sábado, abril 20, 2019

A importância de “Antígona”

“Antígona” (-442) é a parte final de uma trilogia que se inicia com “Rei Édipo” (-427) a que se segue “Édipo em Colono” (-406), ou seja, a última parte, mas a primeira a ser escrita por Sófocles (-497 — -405). Assim, se a primeira parte ganhou repercussão no nosso imaginário contemporâneo deve-o não só à hábil estrutura narrativa, capaz de prender o leitor e agitar as suas emoções do início ao final, mas principalmente a Freud por ter inventado um complexo incestuoso, que nunca existiu, já que Édipo só descobre que tem uma relação com a própria mãe depois de com ela ter casado. “Édipo em Colono” funciona como episódio intermédio, contribuindo para aumentar o universo dramático, nomeadamente do seu espaço, como das personagens fundamentais, pondo em cena o fim de Édipo, estando Sófocles perto da sua própria morte, e dando corpo às duas percentagens centrais de “Antígona”, Antígona e Polinices.

Recorte de "Antigone donnant la sépulture à Polynice"(1825) de Sébastien Norblin [ver Galeria]

Se o “Rei Édipo” nos choca pelo conflito com a natureza, pelo incesto, Antígona agarra-nos pelo conflito entre o indivíduo e o coletivo. Não admira que Antígona tenha sido a primeira peça, e uma das primeiras peças de Sófocles, é muito mais liberal, centrada nos valores sonhadores da autodeterminação, enquanto Rei Édipo é quase uma aceitação tácita do determinismo que sepulta o livre-arbítrio.

Temos uma Antígona que questiona a lei, desafia o governador, o rei Creonte, aceitando a morte em troca da defesa dos seus princípios, o direito de enterrar o irmão. Podemos ler na vontade de Antígona apenas o cumprimento dos desejos dos deuses, e do seu irmão expresso em “Édipo em Colono”, de que se sepultem os mortos sob terra, mas isso é apenas um pretexto dramático. O que temos, é Antígona, uma mulher respeitada por toda a sociedade a questionar uma ordem do governador, da autoridade, provocando um conflito na sociedade, que por ter em tanta consideração Antígona, e por aquilo que pede não lhes parecer indigno, a coloca face a um dilema, aceitar ou não aceitar a vontade de Antígona. Este conflito é ainda mais ampliado com a entrada em cena de Hémon, filho de Creonte e noivo de Antígona. Habilmente, Sófocles não dá espaço à emocionalidade básica da historieta do amor cego, antes aproveita para captar do confronto pai-filho, a mesma problemática da auto-determinação do indivíduo, entrando aqui no território sagrado do “Honrarás Pai e Mãe”.

A peça questiona assim, sem rodeios, a autoridade daqueles que se dispõem a dispor das vidas dos outros, seu povo ou seus filhos. Deve um cidadão deixar de se afirmar, de se edificar, enquanto ser humano individual e livre, apenas para cumprir os desígnios de um líder, que o é temporariamente. E um filho? Deve ele submeter-se a todas as vontades de um pai, apenas porque dele nasceu? Com que direito podemos pôr e dispor das vidas dos nossos filhos (cf. “Uma Educação”, 2018)?

Refletindo agora, esta questão vai ao coração do Rei Édipo, dando a parecer que Sófocles quis aprofundar o dilema daquilo que somos e do poder que detemos para determinar o que somos. Poderemos, mesmo pelas supostas leis da natureza, anti-incesto, condenar Édipo? Quanto daquilo que somos depende de nós? dos outros? da natureza? Temos mesmo acesso a um livre-arbítrio?

Tendo-o ou não, devemos, não, acredito que temos a obrigação de nos edificar, de trabalhar para o que é justo, que não podendo ser escrito como lei, por nenhum rei ou governante, por nenhuma sociedade, nem por nenhum pai ou mãe, já que o que é justo é emanado da moral que se escreve momento a momento pela própria evolução da civilização, podendo apenas basear-se no princípio basilar que suporta todos os ditames filosóficos e religiosos desde sempre, sendo hoje reconhecida como Regra Dourada: “Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.”

quinta-feira, abril 18, 2019

A civilização faz-se do contar de histórias

Há algum tempo que queria ler Mahfouz, o Nobel de 1988 dava-me alguma garantia de existir ali trabalho relevante, além de facilitar a triagem de uma cultura que tendemos a desconhecer. Comecei por procurar a Trilogia do Cairo mas como comecei a seguir a lista das 100 Obras do Instituto Norueguês do Nobel, e nesta vem este "Os Filhos do Bairro" (1959), acabei por optar por começar por aqui. Não li mais nada sobre o livro, apenas aceitei a recomendação da lista, entrei de olhos fechados, e mesmo assim o impacto foi grande. Provavelmente se tivesse lido algo mais sobre o que estava por detrás da mesma teria conseguido ler mais nas entrelinhas, contudo ler [1] no final continuou a permitir-me expandir a leitura e a sua compreensão, além de poder comparar as minhas interpretações com as mais consensuais. Mas se a história e sua premissa são belíssimas, imensamente poderosas e carregadas de significado, acabei por me entusiasmar mais ainda com a forma e estrutura (claro defeito da área que investigo).


Para mim, a premissa base de "Os Filhos do Bairro” assenta na explicação do mundo que temos como fruto do contar de histórias. A esta junta-se uma segunda, a mais debatida, da explicação do modo como surgiram as religiões e todo o seu impacto nos processo de civilização das sociedades. O registo escolhido é parabólico, num tom muito semelhante ao das “Mil e uma Noites” (800), mas poderíamos dizer também ao Velho e Novo Testamentos ou o Alcorão. A menção a estes últimos é intencional, já que a história que se conta tem por base as três religiões abraâmicas, ou monoteístas: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Muitas das sínteses que se veem do livro falam sobre um conjunto de histórias, transparecendo quase a ideia de que se trata de um livro de contos, mas nada poderia ser mais errado. A estrutura apenas parece apresentar-se como um agregado de histórias, porque quando analisadas as suas relações, e compreendidos os seus objetivos e alcance damo-nos conta do facto de estarmos perante um romance não só completo, mas imensamente poderoso enquanto soma das partes. A estrutura é bastante distinta da matrioska das Mil e Uma Noites, porque funciona numa base de sucedâneo evolucionário, aparentemente natural mas com uns pós de sobrenatural, acabando por colocar em evidência, quase como representado sobre  um tabuleiro de ideias, todas as perspectivas religiosas e pós-religiosas. Existe algo de teleológico no romance, mas ao mesmo tempo diria que mais do que explicar o fim, Mahfouz está focado no chegar ao como, e é esse que acaba tornando a estrutura do romance (o sucedâneo de mundos evolutivos), tão mais relevante, porque acaba enunciado em si mesma aquilo que nos conta.

