terça-feira, junho 28, 2011

Ideias de Crato para a Educação

Tinha decidido não publicar este texto, mas depois das medidas hoje anunciadas pelo novo governo sinto que o devo fazer, dado que algumas das componentes do caminho hoje apresentado representam, para mim, um retrocesso no avanço da escola portuguesa.

Nuno Crato, atual Ministro da Educação fez uma comunicação no Ciclo de Conferências do PSD, "Fórum Portugal de Verdade", decorrido em Aveiro a 16 de Abril 2011, sobre as suas ideias para o Ministério da Educação, e para a educação nacional. Essa conferência pode ser vista aqui abaixo.





Apesar de continuar a reconhecer que é um fantástico comunicador de ciência, fiquei muito desiludido ao ver este vídeo. Sinceramente nunca pensei que um investigador como ele pudesse ser tão político. O discurso é de tal modo embrulhado que parece credível, mesmo não o sendo, e os dados existem para o demonstrar. Aponto três problemas no discurso de Nuno Crato:


1 - Diz que durante os primeiros 9 anos de escolaridade não existem Exames.

Então mas isso não é que nos noticia o Público na sua edição de 13.06.2011 - "Escolas correm o risco de se tornarem centros de treino para testes". Também não é o que se noticiava no dia 20.06.2011 pela imprensa, dia de Exames Nacionais de 9º e 12º anos.
Mas no anuncio de hoje percebi porque Nuno Crato dizia que faltavam exames, porque agora, vamos passar a ter na Escola portuguesa uma autêntica cascata de exames: 4ºano, 6ºano, 9ºano e 12º ano. E ao que parece, com exceção do 4º ano, todos vão contar para a nota dos alunos. Fantástico.
Mas isto é apenas a ponta do icebergue, esta ideia de que tudo pode ser quantificado fazendo uns exames, é antiga e tem sido assim no último século, como forma de responder à massificação do ensino. Mas a função da escola não é talhar e medir pessoas, deve ser antes mostrar o que é o mundo, de que é feito, mais do que isso mostrar ao aluno quem ele é, do que é capaz, e como é capaz. Não podemos limitar a escola à formatação de cabeças.
A escola é o lugar por onde TODOS, sem exceção, passam. Alguém acredita que de tão diferentes que todos somos, possamos todos responder de forma igual? Ou seja, possamos todos contribuir para uma média expectável em termos estatísticos. Isto partindo das escolas públicas nacionais, porque utilizar escolas privadas não conta, simplesmente porque aí a amostra não é aleatória. Nenhum pai paga uma escola privada a um filho que não quer estudar, mesmo tendo posses, para isso anda no público. Ou seja a amostra do privado conta com um fator que tem um enorme peso na amostra, que é facto de os alunos gostarem da lógica de escola, que é facto de os alunos se reverem nela e por isso conseguirem tirar satisfação no seu dia-a-dia.
Os exames nacionais e internacionais são o maior aliado da estandardização, que é por sua vez responsável pela criação do senso comum que mata a criatividade humana (Robinson, 2009). A formatação de mentes foi muito boa em tempos de revolução industrial, em que precisávamos de pessoas responsáveis que dessem o seu melhor das 9h as 17h, que o fizessem pelo seu país e pelo coletivo. Mas em 2011 vivemos num planeta globalizado, que mudou radicalmente. Hoje não faz mais sentido continuar a "produzir" máquinas pensantes, pelo menos aqui na Europa e nos EUA, mas em breve em todo o planeta.
Hoje precisamos de ser capazes de ativar o fogo interno de cada um, de os levar a conseguir o melhor para si e para o mundo. E para isso terão de ser altamente criativos, e verdadeiramente inovadores. Terão de quebrar os "status quo" e derrubar dogmas do senso comum.   
Mas já agora como é estes senhores explicam que a Finlândia obtenha das notas mais elevadas nos resultados de PISA 2009 e quase não existam exames, nem os alunos chumbem? Em que os alunos passam o mínimo tempo possível fechados na escolas, e os trabalhos de casa são limitados?


2 - Que precisamos de criar um Instituto de Avaliação Independente (mais um, então mas não era preciso cortar nos institutos) para fazer exames de forma independente.

