maio 09, 2021

A Tirania de Ter de Ser o "Melhor"

Apesar de repetitivo, "The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good?" (2020) de Michael Sandel foi o livro mais transformador que li nos últimos anos, por tocar em aspetos fundamentais da atualidade que explicam as intrincadas relações humanas da nossa sociedade neste início de século. 

Deixo múltiplos pontos que o livro suscitou, com argumentação de Sandel, algumas conclusões e  discussões desses. Começo com o ponto principal:

1. A dignidade do nosso trabalho não é medida pelo ordenado que recebemos. 

Mas tem-se vendido às pessoas a ilusão de que se estudarem e fizerem um curso superior, se se esforçarem arduamente, serão recompensadas de acordo com a dimensão desse esforço. Mas os ordenados de cada um são regulados pelas leis básicas da oferta e procura: quantas pessoas existem disponíveis para o número de lugares existentes em cada função. Nada mais. 

2. É tão importante o trabalho do coletor de lixo como o do cirurgião que opera um tumor cerebral.  No entanto:

“Ao valorizar os "cérebros" necessários para obter uma boa pontuação nos testes de admissão à faculdade, a máquina de classificação desvaloriza aqueles sem credenciais meritocráticas. Diz-lhes que o trabalho que fazem, menos valorizado pelo mercado do que o trabalho de profissionais bem remunerados, é um contributo menor para o bem comum, e por isso menos digno de reconhecimento e estima social.”

Sandel cita Robert F. Kennedy, em 1968:

"Fraternidade, comunidade, patriotismo partilhado — estes valores essenciais da nossa civilização não vêm apenas da compra e consumo de bens". Eles vêm antes de "emprego digno com remuneração decente, o tipo de emprego que permite a um homem dizer à sua comunidade, à sua família, ao seu país, e o mais importante, a si próprio: 'Eu ajudei a construir este país. Sou um participante nos seus grandes empreendimentos públicos'". 

Diz Sandel, que este discurso desapareceu da política, tendo-se oferecido em troca: "O que ganha depende do que você conseguir aprender. Você pode, se tentar".

3. Entrar num curso, numa universidade ou numa empresa de alegada elite, nunca é algo apenas conquistado pelo esforço individual. 

O esforço individual é imensamente relevante, e merece reconhecimento, mas o mesmo reconhecimento deve ser estendido ao suporte da família, professores, tutores e amigos.

Mas temos ainda a sorte. A de possuir determinado talento e habilidade à nascença; a de ter nascido naquela família; e naquela comunidade. 

E ainda na sorte, o facto da sociedade em que vivemos, país e momento histórico, darem valor a essas competências e existirem poucas pessoas com as mesmas.

4. Proposta de Sandel para os processos de admissão a lugares de elite, ou seja, em que a procura supera largamente a oferta, como acontece em Harvard ou Stanford:

"Todos os anos, mais de 40.000 estudantes candidatam-se aos cerca de 2.000 lugares que Harvard e Stanford têm para oferecer (...) A minha proposta (...) dos mais de 40.000 candidatos, triar os têm poucas probabilidades de prosperar em Harvard ou Stanford, aqueles que não estão qualificados para ter um bom desempenho e para contribuir para a educação dos seus colegas estudantes. Isto deixaria o comité de admissão com, digamos, (...) 20.000. E a seguir, em vez de se envolver na tarefa extremamente difícil e incerta de tentar prever quem, entre eles, é o mais meritório, escolha os 2.000 por sorteio".

"Esta proposta não ignora completamente o mérito; apenas os qualificados são admitidos. Mas trata o mérito como um limiar de qualificação, não como um ideal a ser maximizado".

Já em 1960, quando a oferta e procura era imensamente menos pronunciada, membros com larga experiência em comités de admissão universitária diziam "Por vezes temos a desagradável sensação de que podíamos pegar todos os milhares [de candidaturas]... e podíamos atirá-los pelas escadas abaixo, apanhar quaisquer mil, e produzir uma classe tão boa como a que sairá da reunião do comité".

5. Isto diz-nos que em muitas dimensões, nomeadamente competências e conhecimento, não é possível hierarquizar acima de níveis de Muito Bom. 

Porque inventar categorias de Excecional, Único ou Número 1 não acrescenta absolutamente nada, não mede nada, não oferece valor tangível, nem para a sociedade nem para o indivíduo. Estas etiquetas resumem-se àquilo que um grupo de pessoas, eleitas para um comitê, decide no momento e que outro  comitê poderia decidir diferentemente.

