quarta-feira, março 13, 2013

a Felicidade segundo o budista Matthieu Ricard

Matthieu Ricard tornou-se mundialmente conhecido depois de ter participado em vários testes com MRI (ressonância magnética) na Universidade de Wisconsin–Madison e se ter verificado que a sua serenidade ou capacidade para controlar as emoções estava completamente fora dos parâmetros normais. A partir daqui Ricard tornou-se conhecido como o "homem mais feliz do mundo". Isto é apenas um detalhe sobre a sua pessoa, saber mais sobre o seu passado, as suas origens e o que tem feito é muito mais impressionante e é isso que se pode descobrir no seu livro Happiness (2007).


Matthieu Ricard é hoje um monge budista e vive na zona dos Himalaias - entre a Índia, Nepal, Tibete e Butão - há mais de 40 anos. Ricard nasce num berço dedicado à arte e à filosofia, filho do reconhecido filósofo francês Jean-Francois Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o que lhe daria acesso às mais altas esferas intelectuais em França. Realiza toda uma primeira fase da sua vida dedicada à ciência terminando com um doutoramento em Genética Molecular no Instituto Pasteur em 1972. Terminado o doutoramento, larga tudo o que tem e que conseguiu fazer, e vai viver para o Nepal para se dedicar totalmente aos ensinamentos do budismo.


Claro que o facto de ter tantos contactos no ocidente, lhe permitiu ao longo de todos estes 40 anos realizar a ponte através de seminários, palestras e livros. Um dos mais interessantes livros que escreveu, foi feito a meias com o seu pai, The Monk and the Philosopher (1997). Um livro escrito a partir de uma dezena de conversas ocorridas entre ambos em Katmandu aquando duma visita do seu pai. No livro ambos discutem, e colocam em confronto as posições ocidente e oriente, a propósito da essência do ser humano. Outros livros foram escritos, entretanto mais testes foram realizados por alguns dos mais renomeados cientistas e autoridades no campo da psicologia cognitiva. E é aqui que chegamos ao cerne do livro.

Este livro fala-nos da Felicidade, mas não é um mero livro de auto-ajuda. Aqui procura-se entender o que é a felicidade, de que é feita, o que a constrói e o que a destrói. Para muitos este é um tópico banal sem interesse, e Ricard passa boa parte do livro a explicar a importância do tópico. Não vou detalhar aqui a importância, porque falei já disto no texto Acções para a Felicidade. Aliás como diz Ricard na sua TED,
"As a Frenchman, I must say that there are a lot of French intellectuals that think happiness is not at all interesting. I just wrote an essay on happiness, and there was a controversy. And someone wrote an article saying, "Don't impose on us the dirty work of happiness." "We don't care about being happy. We need to live with passion. We like the ups and downs of life. We like our suffering because it's so good when it ceases for a while."
Este texto demonstra muito claramente o entendimento que grande parte de nós tem sobre o que é a Felicidade, os altos e baixos, os momentos de sofrimento que depois de passarem conduzem ao que acreditamos serem os momentos de Felicidade. E o interessante é ver Ricard explicar, que esta ideia, está errada, porque não define felicidade, define apenas o prazer. Como explica Ricard, o prazer não é felicidade, no sentido em que este é limitado no tempo e se refere a um objeto ou lugar. O prazer consome-se. Eu adoro gelado, mas se tentar comer cinco Magnum de chocolate branco, o prazer irá transformar-se em nojo.