Ou seja, Mahfouz usa o contar de histórias, os seus processos, para literalmente discutir o mundo em que vivemos e aquilo que somos enquanto sociedade e espécie. Podia ter-se socorrido do ensaio argumentativo, mas preferiu a narrativa com todo o seu fervilhar dramático. Na verdade, o que Mahfouz faz é pegar nas qualidades narrativas, aquelas que tendemos a usar mentalmente para compreender o mundo, para nos dar a ver como funciona esse mundo. Este modo é muito mais eficaz que o ensaístico, já que usa a forma mental como construímos conhecimento, como nos relacionamos com o mundo, que contém sempre um lado humano que o ensaio, pelo seu traço racionalista, tende a deixar de fora. Por outro lado, o uso das histórias é ainda mais vital quando o foco da explicação do mundo assenta numa análise dos livros de histórias de cada religião, as mais importantes para a civilização em análise, ao que Mahfouz não deixa de juntar o correspondente atual, o Humanismo, com a sua ausência de Deus.

Naguib Mahfouz

Não vou detalhar os personagens, quem representam em cada história, porque efetivamente representam personagens da mitologia que suportam a nossa civilização. Aliás, é por causa dessa representação tão clara que a obra foi banida no Egipto durante décadas, mas pior do que isso, Mahfouz sofreu uma tentativa de assassinato [2] em 1994, 35 anos depois do livro escrito, o que dá bem conta do quão perfurante o livro consegue ser em termos religiosos, mas vou mais longe, o que  lhe aconteceu poderia ter sido mais uma das histórias contidas neste livro, o que torna todo o livro e o seu autor ainda mais coerentes e relevantes.


"Os Filhos do Bairro" é uma obra dotada de grande genialidade formal, que nos faz refletir em profundidade sobre a sociedade que temos, mas acima de tudo sobre aquilo que somos enquanto espécie. Não apresenta uma escrita muito elaborada, não sei o quanto se terá perdido na tradução, mas o cuidado estético e a mensagem poderosa fazem com que encaixe completamente no perfil do Nobel, ao lado de Saramago, Naipaul ou Marquez.


Nota: A Penguin criou todo um guia de questões [3] muito interessantes no apoio à leitura da obra de Mahfouz que pode servir clubes de leitura, assim como o uso das suas obras nas escolas.

Referências
[1] The Allegorical Significance of Naguib Mahfouz's, 1989 
[2] From ‘Children of the Alley: The Story of the Forbidden Novel’, 2019
[3] “Children of the Alley Reader”’s Guide, Penguin 

segunda-feira, abril 15, 2019

Viajar, uma volição de posse

Comecei a escrever este texto hoje duas vezes, primeiro por causa do excesso de turistas numa reserva natural de macacos no Japão, mas decidi parar. Depois, por causa de um estudo da eDreams desta semana que conclui que mais de 50% das pessoas na Europa e EUA já escolhem os locais de viagem em função do seu potencial "instagramável". Recomecei, mas parei. De ambas as vezes, refleti sobre o facto de ser semana de Páscoa e de estarem muitos de vós em viagem a gozar descanso e férias, não quis ferir suscetibilidades. Contudo, ao terceiro choque, o facto de terem construído um aeroporto numa ilha das Maldivas que as tartarugas utilizavam para pôr ovos, e agora se veem obrigadas a pôr os ovos no alcatrão, deixou-me estarrecido, e decidido a fechar e publicar o texto.

Maldivas. Tartaruga põe ovos no alcatrão de uma pista de aeroporto recém construída num pequeno atol. As duas imagens por baixo da tartaruga, mostram o atol antes e depois. [Notícia]

Cada vez sinto menos vontade de viajar fisicamente. Já viajei bastante, inúmeros países e lugares, para muitos será pouco, para mim é já demais. As viagens, romantizadas pela literatura, não representam qualquer procura de conhecimento, porque não se apreendem nem assimilam culturas numa semana, isto para não falar em fins-de-semana. Os visionários do turismo souberam aproveitar muito bem a ganância do ser humano, a sua ânsia por ter, a volição de possuir, para nos enfiar pela goela abaixo a necessidade de viajar. Vendem, em letras de slogan: “Ter coisas já não importa, viva experiências”. Mas as experiências culturais não se compadecem com viagens de fim-de-semana, esta são meras coisas que se compram e se colam ao peito do Instagram.

Refúgio de macacos japoneses, piscina natural de água quente, que se transformou em meca turística [blog post]

Sim, porque ver uns edifícios de pedra ou metal, uns quadros ou esculturas, umas árvores ou quedas de água, correndo para riscar os objetivos no mapa, conhecendo apenas o senhor da receção do hotel, ou o do café ao lado do apartamento AirBnB, que nos recebe com um sorriso artificial porque é o seu trabalho diário, e nos agradece a gorjeta no final, pouco antes de voltarmos, a correr de novo, para o aeroporto, não tem nada que ver com o enriquecimento do ser, corremos apenas atrás do status, do “eu estive lá”. Viajar, neste modelo, não é em nada diferente de comprar um carro para mostrar, uma casa maior do que as necessidades, ou vestidos/fatos, sapatos ou joias de estilista. Viajar assim, não tem nada que ver com ter experiências que nos mudam, que nos fazem crescer interiormente, tem apenas que ver com o crescer daquilo que temos. Viajar acaba sendo uma forma material de quantificar o nosso impacto, o quanto conseguimos crescer na escala comparativa. Visitámos já 5, 10 países, 20, 40, visitámos o monumento A ou B, na cidade Y ou Z, tudo isso são apenas coisas, garante de status.

