setembro 04, 2022

O lago existencial

"Lake" (2021) é um videojogo despretensioso sobre questões existenciais, em particular a relação entre a ambição material e a felicidade pessoal. Jogamos na pele de Kate, uma programadora de topo, 44 anos, nos anos 1980, que decide voltar por duas semanas à vila em que cresceu, o que a vai obrigar a questionar-se sobre tudo o que conseguiu, assim como tudo o que perdeu. Tudo é feito usando a linguagem dos videojogos, sem recurso a grandes monólogos interiores ou filmes explicativos. Durante 15 dias, somos a carteira da vila, em substituição do pai, e temos de distribuir o correio todos os dias, reencontrando assim as pessoas que deixámos para trás. Tudo isto acontece num lugar sereno, junto da natureza e um belíssimo grande lago que contribui para a criação da atmosfera propícia à reflexão na meia-idade.


"Lake" foi desenvolvido, em Unity, pela empresa holandesa Gamious

setembro 01, 2022

O reino de narciso

Cheguei a "O Reino" (2014), não por ter sido um enorme sucesso em França quando saiu, mas por ser apresentado como um ficcionar dos primeiros anos do cristianismo, focado nas vidas de Paulo e Lucas. Tenho-me interessado cada vez mais pelos chamados romances históricos, pelo modo como facilitam o nosso acesso ao conhecimento da História. Mas não foi nada disso que aqui encontrei. Carrère reconta e parafraseia a partir de dezenas de textos históricos e teológicos, oferecendo-nos a sua interpretação sobre os mesmos. Existe ficção nessa sua interpretação, na interpretação das ideias, mas não existe propriamente dramatização, ou seja, recriação das ações dos personagens. Carrère segue um discurso colado ao registo dos documentários de televisão, em que vai comentando os escritos e teorias, algo que poderia até funcionar como não-ficção, mas que se esfuma porque muito do que vai dizendo é pura especulação. Por isso, perde também aquilo que afirma ser a sua forma de escrever quando nos diz que nunca conseguiu acabar de ler as “Memórias de Adriano” de Marguerite Yourcenar, por não se rever no ato de ficcionar, dada a impossibilidade de imparcialidade das histórias. Mas estes seu discurso, mesmo estando sempre colado ao real, com reparos de dúvida constante, é o da sua pessoa e das suas memórias, por isso mesmo não deixa de estar pejado dessa parcialidade. Mais, não há aqui qualquer método para tentar diminuir esse viés, existe antes uma aceitação tácita que, segundo ele, lhe dá liberdade para dizer o que quiser, alardeando que o que diz pode mesmo ter acontecido assim, em certa medida colocando-se no lugar dos autores dos próprios Evangelhos.

agosto 30, 2022

Em Memória da Memória

Maria Stepanova é uma poeta russa, recipiente do prémio russo literário mais antigo, o Andrei Bely, e da bolsa Joseph Brodsky, com poemas traduzidos em múltiplas línguas. Este seu livro, "In Memory of Memory" (2017/2021), foi nomeado para a pequena lista do International Booker Prize de 2021. Não é poesia, mas é lírico; não é ensaio, mas argumenta sobre arte e o humano; não é romance, mas conta histórias de gerações; não é uma autobiografia, mas centra-se sobre os membros da sua família; sendo tudo isto. Sai em Portugal em setembro pela Relógio d'Água.

agosto 28, 2022

A necessidade de ficcionar a vida

"Monogamy" (2020) não é o tipo de livro que leria, mas algumas resenhas trouxeram-me até ele. Sue Miller tem mais de uma dezena de romances publicados, mas nunca tinha ouvido falar da mesma. É uma autora focada no romance de família, entre os romances de amor da seleção da Oprah e o romance mais psicológico. Assim que comecei a ouvir o audiobook fiquei colado, ainda mais assim que percebi que era a própria autora a narradora. Os seus 78 anos emprestam à voz um tom de experiência profundo, tornando a declamação imensamente emocional, particularmente tranquila, capaz de criar paisagens ficcionais totalmente credíveis para onde apenas desejamos evadir-nos. 

agosto 27, 2022

A Idade Brilhante, entre 476 e 1320

Nos últimos anos temos assistido ao redescobrir da Europa Medieval por meio de muitos académicos historiadores que nos têm vindo a alertar para o facto das ideias do senso comum sobre a idade média não estarem corretas. É corrente encontrar na literatura, cinema ou jogos a idade média representada como um tempo de escuridão, sujidade e podridão assim como falta de educação, superstição e ignorância. Ora isto parece não encontrar paralelo na história real, aquela que tem vindo a ser estudada e aprofundada. "The Bright Ages: A New History of Medieval Europe" (2022) é apenas o mais recente exemplo deste trabalho de elucidação histórica a ser publicado. Ajudou-me a compreender melhor as motivações e a necessidade desta revisão da História, e ainda que tenha ficado com dúvidas sobre os avanços cultural e científico desta época, fiquei com poucas dúvidas sobre a hipérbole de trevas como temos representado este período em termos populares.

