julho 25, 2021

O Fim da Grande Ilusão

“O Fim do Homem Soviético: Um Tempo de Desencanto” (2013) é uma tentativa de Svetlana Alexievich de nos ajudar a compreender o que aconteceu com o fim da União Soviética. Escrito a partir da captação de centenas de relatos orais, técnica de escrita em que se especializou, a autora procura a partir do interior de pessoas reais construir um mapa de recordações que possam iluminar os efeitos humanos da decadência soviética. Não é um trabalho propriamente académico, já que o enfoque se dá na emoção, no sentir de cada entrevistado, e Alexievich nunca tenta abstrair, generalizar ou sintetizar as leituras. O foco é o particular, o individual, o subjetivo, o humanamente concreto. Naturalmente que isso nos obriga a uma leitura mais atenta, não podemos ler aqui tudo como verdade, ainda que tudo seja baseado no que dizem pessoas reais — a realidade é constituída pela multiplicidade de dimensões construídas pelo olhar de cada ser humano. Mas também percebemos que muito do que é dito não nos é totalmente estranho, e empaticamente conseguimos aferir parte da sua veracidade. 

Milan Kundera: A Arte do Romance

Milan Kundera diz a determinada altura, neste "The Art of the Novel" (1986), que em julho de 1985 tomou a decisão de não mais conferir entrevistas. Parece um preciosismo, uma excentricidade artística proveniente de um ego excessivamente inflamado. Mas ao ler esta obra percebemos duas coisas: Kundera é alguém muito cioso da forma das suas obras, com a música como berço soube usar todo o seu formalismo para criar uma literatura com formas por vezes quase matemáticas; por outro lado, olhando aos reparos que vai fazendo sobre a imprensa e traduções feitas do seu trabalho nos anos 1970, percebe-se que o cuidado era pouco, nomeadamente com um autor provindo de um país escondido atrás de uma "cortina de ferro". 

Versão audiobook apresentada numa belíssima narração de Graeme Malcolm

julho 24, 2021

2666: uma longa viagem

No final das 1000 páginas podemos fechar o livro e decidir ficar com as impressões criadas ao longo das semanas de leitura, sem realizar qualquer esforço de as organizar, de lhes dar um sentido. Essa vontade pode ser maior quando de frente a livros que são escritos com a intenção de se furtar a essas tentativas de catalogação ou organização de significados, como é o caso de “2666”. Ainda assim, enquanto leitores dotados de competências, por vezes obsessivas, na identificação de padrões e atribuição de significados, torna-se difícil não encetar esse esforço. As linhas que se seguem são assim o resultado da minha experiência de leitura, condensada e verbalizada num conjunto de ideias e parágrafos.

julho 14, 2021

Sistematizar é diferente de Inventar

Este livro, "The Pattern Seekers: How Autism Drives Human Invention" (2020), deixou-me com impressões mistas, se por um lado compreendo o esforço de Baron-Cohen na tentativa de contribuir para uma sociedade mais inclusiva — a integração de pessoas com autismo — por outro lado, o modo como o faz, seguindo o culto de algumas valências cognitivas, que estão por acaso neste momento na mó de cima — os criadores de tecnologias digitais — acaba por fazer parecer que se posiciona num dos lados da barricada, e assim no esforço e defesa pela inclusão acaba tornando-se discriminador dos que não possuem essas competências. Por outro lado, muito do discurso aqui apresentado é feito com base em muitas impressões suas apenas, ainda que detentor de muitos estudos na área do autismo, tal não lhe oferece suporte à definição do que são processos de invenção e criatividade. Por fim, uma boa parte da discussão no livro é repescada daquilo que tem vindo a dizer ao longo dos últimos 20 anos, acrescentando pouco de novo. 

julho 04, 2021

A Universidade, hoje e amanhã

O Expresso escrevia ontem que existe uma “revolução em curso nas universidades: menos teoria, mais prática e ensino à distância” e suporta essa ideia numa afirmação de um reitor de uma universidade portuguesa: 

“Não podemos continuar a dar as aulas como fazemos há 50 anos, porque hoje lidamos com jovens que são nativos digitais e que têm uma mentalidade completamente diferente. Muitas instituições vão definhar se não se adaptarem às novas tendências a nível da metodologia, da organização dos currículos e da evolução tecnológica.” Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra, in Expresso, 3 julho 2021

O Expresso legenda esta imagem assim: "A imagem de um anfiteatro cheio de alunos a ouvir um professor pertence cada vez mais ao passado."

junho 27, 2021

“Project Hail Mary” (2021)

Andy Weir conseguiu novamente. 10 anos depois do brilhante trabalho de especulação científica realizado em “The Martian” (2011), localizado em Marte, traz-nos agora “Project Hail Mary”, localizado no sistema planetário de Tau Ceti, um sistema a 12 anos-luz do nosso sistema Solar, e onde se tem especulado sobre a existência de super-Terras, planetas habitáveis. “Project Hail Mary” segue a mesma fórmula de “The Martian” elevando a amplitude nomeadamente pela exposição à volta da engenharia e ciência — astrofísica (trabalhando intensamente a relatividade), cosmologia, química, biologia, evolução e linguística. Pode-se dizer que o livro é feito de problemas de engenharia que obrigam a evocar muita ciência complexa criada ao longo dos últimos 100 anos. E se o protagonista é um professor de ciências do secundário, o livro acaba mesmo parecendo um semestre de aulas transpostas para uma temporada televisiva de aventuras espaciais. Não se espere uma obra de grande literatura, espere-se antes uma grande obra de comunicação de ciência, com emoção, mas especialmente muito sonho à volta do cosmos.

