de consciência do problema, expondo-se a si mesma, e desse modo, ainda que paradoxalmente, tornando a própria leitura do livro quase compulsiva!

O livro discorre, seguindo a forma tradicional, pela exposição de histórias de casos, alguns bastante extremos, que a autora aproveita para dissecar e sobre os mesmos construir um suporte teórico explicativo do processo, mas também dando conta das abordagens que seguiu para ajudar as pessoas. Temos desde pessoas que construíram máquinas de masturbação a partir de gira-discos ao vício em romances de cordel, até jovens adultos que não conseguem estruturar-se, sofrendo de ansiedade e depressão por terem acesso a absolutamente tudo o que conseguem desejar, sem enfrentar qualquer obstáculo ou desafio nas suas vidas.

Lembke aponta problemas à sociedade capitalista que criámos e que se consagra ao fornecimento de infinitas recompensas para todos, referindo que: "We’ve transformed the world from a place of scarcity to a place of overwhelming abundance (...) the increased numbers, variety, and potency of highly rewarding stimuli today is staggering." E nada foi mais eficaz na entrega desses estímulos que as pequenas máquinas digitais que trazemos no bolso: "The smartphone is the modern-day hypodermic needle, delivering digital dopamine 24/7 for a wired generation.” 

Em termos teóricos, quero destacar dois pontos da exposição de Lembke: a primeira sobre o modo como funcionam, de modo interdependente, o prazer e a dor; a segunda, a abordagem seguida no tratamento de qualquer tipo de vício — D.O.P.A.M.I.N.E. —  que acredito poder servir a quem quer que deseje por termo a um qualquer desses comportamentos.

“neuroscientists have determined that pleasure and pain are processed in overlapping brain regions and work via an opponent-process mechanism. Another way to say this is that pleasure and pain work like a balance. Imagine our brains contain a balance—a scale with a fulcrum in the center. When nothing is on the balance, it’s level with the ground. When we experience pleasure, dopamine is released in our reward pathway and the balance tips to the side of pleasure. The more our balance tips, and the faster it tips, the more pleasure we feel.

But here’s the important thing about the balance: It wants to remain level, that is, in equilibrium. It does not want to be tipped for very long to one side or another. Hence, every time the balance tips toward pleasure, powerful self-regulating mechanisms kick into action to bring it level again. These self-regulating mechanisms do not require conscious thought or an act of will. They just happen, like a reflex.”

Ou seja, sempre que sentimos prazer, a seguir vamos sentir dor. É bem conhecida a experiência de melancolia pós-orgasmo, que se acentua quanto mais é praticado. Mas tendo em conta que isto é um equilíbrio, quando sentimos dor a seguir sentiremos também imenso prazer. E isso é bem relatado pelos exemplos das pessoas que mergulham em água gelada, sofrendo terrivelmente, para a seguir ter enormes descargas de prazer.

Relativamente ao quadro terapêutico desenvolvido por Lembke — D.O.P.M.A.N.I..N.E. — ele assenta principalmente no centro, o "A", que define um período de Abstinência. Lembke é muito incisiva referindo que qualquer processo para ser alterado precisa de uma abordagem com abstinência que deverá andar numa média de 4 semanas. Só ao fim de 2 ou 3 semanas começamos a compreender o que estava acontecer com aquele comportamento, e como nos estava a afetar. O problema é mesmo ultrapassar essas duas primeiras semanas em que nosso cérebro tudo faz para nos reconduzir à obtenção do prazer.

Como disse, o livro é de leitura compulsiva, mas diria também obrigatória, já que na sociedade atual de plenos e infinitos estímulos, quase não temos tempo para parar e contemplar o que fazemos no nosso dia-a-dia, menos ainda questionar porquê. Lembke oferece um conhecimento detalhado sobre o funcionamento dos mecanismos comportamentais, e algumas abordagens para lidar com eles. A leitura no formato audiobook, narrado pela própria, numa voz calma e paciente, ajuda a entrar e a ganhar uma apurada compreensão dos processos que de algum modo acaba por também nos tranquilizar.

Contudo, no final, não deixam de se levantar questões, tais como: quanto de uma qualquer atividade "é demais?"; algo que obviamente a cultura publicitária, braço direito do sentir capitalista, tende a desconstruir com o chavão continuado do "mas eu mereço". Mas não deixo de questionar se não terá sido sempre assim, mesmo com menos estímulos, ou seja, somos seres biológicos que se regulam pela constante busca de homeostase, um processo que inevitavelmente, no tempo, se corrompe, pois de outra forma seríamos máquinas artificiais, perfeitamente auto-reguladas. E isto torna-se ainda mais evidente, para mim, no trabalho apresentado por Lembke, em que cada pessoa tratada aparenta apenas progredir nos tratamentos quando substitui umas adições por outras, nomeadamente outras consideradas menos "más" (ex. hobbies). Ou seja, parece existir a necessidade de formas de escape, como formas de recompensa pelo investimento que somos levados a fazer na exigente manutenção da homeostase do que somos.


Excertos partilhados no Facebook

Percentagens de Dopamina, 23 out. 2021

Vício com letras, 25 out. 2021

Banhos gelados, 29 out. 2021

6 comentários:

  1. Tem esse livro editado em português? Ou só em inglês?

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  2. Tem esse livro publicado em português?

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  3. Não tenho conhecimento de qualquer edição em português, tanto portuguesa como brasileira. Mas o livro saiu só na segunda metade de 2021, pode ainda vir a ser traduzido.

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    1. https://www.amazon.com.br/Na%C3%A7%C3%A3o-dopamina-excesso-deixando-infelizes/dp/6586551714/ref=sr_1_1?qid=1646909433&refinements=p_27%3AAnna+Lembke&s=books&sr=1-1

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  4. Bom post! Muito obrigado. Estava querendo saber desse livro! Grato

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