Metade dos portugueses tem em conta o potencial “instagramável” do destino [Público New]. Na imagem uma das polémicas de há algumas semanas com o tirar de selfies nos campos de Auschwitz.

Mas e porquê falar disto se cada um é livre? Bem, sim, somos livres de viajar, temos os mesmos direitos de tantos outros antes de nós. Mas talvez tenha chegado o momento de questionarmos se ter o mesmo direito dos que vieram antes de nós, nos dá também o direito de destruir aquilo que irão receber os que vierem depois de nós. Porque é isso que estamos a fazer com a indústria do turismo, estamos a destruir património dos nossos antepassados, a destruir habitats de espécies, a destruir o planeta colocando aviões no ar que consomem toneladas de combustível fóssil de modo totalmente irresponsável, e estamos ainda a destruir as vidas de quem habita esses locais, provocando perturbações brutais no imobiliário, entre tantas e tantas outras questões. Valerá a pena?


Atualização 16.4.2019
As agências de viagens já nem sequer disfarçam. Foto de um catálogo recente de uma agência nacional.


domingo, abril 14, 2019

Design de Narrativa, Desenho de Significado na Experiência Interativa

Foi publicado esta semana, na Convocarte - Revista de Ciências da Arte, da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, um novo artigo em que apresento todo um enquadramento teórico do recente domínio de Design de Narrativa que tem vindo a ser promovido pelo meio dos videojogos, intitulado "Design de Narrativa, Desenho de Significado na Experiência Interativa". Apresento neste uma modelação do conceito de Design de Narrativa a partir de três vetores — Estrutura, Personagens e Cenário —, com a Estrutura, base primordial do design, a ser evidenciada em quatro camadas — Linear, Ramificada, Modular e Modular Ramificada. O artigo acabou resultando num investimento maior do que o esperado, e por isso acabou ficando demasiado grande (quase 9000 palavras), de modo que fica como primeira parte do tema. A segunda parte será focada na poética das escolha interativas, e deverá surgir lá mais para o final do ano.

Zagalo, N. (2019). Design de Narrativa, Desenho de Significado na Experiência Interativa, in Convocarte - Revista de Ciências da Arte. No.7, Dezembro de 2019. ISSN:2183–6981. Lisboa: Faculdade de Belas Artes
A revista científica é publicada em acesso aberto, por isso o artigo encontra-se disponível para ser descarregado integralmente e sem custos no ResearchGate ou aqui.


quarta-feira, abril 03, 2019

A Odisseia como romance primordial

Ou a Odisseia é uma narrativa demasiado complexa para o tempo em que se diz que foi criada, ou desde então nada de novo aprendemos... Neste livro, Uma Odisseia: Um pai, um filho e uma epopeia (2017), apresenta-se um conjunto de memórias que dizem respeito ao primeiro semestre de 2011, em que Mendelsohn lecionou a Odisseia, no Bard College (EUA), e a que o seu pai, com 80 anos, assistiu. No final desse semestre, pai e filho, fizeram um cruzeiro no Mediterrâneo para visitar os locais por onde passou Ulisses antes de chegar a casa. Mendelsohn cose as aulas e a interpretação da Odisseia com a sua relação com o pai, criando uma narrativa emocional, carregada de factos históricos e literários assim como de sentimento humano, capaz de conduzir pai e filho a “casa”. Não sendo uma grande obra, a escrita e estrutura deixam algo a desejar, é uma belíssima viagem.


É um livro que só faz sentido ler depois de se ter lido a Odisseia. A leitura está constantemente a levar-nos de volta à nossa experiência da Odisseia, com as diferentes interpretações que vão sendo apresentadas, não só alargando o nosso conhecimento, mas também densificando as nossas memórias dessa leitura, algo que contribuirá para que a viagem de Ulisses se sedimente ainda mais em nós. Não posso dizer que Mendelsohn se alargue muito, para quem tiver dedicado um pouco a leituras adicionais à Odisseia, a Homero, e aos gregos, não encontrará nada de muito novo, ainda assim o modo como tudo vai sendo apresentado, é não só imensamente agradável como enriquecedor da experiência do texto original.

Mendelsohn e o pai na viagem ao Mediterrâneo

A vista do Bard College, dando conta de um lugar propício ao estudo da Odisseia.

Voltando ao início, se já tinha esta ideia quando li a Odisseia, agora fiquei completamente certo disso, a Odisseia não é um épico, é um romance. Procurei depois sobre isto, e encontrei pelo menos dois autores que desconstruíram este argumento (ver abaixo referências), demonstrando como a Odisseia apresenta todos os ingredientes base daquilo que viriam a ser os romances pós D. Quixote. A saber:

. O amor maior pela mulher do que pelas deusas.
. O amor da mulher que tece e destece uma camisola, esperando 20 anos.
. O naufrágio e a perda de tudo.
. A origem da cicatriz, a gestão da emoção e drama.
. A educação de Telémaco.
. A moral, a compaixão, o amor, as emoções, as traições, o casamento, os filhos, os pais e mães, os deuses, os servos.
. Constelação de personagens que sustentam a moral de Ulisses.

Excerto do paper "The "Odyssey" as Romance" de John Dean

A Odisseia é a matriz de tudo o que foi escrito desde então, e por isso ou é tão brilhante que não a conseguimos até hoje suplantar, ou então, o modo como foi feita, o facto de ter sido testada previamente durante séculos como história oral, fez com que adquirisse traços daquilo que faz de nós seres humanos — sociais, afetivos e cognoscentes — tornando-se mais num modo como pensamos e exortamos o mundo, deixando de ser mero artefacto escrito.