junho 22, 2021

Da História de Roma Antiga

Nos últimos anos tenho lido várias obras que abordam o império romano — em particular "O Infinito num Junco" de Irene Vallejo, "Augustus" de John Williams e "Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar, ou ainda os próprios clássicos romanos "A Eneida", Seneca ou Lucrécio — e por isso a curiosidade sobre a Roma Antiga foi aumentando. Inevitavelmente fiz a aproximação primeiro através da monumental obra de Edward Gibbon, “The History of the Decline and Fall of the Roman Empire”, publicada em 1776, contudo, pouco depois de a iniciar descobri a existência de uma outra obra sobre Roma, “SPQR: A History of Ancient Rome” bastante mais recente, de 2015, de Mary Beard, professora de cultura clássica respeitada e por vezes equiparada a Gibbon. Decidi então deixar Gibbon de lado e seguir com Mary Beard. As razões para o fazer foram várias, como dou conta a seguir, mas no final sinto que fiz bem, essencialmente porque me permitiu encerrar a curiosidade que tinha, e explicarei porquê. Entretanto, consegui terminar o visionamento da série "Rome" (2005) da HBO, da qual dou conta no final.

Existe uma edição portuguesa, traduzida pelos Carvalho & Guerra e editado pela Bertrand.

junho 20, 2021

Olhares com milhares de anos

Os Retratos Fayum são retratos realistas pintados sobre placas de madeira colocados sobre múmias do Egipto Romano, entre o I e o III séculos d.C., na região de Fayum, um oásis junto ao Nilo. Estes retratos formam uma coleção com de cerca de 1000 obras, fazendo desta a maior coleção sobrevivente do estilo e técnica. A técnica, segundo legados escritos, terá sido iniciada por volta do século IV a.C. na Grécia, contudo, devido à natureza perecível dos materiais não existem legados desse tempo. Esta coleção, como muita da arte egípcia, só chega até nós graças às altas temperaturas que resultam em baixa humidade naquela região, ao que se junta ainda o facto de ter sido enterrada e assim não acessível durante milénios.

Retratos de múmia Fayum, dos séculos I a III d.C (Imagens: 1, 2, 3)

junho 17, 2021

Jorge de Sena: sinais de génio e banalidade

Para o texto — composição e ritmo — 5 estrelas não são suficientes, tal a enormidade do virtuosismo apresentado que nos faz parar amiúde apenas para saborear as palavras cadenciadas na folha. Para o historiar, 5 estrelas dão bem conta das imensas competências de Sena na criação de mundo e personagens, assim como no enredo de ações que nos levam da primeira à última página sempre querendo saber mais, instigando a nossa curiosidade como se fosse algo perfeitamente natural. Mas, no campo das ideias, o discurso apresentado não consegue ir além de 1 estrela, é pavorosa a falta de construção de significado, a aridez do mundo conceptual em que vivem alheadas todas aquelas personagens, pensando apenas nos seus umbigos e nos prazeres imediatos.

junho 13, 2021

WiZink, e o conceito de Dívida Eterna

Tem-se discutido o problema das apostas e raspadinhas, mas vejo pouca discussão sobre um problema, importado dos EUA, e que considero mais grave pela fachada institucional e respeitada com que se apresentam, estou a falar das empresas de crédito fácil, aquelas que vão para os centros comerciais enfiar cartões de crédito pelas goelas abaixo de quem tem baixa literacia financeira, tais como a WiZink, a mesma que vai agora passar a surgir nas camisolas da equipa de futebol mais popular do país. Escrevo este artigo como alerta para quem tem familiares idosos, pela sua maior susceptibilidade à manipulação destas empresas.

junho 10, 2021

Vozes da Síria

Há bastante tempo que desejava ler algo sobre a guerra civil na Síria. Ao longo da última década vimos refugiados chegarem à Europa, alguns deles por meios de grande perigosidade — atravessando o Mediterrâneo em barcas de madeira —, daí a curiosidade natural de saber como se chega a este estado — o de colocar em perigo a vida dos próprios filhos. Passados 10 anos sobre a guerra, a escolha de obras é grande, desde trabalhos académicos de fundo que explicam o conflito desde a génese do próprio país, a romances históricos a puxar à lágrima, existe de tudo um pouco. A obra de Wendy Pearlman, “We Crossed a Bridge and It Trembled: Voices from Syria” (2017), surgiu-me em várias listas na rede, tendo folheado várias, senti que era por aqui que queria aproximar-me do conflito. Contudo, se estranhei a falta de traduções, está apenas editada em inglês e turco, mais ainda me incomodou quando acabei de ler, dado o relevo da experiência sentida em toda a sua leitura. Pearlman criou uma obra intemporal, que não fala apenas da Síria, mas do ser humano, da sua fragilidade e relação com o território, por meio da experiência direta de quem viveu naquele lugar, em cada um dos momentos relatados. Nesse sentido, é uma obra obrigatória para quem quer perceber melhor o que aconteceu na Síria, mas também para quem desejar entrar um pouco mais adentro nas complexidades da relação entre a vivência e violência humanas e a construção civilizacional.