Neste sentido Ricard procura trabalhar a Felicidade como algo para além das meras sensações e emoções de prazer. Ricard aborda a felicidade como um estado interior de serenidade e preenchimento, um estado capaz de se ocupar de todas as emoções e sensações que possamos sentir, e nesse sentido capaz de controlar os nossos altos e baixos, mantendo-nos num estado de maior constância de bem-estar. Isto parece algo absurdo, porque na verdade a nossa interacção constante com o mundo impossibilita esta constância. Por outro lado o que Ricard defende, e essa é a essência deste seu livro, é que assim como podemos treinar 10 mil horas para ser um grande violinista, também podemos treinar para controlar as nossas emoções. Ao contrário do que acreditávamos há 20 anos atrás, o cérebro  não é uma matéria fixa e imutável, é antes maleável, podemos adaptar-nos e transformar as nossas capacidades. Na sua TED Ricard dá um óptimo exemplo desta busca interior, a propósito da visita do Dalai Lama a Portugal
"The Dalai Lama was once in Portugal, and there was a lot of construction going on everywhere. So one evening, he said, "Look, you are doing all these things, but isn't it nice, also, to build something within?" And he said, "Unless that -- even you get high-tech flat on the 100th floor of a super-modern and comfortable building, if you are deeply unhappy within, all you are going to look for is a window from which to jump." So now, at the opposite, we know a lot of people who, in very difficult circumstances, manage to keep serenity, inner strength, inner freedom, confidence."
Ao longo do livro Ricard ajuda-nos a construir uma nova ideia do Eu e do Meu, através do definição do Ego. Ajuda-nos a compreender que a essência do Ego como o construímos, está numa constante busca por conseguir tudo o que deseja a qualquer custo. A ideia do prazer, advém desta constante satisfação do nosso Ego. Nesse sentido deixamos de ser o Eu para estarmos constantemente centrados no Meu. Deixo dois belíssimos exemplos dados no livro, na página 84,
"A friend of mine had come to Nepal from Hong Kong to attend some teachings. Thousands of people had gathered and were jam-packed on the floor of our monastery's vast courtyard. As my friend was moving back and forth trying to seat herself a bit more comfortably, cross-legged on her cushion, someone punched her in the back. As she told me later: "I felt irritated for a whole hour. How could someone attending Buddhist teachings behave in such a rude and uncompassionate way toward me, who had come so far to receive these teachings! But after a while I realized that although my irritation had been long-lasting, the actual physical pain had faded quickly and had soon become imperceptible. The only thing that continued to hurt was my wounded ego! I had one minute of body pain and fifty-nine minutes of ego pain!" When we see the self as a mere concept and not as an autonomous entity that we must protect and satisfy at all costs, we react in completely different ways."
"Here is another example to illustrate our attachment to the idea of "mine." You are looking at a beautiful porcelain vase in a shopwindow when a clumsy salesman knocks it over. "What a shame! Such a lovely vase!" you sigh, and continue calmly on your way. On the other hand, if you had just bought that vase and had placed it proudly on the mantle, only to see it fall and smash to smithereens, you would cry out in horror, "My vase is broken!" and be deeply affected by the accident. The sole difference is the label "my" that you had stuck to the vase. This erroneous sense of a real and independent self is of course based on egocentricity, which persuades us that our own
fate is of greater value than that of others."
O que precisamos é de ser capazes de desligar do objecto externo, e olhar directamente para dentro, para o sentimento que nos acossa, para assim o controlar e evitar que este se auto-perpetue sobre a nossa consciência, contaminando todo o nosso ser e eliminado o bem-estar. E é a esta capacidade de auto-controlo cognitivo que Ricard refere como o aspecto que o treino pela meditação nos pode garantir. Ou seja,
"So the whole point of that is not, sort of, to make, like, a circus thing of showing exceptional beings who can jump, or whatever. It's more to say that mind training matters. That this is not just a luxury. This is not a supplementary vitamin for the soul. This is something that's going to determine the quality of every instant of our lives."
No fundo é um livro que nos dá a visão budista do mundo, dada a necessidade de estabelecer a ponte com o pensamento ocidental, fá-lo pela discussão da felicidade, um tema que se tornou bem visto na academia recentemente. Mas em certa medida é um livro mais de introdução ao budismo, do que de discussão sobre a ciência da felicidade. Para quem quiser mergulhar um pouco mais na discussão da Felicidade, pode ver os links no meu post anterior sobre o assunto, quem quiser avançar um pouco mais no budismo aconselho vivamente a leitura de O Livro Tibetano da Vida e da Morte (1992) de Sogyal Rinpoche. Entretanto se quiserem um acesso rápido ao conteúdo do livro, vejam a TED talk de Ricard de 2004, porque é um bom resumo do que podem encontrar no livro.