Isto aplica-se à entrada na Universidade, e a todo e qualquer sistema que se dedique a medir os melhores dos melhores, em termos de competências e conhecimentos, como acontece em concursos de Bolsas, Projetos Técnico-Científicos, etc. Existe um limiar a partir do qual a diferenciação que realizamos é totalmente subjetiva, tendo tanto valor como uma lotaria.

6. Por outro lado, motivar seres humanos a irem além do seu melhor (Muito Bons), para serem o melhor de todos (Nº1), tende a produzir efeitos de perfecionismo doentio com efeitos de frustração e ansiedade constantes.

Estabelecer um limiar de qualificação e deixar o acaso decidir o resto restauraria alguma sanidade nos anos de liceu, e aliviaria, pelo menos em certa medida, a experiência de morte de alma por que alguns passam na tentativa de elevar currículos em busca da perfeição. Também esvaziaria a arrogância meritocrática, ao tornar claro o que é verdade em qualquer caso, que aqueles que chegam ao topo não o fazem sozinhos, mas o devem a sua boa sorte, as circunstâncias familiares e os talentos inatos, que seriam moralmente semelhantes à sorte do sorteio".

7. Mas como chegámos aqui? 

No mundo ocidental em que vivemos, “os governos nacionais asseguram que todos tenham uma oportunidade igual de obter a Educação da qual depende o seu sucesso. Mas significa também que aqueles que chegam ao topo passam a acreditar que merecem o seu sucesso. E, que sendo, segundo o que dizem, as oportunidades iguais, significa que aqueles que ficam para trás também têm aquilo que merecem ".

Isto explica os estudos realizados na Europa que demonstram “inquiridos com formação universitária têm mais preconceitos contra pessoas com menor formação do que contra outros grupos desfavorecidos — muçulmanos, pessoas da Turquia que vivem decentemente na Europa Ocidental, pessoas pobres, obesas, cegas, e menos educadas”. Ou seja, aqueles com menor instrução são os menos apreciados de todos pelos com maior formação. Os estudos nos EUA deram resultados semelhantes.

Mais, aqueles com formação superior “não sentem qualquer embaraço com este preconceito. Denunciam o racismo e o sexismo, mas não se desculpam com as suas atitudes negativas para com os menos instruídos". Para agravar, os próprios não-instruídos olham com desdém para os outros não-instruídos, demonstrando como todo o discurso se enraizou nas sociedades.

8. E o que pode ser feito?

A Educação como fator de mobilidade social é fundamental, mas ela não pode ser a única dimensão, já que é incapaz de dar conta dos desequilíbrios promovidos pela força da Oferta e Procura. 

Já utilizamos uma parte dos impostos para taxas morais — tabaco, açúcar, luxos, etc. —, que representam os valores da sociedade em cada momento. Contudo não os utilizamos para diferenciar o trabalho relevante do irrelevante para o bem comum. Não se compreende que empresas como a Apple, Google ou Amazon, ou pior ainda Wall Street, lancem redes de arrasto planetárias e recolham tudo sem a mínima responsabilidade social, ou sequer preocupação produtiva, apenas fundamentados no ganho a qualquer custo, obrigando a que as classes médias e abaixo corram que nem loucas para apanhar os restos...

9. E a política?

Estas distorções societais foram produzidas tanto pela Direita como pela Esquerda. De um lado, o Neoliberalismo, com o seu Laissez-faire desenfreado que tudo poderia controlar sozinho, tendo procurado destruir toda e qualquer regulação. Do outro, a individuação dos sujeitos pela fragmentação da identidade; a crença no behaviourismo em favor da total descrença na genética; e como cereja, o Mérito como meio para a Oportunidade.

“Even as globalization produced massive inequality, these two outlooks—the meritocratic and the neoliberal—narrowed the grounds for resisting it. They also undermined the dignity of work, fueling resentment of elites and political backlash.”

Mais, isto foi conseguido graças à total falha na representatividade de classes no seio dos órgãos de governo, onde apenas entram credenciados pelo ensino superior. Aqueles que racionalizam, na maior parte das vezes, na ausência de um conhecimento da realidade prática.


As minhas conclusões

Partindo dos estudos realizados ao longo de mais de 40 anos e amplamente aceites sobre a Motivação Humana, sabemos que os seres humanos dotados de uma consciência regular são movidos por 3 grandes forças: competência, autonomia e relação. Mas:

1. As sociedades em que vivemos dão apenas destaque e valorizam apenas a Competência, nos seus sentidos estritos de: Medição e Quantificação

Começa com as notas na Escola que conduzem até à entrada na Universidade, passa pelos Prémios e Distinções, atinge o auge com o Ordenado e por todo o Consumismo que proporciona: Carros, Casas, Férias, etc. Na vida académica raia a insanidade com os curriculos a listarem o mais ínfimo passo dado para garantir pontos e subir na escala fixada pelos Rankings e Universidades. 