agosto 26, 2022

A moral depende dos incentivos

O "Arquipélago Gulag" (1973) é um livro-monumento de homenagem aos cerca de 20 milhões que por lá passaram e aos 2 milhões que ali pereceram. GULAG é acrónimo da agência governamental soviética "Administração Geral dos Campos de Concentração", campos mandados criar por Vladimir Lenine, com o início da revolução em 1918, e que atingiriam o seu expoente com Estaline, entre 1930 e 1950. O livro é baseado em mais de 200 testemunhos diretos, tendo surgido como resposta às tentativas de desacreditação de que Aleksandr Solzhenitsyn foi alvo após a revelação da sua experiência do GULAG no livro “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch” (1962). Solzhenitsyn foi enviado para o campos de concentração em 1944, tinha apenas 26 anos e era um crente na revolução comunista, mas teve o azar da censura interceptar uma carta que escreveu a um amigo de escola, na qual se referia a Estaline como o Cabecilha da traição da revolução. Por esse "crime" teve direito a passar 8 anos no GULAG.

A imagem é da primeira edição da Harper Collins de 1974. Eu li o livro na versão audiobook, narrado por Ignat Solzhenitsyn, filho de Aleksandr Solzhenitsyn

agosto 25, 2022

"Mar da Tranquilidade" (2022), Emily St. John Mandel

Gostei muito de "Station Eleven" (2014) por apresentar um olhar novo sobre as distopias, assente na calma e tranquilidade. Depois em "O Hotel de Vidro" (2020) Mandel, seguindo o mesmo tom, acaba por mudar para uma linha contemporânea e mais mundana, focando-se na crise económica de 2008, usando personagens que se socorrem do absurdo para gerar interrogações que ficam sem explicação. Neste terceiro livro, em que o título encaixa totalmente na sua forma de escrita, "Mar da Tranquilidade" (2022), já pouco parece existir de novo para nos oferecer. Temos um livro que sintetiza as distopias do primeiro, juntando-lhe as questões estranho-absurdas do segundo, alargando ambos os universos e unindo-os num só. É interessante, porque somos recompensados por ter lido os anteriores, mas ao mesmo tempo sentimos falta de mundo, sentimos que a autora esgotou aquilo que pesquisou sobre os temas e não consegue sair do ciclo em que se fechou.

agosto 24, 2022

A Promessa

"A Promessa" (2021) apresenta dois enormes atributos: o envolvente contar de história e a subversão da forma. Para o primeiro, Galgut usa os métodos de criação de interesse que mantém os leitores suspensos à espera do que vai acontecer a seguir. Fá-lo bem, porque não conseguimos parar de ler. Mas é na forma que nos deslumbra, sendo a história que se conta importante, o modo como Galgut o faz é tudo menos tradicional, quebra todas as regras, desde o ponto de vista, com a voz do narrador a mudar entre personagens, e entre pessoas, dirigindo-se mesmo ao leitor. Não raras vezes temos de voltar atrás porque o personagem que relatava o assunto mudou, e agora a perspectiva é distinta, permitindo-nos perceber de outro modo o que aconteceu, está a acontecer. Pode causar alguma confusão, mas está tão bem cosido que ao fim de algumas dezenas de páginas já entrámos dentro do fluxo criado por Galgut.

Vencedor do Booker Prize 2021

agosto 21, 2022

O Impossível

Depois de ver o filme o filme "Treza Vidas" (2022) de Ron Howard, na Amazon, resolvi ver o documentário "Operação: Resgate na Tailândia" (2021), no Disney+, e posso dizer que o documentário consegue ser melhor do que o filme. O filme saiu este mês, o documentário saiu no final de 2021. Se não fosse real, nunca acreditaríamos que o resgate apresentado seria algo verdadeiramente possível. Só de pensar no número de horas debaixo de água, juntando a escuridão, os espaços apertados e ainda as correntes com detritos. Completamente impossível. Ambos, filme e documentário, dão conta do resgate da equipa de futebol de 12 crianças — entre os 11 e os 16 — e 1 treinador, que ficaram presos numa gruta, na Tailândia em julho 2018, tendo sobrevivido 10 dias apenas com água!