março 26, 2011

de Moai a Mark Rothko

Na passada terça-feira passei uma tarde de contemplação maravilhosa, repartida entre o The British Museum e o Tate Modern, genericamente apreciando a evolução da história da civilização no primeiro, e a criatividade e inventividade contemporâneas no segundo. O que me levou a cada um destes museus em concreto foi a vontade de apreciar duas obras específicas, que não defraudaram em nada todas as minhas expectativas. Falo aqui de "Hoa Hakananai'a" uma estátua trazida da Ilha da Páscoa para o British Museum, e da sala de Mark Rothko no Tate Modern.
Não me lembro da primeira vez que ouvi falar sobre a Ilha da Páscoa, tenho apenas a memória presente em mim como algo que sempre me perseguiu desde os tempos de criança. Muito provavelmente relacionado com todos os mitos criados em redor destas estátuas, mitos mágicos mas essencialmente sobre a sua ligação a formas de vida extra-terrestre. Algo que sabemos não fazer o menor sentido nos dias de hoje mas que mesmo assim sempre contribuíram para o desenvolvimento e adensamento de mistério na narrativa que envolve estas obras.

[Foto da Wikipedia]
A Ilha da Páscoa faz parte de um rol de itens e locais no nosso planeta que têm servido a nossa necessidade tão humana de misticismo, criado por narrativas que vivem de fortes incertezas e laivos de inexplicabilidade. Nesta categoria enquadram-se por exemplo as Pirâmides do Egipto, as Pirâmides Maias, as Cidades Perdidas (Atlantis, Angkor, Machu Picchu) entre outros.

Hoa Hakananai'a (1000 D.C) que quer dizer "Amigo Roubado ou Escondido",
apresentado no The British Museum

Apesar de todo o meu interesse pelos Moais sei que dificilmente algum dia os poderei visitar fisicamente dada a distância e os valores envolvidos numa viagem a esta ilha, mas o facto de poder apreciar uma dessas estátuas presencialmente criou em mim sensações de transcendência. Para além de tudo isso foi muito interessante descobrir que as estátuas contém traços e desenhos nas costas, algo que eu desconhecia até ver este Moai no British Museum. Se tiverem mais curiosidade sobre a ilha em si e alguma explicação sobre a razão de tanto mistéiro, recomendo a leitura de Collapse (2005) de Jared Diamond, ou então a visualização da sua TED de 2003.
No British Museum existe muito mais do que o Amigo Escondido, são tantas as obras que se podem ali encontrar, provenientes de quase todo o planeta que é possivel contar a história da humanidade apenas com recurso aos objectos existentes neste museu. E foi isto mesmo que Neil MacGregor diretor do museu fez no livro A History of the World in 100 Objects (2010).

Chegado ao Tate fui direto ao terceiro andar, à sala 3, aonde me deparei com uma sala sem janelas e com luminosidade bastante reduzida, como se pode ver na imagem abaixo. Sentado ali permaneci por uns bons dez minutos de frente para Black on Maroon (1958) o meu preferido das nove telas presentes na sala. As condições em que as obras são apresentadas ajudam bastante à criação do estado contemplativo necessário para apreciar plenamente o que temos na nossa frente.

Sala no Tate Modern, exclusivamente dedicada a Mark Rothko,
com 9 telas de 1958-59 apresentadas em penumbra

Existe aqui algo de mágico, os quadros parecem funcionar como portais para outras dimensões, ajudando à transcendência do nosso estado e das nossas sensações. Algo que nos interroga na racionalidade como é que traços tão simples podem ser detentores de tanta força.

Black on Maroon (1958), Mark Rothko (2667 x 3812 mm) [imagem do Tate]

Para ajudar a entrar no espírito de Rothko aconselho vivamente o visionamento da série documental Power of Art (2006) com 8 episódios, dos quais um deles é inteiramente dedicado a este artista.

março 25, 2011

Aveiro Lifecycle (2011)

A JumpCut Portugal produtora do filme José & Pilar (2010) acaba de colocar online uma curta mágica, realizada por Miguel Gonçalves Mendes, com fotografia de Daniel Neves e edição de Pedro Sousa.

