terça-feira, janeiro 14, 2014

Flow sem narrativa

"Rayman Legends" (2013) podia muito facilmente ter sido apenas mais do mesmo. Era difícil ultrapassar o brilhante "Rayman Origins" (2011) que aqui descrevi como sendo uma experiência exímia de regresso às origens de Rayman, assim como do gameplay de plataformas 2d. Não posso dizer que ultrapasse, mas que nos consegue fazer reviver as experiências de jogo sem sentirmos qualquer repetição, consegue.

Desta vez podemos jogar com uma personagem feminina, a princesa Barbara

Legends é mais completo, mais denso, oferece muito mais ao jogador, mantendo e elevando o potencial de “flow”. Um potencial que atinge o seu zénite nos níveis finais de cada área do jogo, quando o gameplay é sincronizado com a música de fundo, e nos faz querer chegar ao fim para ouvir o resto da música, uma música que vai sendo pontuada por cada um dos nossos cliques. Sentimos que o flow se começa a entranhar em nós, quando deixamos de racionalizar as nossas acções, e deixamos o nosso corpo fluir ao ritmo da música, apertando os botões, não em função dos obstáculos que se aproximam, mas em função do ritmo da música, sobre a qual praticamente “surfamos” (ver o exemplo do nível Mariachi Madness no vídeo aqui abaixo).

Nível "Mariachi Madness" do jogo, Rayman Legends (2013)

Esta descrição de flow num videojogo é passível de ser visionada no vídeo aqui acima, mas mais uma vez, impossível de experienciar por meio do mero conteúdo audiovisual. Nem a minha descrição, nem o vídeo, podem dar-vos a sentir do que é jogar o nível Mariachi Madness, porque só as acções somáticas do vosso corpo, em conjunto com o visual e o musical, conseguem gerar a palete completa de visceralidade despoletada.

De resto e como já tinha dito a propósito de Origins, Legends é riquíssimo no campo da ilustração, do humor e re-invenção de gameplay de plataformas. Por outro lado continua a não dar muita atenção à narrativa como em Origins, porque o que está aqui em “jogo” é o puro êxtase por via das mecânicas de jogo. O flow é todo ele gerado à custa da progressão de mestria do jogador em conjunto com a novidade e recompensa constantes, capazes de nos manter no reino ilusório, totalmente imersos durante o tempo em que ali vivemos, numa espécie de mundo encantado dos videojogos.
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