segunda-feira, outubro 28, 2013

singularidade e semelhança social

Before Midnight (2013) está longe de ser apenas uma sequela, menos ainda uma mera terceira parte. Para todos os que se encontram no limiar da idade do protagonista (40 anos), e viram os dois filmes anteriores também quando saíram no cinema, esta série é um universo quasi-real, que de tanto evoluir sincrónica e paralelamente connosco, passou a ser parte de nós próprios. Se já nos tínhamos identificado aquando do primeiro filme, a possibilidade de envelhecer com eles e voltar a descobrir os seus sentires, em intervalos de 9 anos, cola-nos inevitavelmente aos seus destinos. Não admira assim a "aclamação universal" da crítica, isto é um dos experimentos cinematográficos mais bem sucedidos na simulação do processo existencial.


Em síntese a trilogia Before… expressa ideias, externaliza sentires, emoções, dilemas, e dramas… Before… não tem um enredo, porque o enredo é a própria vida indefinida, nunca começada, nunca terminada, sem plano, nem previsões possíveis.


Quando em 1995 vi pela primeira vez Before Sunrise, lembro-me que andava a estudar na Universidade, vi o filme com alguns dos meus amigos mais próximos, e as nossas reações foram muito parecidas entre nós. Aquilo que ouvi ao longo dos 90 minutos marcou-me. As interrogações que aqueles dois personagens atiravam contra a tela, poderiam ter saído da minha própria boca. Eu sentira tudo aquilo de que eles ali discutiam, e as minhas conclusões sobre esses sentires eram estranhamente muito parecidas. É verdade que os nossos 20 anos são talvez os momentos mais marcados pelo existencialismo, e tanto aqueles personagens como nós, estávamos ali prontos a fazer render a dialéctica. 

Before… mereceria vários estudos em profundidade, são várias as perspectivas de análise aqui possíveis, desde as raízes filosóficas mais profundas, discutindo aquilo que nos torna humanos, até à discussão sobre a estética do próprio meio cinematográfico. Nesta última abordagem Before… atira uma pedra no charco daquilo que define a linguagem cinematográfica. Before… demonstra que o cinema pode ser tal como a literatura, a arte de contar, e não apenas de mostrar, sempre que o faça com um propósito capaz de captar a atenção dos seus espectadores. São três filmes, são quase 6 horas de cinema baseadas apenas em diálogo e monólogos. Os personagens aqui são exatamente aquilo que dizem, e não aquilo que fazem, porque nada fazem, para além de falar. 

Before… demonstra os problemas que temos sempre que no mundo das artes procuramos definir regras ou limites conceptuais. As artes não são ciências, como tal não são passíveis de se encerrar sob definições acordadas entre um qualquer grupo de eruditos. As perspectivas sobre os meios de expressão, desde os mais abstractos aos mais concretos, são obrigatoriamente múltiplas. Não existem formas corretas nem incorrectas, cada obra encerra em si mesmo, os seus limites e as suas regras. Os padrões ainda que existam, são sempre difusos, e não limitadores. Não é por acaso que uma das mais evidentes diferenças entre arte e ciência, é que a ciência não existe sem replicação, enquanto a arte não sobrevive à replicação.

Dos três filmes, o que menos gostei foi o segundo, provavelmente porque surgiu numa fase desencontrada. As discussões nesse segundo filme aquando da estreia no cinema, já tinham sido ultrapassadas pelos eventos da minha vida. Tive dificuldade em aceitar que aqueles que eu tinha acompanhado ainda se encontravam numa encruzilhada, incapazes de se decidir, um pouco em fase de negação da passagem à vida adulta. Mas passados 10 anos, voltamos a reencontrar-nos, Jesse e Celine vivem vidas que pouco se distinguem da minha, os seus dilemas são os meus, as suas dúvidas são as nossas.

Apesar de todo o meu discurso sobre a multiplicidade discursiva das artes, não deixa de me surpreender que a série Before… consiga apresentar um discurso tão familiar. A indicação imediata desta homegeneidade discursiva sobre o mundo, é que aquilo que é dito aqui, é o mesmo que eu sinto e penso, assim como é o que sentem críticos e muitas outras pessoas por esse mundo fora. Na arte passamos todo o tempo a lutar por um rasgo de originalidade, por evitar seguir as pisadas do que veio antes de nós, mas quando nos sentamos para analisar o que fizemos neste mundo, o que sentimos e porque sentimos, acabamos concluindo que não somos assim tão diferentes dos demais colegas e amigos que nos rodeiam. Isso é mau? Não, de todo, é antes a constatação de que somos seres sociais, partilhamos sentires e contagiamo-nos uns aos outros a todo o instante, gostamos da diferença, mas amamos a semelhança.
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