Referências
Hubert McDermott (1989), Novel and Romance: The Odyssey to Tom Jones, Palgrave Macmillan UK
John Dean, (1976), "The "Odyssey" as Romance", in College Literature, Vol. 3, No. 3, The Homeric Epic, pp. 228-236

sábado, março 30, 2019

A Analfabeta

Quando acabei de ler "O Grande Caderno", primeiro livro de Agota Kristof [1935-2011], senti-me tão impactado pela diferença do que tinha acabado de ler que tinha de saber mais sobre quem tinha escrito tal. Quem era esta Agota que tinha nascido na Hungria, de onde tinha partido aos 21 anos, em 1956, com um bebé de 4 meses ao colo, para se refugiar na Suíça? Sentia que o seu livro falava tanto a partir de dentro, do seu mundo pessoal, que só o poderia compreender compreendendo-a a ela primeiro. Descobri então que tinha deixado um pequeno livro de memórias, "A Analfabeta" (2004), nunca traduzido para português, que acabei por adquirir na língua original, o francês, a língua que Agota adotou como sua, desde que se refugiou na Suíça.

"A Rapariga do Tatra" (1905) de Marianne Stokes

A escrita segue de muito perto aquilo que está nos seus romances (entretanto já li o segundo, "A Prova" de 1989). A sua vida e família não serviram de espelho aos livros, mas emprestaram toda a dor e sofrimento provocados pelo roubo da infância e de identidade. Agota fala em algo em que nunca tinha pensado a propósito da União Soviética. Se na Rússia as pessoas viveram sob o jugo do comunismo, esse comunismo era emanado da sua própria cultura. Os restantes países, como a Hungria, foram obrigados a adotar uma língua que lhes era completamente estranha, obrigados a deixar de ler os seus próprios escritores, a estudar a história e geografia da Rússia, a sua cultura foi apagada, ou como ela diz, "sabotada", substituída pela cultura de um país estrangeiro. É verdade que isto é o que acontece quando uns países invadem outros, como fez Napoleão, ou Roma, mas supostamente não era isso que a União Soviética dizia ser, era supostamente uma União de países, era a URSS.

A Revolução Húngara de 1956, 3 anos depois da morte de Estaline, foi um golpe falhado. Muitos, como Agota, aproveitariam para fugir, porque como ela diz, a Hungria só viria a ser livre 33 anos depois.

E no entanto, ao ler as palavras de Agota, dou por mim a pensar em Portugal em 2019, e nas salas de cinema espalhadas pelas dezenas de shoppings nacionais, e em 99% dos ecrãs em que passam apenas filmes em inglês, professando, doutrinando tal qual Estaline fez, os hábitos e comportamentos dos portugueses com os valores dos EUA. E ligo o rádio, onde quem canta continua a fazê-lo em inglês, para depois ligar a televisão e abrir o Netflix, e continuar a ouvir inglês, e a ser invadido por problemas culturais que não são os meus, mas é como se fossem. E quando falo com as pessoas próximas, e recomendo um filme europeu, dizem-me, "não, obrigado, não gosto de ver cinema que não seja falado em inglês"! Agota passou a sua infância com uma fotografia a cores de Estaline no bolso, e nós?

Tudo isto acaba por dar ainda mais força à minha interpretação dos gémeos, na alegoria do primeiro livro de Agota, como potenciais faces de uma mesma moeda, o Comunismo e o Capitalismo.

"L'Analphabete" tem apenas 56 páginas. Começa assim:
“Je lis. C’est comme une maladie. Je lis tout ce qui me tombe sous la main, sous les yeux: journaux, livres d’école, affiches, bouts de papier trouvés dans la rue, recettes de cuisine, livres d’enfant. Tout ce qui est imprimé.
J’ai quatre ans.”
e termina assim:
“Je sais que je n’écrirai jamais le français comme l’écrivent les écrivains français de naissance, mais je l’écrirai comme je le peux, du mieux que je le peux.
Cette langue, je ne l’ai pas choisie. Elle m’a été imposée par le sort, par le hasard, par les circonstances.
Écrire en français, j’y suis obligée. C’est un défi.
Le défi d’une analphabète.”

quarta-feira, março 27, 2019

Alegorias políticas da República Popular da Hungria

"O Grande Caderno" (1986) de Agota Kristof apresenta-nos uma alegoria seguindo os passos dos irmãos Grimm, não deixando de fora o horror e originando múltiplas leituras. Pouco procurei, mas rapidamente encontrei várias, desde as mais simples que sustentam uma defesa do estoicismo, a teorias assentes no menino selvagem do século XIX, ou ainda a defesa de uma "ética ingénua" segundo Zizek. Do que eu li, e tendo em atenção ao contexto da escritora, refugiada na Suíça mas originária da Hungria ditatorial (estado comunista entre 1949 e 1989), pareceu-me estar perante um ataque ideológico pungente aos valores comunistas, com um discurso centrado em três vetores: ética, justiça e controlo emocional. À medida que vamos entrando no livro, vamos percebendo que algo está errado, existe um choque entre os valores rasteiros, praticamente selvagens, e uma literacia elevada. Ou seja, choca-nos como personagens com tanta capacidade intelectual podem submeter-se, quase voluntariamente, a tal.

Excerto da capa de uma versão inglesa. A versão lida faz parte da edição portuguesa da Editora Asa que reune os três primeiros livros de Agota Kristof, sob o título "Trilogia da Cidade de K."

Para se poder compreender a alegoria, pelo menos desta forma que passarei a descrever, um dos caminhos pode passar pela leitura da obra de Dostoiévski, nomeadamente as suas últimas obras, para entender aquilo que tanto o incomodava no comunismo: a forma como impossibilitava o humano na sua especificidade, bom ou mau, mas na sua singularidade. Dostoiévski batalhou com todas as suas forças o comunismo, porque não acreditava no seus princípios, compreendeu muito antes da sua implementação os seus efeitos, o modo como o seu racionalismo igualitário, acabaria por destruir a emocionalidade humana, a base daquilo que nos torna todos diferentes, e no fundo, únicos.