A versão em audiolivro é ainda mais intensa, dado o bom trabalho de dramatização de vozes.

junho 07, 2021

Chernobyl, ficção histórica como documentário

Não tinha intenção de ver a série "Chernobyl" (2019), apesar do seu estrondoso sucesso, muito por ter já lido "Vozes de Chernobyl" da nobel Svetlana Alexievich que ficou para mim como obra seminal sobre o tema. A terminar os 5 episódios percebi o seu sucesso, que se deve ao drama já apresentado por Alexievich, agora aqui transposto, ainda que por muito violento que pareça a quem apenas viu a série, me pareceu bastante contido face ao que tinha lido. Mas, considero que a série não se limita ao livro, e consegue produzir o seu valor particular, nomeadamente na segunda metade. Falo de toda a discussão em redor da ciência e a desconstrução do que efetivamente aconteceu na sala de controlo e que permitiu a explosão do reator.

Dark (2017)

"Dark" é uma série co-criada por Baran bo Odar e Jantje Frieseé e bastante interessante pela forma como consegue rentabilizar alguns clichés narrativos — as viagens no tempo e o rapto de crianças —, complexificando a trama por via de múltiplas linhas temporais de vários personagens que nos envolvem e conduzem ao desejo ardente de solucionar o puzzle narrativo. São 10 episódios, a primeira temporada, mas quase parece uma mini-série, tal a velocidade imprimida e a quantidade de eventos que vão sendo apresentados. A tornar tudo mais interessante ainda é o facto de ser uma série alemã que nos oferece um vislumbre de uma cultura próxima mas distinta daquela a que nos vamos habituando, criada pelos media americanos, ainda que nesse aspeto existem algum reparos a fazer.


maio 23, 2021

"O Passageiro" de Boschwitz

Ulrich Alexander Boschwitz publicou "The Passenger", numa primeira versão, em Inglaterra em 1939, onde chegou depois de ter fugido da Alemanha via um périplo de países — Suécia, França, Luxemburgo e Bélgica. Boschwitz viu-se obrigado a fugir da Alemanha em 1935, foi depois expulso do Luxemburgo, e em Inglaterra, após o início da segunda guerra, foi internado como "estrangeiro inimigo" num campo na Isle of Man, e no verão deportado para a Austrália. No regresso a Inglaterra, em 1942, o barco em que vinha, com mais 300 pessoas, foi torpedeado pelos alemães, resultando na morte de todos os viajantes. O livro desapareceria com ele, nunca mais sendo republicado. Em 2018, uma versão foi encontrada pela sobrinha do autor e completamente revista por Peter Graff, seguindo um conjunto de revisões deixadas pelo autor em cartas enviadas à sua mãe, e publicado na Alemanha, com a versão em inglês a ser publicada, e imensamente aclamada [1, 2, 3], em Abril 2021. 

maio 22, 2021

"Walden Two" de B. F. Skinner

B. F. Skinner foi professor de psicologia, recipiente de múltiplos prémios e distinções pelo seu trabalho, tendo ficado na história como um dos maiores defensores da abordagem behaviorista da psicologia na qual proporia o chamado "behaviorismo radical", uma proposta que vê os indivíduos como sistemas de comportamentos — respostas do humano a estímulos do ambiente —, em que tudo aquilo que sentimos é apenas reflexo da forma como nos comportamos. Deste modo Skinner acreditava que moldando o ambiente poderíamos moldar os indivíduos, acreditava na possibilidade da "engenharia do comportamento" por via da "engenharia cultural". O livro "Walden II" (1948) é um romance que segue o método socrático (investigação filosófica por meio do diálogo) e serve a apresentação destas engenharias com base numa comunidade utópica. Não é um grande romance, mas é uma excelente apresentação das ideias do autor, o que faz deste uma excelente leitura para quem se interesse pelo tema. 

maio 20, 2021

"Dark patterns" na governação de países

Os argumentos dos Estado Europeus para a manutenção dos Jogos de Azar — Euromilhões, Raspadinhas, etc. — defendem que são a melhor forma encontrada para manter vivos dezenas de projetos sociais e culturais. Sem estas, centenas de projetos relevantes cairiam, e seria necessário encontrar alternativas no Estado para os manter. Assim, em termos puramente abstratos, as Raspadinhas são vistas pelos Estados como Impostos Voluntários. As pessoas só "pagam" se quiserem, e desse modo cria-se um instrumento de geração de receitas adicionais que não é contabilizado enquanto tal, e que é, dizem ou querem fazer acreditar, igual para todos. Só há um senão, é que a ideia de Voluntário e Equitativo não tem sustentação. 