É um trabalho produzido para a Câmara de Aveiro sobre a cidade e a bicicleta que nos mostra uma cidade de uma perspetiva universal, com traços rasgados de autenticidade humana. Em que a cidade não é apenas arquitetura, mas é antes parte e fruto das vivências e relações entre pessoas.
A fotografia é uma delícia, o ritmo da montagem segue a música que por sua vez se foca sobre os personagens e não sobre os décors. É um trabalho de excelência, não dou 10 em 10 porque a voz off final sai de tom e em minha opinião era completamente desnecessária.


Aveiro Lifecycle (2011) de Miguel Gonçalves Mendes

março 23, 2011

Elizabeth Taylor (1932-2011)

Hoje depois de um dia inteiro de trabalho, sem acesso a notícias ou net, e já no comboio para apanhar o avião e sair da sua cidade natal descubro que Elizabeth Taylor nos tinha deixado. Não foi surpresa, 79 anos não é propriamente uma idade que permita sonhar muito mais, mas não deixa de nos comover.
Chega ao fim a centelha da única verdadeira rival de Marilyn Monroe, que se fosse hoje viva teria 84 anos. Aliás Liz Taylor serve-nos de modelo sobre aquilo que poderia ter sido a vida de Marilyn Monroe, demonstrando que o glamour e a beleza se desvanece com os anos, e todo o poder magnético perde a força. Marilyn perdurará como eterna musa jovem, imutável na forma, ao passo que Elizabeth fica nas nossas memórias cinematográficas numa série de imagens que a acompanham desde a sua infância até quase ao final.

Retratos de Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe retirados por mim de duas obras de Andy Warhol - Silver Liz (1963) e Gold Marilyn Monroe (1962)

A sua memória perdurará muito graças àquilo que referia hoje o Evening Standard como sendo um hat-trick: "being a child star, a bombshell and a credible actress" [1]. No cinema perdurará o seu talento por gerações que a conhecerão em filmes como: Giant (1956), Cat on a hot Tin Roof (1958), Cleopatra (1963), e um dos melhores filmes que o cinema já produziu Who is Affraid of Virginia Wolf (1966) que lhe deu o seu segundo Oscar.

Lassie Come Home (1943)


Cat on a hot Tin Roof (1958)


BUtterfly (1960) - primeiro Oscar


Cleopatra (1963)


Who's Afraid of Virginia Woolf? (1966), segundo Oscar

março 21, 2011

A Educação em "Waiting for Superman" (2010)

Waiting for Superman (2010) é um documentário que fez correr muita tinta nos EUA ainda antes de ser lançado, um documentário que pretendia apresentar um raio X de todos os males do ensino público americano. Tinha a vantagem de vir com o selo de Davis Guggenheim, o realizador de outro importante documentário An Inconvenient Truth (2006). É importante para nós porque a realidade da escola pública americana, não está muito longe da escola pública europeia. Deste modo falarei aqui mais do conteúdo do documentário do que propriamente da obra fílmica como é meu hábito fazer.

Acaba por ser um documentário que assume um posicionamento ideológico à partida e com isso acaba por apresentar algum viés nas suas generalizações, aliás diga-se que um pouco em linha com o que fez em Inconvenient. Nomeadamente quando sustenta a sua tese final sobre a culpa de todos os males da educação formal residir nos sindicatos. Não sendo liberal, mas também não sendo conservador, nem defensor de ideologias de igualitarismo, não posso deixar de expressar que esta tese é demasiado frágil para sustentar todo um documentário que se quer reflexivo. Trata-se de um documentário que aborda um dos assuntos que mais preocupa à sociedade, nomeadamente a quem tem filhos em idade escolar. Toca em áreas tão ou mais sensíveis que o clima, porque o futuro dos nossos filhos depende em muito, talvez demasiado, da sorte que tiverem na escola e dos professores que lhes calharem ao longo da vida.