*** SPOILERS ***********************************

Os gémeos parecem originários do planeta Vulcano, mas isso apenas no diz aquilo em que se transformaram, já que todo o processo da sua insensibilização é descrito, seguindo toda uma cartilha de mandamentos, em que se obrigam a passar pelo indescritível para deixarem simplesmente de sentir. Ou seja, estamos perante filhos do grande regime, defensores de um visão historico-materialista, na qual o humano é moldado pelas condições materiais a que é sujeito. A ideologia não dá qualquer espaço à emoção, só a ética e a justiça podem garantir a igualdade. Não existe qualquer relação com o estoicismo aqui, pelo simples motivo de que os gémeos não buscam qualquer fim além do processo em si. Os gémeos são máquinas éticas de justiça, defendendo a igualdade de forma implacável.
"A Avó chama-nos:
– Filhos de uma cadela!
As pessoas chamam-nos:
– Filhos de uma Bruxa ! Filhos da puta!
Outros dizem:
– Imbecis! Vadios! Ranhosos! Burros! Porcalhões! Nojentos! Canalhas! Dejectos! Pedaços de merda! Malfeitores! Sementes de assassino!
Quando ouvimos estas palavras, sentimo-nos corar, as orelhas a arder, os olhos a picar, tremem-nos os joelhos.
Não queremos corar nem tremer, queremos habituar-nos aos insultos, às palavras que magoam.
Instalamo-nos à mesa da cozinha um em frente do outro e, olhos nos olhos, dizemos palavras cada vez mais atrozes.
Um:
– Cara de merda! Cu de cão!
O outro:
– Enrabado! Sacana!
Continuamos assim até que as palavras deixem de penetrar no nosso cérebro, nem sequer entrem nos ouvidos.
Exercitamo-nos desta maneira durante cerca de meia hora por dia, depois vamos passear pelas ruas.
Arranjamos maneira de ser insultados pelas pessoas e verificamos que conseguimos ficar indiferentes.
Mas também há palavras antigas.
A nossa mãe dizia-nos:
– Meus queridos! Meus amores! Meus tesouros! Meus adorados bebés!
Quando nos lembramos destas palavras, os nossos olhos enchem-se de lágrimas.
Mas teremos de esquecer estas porque, presentemente, ninguém nos diz semelhantes palavras e porque as nossas recordações são uma carga muito pesada de transportar.

Então recomeçamos o nosso exercício de outra maneira.
Dizemos:
— Meus queridos! Meus amores! Amo-vos... Nunca vos hei-de deixar... Nunca amarei mais ninguém... Nunca... Vocês são toda a minha vida...
À força de serem repetidas, as palavras vão perdendo o seu significado e a dor que trazem consigo atenua-se." (
pp. 24, 25)
Fui entretanto reler o Manifesto Comunista, e fiquei a refletir sobre a discussão que Marx e Engels fazem sobre a diferenciação entre o Proletariado e a Burguesia, no qual dão conta daquilo em que a burguesia transformava a sociedade no final do século XIX, que diga-se, em termos humanos, difere pouco daquilo que é hoje o capitalismo:
“Onde quer que tenha conquistado o poder, a burguesia calcou aos pés as relações feudais, patriarcais e idílicas. Todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus "superiores naturais" ela os despedaçou sem piedade, para só deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duras exigências do "pagamento à vista".
“Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas com tanto esforço, pela única e implacável liberdade de comércio."
"A burguesia rasgou o véu de sentimentalismo que envolvia as relações de família e reduziu-as a simples relações monetárias."

in O Manifesto Comunista (1848) de Marx e Engels
Poderá este livro ser mais do que uma crítica ao Comunismo? Existirá aqui algo mais? Porquê gémeos? Será a resposta ao Comunismo o Capitalismo? Interrogo-me se poderiam estes gémeos serem a alegoria do Comunismo e Capitalismo, como faces de uma mesma moeda? Embora, tenha dúvidas sobre esta leitura, já que o comportamento dos gémeos, tirando talvez a parte final — em que uma dos gémeos leva consigo as jóias e o dinheiro, e serve-se do corpo do pai para atravessar a fronteira —, não é dada ao aproveitamento, ou tentativa de extrair ganhos, dos outros...

*** FIM SPOILERS ***********************************

Não admira que com obras destas, os intelectuais tenham sempre sido perseguidos pelos regimes ditatoriais.

sábado, março 23, 2019

Brincando com a mente, Claude Shannon

Claude Shannon [1916-2001] é um dos investigadores do século XX que maior impacto teve na sociedade do século XXI, contudo é praticamente desconhecido desta, e mesmo até de uma parte considerável da academia. Por isso, uma biografia sobre o seu legado — "A Mind at Play: How Claude Shannon Invented the Information Age" — é algo que não podemos deixar de celebrar, mesmo quando esta vai pouco além daquilo que surge na sua entrada na Wikipedia (inglesa). Se Shannon não soa a maior parte dos ouvidos, não é porque o seu contributo foi menor do que o de Alan Turing ou Albert Einstein, mas antes porque a sua maneira de ser, introspetiva e reservada, e toda uma vida sem qualquer escândalo, fez com que passasse ao lado dos holofotes de uma das indústrias que mais depende do conhecimento por si produzido, a comunicação social, e também por isso tivesse passado pela vida, ainda que contribuindo profusamente, de forma bastante despretensiosa.