maio 16, 2021

A doce canção que embala as crenças sociais

Quem quer que pegue em “Canção doce”, de Leïla Slimani, fica logo na primeira página a saber que está perante uma história de crime, um dos mais hediondos — o assassínio de crianças —, e, no entanto, não parece ser esse crime que Slimani quer aqui tratar, apesar de passar todo o tempo ao seu redor. É verdade que ficamos ainda a saber que o perpetrador é uma ama, podíamos dizer “a ama”, tal a convenção se afirmou e foi explorada ad nauseum pela literatura e cinema. Mas sabemos também que “Canção Doce” foi premiado com o Prémio Goncourt em 2016, o mais importante da literatura francesa, chocando de frente com a ideia de cliché e implicando a necessidade de uma intenção autoral. Assim, se no final da primeira página estamos presos pela artimanha do enredo — saber porque a ama fez o que fez e como —, não deixamos de nos inquietar com o subtexto — o que há aqui de novo?

maio 14, 2021

Meio Sol Amarelo (2006)

Conheci Chimamanda Ngozi Adichie através da sua TED talk “O Perigo da História Única” que me deslumbrou pela oratória e assertividade. Desde então tive sempre curiosidade de a ler, mas só agora o fiz tendo começado com este que é o seu segundo livro “Meio sol amarelo”. Não me desiludiu, embora esperasse mais, mas é uma belíssima obra, e uma grande homenagem à história da Nigéria, nomeadamente para quem acredita que nós somos feitos das histórias que contamos. 

maio 09, 2021

A Tirania de Ter de Ser o "Melhor"

Apesar de repetitivo, "The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good?" (2020) de Michael Sandel foi o livro mais transformador que li nos últimos anos, por tocar em aspetos fundamentais da atualidade que explicam as intrincadas relações humanas da nossa sociedade neste início de século. 

Deixo múltiplos pontos que o livro suscitou, com argumentação de Sandel, algumas conclusões e  discussões desses. Começo com o ponto principal:

1. A dignidade do nosso trabalho não é medida pelo ordenado que recebemos. 

maio 03, 2021

A Caverna dos Sonhos Esquecidos

"Cave of Forgotten Dreams" (2010) é um documentário de Werner Herzog sobre a Caverna Chauvet, no sul de França, que contém algumas das mais antigas imagens criadas por humanos (435), há cerca de 32.000 anos. O tom da voz de Herzog é bom e funciona bem na criação da experiência, já os seus comentários e as questões que coloca aos entrevistados deixam muito a desejar. Apesar disso, o documentário é poderosíssimo por nos dar a ver algo que está vedado ao público, mas mais do que isso, por nos aproximar imenso de algo que foi criado há milhares e milhares de gerações e se parece tanto com aquilo que continuamos a criar hoje. É quase espiritual...

abril 30, 2021

Le Guin e o Conservadorismo dos sistemas Anarco-comunistas

“Os Despojados” (1974), de Ursula K. Le Guin, é uma obra de excelência e obrigatória por ser capaz de gerar uma simulação narrativa de um universo no qual funcionam em simultâneo três modelos de organização social — capitalista, comunista e anarquista — não defendendo nenhum dos modelos, apresentando as suas componentes boas, mas evidenciando também os problemas de fundo de cada um. No final do livro sabemos algo, nenhum sistema é perfeito, nenhum sistema responde às ânsias de cada ser individual. Em todos, é necessário fazer cedências a propósito do que acreditamos Ser para podermos Sobreviver.

Imagem da edição de luxo ilustrada da Folio, de 2019, criada por David Lupton

abril 28, 2021

A tinta invisível que suporta as histórias

Invisible Ink: A Practical Guide to Building Stories That Resonate” (2010) é um livro prático, como diz o próprio subtítulo, por isso não se espere aqui grande estrutura, nem aprofundamento de conceitos, menos ainda densidade ou explicações detalhadas. Apesar disso, este trabalho de Brian McDonald acaba sendo bastante recompensador para quem decidir dedicar-lhe um par de horas, já que em tão poucas páginas de texto condensa um conjunto de ideias fundamentais para escrita de histórias para qualquer suporte. O autor está centrado no cinema, e utiliza imensos casos práticos, com particular destaque para Steven Spielberg, mas o que nos conta e explana é aplicável a qualquer meio narrativo. Nas linhas que se seguem deixo uma síntese do que me parece ser o mais relevante do livro.

abril 24, 2021

"As Faces Esquecidas de Palmira" (2021)

Estreia hoje no canal Arte o documentário "As Faces Esquecidas de Palmira" que pode ser visto no site do canal de forma gratuita até ao dia 22 junho. Arranjem 80 minutos para ver porque vale todos os minutos. Possui audio em francês e alemão, e legendas em inglês e italiano. O documentário foi produzido pelo Arte mas dirigido por um realizador sírio, Meyar Al-Roumi (1973), oferecendo-nos um acesso ao coração da cidade, o que foi, as lendas à sua volta e o que representa hoje. O filme leva-nos numa viagem no tempo até à época áurea da cidade oásis que funcionou como centro de ligação entre a Ásia, África e Europa, nos primeiros 300 anos d.C. Não sobrou muito, mas o documentário dá conta de um excelente trabalho de arqueologia levado a cabo pela dinamarquesa Rubina Raja que conseguiu até à data reunir mais de 3500 peças provenientes de Palmira e que se encontram espalhadas por todo o globo.