Mantra: Medir e quantificar, medir e quantificar, medir e quantificar, medir e quantificar, medir e quantificar...

Mas o mais rídiculo de tudo isto surge quando se colocam todas as variáveis na balança e se percebe que o suposto Mérito Individual que está a ser medido é constituído não só por um imenso apoio familiar e social, mas também pela lotaria dos genes. No final, acabamos a premiar não aqueles que se esforçam mais, mas aqueles com as melhores condições.

2. A autonomia é reconhecida apenas como ideia filosófica

Defende-se como ideia de Liberdade algo que se distancia bastante daquilo que são os Estados Democráticos, imensamente poderosos, carregados de leis, ditâmes e punições para tudo. Apresenta-se como o objetivo, mas na verdade só lhe damos valor quando falamos de Ditaduras, como se a Democracia fosse um sistema de completa liberdade. As escolhas de cada ser humano encontram barreiras e portas fechadas desde a nascença. Sabendo nós dessa condição, passamos a maior parte do tempo a iludir-nos sobre o quão livres somos.

3. Quanto à Relação, essa foi completamente esquecida. 

A Revolução Francesa ainda elevou a Fraternidade a bandeira. Até nós os Latinos, mais calorosos e próximos, fomos admoestados e condicionados para abandonar esses comportamentos socializantes, vistos como péssimos indicadores na quantificação produtiva. Como apresenta Sandel, tudo aquilo que envolve o Bem Comum tem vindo a ser destruído em grande velocidade e intensidade. 

"As cadeias de abastecimento globais, os fluxos de capital, e as identidades cosmopolitas que fomentaram tornaram-nos menos dependentes dos nossos concidadãos, menos gratos pelo trabalho que fazem, e menos abertos às reivindicações de solidariedade (...)  
O bem comum passou a ser entendido apenas em termos económicos. Deixou de tratar-se de cultivar a solidariedade ou de aprofundar os laços de cidadania, e passou a ser uma preocupação relacionada com satisfazer as preferências dos consumidores medidas pelo produto interno bruto. ”

4. A Universidade não pode enfiar a cabeça na areia 

Não é possível continuar a aceitar sujeitar-se a ser mero centro de formação credenciada. Não só desvirtua a sua identidade, como cria a ideia errada de que todos precisam de uma formação universitária, quando aquilo que as pessoas precisam para realizar um trabalho é formação profissional qualificada.


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[Discussão e Excertos apresentados no Facebook durante a leitura]

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1. "The Rise of the Meritocracy" (facebook)

É um livro de 1958 que fala de uma sociedade distópica na qual a inteligência e o mérito se tornaram nos princípios reguladores sociais, substituindo as divisões anteriores de classes, criando uma sociedade dividida entre a elite merecedora e a subclasse dos desfavorecidos, os não merecedores. 

O livro foi escrito como sátira, por Michael Young, sociólogo e ideólogo do Labour Party (UK).

Em 1996, um ano antes de subir a PM, Tony Blair diria "O Novo Labour está comprometido com a Meritocracia. Acreditamos que as pessoas devem poder elevar-se pelos seus talentos, e não pelo seu nascimento ou pelas vantagens do privilégio". E em 2001, preparando-se para o segundo mandato prometia "um programa estritamente meritocrático" destinado a "abrir a economia e a sociedade ao mérito e ao talento".

Nesse ano, Michael Young tinha 85 anos e ficou impávido ao ouvir Blair, tendo escrito no The Guardian, 

"Eu esperava que os pobres e os desfavorecidos fossem abatidos e, de facto, têm-no sido. Marcados nas escolas, ficam vulneráveis ao desemprego posterior 

(...) 

É de facto difícil numa sociedade que faz tanto do mérito, ser julgado como não tendo nenhum. Nunca nenhuma subclasse foi deixada tão moralmente nua como esta 

(...) 

à medida que o tempo vai passando, mais deles se vão desligando, e desinteressados ao ponto de nem sequer se darem ao trabalho de votar. Já não têm o seu próprio povo para os representar.

(...)

Pode fazer-se alguma coisa em relação a esta sociedade mais polarizada e meritocrática? 