Existem dois contributos que são considerados como os marcos de Shannon, a sua tese de mestrado “A Symbolic Analysis of Relay and Switching Circuits” realizada em 1937 e o paper "A Mathematical Theory of Communication" publicado em 1948. A tese de mestrado — realizada num MIT que ainda não era o que é hoje, apesar de ter sido onde encontrou e trabalhou com outro dos grandes pioneiros do digital, Vannevar Bush — é considerada hoje como a tese de mestrado provavelmente mais relevante de sempre, porque é nesta que são apresentados, pela primeira vez, os rudimentos que permitiriam transformar sistemas fixos de transmissão de energia, como os circuitos elétricos, em sistemas dinâmicos, que se adaptam em função das necessidades. No fundo a conversão de sistemas analógicos em sistemas, ditos hoje, digitais.
“This was the computer before the digital revolution: a machine that literally performed equations in the process of solving them. As long as the machine was acting out the equations that shape an atom, it was, in a meaningful sense, a giant atom; as long as it was acting out the equations that fuel a star, it was a miniature star. “It is an analogue machine,” said Bush. “When one has a problem before him, say the problem of how a bridge that has not been built will sway in a gusty wind, he proceeds to make a combination of mechanical or electrical elements which will act in exactly the same manner as the bridge—that is, will obey the same differential equations.” For the physicist or engineer, two systems that obey the same equations have a kind of identity—or at least an analogy. And that, after all, is all our word analog means. A digital watch is nothing like the sun; an analog watch is the memory of a shadow’s circuit around a dial.”
Esta conquista de Shannon só foi possível graças à sua formação dual, em Engenharia e Matemática. Ou seja, o seu conhecimento de eletrotécnica e o seu conhecimento de matemática, nomeadamente lógica, fez com que conseguisse juntar os dois mundos de conhecimento, a assim procedesse à construção de uma máquina que operava não em função do problema a resolver, mas antes em função de um sistema de lógica booleana. E assim temos que:
“It’s not so much that a thing is “open” or “closed,” the “yes” or “no” that you mentioned. The real point is that two things in series are described by the word “and” in logic, so you would say this “and” this, while two things in parallel are described by the word “or”... There are contacts which close when you operate the relay, and there are other contacts which open, so the word “not” is related to that aspect of relays... The people who had worked with relay circuits were, of course, aware of how to make these things. But they didn’t have the mathematical apparatus of the Boolean algebra (..) “I think I had more fun doing that than anything else in my life.” [said Claude Shannon]”.
“But the most radical result of Shannon’s thesis was largely implied, not stated, and its import only became clear with time. The implication gets clearer when we realize that Shannon, following Boole, treated the equal sign as a conditional: “if”. “1 + 1 = 1: if the current passes through two switches in parallel, a light lights (or a relay passes on a signal meaning “yes”). 0 + 0 = 0: if the current passes through neither of two switches in parallel, a light fails to light (or a relay passes on a signal meaning “no”). Depending on the input, the same switches could give two different answers. To take an anthropomorphizing leap — a circuit could decide. “A circuit could do logic. Many circuits could do enormously complex logic: they could solve logical puzzles and deduce conclusions from premises as reliably as any human with a pencil, and faster. And because Boole had shown how to resolve logic into a series of binary, true-false decisions, any system capable of representing binaries has access to the entire logical universe he described. “The laws of thought” had been extended to the inanimate world.”
A tese de mestrado é o cerne de todo o trabalho de Shannon, porque é o cerne da conversão do mundo real em digital. Obviamente que em 1936 não existia ciberespaço, nem existia internet, tal como não existia Microsoft, Apple, Amazon, Google ou Facebook, as 5 maiores empresas globais da atualidade. Por isso foi preciso continuar a investigação, aprofundar as possibilidades do seu trabalho, até à publicação do paper "A Mathematical Theory of Communication" em 1948, para que a sociedade conseguisse compreender o alcance do que tinha sido apresentado dez anos antes. Tal só seria possível a Shannon pelo ambiente em que trabalhava, e trabalharia durante mais de 15 anos, o Bell Labs:
“In 1925, Bell Labs was carved out of the phone company as a stand-alone entity, with custody shared jointly by AT&T and Western Electric. Walter Gifford, the president of AT&T, observed that the Labs, while nominally an arm of the phone company, could “carry on scientific research on a scale that is probably not equaled by any organization in the country, or in the world.” The goal of Bell Labs wasn’t simply clearer and faster phone calls. The Labs were tasked with dreaming up a future in which every form of communication would be a machine-aided endeavor. (..) When I first came there was the philosophy: look, what you’re doing might not be important for ten years or twenty years, but that’s fine, we’ll be there then. (..) That accumulation of talent paid tremendous dividends. In the span of a few decades, Bell researchers invented the fax machine, touch-tone dialing, and the solar battery cell. They engineered the first-ever long-distance phone call and synchronized the sounds and images in movies. During the war, they improved radar, sonar, and the bazooka, and they created a secure line to allow Franklin Roosevelt to speak to Winston Churchill. And in 1947, Bell researchers John Bardeen, William Shockley, and Walter Brattain created the transistor, the foundation of modern electronics. The trio would earn a Nobel Prize, one of the six Nobels given to Bell scientists during the twentieth century. (..) It was one thing for an industrial laboratory to hire qualified PhDs and put them to work on various pressing engineering problems. But Nobel Prizes? Pie-in-the-sky projects? Ten or twenty years of leeway? Even accounting for nostalgia, Thornton Fry’s judgment hardly seems out of place; looking back on the Labs, he called it “a fairyland company.”
Neste paper, de 1948, Shannon vai para além do que tinha apresentado na sua tese, porque converte o seu conhecimento, restringido ao desenho de lógica numa máquina, num modelo matemático capaz de calcular e prever com exatidão a informação que entra e a informação que sai, num circuito. Ou seja, criava o primeiro modelo de comunicações, capaz de converter impulsos eletrónicos em bits (nome adotado para a unidade de informação, e que chegou a ser designado por "shannons"), ou seja, de transformar Energia em Informação. Este modelo alarga completamente a relevância de Shannon, porque não só alarga o domínio da Eletrónica, fazendo-o colidir com o da Computação, mas vai mesmo até ao cerne da Comunicação. Ou seja, o modelo não diz apenas como é que podemos garantir que a informação que sai e que entra é igual, recorrendo a circuitos de lógica e matemática (probabilística), mas diz como é que a informação se comporta ao longo de todo um ciclo de comunicação, algo que surpreendentemente nunca tinha sido pensado, modelado, até 1948.

O modelo de Shannon é aplicável a todo e qualquer sistema de transmissão de informação, biológico ou artificial, sendo o primeiro modelo de comunicação alguma vez proposto.

Assim, temos que o conhecimento criado na tese mais o modelo proposto no paper, tornariam Shannon no grande responsável por uma vaga que dura até hoje, e que apelidamos de Revolução da Informação. Ou seja, as 5 maiores empresas do planeta em 2019, dependem completamente deste pedaço de conhecimento, já que tudo o que fazem, assenta numa continua conversão entre o mundo real e o mundo digital, pela digitalização de filmes, músicas, livros e todo o tipo de cultura, serviços e conhecimento, mas também de indústrias inteiramente construídas em exclusivo nos reinos do digital, tal como os Motores de Busca, as Rede Sociais ou as Clouds.



