domingo, abril 29, 2018

Anna Akhmatova, a poetisa da dor russa

Depois do luxo arquitectónico dos Romanov e dos clássicos literários russos acabei por desaguar numa camada de história da cidade completamente distinta, o tempo soviético. Não que tenha ido à sua procura, era algo que tinha pensado evitar (a quantidade de camadas de história que se podem aqui visitar são tantas que se torna inevitável fazer escolhas), mas a visita à Fortaleza de Pedro e Paulo, onde se encontram os túmulos de toda a dinastia Romanov, é o local onde se encontra a prisão onde estiveram presos centenas de políticos de vários quadrantes. Assim, tendo saído bastante impressionado da prisão, pela apresentação das fotos e historiais dos vários presos (Gorki, Trotski, Kropotkin, Bakunin, vários políticos sociais-democratas, assim como vários membros do governo e aristocracia após a revolução de 1917), ao visitar no dia seguinte a casa da poetisa Anna Akhmatova acabei sendo completamente atirado para dentro da questão soviética.



Anna Akhmatova em sua casa, na Fountain House, nos anos 1930, em São Petersburgo. Aqui viveu quase 30 anos, casa que agora serve de museu à sua memória.

Não conhecia a poetisa antes de começar a preparar esta viagem, procurei depois saber mais na rede, mas a informação pareceu-me escassa, ao que se acrescentou, estranhamente, a ausência de obras traduzidas em Portugal (correção: descobri entretanto que a RA editou dois livros dela). Por isso tinha até alguma dúvida se devia visitar o museu, contudo ainda bem que o fiz, foi uma visita maravilhosa, inicialmente menos pelo espaço e mais pelas pessoas que ali encontrei também a realizar a visita. Diga-se que as casas de escritores não são propriamente grandes atrativos das cidades, os autocarros param em barda nos grandes museus, praças e palácios. A este pequenos museus vão apenas fãs, ou no caso de alguns nomes mais sonantes as excursões escolares. E tendo eu já visitado várias casas destas aqui, fui completamente apanhado de surpresa pelo público que ali encontrei: em grande número e maioritariamente jovem (18-30) e feminino. O facto de ser mulher torna-a mais apelativa tendo em conta que praticamente todos os autores clássicos russos são homens. (Por outro lado, foi talvez também o facto de ser mulher que impediu Estaline e os seus dirigentes de a fazer desaparecer, optaram apenas por a ignorar na esperança de que esta se suicidasse tarde ou cedo).

A casa em que viveu é um apartamento num antigo palácio da cidade, chamado Fountain House.

Poemas escritos nas paredes em redor do jardim da sua casa

A sua mesa de trabalho

Visitei então toda a casa, na qual a autora viveu quase 30 anos, podendo nós encontrar ali imensa memorabilia da mesma, materiais do quotidiano, mas também muitas cartas, telas, brinquedos, livros, etc. tudo muito bem mantido, apresentando uma estética anos 1920, ao que se acrescenta efeitos de som de ruído de vinyl, de relógios e por vezes alguma música da época. Existe uma instalação multimédia apelativa, mas toda apenas em russo, aliás muito do que se pode ver neste museu está quase só em russo, o que é uma pena. Contudo no final lá encontrei um pequeno livrinho comemorativo do museu*, em inglês, comprei-o e sentei-me num banco do jardim em que Akhmatova costumava passear, e aí começou a minha verdadeira experiência. Através do texto pude viajar até ao início do século XX e acompanhar Akhmatova e as tragédias sofridas à mão de Lenine e depois Estaline, desde logo a execução do marido, a impossibilidade de publicar os seus poemas, o rechaço do seu filho pela sociedade, e mais tarde os vários amigos artistas que foram emigrando, atirados para gulags ou que simplesmente optaram pelo suicídio.

Antes da revolução, em 1911, Akhmatova teve um caso com Modigliani que criou vários desenhos dela, este foi o único que sobreviveu. Existem várias teorias sobre o efeito deste romance no estilo e desígnios posteriores do pintor.

Quadro inacabado de Natalia Tretyakova em que se vê Akhmatova e Modigliani

É essencialmente a partir das suas várias trágicas experiências e debaixo de um controlo político cerrado, que incluiu escutas permanentes na casa, já que ela se relacionava com muita da chamada intelligentsia — Boris Anrep, Osip Mandelstam, Sergey Gorodetsky, Boris Pasternak, Alexander Blok, Natan Altman, Isaiah Berlin; foi mentora do Nobel Joseph Brodsky,  — que ela cria os seus dois mais importante poemas — “Requiem” e “Poem Without a Hero” —, escritos ao longo de anos, e apenas tornados públicos fora da Rússia nos anos 1960, e na Rússia no final dos anos 1980. A pressão sobre a mesma foi tanta, nomeadamente pela prisão e deportação para a Sibéria do filho, que ela chega mesmo a escrever poemas em defesa do governo de Estaline para o tentar salvar. Contudo, é na clandestinidade que o seu nome se vai construindo, com a passagem de mão em mão dos seus poemas que refletem o sentir de tantas outras mães, e tantos e tantos outros cidadãos russos.

“Madness with its wings
Has covered half my soul
It feeds me fiery wine
And lures me into the abyss.

That's when I understood 
While listening to my alien delirium
That I must hand the victory
To it.

However much I nag
However much I beg
It will not let me take
One single thing away:

Not my son's frightening eyes -
A suffering set in stone,
Or prison visiting hours
Or days that end in storms

Nor the sweet coolness of a hand
The anxious shade of lime trees
Nor the light distant sound
Of final comforting words.”

Excerto do poema Requiem, 1963 (poema completo em inglês escrito e declamado, partes em português)

"Anna Akhmatova" (1915) por Nathan Altman, no Museu Russo

Akhmatova fica como uma espécie de voz contra o horror causado pela Revolução Comunista, contra os espíritos ditatoriais de Lenine e Estaline, pela capacidade de colocar em palavras o sofrimento que assolou a alma russa, e por não se calar e lutar sempre, sem nunca abandonar o país.


Após chegar a casa converti o DVD que vinha com o pequeno livro, e coloquei-o online no YouTube.
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