Novelas de Ferrante, Roth e Mann

Trago 3 pequenos livros — "Tonio Kroger" (118p), "Um Estranho Amor" (176p), "Indignação" (176p) —, 3 novelas aparentemente desconexas, mas que fui lendo e colocando na pilha de lidos sem me dar ao trabalho de parar para refletir e escrever. Tendo resolvido colmatar essa falta, percebi que faria sentido juntar a conversa sobre os 3 num texto único, desafiando-me a mim próprio em busca de relações. Desde logo, podem estabelecer-se entre "Tonio Kroger" e "Um Estranho Amor", já que ambas são novelas debutantes dos autores. No caso de "Indignação", sendo o oposto, porque é a 29ª obra de Roth, o seu conteúdo trata um "coming of age", aproximando-o de "Tonio Kroger".

abril 18, 2021

Escritores falando sobre si

Cheguei a "The Way of the Writer: Reflections on the Art and Craft of Storytelling" (2016) de Charles Johnson (1948) por via de várias resenhas que o identificavam como um dos livros mais interessantes sobre a produção criativa, nomeadamente por toda paixão e abordagem filosófica ao mundo da arte e da escrita. Contudo, pouco depois de iniciar a leitura surgiram as primeiras suspeitas de estar perante alguém que, apesar de ter feito algumas coisas relevantes na sua vida, longe de alcançar um reconhecimento internacional, demonstrava uma enorme falta de humildade. A meio do livro, não conseguia deixar de pensar noutro livro que segue exatamente a mesma fórmula — memórias-instrutivas-na-forma-de-romance-inspiracional —, escrito por um autor de fama mundial, com um volume de produção ímpar, ainda que nem tudo de qualidade inquestionável, mas oferecendo-se em toda a sua simplicidade, como se não tivesse publicado mais do que um livro que poucos leram, falo de "On Writing: A Memoir of the Craft" (2000) de Stephen King (1947). Isto diria quase tudo o que haveria para dizer sobre o livro, e em sua vez recomendaria a leitura duas ou três vezes do livro de King, mesmo que, como eu, não o considerem um dos vossos escritores preferidos. Mas, existe uma outra coisa que me incomodou tanto ou mais na leitura, e como tal não consigo deixar de o referir, assim como também existem um conjunto de notas muitíssimo interessantes.

abril 17, 2021

Interpretação ao lado

Como primeiro livro é muito bom, com Celeste Ng a conseguir elevar-se em dois pontos de relevo: a) cria todo um ambiente narrativo que nos faz imergir e virar página atrás de página na ânsia por chegar a saber tudo; b) toca nas questões do racismo asiático nos EUA, que é algo quase sempre esquecido, também muito pela natureza específica da cultura asiática. Como livro de ideias, peca em várias frentes, sendo a principal a manipulação do leitor por meio do artifício narrativo de não revelar elementos explicativos , mantendo-nos na escuridão para aguçar o suspense, mas que depois falha na entrega final.

abril 10, 2021

O código da interação humana

O livro "The Culture Code" (2017) de Daniel Coyle fez-me lembrar "Blink" (2005) de Gladwell, pelo modo como discute algo tão presente na nossa realidade mas que temos imensa dificuldade em especificar e enunciar. Se Gladwell tentava definir o que torna o olhar de um especialista diferente, o modo como a sua capacidade percetiva imbuída de saber e experiência vai além do que é evidente. Coyle, procura definir aquilo que emerge da cola entre humanos quando interagem e faz com que juntos sejam mais do que a mera soma dos indivíduos. Ambas à superfície parecem dotadas de alguma magia, por não serem facilmente explanáveis nem racionalizáveis. O que é também interessante é o facto de Coyle ter feito anteriormente um trabalho soberbo na análise do talento individual, em “The Talent Code” (2009), e ter-se visto aqui obrigado a concluir que o talento dos indivíduos não é a força motriz do talento dos grupos.

abril 03, 2021

As cantatas do Comunismo e Fascismo portugueses

Dizer que o Comunismo nunca existiu porque nunca foi implementado segundo a visão de Marx é uma ilusão em tudo semelhante àquela que diz que a Ditadura portuguesa nunca existiu porque Salazar não foi  ditador mas "provedor de justiça", que salvou Portugal da ruína financeira e "viveu exemplarmente". Duas cantatas revisionistas que servem apenas para vender ideias que a prática demonstrou, preto no branco, como totalmente disfuncionais. Para o efeito, deixo excertos de várias obras, para que tirem as vossas conclusões.

abril 02, 2021

Porque emergem comunidades?