O resto do livro são fait-divers, alguns menos bons — como o rebaixamento de Norbert Wiener, ou as ausentes relações de Shannon com Turing ou Einstein. Do todo, o que retiro como novidade deste livro, e que ainda desconhecia, é o modo como Shannon criava conhecimento. Shannon era um maker, um tinkerer, e como Leonardo da Vinci, observava, experimentava e transformava a realidade em busca de respostas. Passou toda a sua vida a realizar experimentos, desde as primeiras máquinas capazes de jogar xadrez a ratos eletrónicos que conseguiam encontrar queijos em labirintos, até às suas duas últimas paixões, a construção de uniciclos e a modelação matemática do malabarismo. Daí o título do livro, “A Mind at Play”:
“But Shannon also placed a high value on his tinkering. “The design of game playing machines may seem at first an entertaining pastime rather than a serious scientific study,” he allowed, but there was “a serious side and significant purpose to such work, and at least four or five universities and research laboratories have instituted projects along this line (..) His goals were as grand as the means, at least at the time, were simple. “My fondest dream is to someday build a machine that really thinks, learns, communicates with humans and manipulates its environment in a fairly sophisticated way,” Shannon admitted. But he was not bothered by the usual fears of a world run by machines or a human race taking a backseat to robots. If anything, Shannon believed the opposite: “In the long run [the machines] will be a boon to humanity, and the point is to make them so as rapidly as possible...”

Quando questionado sobre a importância de podermos vir a desenvolver robôs e IA, Shannon foi muito claro e direto naquilo em que acreditava:
 “I believe that today, that we are going to invent something, it’s not going to be the biological process of evolution anymore, it’s going to be the inventive process whereby we invent machines which are smarter than we are and so we’re no longer useful, not only smarter but they last longer and have replaceable parts and they’re so much better. There are so many of these things about the human system, it’s just terrible. The only thing surgeons can do to help you basically is to cut something out of you. They don’t cut it out and put something better in, or a new part in (..) “We artificial intelligence people are insatiable,” he once wrote. Once machines were beating our grandmasters, writing our poetry, completing our mathematical proofs, and managing our money, we would, Shannon observed only half-jokingly, be primed for extinction. “These goals could mark the beginning of a phase-out of the stupid, entropy-increasing, and militant human race in favor of a more logical, energy conserving, and friendly species—the computer.”
E é isto, estas últimas palavras de Shannon acompanham-me desde que vi o filme “Artificial Intelligence:AI” de Spielberg e Kubrick, em 2001, tendo sido responsáveis pelo primeiro post neste blog. Uma nota final. Mesmo uma mente brilhante como a de Shannon, veria ser-lhe diagnosticada princípios de Alzheimer em 1983, sendo internado em 1993 já incapaz de reconhecer a família, vivendo até 2001.


Mais alguns links de interesse
O homem que transformou o papel em píxeis, VI
A Goliath among Giants, Bell Labs
Bell Labs Looks at Claude Shannon’s Legacy and the Future of Information Age, IEEE
1952 – “Theseus” Maze-Solving Mouse – Claude Shannon (fotografias)

Referência do livro: 
Jimmy Soni, J., Goodman, R., (2017). "A Mind at Play: How Claude Shannon Invented the Information Age". NY: Simon & Schuster

domingo, março 17, 2019

Leitura obrigatória: "Homem Invisível"

"Homem Invisível" (1952) de Ralph Ellison é um livro passível de infinitas interpretações que começam no título e nunca param de se nos oferecer à sua compreensão. Não é um livro de alegorias nem de filosofias, existe uma trama que nos agarra, é romance, são eventos que se sucedem numa história repleta de peripécias, que começam no sul quente dos EUA e desembocam na fervilhante Nova Iorque, mas não deixa de ser filosofia no seu estado bruto, aquilo que emerge do relatar do quotidiano, motivado pelo fulgor da profundidade e detalhe com que se preenche a explanação desse relato. Mesmo os momentos que fui considerando menos bons por alguma incoerência — diferença de tipos de discurso e alguns aparentes clichés narrativos — acabam no final fazendo sentido como um todo, evidenciando a narração adotada como inseparável da história e seus personagens.

Fotografia encenada com base no prólogo do livro "Invisible Man", criada por Jeff Wall, 2000, MoMA

Temos um personagem, negro, nos anos 1920/1930, nos EUA, de quem nunca sabemos o nome, que começamos por acompanhar num tradicional registo de romance de formação, mas que aos poucos vamos percebendo que de tradicional tem pouco. Inicialmente marcado por capítulos ou cenas da vida do personagem em crescimento, praticamente estanques, num tom diarista que choca com momentos de ação e espetacularidade, mas em que o espetáculo não é usado como fomento de heroísmo nem de anti-heroísmo, gerando verdadeiros anticlímaces, que no fundo acabam contribuindo para a o cerne do livro, a invisibilidade do personagem. A invisibilidade começa no interior do personagem, sendo o sentido mais imediato de leitura os efeitos que provoca no seu comportamento, mas que ao longo de todo o livro, e principalmente ao fechar do pano — a fuga e queda num buraco — acaba a refletir-nos a todos, àquilo que somos perante a sociedade.

