sexta-feira, maio 06, 2011

a criatividade auto-motivada, parte 2

E assim depois de termos falado da criatividade auto-motivada no âmbito musical, fica aqui um breve texto sobre uma das equipas criativas que mais me surpreendeu nos últimos anos em Portugal. Diria que estamos perante um grupo que vai além do conseguido pelos Carne P'ra Canhão em 2008.


Tenho de começar por dizer que os Clones não são um grupo recém-criado. Se só me chegaram agora, foi porque chegou agora ao YouTube a sua segunda metragem, mas estão no activo desde 2009. O seu primeiro trabalho que possui já reconhecimento internacional em vários festivais, foi Papá Wrestling (2009). No ano passado lançaram então a sua segunda curta, BLARGHAAAHRGARG (2010).
Os Clones definem-se como "uma pequena produtora em Lisboa que se especializa em filmes independentes “low-budget” (ou, para ser mais específico, “no-budget”)".
Em termos estéticos diria que os Clones apresentam uma identidade perfeitamente definida, e que passa por dois aspetos essenciais: a qualidade narrativa audiovisal, e a qualidade dos efeitos especiais.





Papá Wrestling (2009)

Em termos narrativos o trabalho desta equipa foca-se sobre um campo que pouco ou nada se tem trabalhado em Portugal, que é o âmbito do gore cómico. Ou seja mesclando convenções cinematográficas do género cómico e do género de terror. Faz este cruzamento de um modo tecnicamente perfeito em termos de guião. Em momento algum deixamos de perceber em que tipo de registo estamos, e a ideia passa de forma muito fluída para o espetador. Ou seja, é pouco exigente até porque faz uso de convenções muito marcadas, mas por outro lado não deixa de ser muito eficiente.

 

Em termos de efeitos visuais, fiquei espantadíssimo, quando vi Papá Wrestling. Nunca antes tinha visto desmembramentos num filme nacional tão bem conseguidos. E o que mais impressiona é que não se trata aqui de uma mera cosmética de montagem, mas é o próprio trabalho físico, os materiais escolhidos que funcionam na plenitude. Existem planos com durações enormes, em que eu só pensava, "vai perceber-se, vai-perceber-se", mas mesmo assim conseguiam segurar até ao final. É sem dúvida uma das coisas mais gratificantes, ver a excelência técnica desta equipa a funcionar. Uma equipa em que um dos elementos trabalha como freelancer na área do audiovisual, o outro está a fazer o curso de cinema na ESTC, e os restantes dois estudam guionismo em Londres.
Neste segundo trabalho, BLARGHAAARHGARG, o nível técnico subiu bastante em termos de cinematografia e também de direção de atores, contudo a sua primeira obra está melhor em termos de curva dramática. Julgo também que aqui arriscaram um pouco demais com os planos médios sobre o monstro. Ainda assim é um filme muito bem conseguido e que aconselho vivamente a ver.




BLARGHAAAHRGARG (2010)
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