Então mas afinal para que pagamos à OCDE para que se realizem os testes de PISA no nosso país? Não é para fazer isso? Os alunos que se cuidem, porque exames é o que não vai faltar, para todos os gostos e feitios - internos, externos, nacionais, internacionais, de aferição, de avaliação, e do que mais houver. E depois a aprendizagem isso será menos relevante, os professores deverão começar a preocupar-se mas é em treinar os alunos para responder aos testes, testes, e mais testes.
Dou razão ao Nuno Crato, quando diz que o governo passado errou ao usar a suposta evolução da média de Matemática de 8 num ano, para 14 no ano seguinte, como fruto das suas ações. Mas o que dizer da OCDE, e de PISA. Aqui a realidade demonstra que Portugal tem vindo sempre a subir na tabela comparativa de resultados. Ainda temos muito que fazer, mas os resultados de 2009 desmontam claramente esta ideia absurda de que os alunos portugueses em 2010, não trabalham, não sabem ler, não sabem escrever, que a escola Portuguesa é um mundo de facilitismo em que nada se aprende.
A propósito e em contra-corrente com o posicionamento de Nuno Crato face à escola portuguesa, deixo aqui uma análise do Reitor da Universidade de Lisboa, António Nóvoa, entrevistado por António José Teixeira. O jornalista nada mais faz do que apresentar o discurso vigente de que tudo está mal, de que nada se fez bem, um discurso no seu melhor em termos de pessimismo.

Atente-se no minuto 6:37:
AJT: "A estatística deixa muitas dúvidas, os números são torturados até dar o que interessa… houve progresso ou o progresso é ilusório? Para estarmos nesta situação se calhar o progresso não foi tão sustentado?"
AN: O nosso progresso é absolutamente real, acho que é indesmentível
AJT: Por exemplo?
AN: Por exemplo na área da Educação.
Minuto 9:00
AN: Por exemplo a questão dos resultados do PISA…. E aqui estamos a falar da qualidade, não da quantidade, dos resultados escolares. Colocam Portugal pela primeira vez na média dos países Europeus. Nunca isto aconteceu na história portuguesa… eu tive oportunidade de fazer um estudo, uma análise comparada desde que existem estatísticas, e em todas as estatísticas publicadas, Portugal esteve sempre no último ou no penúltimo lugar da Europa…. Isto é qualquer coisa que nos deve dar uma enorme satisfação. Há problemas? Há sempre problemas.




3 - A ideia que os EUA também vêm querendo implementar, de avaliar os professores pelas notas conseguidas pelos alunos. Se o aluno entra no 10º ano com 15 a Português, e no final do ano (ou mesmo que seja dois anos) sai com 13, a responsabilidade é do Professor diz o Nuno Crato!
Para responder a isto vou apenas transcrever aquilo que escrevi a respeito desta ideia também professada num documentário sobre a escola americana, Waiting for Superman (2010), por Michelle Rhee, Directora das Escolas Públicas do Distrito de Columbia, EUA. Dizia eu,
"Ensinar é uma arte, e nem todos seremos artistas, mas um assunto que diz respeito a um conjunto tão vasto de variáveis, que vão desde: o professor, ao diretor de turma, à escola, ao aluno, ao pai, à mãe, ao conjunto de alunos e conjunto de pais, à câmara municipal, e até mesmo aos empregadores da zona de localização da escola - não pode ser de repente compactado, simplificado e personificado na pessoa única de um professor. Dizer-se coisas como as ditas abaixo, não é apenas atirar areia para os olhos, é prestar-se à destruição do que se tem.
"I believe that that mindset has to be completely flipped on its head [professores], and unless you can show that you're bringing positive results for kids, then you cannot have the privilege of teaching in our schools and teaching our children." Michelle Rhee, Directora das Escolas Públicas do Distrito de Columbia, EUA
Digo atirar areia, porque numa primeira análise parece correto o que Rhee diz sobre os professores, quando comparados com alguém que trabalha numa fábrica, seja operário, engenheiro ou gestor. O problema coloca-se quando se colocam as variáveis a trabalhar em cima da mesa, e verificamos que aquilo que é pedido a um professor, não é de forma alguma passível de ser colocado na mesma balança daquilo que é pedido a um engenheiro de software por exemplo. Isto porque o objeto de trabalho do professor, que é o aluno, não é um standard, não tem regras fixas. Eu não programo a mente de um aluno com o recurso a uma linguagem formatada, posso tentar mas o grau de sucesso que obterei se seguir essa via padronizada, sem ter em conta as especificidades do ser humano que se encontra na minha frente, corre um grave risco de ser muito baixo.
Perceber o que está em causa quando falamos de objetos de trabalho - um ser humano face a uma aplicação informática, ou uma máquina, ou um lote de terra - apesar de parecer evidente as diferenças, não é fácil compreende-las. Isto porque apesar das diferenças existentes temos direito a expectativas e quando compramos um computador novo ou um carro novo esperamos que ele funcione a 100%, que o computador não crash no dia seguinte ou que o carro não me deixe a pé na auto-estrada. Por isso é natural que um pai ou uma mãe quando coloca um filho numa escola tenha também as suas expectativas, e que essas passem por ver o seu filho tirar boas notas, e vê-lo progredir ao longo da escola. Isto quer dizer que à partida um professor deveria ser capaz de pegar num aluno e meter dentro da cabeça dele os conhecimentos necessários para ele chegar ao exame e tirar 20, os tais 100%. Mas todos sabem o quão diferente da realidade isto é, e quantas nuances existem no caminho de um aluno para ele atingir esses resultados." ver texto completo.
Isto que aqui ouvimos por Nuno Crato é o discurso anglo-sáxonico da educação industrializada em contra-corrente com o antigo discurso da escola francesa para as elites. Que é plausível aos nossos ouvidos, parece moderno, mas é evidente que que quem o professa ainda não se deu conta que já estamos noutro estágio para além dessas teorias anglo-sáxonicas. Aliás sobre este suposto modernismo vejam um vídeo de Alvin Totfler e da sua mulher aquando da sua visita a Portugal em 2008. E já agora o artigo de ontem, 27 Junho 2011, do James Gee para o The Huffington Post que fala deste modelo também.




