segunda-feira, março 31, 2014

“The Congress” (2013)

Depois da animação autobiográfica, “Waltz with Bashir” (2008), Ari Folman resolveu adaptar o livro “The Futurological Congress” (1971) de Stanislaw Lem, atualizando o registo de Lem, mais assente sobre os encantos das drogas alucinógenas para os encantos contemporâneos com a realidade virtual. Assim Folman acaba por conceber, a partir do repescar e misturar de ideias, uma das histórias de FC mais interessantes dos últimos anos.




The Congress” trabalha a ideia do avanço das tecnologias de realidade virtual que se vão apoderando da paisagem mediática, começando por substituir atores de forma a facilitar e acelerar a produção de conteúdos para serem experienciados no ecrã. Mais tarde o ecrã acaba por desaparecer, e esses conteúdos que continuam a ser criados, passam a ser experienciados através da inalação de moléculas que permitem às pessoas imaginar a realidade desse "filme", contando agora com interacção e participação.

Não sendo algo inteiramente novo, já tínhamos visto isto em “Dark City” (1998), uma espécie de evolução da ideia por detrás do “Brave New World” (1932) de Aldous Huxley, mas foi a primeira vez que vi a ligação directa com a produção de conteúdos para RV. E foi aí que se fez luz, foi aí que percebi que o futuro das narrativas interactivas, não passará pelos ambientes digitais do Holodeck, mas antes pela criação directa dos ambientes de interacção no cérebro das pessoas. A diferença em termos de produção serão enormes, já que produzir um Holodeck implicaria criar todos os átomos que atribuem fisicalidade à recriação, ao passo que uma droga alucinógena controlável, permite recriar no imaginário de cada um de nós todo e qualquer mundo sem necessidades físicas, apenas estimulando as ideias e o prazer. Não estou a dizer que esta abordagem está ali ao virar da esquina, mas acredito que é muito mais plausível, nomeadamente com todo o desenvolvimento das neurociências, das nanotecnologias e nanobots.


Relativamente ao filme e às suas ideias, existem imensas questões que são atiradas para o caldeirão filosófico do tema da ilusão da realidade, algo caro à Ficção Científica também, e que nos faz questionar sobre a essência daquilo que somos. A meio do desenrolar da evolução, acabamos por entrar pelo cerne da questão adentro, quando as pessoas passam a poder optar por continuar a viver na realidade, ou ficar para sempre no mundo da ilusão. A discussão nunca deixa de se relacionar com a arte cinematográfica, e isso está intimamente ligado ao modo como o próprio realizador concebe a ideia de cinema,
I think that we live in parallel universe, I hope it doesn’t sound too New Age-y, but no, I mean, we meet, we talk, but then our minds they go wherever they want to go. And I think a great movie, for me, the goal of filmmaking is to combine the conscious and subconscious and to make it into one. That once you go into the film, you just, you free your mind and for once, you go with what you see and you’re not complexed, you know? You’re not split anymore.
You’re in the journey. Your mind, it says, “OK, please, please give me rest, take me on that ride.” Your brain is completely disconnected from time, and the only time you see that exists is the time of the movie. This is it.
” [Fonte]
Folman realiza esta discussão de forma brilhante ao misturar a realidade filmada com a ilusão em animação 2d. E se o trabalho em imagem real é interessante, todo o universo animado é adorável, no sentido em que desenvolve toda uma estética muito colorida e florida, talvez em jeito de homenagem aos movimentos LSD, mas com um registo aqui muito mais harmonioso, diria mesmo até mais optimista. Aliás, ao contrário de “Dark City” aqui a ilusão não é apresentada como um efeito totalmente negativo, mas antes serve para potenciar os sonhos de cada um, dar total liberdade ao imaginário, por momentos a fazer lembrar o além de "What Dreams May Come" (1998). Mesmo a realidade que fica para trás, apesar de entrar num processo de decadência, já que as pessoas a vão abandonado, nunca é apresentada com o tom negro e distópico como é apresentada por exemplo em “The Matrix” (1999).
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