3 comentários:

  1. Cool stuff. Sou fã do Matthieu Ricard, desde que li justamente O Monge e o Filósofo, e nessa altura tudo o que ele dizia era-me incompreensível :)

    É irónico pensar que para se atingir a «felicidade» seja preciso um treino do caraças — lá está, as tais 10.000 horas, que é o que uma pessoa normal precisa para saber fazer as coisas mesmo bem (por isso é que as antigas licenciaturas de 5 ou 6 anos tinham justamente 10.000 horas de estudo). Mas a verdade é que não é culpa da «felicidade» — é apenas de termos passado muito mais do que essas 10.000 horas, mas sim décadas e décadas, a andar à procura de prazer, satisfação, e gratificação pessoal, porque nos venderam a ideia de que isso seria «felicidade». Agora precisamos de aprender a «desfazermo-nos» dessas ideias erradas, o que leva tempo: os maus hábitos já cá andam recalcados há muitos anos, e acabar com eles de um momento para o outro não é tarefa fácil...

    A propósito, lê-se muito por aí coisas do tipo, «não sou budista mas até concordo com alguns destes princípios e até os aplico na minha vida pessoal». Isso é bom! Não existe na realidade «budismo», isso é um nome inventado para designar aquilo que, de uma perspectiva ocidental dos meados do século XIX, tinha a forma exterior de uma religião exótica. No seu livro What Makes You Not a Buddhist, Dzongsar Jamyang Khyentse (que entre outras coisas é também realizador de cinema), explica bem isso. Quem coloca em prática as técnicas e métodos expostos pelo príncipe Siddharta há 2600 anos atrás é simplesmente rotulado de «praticante» (no sentido de: colocar o método em prática!), quer seja um monge de cabelo rapado nos cumes do Himalaya, ou um surfista a observar o pôr-do-sol numa praia da Nazaré (a imagem é do DJK, não minha :) ). Se fosse tão fácil conseguir obter a felicidade como rapar o cabelo, vestir trajes esquisitos, e murmurar «Om!» era porreiro! Seria tão fácil! Infelizmente não é assim. As boas notícias é que os métodos funcionam. As menos boas é que para se ter experiência nesses métodos são mesmo preciso as tais 10.000 horas — não há atalhos. Nem mesmo para aprendizes-de-Relvas que tentem obter equivalências para dizer que tiraram uma licenciatura :)

    Infelizmente, embora tenhamos a ideia de que para se ser um atleta de alta competição, ou para acabar uma licenciatura, seja preciso muito trabalho e muito esforço — mas sabendo que o resultado mais que compensa o esforço! — para encontrar a felicidade achamos que basta ler uns livros, assistir uns workshops, e ver uns vídeos encorajadores, e pronto. Está a felicidade garantida.

    Pois, mas nada no mundo real funciona assim.

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  2. "As boas notícias é que os métodos funcionam. As menos boas é que para se ter experiência nesses métodos são mesmo preciso as tais 10.000 horas — não há atalhos. "

    Sim o livro acaba por se resumir a isto mesmo. Depois são dados n exercícios para treinar, mas lá está não basta treinar uma meia-hora, é preciso mais do que isso. E uma coisa que é essencial e que nos custa muito, o desprendimento material.

    Obrigado pela dica do DJK vou dar uma vista de olhos.

    O que mais gosto nos vários livros sobre os ensinamentos budistas, é a sensação de calma que emana do texto, e passado um pouco de estares a ler parece que te libertas e escapas para um outro espaço onde tudo é tão mais simples e harmonioso. Senti isso com este livro, assim como sentia com o da Vida e da Morte que recomendo também vivamente. E verifiquei nas reviews na amazon e no goodreads que a grande parte das pessoas também refere essa sensação. O que só de si já nos diz algo sobre tudo isto.

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  3. Mais um post interessante, Nelson.

    Nos dias de hoje (e nos próximos...) este tema é muito pertinente. Temos forçosamente de aprender a ser felizes com o pouco que nos vai sobrar.
    Eu também tenho andado a ler umas coisas para estes lados - budismo, estoicismo, etc. Espero morrer menos estúpido do que nasci. Não é pedir muito, pois não?

    Mas digam lá: aquelas palavras do Dalai Lama sobre Portugal não foram extraordinariamente premonitórias? Aquele homem só pode ser um vidente!

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