quarta-feira, abril 04, 2018

Dostoievski desvelado

“Crime e Castigo” é um dos meus livros preferidos de sempre, volto mentalmente a ele muitas vezes, mas ao longo de todos estes anos tinha-me debatido sempre com uma mesma questão — o que é que teria conduzido Dostoievski a retratar um assassino e o seu remorso? — para a qual ainda não tinha obtido resposta. Foi agora, ao reler “Memórias do Subterrâneo” (1864), imediatamente depois de ter lido “O Que Fazer” (1863) de Tchernichevski, que compreendi. Raskolnikov (1866), o assassino arrependido, é um sucessor do funcionário público (1864), o intolerante, tendo ambos um mesmo propósito: demonstrar o que estava errado nas teses filosóficas de “O Que Fazer” (1863) (ler análise anterior). Encontrei outros que fizeram esta mesma ligação, o que me diz que esta minha leitura não é assim tão exótica. Não posso dizer que a relação seja muito comum nas análises das duas obras, mas isso com certeza deve-se mais ao facto do livro de Tchernichevski ter praticamente sido esquecido no tempo.

A belíssima capa da nova edição da RA

No caso de “Memórias do Subterrâneo”, a relação com Tchernichevski é comumente reconhecida, talvez porque a leitura de qualquer texto sobre Tchernichevski e o seu livro, no conduz inevitavelmente para este livro de Dostoievski que desse ponto de vista é visto como uma resposta. Na verdade, por ter lido um a seguir ao outro, posso dizer que em vários momentos o discurso do Funcionário Público de “Memórias do Subterrâneo”, parece quase uma carta a Tchernichevski. Porque na verdade ele fala dirigindo-se a alguém, mas não é alguém abstracto, ele fala de teorias e visões da realidade — nomeadamente os “sonhos”, os “estudos”, a “vantagem”, o “radioso e lindo”, o “Palácio de Cristal” — que são alusões diretas ao livro de Tchernichevski e que vão sendo contra-argumentadas e contra-atacadas com casos e cenários concretos que refutam totalmente a “utopia” representada em “o que Fazer?”.
“Mas tudo isso não passa de sonhos dourados. Ah! Digam-me quem primeiro declarou, quem primeiro proclamou que o homem só age mal porque não conhece seus verdadeiros interesses e que, se lhe dessem instrução, se lhe abrissem os olhos para os seus interesses verdadeiros e normais, ele deixaria de agir de modo sórdido, imediatamente se tornaria bom e nobre, porque, sendo esclarecido e entendendo suas vantagens reais, veria justamente no bem a sua própria vantagem?”
“Ah, a vantagem! Que é a vantagem? Os senhores aceitariam a tarefa de determinar com absoluta precisão em que consiste a vantagem para o ser humano? E se acontecer que, em alguns casos, para o homem a vantagem não só possa, como também deva consistir, algumas vezes, em desejar para si aquilo que é ruim, e não o vantajoso?”
“O homem gosta de criar e de abrir caminhos, isto é indiscutível. Mas por que ele também ama com paixão a destruição e o caos? Digam-me, por favor!”
 Se o livro de Tchernichevski é difícil de ler, é porque a escrita é terrível, já o livro de Dostoievski não é menos difícil de ler, mas é porque o modo como ele perscruta o sentir humano é apresentado num modo profundamente elaborado. O livro é pequeno, mas cada página exige a máxima atenção da nossa parte para compreender todo o alcance da argumentação. Claramente que ler o livro depois de ter lido Tchernichevski condiciona a leitura, porque estamos continuamente a aferir os dois lados da barricada argumentativa, e a tentar compreender em toda a extensão da argumentação as evidências e factos propostos. Dostóievski vai a ponto de antever o funcionamento do processo de tomada de decisão que ocorre no nosso inconsciente, e que só no final do século passado começou a ser compreendido:
“E como eu, por exemplo, me tranqüilizaria? Onde estão os meus motivos originais, nos quais me apoiaria? Onde estão os fundamentos? De onde vou tirá-los? Faço uma ginástica mental e, em conseqüência, cada motivo original imediatamente arrasta atrás de si outro, ainda mais original, e vai por aí afora, até o infinito. Essa é precisamente a essência de toda consciência e reflexão.”
Todas estas discussões, a que em parte se pode aceder nestes pequenos fragmentos retirados da primeira parte de “Memórias do Subterrâneo”, servem para sustentar a história que nos é contada na segunda parte sobre os casos de intolerância e irascibilidade do Funcionário Público para com amigos de infância e uma mulher. Mas estes servem também para ilustrar o que está na base de Raskolnikov. No fundo Dostoievski procura ilustrar o quão impossível é traçar regras que coloquem todas as pessoas no mesmo patamar, que uma vantagem para um é uma desvantagem para outro, e vice-versa, que somos profundamente diferentes, ao que se junta a questão de que o mundo não é simplesmente a preto e branco, somos seres conscientes, dotados de sentires e contradições internas, sendo capazes de colocar a moral de lado para assassinar alguém, assim como logo a seguir sentir todo o peso da moral dessa ação.

Várias leituras apontam o ataque ao determinismo, e por sua vez a criação do existencialismo por Dostoievski em “Memórias do Subterrâneo”. Pois vejo antes de tudo isso, uma capacidade para antever o ser humano na sua infinita complexidade e variabilidade, e uma recusa da simplificação desse humano, daí o surgimento de "Crime e Castigo". Para Tchernichevski bastariam pessoas formadas com acesso a boas condições de vida para se transformarem em novas pessoas, investidas em ações pelo bem. Dostoievski questiona o determinismo, mas não mecanicista e sim num sentido dogmático, em que alguém determina os parâmetros de regulação da ordem. No fundo, Dostoievski aponta exatamente para onde as ideias de Tchernichevski, seguidas muito depois por Lenine, acabariam por conduzir a Russia, a ditadura.


Nota: Os excertos do livro são da tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares para a L&PM, pela facilidade no acesso a cópia digital. A versão lida foi a de António Pescada para a RA.
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