sábado, outubro 27, 2012

Usabilidade do iPad em regime de exclusividade

Esta semana fui para uma conferência, e como ia estar fora quatro dias completos resolvi fazer uma experiência, levar apenas o iPad e deixar o MacBook 15 em casa. Demorei a tomar a decisão, só à última hora me decidi, e a experiência não podia ter sido mais angustiante. Por isso resolvi relatar aqui a mesma, até porque tinha discutido isto com colegas que me diziam que as coisas agora estavam diferentes, segundo estes existiam Apps muito boas para fazer quase tudo.


1. Sistema Apple fechado
2. Não existe real multitasking
3. Ecrã pela metade com Teclado
4. Editar fotos e vídeos, apenas coisas simples.
5. Compor e publicar elementos multimédia num blog
6. Um ligeiro toque para estragar tudo

1. O mais complicado tem que ver com a articulação do software com o facto do iOS ser um sistema fechado. É ridículo a limitação puramente artificial criada que dificulta tremendamente a vida das pessoas com barreiras e obstáculos no acesso aos ficheiros dentro do iPad. Já não chegavam as barreiras da tecnologia, a Apple ainda lhe adiciona algumas do foro ideológico. Nem o sistema da PS3 me parece ser tão fechado como este. Por exemplo, não consigo publicar slides no Slideshare (SS) porque não tenho acesso à estrutura dos ficheiros dentro do iPad. Quando acedo ao site do SS para fazer upload num iPad fico limitado a fazer upload de imagens apenas, e não de ppts, porque não existe forma de lhe aceder. Ou seja só se pode aceder a ficheiros no iPad através de software, não existe nenhuma forma de analisar o que temos ali dentro através do sistema operativo. Estes problemas acontecem inclusive no Facebook, onde é fácil publicar via iPad se for apenas para partilhar conteúdos que já estejam online e tenham a opção para o fazer. De outro modo quem quiser publicar coisas suas no Facebook, é tudo complicado. A própria App oficial do Facebook é má, um desastre em termos de controlo do que e como se publica.

2. No caso do PowerPoint acabei por não adquirir o Keynote que é a mais recomendada. Mas utilizei outras como o Smartoffice e o CloudOn, e o que posso dizer, é que para apresentação tudo bem, mas para produzir, é para esquecer. O grande problema surge na falta de verdadeiro multitasking. Adicionar uma foto ou vídeo é um problema, copiar bocados de texto de outro documento é ainda pior, porque o multitasking aqui funciona mandando para modo sleep as aplicações sempre que mudamos para outra. É bom para poupar recursos e diminuir o uso de processamento e de bateria, mas dificulta o trabalho de passar elementos de um lado para outro, algo muitíssimo comum quando estamos a criar uma comunicação. O próprio modo de copy&paste feito todo via menus - que temos de clicar, ligeiramente, mais demorado, esperar pelo menu, que seja o menu correcto a abrir - torna todo o processo uma angústia.


3. Não é um problema de software, é mesmo de hardware. Se o ecrã já é pequeno, este reduz-se a metade sempre que temos de escrever por causa do teclado aparecer no ecrã o que dificulta tremendamente a produção no caso de slides ou qualquer coisa que implique texto e imagem simultaneamente. Julgo que parte disto podia ser minimizado se a Apple não fosse tão casmurra e disponibiliza-se driver para uso de rato externo. Cheguei a testar com o teclado Bluetooth da Apple mas sem rato perde o interesse, porque obriga a estar sempre a ir com as mãos ao ecrã o que nos faz perder imenso tempo.


4. O software de produção visual existente é já bastante, mas é todo muito para iniciados, não existem propriamente pacotes de software flexíveis para esta plataforma, seja vídeo ou imagem. E depois como é que se pode editar pixels no iPad utilizando a ponta de um dedo extremamente grosso, quando comparado com precisão do cursor de um rato?

5. No Blogger é tudo mau, porque só posso adicionar imagens que já estejam online. Se eu quiser adicionar uma imagem minha mesmo estando no meu bloco de fotos dentro do iPad não posso. No caso do único post que fiz enquanto estive em viagem, a imagem que adicionei foi feito via Blogger App para iPhone, que apenas permite adicionar a foto mas sem definição da posição no post. Ou seja tive de usar a App para adicionar, e depois ir à página do Blogger no browser para poder colocar o html da foto na posição dentro do post onde eu queria. Com tudo isto perdi a vontade de publicar o que quer que seja.



6. Finalmente quando estamos a realizar tarefas numa qualquer página online, por vezes basta um pequeno toque para que uma aplicação se feche ou mude algo e percamos tudo o que estávamos a fazer. Se andarmos para trás, ou mudarmos de página, mesmo que seja numa Tab, quando voltamos a ela, este pode lembrar-se de fazer refresh de tudo e lá se vai, tornando toda a experiência num pesadelo.

Quanto a vantagens, existem claro, a leveza e a facilidade de acesso ao mundo digital. Aceder à net, livros, revistas, comics, jogos, filmes é o melhor que existe para levar em viagem. Para skype voz ou video e até texto, funciona muito bem. A duração da bateria é um enorme atributo que supera qualquer outro portátil. O teclado é ultra responsivo criando uma óptima experiência que não requer qualquer teclado externo. Fiz o meu texto para a Eurogamer desta semana completamente no iPad (no Google Docs), claro que o sistema de correcção automática cria problemas, tendo sido o texto que mandei para a Eurogamer que continha mais erros. Além disso correu tudo bem porque não tive inserir elementos no texto, era apenas texto escrito nada mais.

Ou seja, analisando tudo isto, posso concluir algo que de novo não tem nada, que é o facto do iPad ser uma excelente ferramenta de consumo, mas muito má ferramenta de produção. Ou seja para uma grande parte da população que pretende usar o iPad como agenda, leitor de mail, net e facebook é perfeito. Tudo o resto, está fora de causa, muito por causa do software mas não só. Por isso que me dá vontade de rir ao ler estes artigos do futuro da BBC, que nos querem vender as novas interfaces à força, esquecendo que se o rato já tem 40 anos é por alguma razão, muito além da mera limitação tecnológica.


Actualização em 30 de Outubro 2012

Ontem saiu um estudo da Flurry que mostra muito claramente aquilo que as pessoas mais fazem com os seus tablets. De notar que é apenas dedicado 1% à produção de conteúdos enquanto 76% do tempo do uso é dedicado ao consumo de jogos e entretenimento. Por outro lado nota-se que até nos smartphones se dedica mais tempo a fazer de pequenos utilitários do que no próprio tablet. Este estudo como muitos outros vem apenas suportar a ideia de que o Tablet é uma ferramenta de consumo de media, e não de produção.



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