dezembro 29, 2020

"I Survived Area X"

Quando terminei o segundo volume fiquei chateado com o autor por me ter mantido a ler todo um livro enredado em algo que nada tinha para oferecer. Disse a mim mesmo que não iria ler mais nada dele. No entanto, passadas algumas semanas, acabei por pegar no terceiro volume, "Aceitação" (2014). Porquê?

Ler a análise do volume Um (2014) e volume Dois (2014)

1 - Queria ter direito a envergar a t-shirt "I Survived Area X"?

2 - Queria poder dizer mal com conhecimento de causa?

3 - O mundo-história clamava pela minha curiosidade?

Talvez as três, mas indubitavelmente a última. Por mais mal que possamos falar sobre o enredo criado por Vandermeer, pela sua total incapacidade de dar respostas às enormes premissas que colocou na sua frente, o resultado é um trabalho acima da média.

Vandermeer escreve bem e consegue criar uma leitura bastante fluída. Os personagens, não sendo desenvolvidos em profundidade, são ágeis e atrativos, ou seja, geram dinâmica e fazem-nos interessar pelo que estão a pensar. Mas talvez o ponto mais alto seja mesmo o imenso talento de Vandermeer para a criação de mundos-história, ou seja, o modo como apresenta o lugar da narração e o vai alimentando num crescendo, a ponto de nos manter sempre envolvidos e ligados ao mundo. Não existe propriamente razão para surpresa, ou não seria uma das obras mais conseguidas de Vandermeer o livro de não-ficção, "Wonderbook: The Illustrated Guide to Creating Imaginative Fiction" (2013), sobre exatamente a construção de mundos-história.

Dito isto, não se esperem respostas neste terceiro livro, ainda que seja fornecida muito mais informação sobre a Área X do que no segundo volume, o que provavelmente contribui para a maior satisfação, e também algum fechamento. O que Vandermeer nos oferece aqui é, mais uma possibilidade de voltarmos a escapar para o seu mundo alternativo, dotado de elementos estranhos mas extremamente estimulantes do ponto de vista especulativo, não só sobre um possível futuro, mas também sobre o real presente em que vivemos. 

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