quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Entrevista com Nuno Caroço - Composite Artist

Nuno Caroço é artista de Composição Digital, nasceu em Lisboa em 1975, mas vive no Porto. Formou-se em Artes Plásticas na ESAD.Cr (Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha). Trabalha há mais de 10 anos em composição digital com After Effects. Encontrei o seu trabalho por acaso no Vimeo, e chamou-me a atenção pela qualidade técnica, e sensibilidade visual. Troquei umas palavras com ele via Facebook e resolvi realizar-lhe uma entrevista para o Virtual Illusion.


1 - Que hobbies tinhas em miúdo?
:: Principalmente pintar! Mas desde pequeno ia com o meu pai ao cinema, via animação na TV, visitava museus e exposições. Mas foi o Cinema, o acto de ir ao Cinema e vê-lo numa tela que me inspirou profundamente mais tarde.

2 - Podes dizer em que empresas trabalhaste até aqui, tens vídeos ou imagens do trabalho que lá fizeste. Ou podes apontar os artefactos em que trabalhaste?
:: Tendo em conta que as empresas com as quais colaborei não me autorizam a mostrar o trabalho que lá realizei, prefiro não especificar. Posso adiantar que trabalhei para a indústria nacional de animação e visualização 3D.



3 - Como é que chegaste até esta qualidade de trabalho? Auto-didactismo, workshops, ou cursos superiores? 
:: Muito sinceramente, acho que a qualidade do trabalho está diretamente ligada ao esforço e prazer que retirei do contacto que procurei estabelecer desde cedo com a cultura visual, estética e a sensibilidade artística. Quando comecei, havia pouco divulgação sobre o AE em Portugal, portanto grande parte dessa aprendizagem foi auto-didacta. Confesso que foi muito benéfico o facto de não haver assim tanta informação disponível, fosse através de outras pessoas, manuais ou tutoriais. Assim não houve espaço para maus hábitos e vícios de aprender apenas por tutoriais, descarregar e copiar projectos e presets. A incógnita pode ser compensada por algo muito valioso, a experimentação.
Mas ao longo deste tempo fiz vários workshops online e tive a sorte de ter um curso superior que incidia muito sobre a experimentação prática e na exploração de muitas técnicas no campo das artes plásticas e tentei sempre manter esse workflow no meu trabalho pessoal.



4 - Acreditas que aquilo que fazes se deve mais ao trabalho e à quantidade de investimento e dedicação ou é fruto do facto de teres nascido com um talento específico para esta área?
:: É uma questão muito interessante, Nelson. Eu trabalhei imenso e investi ainda mais na minha formação em todos estes anos, ponho o talento de algo de lado porque penso que o que definimos como talento é muito relativo e subjectivo. Acima de tudo foi a dedicação, paixão, insistência e luta nos maus momentos e como falei acima o gosto em "sujar as mãos" experimentando às cegas com o software.



5 - Porquê o AE? Que outras ferramentas utilizas sem ser de composição, e de que modo são importantes para o teu trabalho?
:: Existem 2 razões por ter escolhido o After Effects: A primeira pela versatilidade de cenários em que se pode usar. A segunda razão e para mim a mais importante, enquanto que outras aplicações de composição estão preparadas para criar imagens tecnicamente "perfeitas" o After Effects consegue fazer algo único, que é criar imagens artisticamente apelativas, fazendo o "shot" conquistar a audiência. É a cereja em cima do bolo! :)
É sem dúvida essencial trabalharmos com outras aplicações que complementem a nossa ferramenta principal. Para além do óbvio (Photoshop), trabalho com software dedicado a tracking, rotoscopia, color grading e gestão de media.



