sexta-feira, janeiro 27, 2012

Estrangeiros (2012), estranhezas do absurdo

Né Barros na introdução do seu novo espetáculo de dança contemporânea, Estrangeiros (2012), estreado ontem à noite em Guimarães (CEC 2012), fala-nos da inspiração em O Estrangeiro (1942) um dos livros mais importantes de Camus, aonde ele espelha toda a essência da sua visão do mundo e da vida, definida pelos críticos como "a filosofia do absurdo".

"No seu deferir, estas figuras são deslocações ora de clichés de identificação ora de estranhezas genuínas comportamentais." Né Barros

O estrangeiro de Camus movimenta-se por entre o mundo de forma inconsequente, sem rumo nem sentido. Transborda da prosa a sensação de total estranheza face ao quotidiano, ao circundante e ao chamado real. E é isso que vemos na nova obra de Né Barros, uma demonstração contínua do absurdo do movimento do corpo, da total estranheza que percorre os movimentos menos familiares, aqui fortemente explorados. Os atores desdobram-se, transmutam-se, encolhem-se, esticam-se, em poses invulgares que despertam os nossos sentidos, e nos perturbam, tudo isto a movimentos rítmicos ainda menos comuns, numa espécie de staccatos do movimento corporal.

L'étranger (1946), Albert Camus


Em termos formais posso dizer que por momentos a meio da performance me senti remetido para o universo existencialista de Paris, Texas (1984) de Wim Wenders. Por toda a sua estranheza, também muito camusiana, por todo o isolamento, mas claramente pelos acordes sonoros emanados da guitarra a soar a Ry Cooder. Essa é das particularidades mais interessantes em toda a performance, a força da música, e em particular da guitarra eléctrica.


Paris, Texas (1984), Wim Wenders

O espectáculo abre com seis pessoas em cima do palco, cinco guitarras e um baixo, tocando poderosamente num ritmo hard-rock, os intérpretes (Bruno Senune, Flávio Rodrigues, Joana Castro e Pedro Rosa) abandonam as guitarras, mas em palco permanecem ao longo de toda a performance dois músicos (Alexandre Soares e Jorge Queijo). Um guitarrista com uma parafernália de pedais de efeitos, e um baterista, que para além de cuidar de uma caixa de efeitos electrónicos, por vezes toca bateria enquanto com um arco de violino toca guitarra. Por detrás dos músicos corre um panorama que tempos a tempos se ilumina e no qual se projectam traços e riscos interactivos sobre um fundo negro (João Martinho), que vão sofrendo distorções na relação com os performers, ora pela via do movimento ora pela via da voz e choro. Ao longo do espétaculo as cordas vão transmutando-se evoluindo para níveis mais pesados a roçar o trash metal, e a fazer lembrar Metallica dos anos 80, passando depois por momentos de estranheza psicadélica a evocar a ficção científica dos anos 70, progredindo para momentos da mais pura ambiance electrónica, e elevando-se no final sob a melodiosa e fina sonoridade de uma guitarra portuguesa. Tudo isto acompanhado pela projecção visual de formas que seguem interactivamente o que se passa em cena, sempre tudo totalmente envolvido por um desenho de luzes perfeito (Alexandre Vieira).


Nuve (2010), João Martinho Moura

Toda esta formalidade técnico-artistica é servida com excelentes performances de dança do absurdo, fazendo deste espetáculo um momento poderoso, a nível sensorial, capaz de nos envolver e transportar numa jornada existencial.

"Nem sequer tinha a certeza de estar vivo, já que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mãos vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava. Sim, não sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha tido razão, tinha ainda razão, teria sempre razão. Vivera de uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira. Fizera isto e não fizera aquilo. Não fizera uma coisa e fizera outra. E depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado à espera deste minuto... e dessa madrugada em que seria justificado. Nada, nada tinha importância e eu sabia bem porquê."
L'Étranger (1942:83) de Albert Camus

UPDATE 29 Janeiro 2012:
Adição de fotos do espectáculo de: luisferraz@balleteatro









direcção e coreografia Né Barros
música e interpretação ao vivo Alexandre Soares, Jorge Queijo
intérpretes Bruno Senune, Flávio Rodrigues, Joana Castro, Pedro Rosa
arte digital João Martinho Moura
desenho de luz Alexandre Vieira
adereços e figurinos Flávio Rodrigues e Né Barros
produção executiva Tiago Oliveira
parceiro Engagelab, Universidade do Minho
produção balleteatro
co-produção Capital da Cultura de Guimarães 2012, TNSJ
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