No seu livro "Blueprint: The Evolutionary Origins of a Good Society" de 2019, Nicholas A. Christakis aborda a questão da formação das sociedades de uma perspectiva evolucionária. A abordagem seguida por Christakis é científica, mas não experimental de forma direta. Ou seja, usam-se múltiplos métodos de análise indireta do objeto, que permitem construir inferências que depois suportam a argumentação geral. Mas não existe uma forma de aceder empiricamente ao objeto da discussão, ou de o testar de forma completamente isolada. Para uma parte da academia, isto deita por terra o interesse deste trabalho, e considera-o mesmo uma afronta. Do meu ponto de vista, e de uma outra parte da academia, isso é miopia científica. 

março 31, 2021

Contra a demonização da Aula

Nos últimos anos temos assistido a uma demonização da aula expositiva (a lecture), não apenas no discurso mais comum de quem está focado na profissionalização do ensino, com artigos como “Põe as crianças a dormir — mas os professores continuam na mesma a dar aulas”, mas também dentro da própria academia com a revista Science a fazer artigos como — “As aulas não são apenas aborrecidas, são também ineficazes”. Ou ainda agora com a pandemia e o ensino online em que se diz que "Os alunos não detestam o Zoom, eles detestam é as aulas". Tendo em conta a enorme recetividade que as diferentes comunidades têm manifestado a este discurso, percebe-se o contínuo ataque cerrado a que a Escola está votada. É contra esse ataque que escrevo este artigo, porque não podemos permitir que a Escola, o único elevador social consequente e o único garante de uma democracia harmónica, seja rotulada como inconsequente ou nefasta.

Imagem de uma aula do Professor Michael Sandel, na Universidade de Harvard

março 27, 2021

O nosso Movimento molda o nosso Pensamento

Barbara Tversky apresenta no seu último livro, "Mind in Motion: How Action Shapes Thought" (2019), uma teorização sobre a cognição, ainda que não completamente nova, arrojada. Defende que o nosso pensamento não é construído pela linguagem, mas pela ação, pelo movimento. Tversky diz-nos que usamos as palavras para descrever, mas na verdade a nossa mente constrói conceitos por via de imagens mentais criadas a partir da nossa ação sobre a realidade. Damásio tem falado bastante sobre estas imagens mentais, e sobre a implicação da emoção e do corpo nos processos de raciocínio, mas mais próximo ainda, é o trabalho de Benjamin Berger, no livro "Louder Than Words: The New Science of How the Mind Makes Meaning" (2012), que defende, também, que não processamos a informação em modo de texto, mas por meio de imagens ou simulações mentais. Tversky dá um exemplo clássico, mas que todos nós podemos rapidamente intuir, e que passa pela enorme dificuldade que temos em descrever a cara de alguém em palavras. Isto, para Tversky, é um indício de que a nossa capacidade de pensar não acontece a partir de um processo mental textual algorítmico inato, como defende Chomsky, mas é antes produzida por via da nossa ação no espaço e tempo, pela nossa atuação interativa com o real que nos permite relacionar e construir mentalmente a realidade na nossa mente.

março 21, 2021

A agência de si

As palavras não saem. Deixei passar alguns dias e mesmo assim escrevo e apago, escrevo e apago... Li-o muito rapidamente, não conseguia parar, queria saber o que aconteceria a seguir, mais do que isso, queria saber porquê, e porquê, e novamente porquê. Mas a autora não responde, lança algumas pistas para o ar, mas não se fixa nelas. No final, voltamos ao ponto de partida, só que não, porque a impressão é forte e dificilmente nos deixa. "A Vegetariana" é um livro de 2007, escrito pela autora sul-coreana, Han Kang.

março 14, 2021

O Infinito aberto pela Escrita e o Livro

O Infinito num Junco” é um livro sobre os Clássicos — cultura da Grécia e Roma antigas — focado na invenção da Escrita e do Livro, escrito num tom bastante leve, arredado do formalismo da Academia na qual a autora Irene Vallejo (1979) se doutorou, e que ninguém esperava ver tornar-se num sucesso de vendas em 2020. Em Espanha, além dos múltiplos prémios, saíram mais de 25 edições, e em menos de um ano já vai com mais 30 de traduções — português, francês, holandês, etc. O que tem esta obra para gerar tanto interesse?


março 13, 2021

Perdidos no Pensamento (2020)

Memórias desencantadas sobre a academia, em que se procuram pistas para continuar a acreditar no valor da reflexão, da edificação da vida interior. A questão que move Zena Hitz em "Lost in Thought: The Hidden Pleasures of an Intellectual Life" (2020) é: para que serve uma vida intelectual? O que a leva a questionar o valor da dedicação à construção do pensar. E mais iminente ainda, se o pensamento é o fim, ou é apenas um meio? Hitz não dá lições do alto da cátedra, à lá Séneca. Ela subiu todos os degraus académicos, chegou ao topo, numa universidade de elite americana, e depois resolveu abandonar tudo.

fevereiro 27, 2021

"Oresteia" (458 a.C.)

A “Oresteia” é uma peça relevante enquanto extensão do universo de Tróia, já que dá conta dos eventos que se sucedem à chegada a casa do vitorioso Agamémnon, o rei grego que partiu para vingar a honra do irmão Menelau. Tendo a guerra durado 10 anos, no regresso tinha à sua espera a esposa e o seu povo, mas tinha também uma provação. Agamémnon regressa na posse de Cassandra, uma das filhas do rei de Tróia, Príamo. Mas aquando da sua partida, seguindo as profecias, aceitou sacrificar a sua filha Ifigénia, algo que a sua esposa, Clitemnestra, nunca lhe perdoou. 