Nem tudo o que o Nuno Crato aqui diz é mau, existem algumas coisas com as quais concordo bastante.

1 - Dar autonomia aos professores para definir o método
Sem dúvida, sem dúvida. O ME não deve, nem pode ser para aqui chamado. O professor precisa de encontrar o melhor método em face da turma que tem. Não pode estar preso por correntes ideológicas do melhor modo de o fazer.

2 - Aumentar os níveis de responsabilidade
Sem dúvida, dos alunos, dos pais, da escola e claro dos professores também. Com a autonomia vem a responsabilidade de prestar contas. Mas atenção que o prestar contas não pode ser feito com meras tabelas de avaliação ISO.
"In the U.S., they treat teachers like pizza delivery boys and then do efficiency studies on how well they deliver the pizza." Dan MacIsaac, Prof. Associado de Física, da State University of New York, após ter passado 2 meses na Finlândia a avaliar o sistema educativo.
3 - Aumentar o investimento do ensino profissional
Sem dúvida, uma das necessidades mais urgentes do nosso país. Não podemos continuar a pensar que as pessoas estão todas preparadas de igual modo para suportar a escola como ela é tradicionalmente. Nem todos se conseguem sentar horas a fio a ouvir e a ver, e por isso se queremos que estas pessoas possam fazer mais no seu e no futuro do país, temos de lhes dar outros modos de construir o seu e o nosso mundo.
Não é possível acreditar que todos os alunos sem excepção podem andar 12 anos para trás e para a frente, sem gostar do que fazem. Quando ainda por cima estas pessoas atingem nesta fase o auge da sua existencialidade, e de toda a sua dúvida. Não são adultos com filhos a quem dar de comer, que se dobram à vida para obter o pão a cada dia. São pessoas em crescimento e formação com muitos sonhos, que a qualquer momento preferem dar um pontapé, em algo que nada lhes diz. Numa idade em que por mais que se tente abrir conceptualmente a sua visão, o seu sistema cerebral não está ainda preparado para projetar um futuro a 20, 10, nem 5 anos, em que o imediato sai sempre vencedor. E se o imediato for ganhar umas coroas no McDonalds e poder fazer a sua vida, é isso que fará, saindo da escola com um 8 ou 9º incompleto que nada lhe trouxe em termos de competências para a vida.


Uma última nota, é para fazer das palavras de António Nóvoa (vídeo acima minuto 32:45) as minhas também. No estado em que o país está, acho que devemos agradecer a todos os que aceitaram encarar de frente esta tarefa de ser Ministro em 2011. E por isso as críticas que aponto são num sentido meramente construtivo, opinativo, mas no fundo o que desejo é que o Nuno Crato consiga fazer o melhor ao seu alcance.
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