Ajudaria se ele [Blair] e o Sr. Brown marcassem a sua distância da Nova Meritocracia, aumentando os impostos sobre o rendimento dos ricos, e também reavivando um governo local mais poderoso como forma de envolver a população local e dar-lhes uma formação para a política nacional."

Voltando ao livro, Young concluía a sua fábula distópica dizendo 

"Em Maio de 2034 ... Haverá agitação intensa. As universidades poderão tremer. Haverá distúrbios (...) Este não será um movimento revolucionário, mas uma convenção de grupos díspares mantidos juntos apenas por algumas figuras carismáticas e uma atmosfera de crise. Não haverá tradição de organização política em que se possam basear."

A revolução de 2034 de Young, das classes menos instruídas, parece ter-se antecipado, porque em 2016 a Polarização atingiu níveis nunca antes vistos, com a Inglaterra a conhecer o Brexit, votado pelos Sem Partido que não tinham formação superior. Nos EUA, Trump era transformado num líder carismático salvador eleito pelos que se tinham desligado da política e não possuíam formação superior. Em 2018 a França conheceu os Coletes Amarelos que apesar de toda a destruição gozam de um apoio popular acima dos 75%.

Veremos como chegamos a 2034... porque o problema não é o mérito, que é necessário para criar elevadores sociais e motivação social, mas o mérito sozinho não pode tudo, transformando-se mesmo num mal se for o único critério. É preciso muito mais redistribuição de riqueza, que não pode acontecer apenas por via do elevador social e do mérito.

Fontes:
"Down with meritocracy", Michael Young, The Guardian, 29 jun 2001
"The Rise of the Meritocracy", Michael Young, 1958, Pelican Books

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2. Mérito e Recompensa, segundo Hayek e Rawls (Facebook)

Hayek, o economista-guru do capitalismo laissez-faire, que se opunha aos esforços de governos para reduzir as desigualdades económica, e encarou o Estado social como antitético à liberdade: Não Acreditava no Mérito. 

Para Hayek os mercados nada tinham que ver com recompensa de mérito. O mérito envolve juízo moral, já o valor mede apenas aquilo que os consumidores estão dispostos a pagar por um bem. Disse no seu livro “The Constitution of Liberty (1960)”:

"O inato, bem como os talentos adquiridos pelas pessoas têm claramente um valor para os seus semelhantes que não depende de qualquer crédito que lhe seja devido por possuí-los. Há pouco que um homem possa fazer para alterar o facto de os seus talentos serem muito comuns ou extremamente raros. Uma boa mente ou uma boa voz, um rosto bonito ou uma mão habilidosa, uma inteligência rápida ou uma personalidade atraente são em grande medida tão independentes dos esforços como as oportunidades ou as experiências que a pessoa teve. Em todos estes casos, o valor que as capacidades ou serviços de uma pessoa têm para nós e pelos quais ela é recompensada tem pouca relação com qualquer coisa a que possamos chamar mérito moral ou recompensa".

Do outro lado,

John Rawls, o grande defensor do liberalismo de Estado-Providência, dizia que mesmo um sistema com total igualdade de oportunidades, capaz de compensar plenamente os efeitos das diferenças de classes, não seria suficiente para criar uma sociedade justa. 

Segundo Rawls, em "A Theory of Justice" (1971), 

"Uma méritocracia justa "ainda permite que a distribuição de riqueza e rendimento seja determinada pela distribuição natural das capacidades e talentos" fazendo com que as desigualdades de rendimento devidas aos talentos naturais não se diferenciem das diferenças de classe, o que "de um ponto de vista moral, são ambas igualmente arbitrárias".

além disso:

"A afirmação de que um homem merece o carácter superior que lhe permite fazer o esforço de cultivar as suas capacidades é igualmente problemática; pois o seu carácter depende em grande parte de circunstâncias familiares e sociais afortunadas, pelas quais não pode reclamar qualquer crédito."

Tanto Hayek como Rawls rejeitaram o mérito e recompensa como base de justiça.

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3. The University and Merit (facebook)

“More than two-thirds of students at Ivy League schools (Harvard, Cornell, Brown, Columbia...) come from the top 20 percent of the income scale; at Princeton and Yale, more students come from the top 1 percent than from the entire bottom 60 percent of the country. 

This staggering inequality of access is due partly to legacy admissions and donor appreciation (the back door), but also to advantages that propel children from well-off families through the front door.

(...)

Why has admission to prestigious universities become so fiercely sought that privileged parents commit fraud to get their kids in? 

Or, short of fraud, spend tens of thousands of dollars on private admissions consultants and test prep courses to boost their children’s chances, turning their high school years into a stress-strewn gauntlet of AP classes, résumé building, and pressure-packed striving?