fevereiro 26, 2021

A academia e o problema da mente-corpo

Rebecca Goldstein é uma académica da área da Filosofia, tendo começado a sua carreira no domínio da Física, acabaria por mudar-se para a Filosofia e seguir o ramo da Filosofia da Ciência. Isto é importante, porque este seu primeiro romance — "The Mind-Body Problem" (1983) — contém enormes traços autobiográficos. Um dos seu livros posteriores — "Incompletude: A Demonstração e o Paradoxo de Kurt Gödel" (2005) — dá conta da relação entre Godel e Einstein em Princeton, tendo-o lido antes, serviu-me aqui para compreender em muito maior detalhe o mundo e a cultura da autora. Mas, para primeira obra, o que verdadeiramente impressiona, não é o caráter conceptual,  é a audácia. A capacidade de criar uma voz familiar que não se acanha, que se expõe sem constrangimentos.

fevereiro 22, 2021

A resposta é: 42

Foi publicado há dias, 19 fevereiro, um artigo na Science sobre a crise ambiental ocorrida há 42 mil anos, motivada pela inversão dos polos magnéticos da Terra que produziu alterações no campo de forças que protege o planeta da influência de raios cósmicos. A equipa australiana, liderada por Alan Cooper e Chris S. M. Turney, batizaram o evento como “Adams event”, como homenagem a Douglas Adams que escreveu "The Hitchhikers Guide to the Galaxy" no qual inscreveu o nº42 como fonte da vida. Mas o mais importante são os três grandes efeitos referenciados: o desaparecimento de megafauna; a extinção dos Neandertais; e por último, e que mais me interessou, o surgimento das pinturas nas cavernas.

Imagem retirada do vídeo produzido pela Universidade Nova South-Wales, Sydney (ver abaixo)

fevereiro 10, 2021

Clássicos: O Livro de Jó

“O Livro de Jó” faz parte dos “Livros poéticos e sapienciais” do Antigo Testamento, e terá sido escrito entre o VII e o IV séculos a.C., sendo um dos livros da Bíblia cristã mais amplamente citados dentro e fora do contexto religioso. Santo Agostinho cita-o, Tomás Aquino declara a história verdadeira, Martinho Lutero usa-o para definir a santidade. Na literatura, cita-se como a primeira grande obra existencial servindo depois, ao longo de séculos, a múltiplos autores na evocação do significado do humano — de John Milton (“Paraíso Perdido”) a Carl Jung (“A Resposta a Jó”), passando por Dostoiévski (“Os Irmãos Karamazov”) ou Kafka (“O Processo”) ou mais recentemente Terrence Malick (“A Árvore da Vida”). O núcleo do texto assenta no questionar da justiça ou moral divinas, ou como a teologia prefere definir: “o problema do mal” que se equaciona segundo a questão: “Por que sofrem os justos?"

"Filhos e Filhas de Jó desiludidos por Satanás" (1826) gravura de William Blake 

fevereiro 04, 2021

A luta de quem o quiser ler

Estou a ler “A Minha Luta”, paro e fecho o livro, levanto-me vou à cozinha e olho pela janela, vejo a oliveira ainda jovem a querer dar ares de si. Abro o armário tiro uma caneca branca alta e esguia, encho-a com água até meio, coloco-a no micro-ondas. Abro o frigorífico tiro o leite, apanho o vidro de café, pouso ambos na mesa. O micro-ondas toca, abro a porta tiro a caneca ouço o borbulhar da água que se evapora da fervura, pouso-a na mesa. Aparece a Cookie, abana o rabo, dou-lhe uma festa na cabeça enquanto abro o vidro de café. Ela não parece satisfeita, viro o café sobre a taça batendo ligeiramente com o dedo no fundo do vidro para que entorne a quantidade certa. Olho novamente para ela, ela olha para mim, quer dizer-me algo. Vou até à janela ela segue-me contente, abro-a e ela sai a correr, ladra para a árvore alta do vizinho de onde saem chilreios. Está frio, volto a fechar a janela bebo um gole de café, sinto o calor da taça nas mãos, volto ao escritório. Sento-me no sofá, duas almofadas de cada lado, olho para a capa de “A Minha Luta” volto a pegar-lhe leio mais algumas páginas volto a parar e a fechar. Olho pela janela e interrogo-me, "porque continuo a ler-te?"

janeiro 31, 2021

Platão versus Aristóteles

 “The Cave and the Light: Plato Versus Aristotle, and the Struggle for the Soul of Western Civilization” é uma obra de grande fulgor, de Arthur Herman, sobre a história ocidental da filosofia e da ciência, contada em pouco mais de 700 páginas e a partir de um simples conceito: todas as ideias dos últimos 2500 anos são o resultado de um debate continuado entre Platão e Aristóteles. Herman não defende que tudo dependeu deles, não faz deles deuses, mas diz antes que aquilo que forma a força a motriz da evolução da sociedade ocidental, assenta na constante oposição entre os que se sentem influenciados por uma visão do mundo platonista, e aqueles que se sentem influenciados por uma visão do mundo aristotélica. A obra tem sido alvo de alguns ataques, pelo conservadorismo do autor, mas quem quiser aproveitar o trabalho realizado, apoiado por uma boa escrita, encontrará aqui muito para aprender.

