abril 17, 2021

Interpretação ao lado

Como primeiro livro é muito bom, com Celeste Ng a conseguir elevar-se em dois pontos de relevo: a) cria todo um ambiente narrativo que nos faz imergir e virar página atrás de página na ânsia por chegar a saber tudo; b) toca nas questões do racismo asiático nos EUA, que é algo quase sempre esquecido, também muito pela natureza específica da cultura asiática. Como livro de ideias, peca em várias frentes, sendo a principal a manipulação do leitor por meio do artifício narrativo de não revelar elementos explicativos , mantendo-nos na escuridão para aguçar o suspense, mas que depois falha na entrega final.

Ou seja, a característica do livro que lhe confere maior admiração é também a causa do seu maior problema. A construção de suspense nas histórias é algo vital para que os leitores mantenham o interesse na leitura, e o façam de modo ávido, por desejar saber mais e mais. Contudo, quando se coloca uma premissa nas primeiras páginas, para ser respondida apenas nas últimas, atiçando continuamente o leitor sobre os porquês, gera-se uma tal expectativa em redor do acontecimento, que a explicação capaz de satisfazer o leitor tem de ser da ordem do transcendente. No caso, diria que a revelação em vez de ser o clímax esperado é um verdadeiro anticlímax.

Quando acabei de ler pensei, “é isto,?”, tanto que nem percebi o sentido do que tinha acontecido. Depois comecei a escrever, e no pensar-escrevendo cheguei à explicação, ou melhor a um entendimento sobre o que queria dizer a resposta. Pensei eu. Contudo, quando fui ler outras interpretações na rede, não encontrei nenhuma próxima. Mais, percebi que o final era até entendido como algo positivo, redentor da família que andava à procura de algo mas precisava deste acontecimento para se reencontrar. 

Deixei passar uma semana, mas continuo a não ver nada dessa redenção. Continuo a não conseguir esquecer todo o racismo presente no livro. Continuo a não esquecer que passei todo o livro a ter de imaginar que era uma família mista racialmente, mas entre brancos e asiáticos, não entre brancos e negros. Estamos tão moldados pela ideia de que o racismo americano é todo contra os negros, que nos esquecemos que o mundo é tão mais amplo do que o mero branco e negro. Continuo a não esquecer as imposições de lugar às mulheres, e toda a pressão para que aceite viver segundo a vontade dos outros. Desse modo, não consigo desligar Lydia do facto de ter de ser uma resposta a isso, e não a um mero sistema interno familiar.


**** SPOILER *****************************

Celeste Ng apresenta três gerações começando na mulher americana que vive para cumprir as regras sociais, sabendo colocar-se no seu lugar. Passando à filha, ela rompe com os tabus raciais, mas nunca chega a terminar o seu curso superior, e tem dificuldade em imaginar um médico mulher. Para chegar à neta, que debaixo da pressão de ter de cumprir as regras sociais que o pai lhe pede que siga, e do sonho profissional da mãe que quer que seja médica no seu lugar. Mas quando a neta decide por fim emancipar-se, largar tudo e voar atrás dos seus sonhos, atira-se à água, convencida de que tudo poderá superar, e morre afogada.

Percebo que não foi isto que muitos leram, mas eu não consegui deixar de ler aqui a derrota completa de uma sucessão de gerações que apesar de tentarem acabaram sucumbindo. A metáfora do lago no final é imensamente poderosa, demonstrando o peso que o mundo tem sobre nós, a sua gravidade torna impossível o mero desejo individual. 

No entanto, com esta leitura a mensagem acaba por resultar pouco eficaz. Obviamente que podemos dizer que o mundo tem de mudar, ser mais inclusivo, tornar-se mais recetivo à diferença. Mas se quisermos seguir metáforas naturais, esta lógica não cola. Para não nos afogarmos temos de aprender, temos de querer e ser resilientes, batalhar. E sempre que voltamos a entrar na água, temos de continuar a lutar para não ir ao fundo. Vai sendo mais fácil, mas a água não muda, nós é que mudamos. Ou seja, o mundo não mudará, temos de ser nós a adaptar-nos. Será?

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Não me parece que fosse isto que a autora queria dizer. Por isso, o final, por mais voltas que se dê, interpretações que se lhe ofereça, fica coxo. Não por falta de imaginação, digo eu, mas porque não se pode construir uma trama inteiramente e apenas sustentada numa resposta única final. O livro oferece muitos outras abordagens, que acabam atiradas para o canto por causa do modelo seguido.

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