"Compreender. Compreende? E bem pior do que isso. Os seus sentidos registam, mas o cérebro entra em curto-circuito. Nada tem significado. Ingere mas não consegue digerir. Já é... bem, Deus me valha! É só olhar para ele! Um zombi que caminha! Já aprendeu, não só a reprimir as emoções mas também a sua humanidade. É invisível, a encarnação viva do negativo, a realização perfeita dos seus anseios, senhor! O homem mecânico!"
Não raros momentos, pelo menos até meio, somos levados a pensar em autobiografia, memórias, mas com o desenrolar dos eventos vamos percebendo que essa é apenas uma secção do pano de fundo. Ellison deu várias entrevistas e escreveu, frisando que não se tratava de autobiografia, mas não era necessário, bastava desde logo atender às referências psicológicas e existenciais de Dostoiévski, góticas e fantásticas de Faulkner, ou alegóricas e pastorais de Twain. O registo move-se entre o realismo confessional, agravado pelo uso da primeira-pessoa, e a fantasia mitológica que roça o surrealismo, de onde originaram as minhas primeiras objeções, mas que no virar da última página, se percebe como sendo vitais para a total compreensão da dimensão da invisibilidade. É um livro que fala do humano em grande profundidade, para o que usa um tom descritivo do interior do personagem verdadeiramente perfurante. No entanto nada disso envolve grandes tiradas filosóficas, nem sequer grandes acontecimentos. Na banalidade do quotidiano o fantástico acontece, mas esse é-o apenas à superfície, já que rapidamente se converte em vulgaridade pela repetição entre passado, presente e potencial futuro.
"Ilusões que tinham acabado de ser varridas da minha cabeça: universitários que trabalhavam  para retomar os estudos no Sul; rapazes mais velhos, paladinos do progresso racial, cheios de planos utópicos para a construção de impérios comerciais negros; pastores cuja a única autoridade era a que conferiam a si próprios, sem igreja nem fiéis, sem pão nem vinho, corpo ou sangue; dirigentes comunitários sem seguidores; homens de sessenta anos ou mais, ainda presos aos sonhos pós-Guerra Civil, de liberdade dentro da segregação; seres patéticos que não possuíam nada, excepto sonhos de cavalheirismo, que tinham empregos insignificantes ou recebiam parcas pensões, todos fingindo estar envolvidos em empreendimentos mais vastos, embora obscuros, que influenciavam os comportamentos pseudo-aristocráticos de certos congressistas sulistas, diante dos quais se desfaziam em reverências e cumprimentos, como galos senis num quintal; multidão mais jovem pela qual sentia agora um desprezo apenas comparável ao que um sonhador desiludido sente por aqueles que ainda desconhecem que estão a sonhar" 
"Hoje em dia, o meu mundo é feito de infinitas possibilidades. Que frase! Ainda assim, é uma boa frase e uma boa atitude perante a vida; o ser humano não devia aceitar outra; isso, ao menos, aprendi debaixo da terra. Até que um grupo consiga colocar o mundo numa camisa de forças, essa definição é possível e viável."  
 Surpreende como um livro americano de 1952 consegue fazer-se valer de uma premissa tão contemporânea, e ao mesmo tempo adversa à própria cultura dos EUA, a arte de falhar. Num mundo e cultura tão direcionados ao sucesso só ganhar interessa, falhar nunca, criámos a vergonha e a desonra para quem falha, porque o falhanço é o símbolo da impossibilidade, incapacidade e da incompetência, espaço reservado a perdedores. Ora Ellison apresenta um personagem num romance de formação como homem novo e empoderado pela educação, mas que falha em toda a linha, sem contudo o apresentar como perdedor, já que é a partir desses falhanços na sua relação com o mundo, que ele cresce interiormente e aprende a conhecer-se. De certo modo, podemos aqui ler uma relação direta com as “Memórias do Subterrâneo” (1864) de Dostoiévski, no que toca à sua oposição ao mundo perfeito prometido pelo Comunismo através da apresentação de um mundo existencialista que pauta a condição daquilo que faz de nós seres-humanos.

Ralph Ellison [1913 — 1994]

É um romance magistral e, no entanto, é o primeiro do autor, mas se isso não for suficiente para nos impressionar, é também o único. Ralph Ellison publicou esta obra com 39 anos, depois de 7 anos completamente dedicados à sua escrita, e passaria os restantes 42 anos da sua vida a trabalhar no segundo romance que nunca publicaria, do qual nos deixaria mais de 2 mil páginas, de onde Charles R. Johnson acabaria por coligir 400 páginas e publicar o livro “Juneteenth”. Comparando com outros autores, não falando de torrenciais ou recordistas, é caso para nos interrogarmos porquê? Esta questão não se coloca apenas na literatura, surge em todas as áreas criativas, sendo a conclusão mais consensual: “que provavelmente o autor disse tudo o que tinha para dizer”. Aliás, voltando a Dostoiévski, as ideias dos seus cinco romances mais importantes — “Memórias do Subterrâneo”, “Crime e Castigo”, “O Idiota”, “Demónios”, “Os Irmãos Karamazov” — poderiam também talvez ter sido todas sintetizadas num único grande romance.

quarta-feira, março 13, 2019

A Casa do Professor, de Willa Cather

"The Professor’s House" foi publicado em 1925, quando Willa Cather tinha acabado de passar os 50, idade relevante pela temática de fundo escolhido: a crise existencial de meia-idade. O livro, como indica o título, foca-se num professor universitário, no topo da carreira, resignado pela falta de objetivos, passando os seus dias a rememorar um passado que não volta. Não tem, nem de perto, a acuidade psicológica de "Stoner" (1965) de John Williams, mas o modo como Cather desenrola os personagens e as suas tramas, em tempos diferentes e provoca a intersecção entre mundos aparentemente desconexos, acaba gerando uma reflexão rica e imensamente desafiante.


O início da obra começa de um modo algo lento, com personagens pedantes, pouco atrativos, mas vai-se tornando familiar, até que na segunda parte muda completamente de registo. O segundo momento é preenchido por um texto que começou por ser um conto e Cather depois transformou neste livro. Quando descobri o processo de construção do livro, fiquei reticente quanto à sua leitura, já que me soava a aproveitamento e potencial extensão artificial do mesmo. Contudo o facto de se tratar de um campus novel, género que me interessa particularmente, acabou fazendo com que o lesse. E assim, iniciado esse segundo momento, senti inicialmente que não fazia qualquer sentido, que era um rasgo completamente ao lado. Mas o texto vai evoluindo, o personagem vai-se mostrando e dando, e vamos compreendendo o que está Cather a tentar fazer. No momento em que ligamos aquilo que parecem ser duas histórias diferentes, a leitura eleva-se, algo que é ainda mais enfatizado pela terceira parte, a final do livro.

Não vou detalhar nada do que acontece, menos ainda da experiência, já que os sentimentos proporcionados me tocaram de forma bastante pessoal e profunda, algo que não tenho interesse em discutir aqui de forma pública. Contudo, conto voltar ao livro num outro texto a propósito da comparação entre o sistema universitário em 1925 e hoje.