janeiro 25, 2021

Vitalina Varela

O filme de Pedro Costa, “Vitalina Varela” (2019), fez-me viajar no tempo até ao dia que vi o seu “Casa de Lava” no cinema, em 1994, e que me deixou uma impressão fortíssima de Cabo Verde. Daí viajei até ao Bairro das Fontaínhas, onde passei 3 horas “No Quarto de Vanda”, em 2000, e de onde saí com um nó interior. “Vitalina Varela” junta partes desses dois mundos, filtra-os pelo olhar pessoalíssimo de Costa, e esmaga-nos completamente pela dureza das realidades apresentadas, a exterior e a interior. 


janeiro 23, 2021

“Retrato de Uma Senhora” (1881) de Henry James

“Retrato de Uma Senhora” (1881) é considerada a obra central do legado de Henry James. A mim serviu de porta de entrada, ficando a conhecer o mesmo, mas apesar de alguma admiração suscitada, deixou-me sem motivação para o continuar a ler. James realiza um trabalho soberbo de análise dos processos da consciência humana, na senda do que já nos tinha dado Balzac e Dostoiévski, capturando a nossa atenção ao longo de páginas e páginas de escalpelização dos mundos interiores dos seus personagens. Diga-se que James era irmão de William James, um dos grandes pioneiros da psicologia. O problema surge no conteúdo, nos personagens trabalhados, pela pertença à aristocracia, ou a uma burguesia muito próxima, que torna aquilo que se conta muito pouco interessante.

janeiro 17, 2021

Do não-dizível por Clarice Lispector

Ler “A Paixão Segundo G.H.” (1964), de Clarice Lispector, é como ler o tom de Beckett traduzido pela poética de Pessoa. Nada aqui é convenção, tudo é experimental, não existe princípio, meio, nem fim, porque existem apenas interrogações. Interrogações que se vão abrindo como matrioskas, de onde vão saindo novas questões que como borboletas voam para longe sem aguardar por resposta. É uma obra carregada de existencialismo, mas mais do que isso, é uma obra confessional, recorda-nos Santo Agostinho, pelo confronto das ações passadas com os julgamentos do presente e as punições do futuro. Mas vai mais fundo, pela dor que Lispector imprime em G.H. que nos recorda a dor a que Von Trier submete C.G. em “Antichrist” (2009).

janeiro 15, 2021

A literatura como Redenção

Chego a “La Familia Grande” (2021), de Camille Kouchner, depois de ter lido “Le Consentement” (2020) e de ter percebido que o fenómeno #metoo demorou, mas chegou a França, não na sua forma convencional, usando as redes sociais, mas por via da literatura. O relato é aqui tão, ou mais, cru que no livro de Vanessa Springora. Começa-se a ler e não se consegue parar, o voyeurismo e a expectativa tomam conta de nós. Aqui a família de suporte é bastante menos estereotipada, existem recursos, e acima de tudo educação certificada com os mais altos pergaminhos. Mas, nada disso serve para evitar o pior. No final, inevitavelmente, e mais uma vez, somos obrigados a questionar-nos sobre o valor da Educação que tanto prezamos, sobre o  Humanismo que tanto apregoamos. No final, mais uma vez, somos esbofeteados pela luta entre o racional e o emocional, ou, entre a consciência e o instinto. Este livro, pelos personagens que dele fazem parte, torna estas questões brutalmente presentes, obrigando-nos a mergulhar no mundo de valores em que nos habituámos a acreditar para tudo questionar.

janeiro 12, 2021

Livros do Google Books em Domínio Público

O Google Books (ou Google Livros) é um dos serviços da Google mais importantes e impressionantes de entre os muitos que têm desenvolvido, pois conseguiu ao longo dos últimos 15 anos digitalizar 40 milhões de livros em todo o mundo. A Google estima que existam cerca de 130 milhões de volumes em bibliotecas no mundo e tem como objetivo digitalizar todos. Este serviço só tem um problema, o Copyright. A Google não pode disponibilizar em modo completo, obras que estejam debaixo de direitos de autor. Contudo, pode disponibilizar aquelas de que os seus autores tenham falecido há mais de 70 anos, e é isto que me interessa aqui. Porque a Google não disponibiliza automaticamente os livros que entram no domínio público a cada ano, para tal acontecer é preciso que alguém reclame e evidencie que a obra já está em domínio público. Para o efeito, deixo abaixo os passo para qualquer um de vós o poder fazer.

Como libertar livros em Domínio Público no Google Books

janeiro 09, 2021

Como Morrem as Democracias

"How Democracies Die" (2018) é um livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, dois professores de ciência política dos EUA, especializados no estudo das políticas da América do Sul e em Política Comparada. Escreveram este livro como reação à subida de Trump ao poder, e para explicarem que apesar das pessoas acalentarem a ideia de que os EUA são um país diferente e capaz de suster todo o tipo de ataques contra a sua democracia, na realidade são uma democracia com as mesmas fragilidades de qualquer outra no globo.
 

janeiro 01, 2021

Trilogias de 2020

2020 foi um ano com muitas leituras, pela primeira vez passei os 100 livros, o que claramente se deve ao muito tempo passado fechado em casa por força da pandemia, mas foi também o ano em que li muitas trilogias, cinco. Por isso em vez de fazer um texto sobre as melhores leituras, deixo apenas um apanhado das trilogias lidas em 2020. O resto está no GoodReads e aqui no blog.