quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Entrevista sobre a concepção de Nostalgiqa

Trabalhei no passado com algumas das pessoas que constituem a empresa HumanSpot, no campo da produção audiovisual e que agora nos traz a App Nostalgiqa para o iPhone. Desse modo conhecendo as pessoas por detrás de Nostalgiqa quis saber mais sobre as motivações da sua criação, e sobre o modo como tinha sido definido o conceito. As respostas às minhas perguntas ficam aqui abaixo.


1 – Quem é a HumanSpot? Quantas pessoas trabalham aí, e que formações têm? 
A HumanSpot é uma startup incubada no Instituto Pedro Nunes em Coimbra. A equipa onde todos se desdobram e partilham funções é constituída por: Emanuel Silva - Creative, Musician - Eng. Materiais; João França - Coder - Eng. Informática; Paulo Ribeiro - Coder, Musician - Eng. Informática; Ruben Semedo - Designer - Arquitectura


2 – Que projectos anteriores fizeram? 
Com o objectivo de financiar projectos internos, como o Nostalgiqa, a empresa dedica-se essencialmente à consultoria e desenvolvimento de software à medida, bem como à criação de conteúdos multimedia. O primeiro projecto com visibilidade foi e é a participação na série de animação infantil Gombby, concebida e produzida em Portugal pela Big Storm Studios. A série passa actualmente na RTP 2 e no canal Panda. O processo de internacionalização iniciou-se há poucos meses com a entrada no mercado espanhol através do canal TVE Clan. A colaboração da HumanSpot passa pela composição musical, sonoplastia e pós-produção audio para a série, que conta já com 52 episódios e um CD/DVD musical.



3 - Porquê uma aplicação interativa, e porquê sobre a Nostalgia, de onde veio a inspiração? 
Como o próprio nome indica, embora a tecnologia marque presença em todos os processos da HumanSpot, temos a preocupação de ocultar essa componente, dando destaque à componente humana. É certo que muitas empresas de base tecnológica mostram um cuidado crescente com usabilidade e experiência do utilizador. A HumanSpot pretende aproximar-se ainda um pouco mais do que é humano através de um apelo directo à emoção, não pela interface ou forma de utilização, mas pela temática dos seus conteúdos e das suas aplicações.

Esta vontade nasceu da experiência de dois dos elementos da HumanSpot, cujo percurso de trabalho os colocou em contacto directo com realidades empresariais onde a sobrevalorização da tecnologia e do negócio se alia muitas vezes à desumanização. O nosso objectivo foi, por isso, criar um produto que pudesse continuar a evoluir, tal como um quadro pintado por diversos artistas ou um livro escrito por diversos autores. Pensamos num produto como um ser vivo, alguém que precisa de condições para nascer, para crescer e para se desenvolver de forma sã e equilibrada. Utilizando a mesma imagem, uma aplicação é o resultado da sua herança genética - concepção, design e código - e do ambiente em que se desenvolve - os objectivos e acções dos seus criadores e da sua comunidade de utilizadores - sendo que todas as partes são essenciais para uma vida longa e próspera.

Se a tecnologia corre a um ritmo alucinante, as emoções permanecem porque são intemporais. Podemos conversar com uma pessoa que, independentemente do país onde vive, da tecnologia que usa (ou não) e da sua idade, saberá sempre expressar aquilo de que gosta e não gosta, aquilo que a faz rir ou faz chorar. A ligação com essa pessoa será tanto mais forte quanto maior e mais aberta for a partilha mútua de experiências. Quando o presente de duas ou mais pessoas se cruza, criam-se memórias e quando essas memórias se cruzam, estabelecem-se ligações, sendo que as memórias passam a funcionar como um fio condutor entre as suas vidas e as gerações seguintes.

Aquilo que somos e a forma como agimos deve-se em grande parte a experiências passadas - pessoais e de outros - que não são mais do que memórias. Talvez por isso elas sejam universais e intrinsecamente humanas. O Nostalgiqa baseia-se nesta visão poética e ao mesmo tempo romântica do tempo que passa e que promove a transmissão de momentos, vivências e emoções comuns a qualquer ser humano.


4 - Tendo nós em português a particularidade da palavra Saudade, imortalizada pela Sodade da saudosa Cesaria Evora, porquê a enfase em Nostalgia? 
Como portugueses que somos, gostamos imenso da palavra “saudade” e ponderámos várias vezes a sua utilização. No entanto, o obstáculo que se apresentou foi a sua adaptação/tradução. Quando se pretende um alcance universal, torna-se difícil utilizar palavras específicas de uma cultura, neste caso a portuguesa, desconhecidas para uma boa parte do mundo. A palavra “saudade” insere-se neste conjunto de palavras para as quais não existe tradução directa noutras línguas. Como tal, “nostalgia” pareceu-nos a solução mais adequada. Nostalgiqa é a primeira aplicação da HumanSpot, sendo que outras se seguirão a médio prazo. Com o objectivo de manter uma certa coerência na nomenclatura aliada a facilidade na memorização, a escolha de um nome com base na palavra “nostalgia” também fazia mais sentido.


5 - Em que termos Nostalgiqa se diferencia de outras redes sociais como o Facebook, mas mais em particular do Flickr? Além do facto de terem uma temática em concreto, como é que vocês garantem uma mais valia experiencial às pessoas ? 
Existem várias diferenças entre o Nostalgiqa e as principais redes sociais a que nos habituámos, das quais destacamos:

● O Nostalgiqa valoriza tanto a componente privada como a componente social. Isto significa que os utilizadores podem manter as suas memórias privadas ou partilha-las com os restantes utilizadores. A própria aplicação foi construída para dar ao utilizador uma sensação de privacidade pouco comum em redes sociais, pelo que o acesso a conteúdos produzidos pelos outros utilizadores não é feito a partir da primeira página.

● O facto de existir uma temática clara permite-nos escapar com maior facilidade do principal problema das redes sociais: a perda de contexto, que se traduz em quantidades significativas de ruído. Se, por um lado, o Nostalgiqa não é uma aplicação onde os utilizadores criem conteúdos com a regularidade que vemos no Twitter, Facebook ou Flickr, por outro lado, os utilizadores têm um cuidado adicional com as memórias que capturam e partilham.

● São disponibilizadas várias ferramentas aos utilizadores para que eles se comportem como “curadores” do Nostalgiqa. Em vez de utilizarmos um botão “like” demasiado generalista e tantas vezes sobre-utilizado, criámos os botões “meaningful” e “nostalgic”, de forma a promover uma maior coerência e qualidade dos conteúdos. Além disso desenvolvemos o “Emotiqa”, uma ferramenta que permite aos utilizadores catalogarem memórias com emoções.

● Porque as memórias são geralmente constituídas por mais do que uma simples experiência que possa ser retratada por um texto ou fotografia, existe a possibilidade de agregar diversos fragmentos numa única memória. Isto permite aos utilizadores criarem histórias à volta das suas memórias.

● Pedindo às pessoas para introduzirem a data/época e o local em que as memórias foram vividas, ganhamos duas novas dimensões que enriquecem a aplicação: o espaço e o tempo.

Resumindo, a nossa preocupação é mais qualitativa do que quantitativa. Enquanto que as redes sociais têm como objectivo principal o crescimento em termos de utilizadores e conteúdos, o nosso foco recai sobre o contexto e a qualidade desses conteúdos dentro de um tema muito específico - neste caso memórias - com o objectivo de acrescentar algum valor humano que traga maior significado e impacto emocional para os nossos utilizadores.
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