segunda-feira, abril 30, 2012

"Arte e Ciência não se Misturam" !!!

Semir Zeki, professor da University College of London, trabalha no campo das neurociências desde os anos 1980 e é um dos pioneiros do campo de estudos de Neuroestética. No seu blog publicou recentemente vários textos sobre os medos da Neuroestética que depois foram coligidos num único texto, The Fear of Neuroesthetics, no site The Creativity Post. Neste texto revê vários ataques que têm sido perpetrados contra a disciplina, definindo-a como "lixo", ou como uma tentativa de "alisar toda a complexidade da cultura".

The Call to Arms, 1879, Auguste Rodin

Não deixa de ser impressionante que em pleno século XXI ainda exista quem escreva textos como, Art and Science don’t Mix. Stuart Kelly não é cientista, mas é um crítico literário britânico que escreve para vários jornais como o The Guardian. Um comentário deixado no site como resposta a Kelly diz tudo, "I would be very interested in what Leonardo might have to say about the statement "Art and Science Don't Mix"".

Annunciation (1472) Leonardo Da Vinci

Dito isto se trago o texto de Semir Zeki não é apenas pela sua autoridade no campo, mas antes porque ele representa um grito de alerta contra um obscurantismo que regeu o pensamento durante milénios. Eu próprio tenho sentido alguns destes ataques no meu trabalho. Nomeadamente porque tenho sempre optado por basear o meu trabalho sobre a emoção estética nas neurociências e não nas humanidades, e isso cria atritos, desconfiança do valor daquilo que se possa construir em termos de conhecimento.

Belvedere, (1958), M.C. Escher

A verdade é que os investigadores das humanidades acreditam que de algum modo são os únicos que podem verdadeiramente estudar, compreender e interpretar a arte. Todo o seu discurso está contaminado por uma oposição feroz ao uso de qualquer metodologia científica que procure estudar a arte em seu lugar. Porque segundo estes o que está em causa na criação artística é de uma ordem de complexidade tão grande que se torna impossível explicar. Então mas se assim é, como é que se explica, como diz Zeki, que existam milhares de livros e artigos escritos sobre Hamlet, ou que o número de livros e artigos sobre o simples "acorde de tristão" exceda os 2000. Se os críticos e estudiosos encontraram tanto para dizer, é porque então existe algo para explicar.

El vol de la libèl·lula davant del sol, (1968), Joan Miró 

Mas uma das constatações mais interessantes do artigo, aparece quando Zeki procura dizer que nem todos os investigadores das humanidades são contra a entrada das neurociências nas artes, e acaba dizendo que isto é especialmente verdade para o artistas e compositores. "Esses parecem não sentir medo. Eles querem saber mais." E aqui reside um dos maiores problemas das humanidades, que se resume a investigadores que se dedicam a estudar arte, sem tentar fazer arte. É que o papel de criar, vai além do de interpretar.


A verdadeira problemática é que toda a tecnologia, desde as tintas utilizadas nas cavernas de Lascaux ao computador, foi criada por processos científicos. Toda a evolução operada surgiu de processos científicos trabalhados sobre os objectivos da arte. A ligação entre Arte e Ciência é verdadeiramente umbilical, e quem não vê isto, simplesmente não descobriu ainda o que é a Arte.
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