março 13, 2021

Perdidos no Pensamento (2020)

Memórias desencantadas sobre a academia, em que se procuram pistas para continuar a acreditar no valor da reflexão, da edificação da vida interior. A questão que move Zena Hitz em "Lost in Thought: The Hidden Pleasures of an Intellectual Life" (2020) é: para que serve uma vida intelectual? O que a leva a questionar o valor da dedicação à construção do pensar. E mais iminente ainda, se o pensamento é o fim, ou é apenas um meio? Hitz não dá lições do alto da cátedra, à lá Séneca. Ela subiu todos os degraus académicos, chegou ao topo, numa universidade de elite americana, e depois resolveu abandonar tudo.

O desencanto com a academia:

“Learning is a profession, as I found; it is a way of achieving money and status and of supporting the educational machinery already in place.”

A dúvida:

“What does it mean to pursue learning for its own sake? Is it even possible? Is the joy of learning itself selfish? (...) “why should intellectual life matter, especially in a world so suffused with suffering? What role could it or should it play in repairing the broken fragments of our communities or in pushing back the darkness at their margins? ”

Além da vida interior:

“I may choose to have children thinking that I will be able to maintain the inner space to pursue my mathematical interest, and I might be wrong. Since children generate moral duties, I may not be able to recover my original mathematical focus without wronging my children. Likewise, I may choose not to have children with the thought that I will be better able to write poetry without distraction, but I may find that in domestic isolation my life experience becomes narrow, shallow, and impoverished, and my well of creativity dries up. Our ultimate ends are often fragile in unpredictable ways; hence our youthful anxiety about the future, our midlife crises, and our regrets in old age.”

Desligar da realidade:

"The freedom of a leisurely activity is the freedom from results or outcomes beyond it."

A necessidade do ascetismo:

"Asceticism is required because learning does not dwell only in rarified realms to which one could travel, as one might go to the Himalayas or to Hawaii. It is a part of the social world, participates in that world’s vices, and provides its own obstacles. Our intellectual institutions provide occasions not only to exercise the love of learning but also to advance ourselves in wealth and status. So they tap into loves other than the love of learning, and can form intellectuals for whom learning is a tangential goal. Some corrupted habits of the mind can even turn us against learning itself.”

A difícil escolha:

“Our vision of the love of learning is distorted by notions of economic and civic usefulness. I can be more blunt. We do not see intellectual life clearly, because of our devotion to lifestyles rich in material comfort and social superiority. We want the splendor of Socratic thinking without his poverty. We want the thrill of his speaking truth to power without the full absorption in the life of the mind that made it possible. We want the profits of Thales’ stargazing without the ridicule. We want Einstein’s brilliant insights without the humiliation of joblessness followed by years of obscurity working in a patent office. Instead of facing reality head on and making a choice to accept the costs of a certain pursuit as they are, we pretend that there is no need to make a choice. Intellectual life can bring you wealth and high social status. We can have it all. So we lie to ourselves that what we really care about is the realm of the intellect, when in reality we would sacrifice it in a second to our idols—comfort, wealth, and status.”

A confusão do elitismo:

“Even within the love of learning itself there seems to be a desire for superiority as such, a drive to belong to an exclusive elite (...) If the love of learning is easily confused or fused with desires for wealth and status, how can we escape ourselves and attain our fuller humanity?”


A proposta de Zena Hitz

“escaping through philosophically informed self-examination, as described in Augustine’s Confessions, and escaping through the creation of art, as described in Elena Ferrante’s Neapolitan novels”

Nesta proposta Hitz realiza uma leitura da obra de Santo Agostinho, e das suas questões filosóficas, contrapondo-a a uma outra possibilidade, a vida agarrada de frente, com força para tomar decisões sem depender das convenções sociais, representada por Lila (a amiga de infância da narradora) em A Saga Napolitana de Ferrante

É um exercício acutilante, que me fez regressar a ambas as obras, e nomeadamente no caso de Ferrante, contribuiu não só para entrar melhor dentro da memas, mas para ganhar um novo olhar sobre o mundo e as pessoas com quem coabitamos todos os dias. Não posso dizer que seja revolucionário, antes são confirmações de perspectivas, ideias,que vamos tendo, mas que a pressão das convenções do que é e deve ser o mundo — muitas vezes emanadas de uma elite endinheirada ou académica dedicada aos luxos que nunca percebeu o real em que vive.

No final, o dedo é colocado na ferida aberta da nossa academia:

“to justify intellectual activity in terms of its economic and political benefits, as do contemporary defenders of the humanities and liberal education, might seem banal or beside the point. But such defenses are worse than that: they are false and destructively so. For intellectual life to deliver the human benefit it provides, it must be in fact withdrawn from considerations of economic benefit or of social and political efficacy. ”

“Intellectual life is a source of human dignity exactly because it is something beyond politics and social life.”

E a questão central de que a vida intelectual não é um exclusivo da academia:

“If intellectual life is not an elite property but a piece of the human heritage, it belongs first and fundamentally to ordinary human beings. All intellectual life, no matter how ultimately sophisticated, originates in the human questions arising in and behind ordinary life. Scholarship is exciting in its own right, but it means nothing in a world where there is no first-order reflection, no ordinary thinking about human nature or the structure and origins of the world. Higher study is pointless if literature or philosophy or mathematics or the nature of nature has ultimately nothing to do with the human good of ordinary people or with paths of understanding one might follow in daily life.”


Levantam-se dúvidas à proposta de Hitz, contudo é necessário contextualizar a mesma. Não é objetivo desta, oferecer qualquer manual de sobrevivência intelectual ou um tratado sobre as razões interiores do pensamento. Este livro tem uma genése que é explicitada por todo um capítulo introdutório de memórias da autora, a partir do que busca resposta para o estado de desânimo com que se viu confrontada na Academia.

Para mim, a sua proposta aponta um caminho claro à Academia e à sua relação com o pensamento. O cerne da Universidade não pode ser o prestígio do elitismo, a criação e proteção de torres de marfim, nem a mercantilização do conhecimento, cunhado por chavões como o empreendedorismo. Para esse efeito não é preciso qualquer Universidade. A Academia tem uma missão clara, promover uma cultura assente no desejo por aprender. A Academia incorre numa subversão quando deixa que o seu discurso siga por vias justificativas de si, como o meio que permite atingir os fins — criar o conhecimento único, autoritário; ou criar a necessidade de um curso superior para obter um emprego. Politicamente faz sentido, mas a Academia não se quer política.

A Academia tem de ir além da produção de conhecimento ou da empregabilidade. A Academia tem de ser capaz de criar no espírito de quem por lá passa: a vontade, a necessidade e a centralidade da construção do pensamento como ação diária e vital à sobrevivência interior.

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