6 - Achas que o AE deve ser categorizado como um software low-end, em comparação com por exemplo o Nuke? Ou seja acreditas que o AE é uma ferramenta na qual ainda se deve investir, em vez de avançar para as chamadas high-end?
:: Acho que se deve olhar essa primeira questão racionalmente e sem olhos de "fanboy", que é o que muitas vezes acontece. São AMBOS softwares "high-end" e o Nuke não possui os todos os pontos fortes e capacidades do After Effects, da mesma forma que o AE não possui tudo o que o Nuke possui. São ambos softwares fantásticos, que se soubermos utilizar corretamente no workflow se complementam de forma muito sólida. Por essa razão as maiores casas de Visual Effects não utilizam um em vez do outro, mas sim os dois em sintonia. O After Effects (entre outros softwares evidentemente, como o Nuke) foi exaustivamente utilizado no Avatar, penso que o mérito visual desse filme, marca neste momento a fasquia à qual o After Effects pode chegar.
O AE tem um custo muito mais baixo em relação a outros softwares concorrentes e é muito mais versátil. Isso é sem dúvida uma mais valia, mas penso que no final, a escolha do investimento deve ir para um pensamento cuidado do cenário, funções e workflow em que se vai aplicar. A minha opinião profissional é que pequenos estúdios de visual effects podem ganhar imenso e fazer face a uma concorrência de casas maiores utilizando o After Effects, conseguindo assim um produto final muito polido, de aspecto profissional, e com um custo de produção muito inferior.



7 – O que te motiva a trabalhar em composição digital? Estar sempre à procura do último grito tecnológico como é o caso do teu vídeo Flux?
:: É simplesmente conseguir fazer parte de um acto de magia, por assim dizer! Pegar em elementos de meios diferentes e combiná-los para criar algo absolutamente novo e apelativo, que possa deslumbrar e conquistar a audiência. Sem dúvida que as integrações real com CG são as que têm os mais interessantes desafios técnicos, mas que também requerem um bom olho artístico. Mas é puro prazer artístico, que no caso do Flux foi aliado ao gosto pela experimentação técnica de uma nova ferramenta disponível.



8 - O que te parece Portugal neste campo da criação artística, em que ponto estamos? O que podemos fazer? O que podes dizer às pessoas para enveredarem por este campo?
:: O que vou apontar, vai deixar alguns ofendidos, mas penso que Portugal tem excelentes criativos "técnicos" e pessoas muito dedicadas e trabalhadoras, mas também maus artistas e demasiada pretensão. Perdemos mais tempo a ver o tipo de trabalho na moda lá fora e tentar fazer igual ou parecido mas pior executado, do que esforçar-nos para fazer uma coisa genuína, artística e tecnicamente bem feita, ainda que não chegue imediatamente a um grande número de "likes".
Joshua Davis quando esteve cá na Offf 2009 deu-nos uma bela achega sobre isso, mas penso que não atingiu muitos. Até mesmo os plágios, chamados por alguns de "inspiração" são muitas vezes mal executados. Penso que temos que mudar atitudes, e começar por gostar da nossa história visual mais antiga, que apesar de pequena face a outros países é muito rica. Conhecer o que se faz lá fora, sim, mas também o que se faz cá dentro, não guardar o conhecimento só para si, comunicando e trocando ideias, experimentar, não ter medo de falhar e de não agradar. Ser-mos honestos com o nosso trabalho, continuar a lutar e a criar sem estar à espera da última moda ou tutorial em voga!
O meu trabalho pessoal é pequeno, não me considero assim tão grande talento ou artista, e quase não sou conhecido no meio, mas luto para ser sincero com o meu trabalho e pela sua qualidade.


9 - O que estás a fazer neste momento em termos profissionais, trabalhas apenas em formação ou fazes trabalhos freelance? 
:: Neste momento estou a trabalhar como freelancer, não só em formação, mas em pós-produção, são duas áreas que gosto bastante e acredito que a formação é a melhor forma de partilhar o meu conhecimento e se possível contribuir para a evolução do mercado.
O mercado nacional em Post Production está limitado a poucos estúdios e alguns destes, ainda preferem soluções económicas baseadas em tutoriais e presets de plugins que podem ser realizadas por pessoal inexperiente na área, a ter por exemplo alguém com conhecimento dedicado em Post e na análise das necessidades de cada projeto.
Tenho esperança no entanto que este cenário mude, mas todos precisamos de mudar, desde as empresas investirem em talento dedicado, até a nós contribuir-mos com conteúdos mais originais, e trabalharmos para a qualidade e originalidade dos mesmos.

Enviar um comentário