(...)

The admissions obsession has its origins in the growing inequality of recent decades. It reflects the fact that more is at stake in who gets in where. As the wealthiest 10 percent pulled away from the rest, the stakes of attending a prestigious college increased.

(...)

Today, students commonly seek out the most selective college that will admit them. Parenting styles have also changed, especially among the professional classes. As the income gap grows, so does the fear of falling. Seeking to avert this danger, parents became intensely involved with their children’s lives—managing their time, monitoring their grades, directing their activities, curating their college qualifications.

This epidemic of overbearing, helicopter parenting did not come from nowhere. It is an anxious but understandable response to rising inequality and the desire of affluent parents to spare their progeny the precarity of middle-class life.”

(...)

In an unequal society, those who land on top want to believe their success is morally justified.

(...)

Those admitted with sparkling, legitimate credentials take pride in their achievement, and consider that they got in on their own. But this is, in a way, misleading. While it is true that their admission reflects dedication and hard work, it cannot really be said that it is solely their own doing. What about the parents and teachers who helped them on their way? What about talents and gifts not wholly of their making? What about the good fortune to live in a society that cultivates and rewards the talents they happen to have?

Those who by effort and talent prevail in a competitive meritocracy are indebted in ways the competition obscures. 

As the meritocracy intensifies, the striving so absorbs us that our indebtedness recedes from view. In this way, even a fair meritocracy, one without cheating or bribery or special privileges for the wealthy, induces a mistaken impression — that we have made it on our own. 

The years of strenuous effort demanded of applicants to elite universities almost forces them to believe that their success is their own doing, and that if they fall short, they have no one to blame but themselves.

This is a heavy burden for young people to bear. It is also corrosive of civic sensibilities. 

For the more we think of ourselves as self-made and self-sufficient, the harder it is to learn gratitude and humility. 

And without these sentiments, it is hard to care for the common good.”

Michael J. Sandel, Law Professor at Harvard University, in the book “The Tyranny of Merit” (2020)

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4. Obama, Harvard, Wall Street & Trump (facebook)

“In a book chronicling the first year of Obama’s presidency, Alter observed that a quarter of his appointees had some connection (as alumni or faculty) to Harvard, and more than 90 percent of early appointees had advanced degrees. 

'Obama’s faith lay in cream rising to the top. Because he himself was a product of the great American postwar meritocracy, he could never fully escape seeing the world from the status ladder he had ascended.'

Obama’s fondness for the highly credentialed persisted throughout his presidency. By the middle of his second term, two-thirds of his cabinet-rank appointees had attended an Ivy League college, and thirteen of twenty-one had attended Harvard or Yale. All but three held advanced degrees.

Having well-educated people run the government is generally desirable, provided they possess sound judgment and a sympathetic understanding of working people’s lives—what Aristotle called practical wisdom and civic virtue. But history shows little connection between prestigious academic credentials and either practical wisdom or an instinct for the common good in the here and now. 

One of the most ruinous examples of credentialism gone awry is described in David Halberstam’s classic book The Best and the Brightest. It shows how John F. Kennedy assembled a team with glittering credentials who, for all their technocratic brilliance, led the United States into the folly of the Vietnam War.

Alter saw a similarity between Kennedy’s team and Obama’s, who 'shared the Ivy League as well as a certain arrogance and a detachment from the everyday lives of most Americans.' As things turned out, Obama’s economic advisors contributed to a folly of their own, less lethal than Vietnam but consequential nonetheless for the shape of American politics. 

Insisting on a Wall Street–friendly response to the financial crisis, they bailed out the banks without holding them to account, discredited the Democratic Party in the eyes of many working people, and helped pave the way to Trump.

(...)

'Obama deferred to Wall Street in so many ways because investment banking signifies professional status like almost nothing else. For the kind of achievement-conscious people who filled the administration, investment bankers were more than friends—they were fellow professionals; people of subtle minds, sophisticated jargon, and extraordinary innovativeness.”

(...)

'The Wall Street fiction that certain financial executives were preternaturally gifted supermen who deserved every penny of their staggering paychecks and bonuses was firmly ingrained in Treasury’s psyche. No matter that the financial crisis had demonstrated just how unremarkable the work of those executives had turned out to be, that belief system endured at Treasury across administrations. If a Wall Street executive was contracted to receive a $6.4 million 'retention' bonus, the assumption was that he must be worth it.'"

Excerpt From: Michael J. Sandel. “The Tyranny of Merit”

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