E é por isso que o que se pedia aqui era que o documentário fosse capaz de ir tão longe quanto possível e apresentasse as várias dimensões do problema, não se subjugando a nenhuma ideologia, ou poder vigente. Ao contrário do que podemos ver no belíssimo Inside Job (2010) em que as conclusões devem ser retiradas pelo espetadores, aqui a tese é estruturada, montada e dada a comer, mas sabe a pouco.

Tenho tido sempre muitas reservas em relação aos sindicatos corporativos como são os dos professores, dos médicos, advogados, etc. Porque na maior parte do tempo não estão a defender a sociedade, mas apenas e só a defender um grupo contra tudo o resto, e com o isso discordo cabalmente. Não gosto de ideias como "direitos adquiridos", ou como "todos somos iguais". Se o mundo muda, as pessoas mudam, então as leis e os direitos também têm de mudar. Se temos todos gostos diferentes e consequentemente empenhos diferentes, não podemos ser todos tabelados da mesma forma correndo o risco de que quem mais se empenhava, se empenhe menos para ficar ao nível dos outros.

Agora não podemos é olhar para a complexidade que é o ensino formal e dizer que este não funciona porque os sindicatos não permitem que funcione, dando como exemplo o facto de os sindicatos protegerem igualmente os bons e os maus. Claramente que isto tem custos para o ensino, mas não podem de maneira nenhuma ser apontados como a única, ou mesmo a maior causa dos problemas. Ensinar é uma arte, e nem todos seremos artistas, mas um assunto que diz respeito a um conjunto tão vasto de variáveis, que vão desde: o professor, ao diretor de turma, à escola, ao aluno, ao pai, à mãe, ao conjunto de alunos e conjunto de pais, à câmara municipal, e até mesmo aos empregadores da zona de localização da escola - não pode ser de repente compactado, simplificado e personificado na pessoa única de um professor. Dizer-se coisas como as ditas abaixo, não é apenas atirar areia para os olhos, é prestar-se à destruição do que se tem.
"I believe that that mindset has to be completely flipped on its head [professores], and unless you can show that you're bringing positive results for kids, then you cannot have the privilege of teaching in our schools and teaching our children." Michelle Rhee, Directora das Escolas Públicas do Distrito de Columbia, EUA
Digo atirar areia, porque numa primeira análise parece correto o que Rhee diz sobre os professores, quando comparados com alguém que trabalha numa fábrica, seja operário, engenheiro ou gestor. O problema coloca-se quando se colocam as variáveis a trabalhar em cima da mesa, e verificamos que aquilo que é pedido a um professor, não é de forma alguma passível de ser colocado na mesma balança daquilo que é pedido a um engenheiro de software por exemplo. Isto porque o objeto de trabalho do professor, que é o aluno, não é um standard, não tem regras fixas. Eu não programo a mente de um aluno com o recurso a uma linguagem formatada, posso tentar mas o grau de sucesso que obterei se seguir essa via padronizada, sem ter em conta as especificidades do ser humano que se encontra na minha frente, corre um grave risco de ser muito baixo.

As más escolas dos rankings são descritas no documentário como Fábricas de Desistentes

Perceber o que está em causa quando falamos de objetos de trabalho - um ser humano face a uma aplicação informática, ou uma máquina, ou um lote de terra - apesar de parecer evidente as diferenças, não é fácil compreende-las. Isto porque apesar das diferenças existentes temos direito a expectativas e quando compramos um computador novo ou um carro novo esperamos que ele funcione a 100%, que o computador não crash no dia seguinte ou que o carro não me deixe a pé na auto-estrada. Por isso é natural que um pai ou uma mãe quando coloca um filho numa escola tenha também as suas expectativas, e que essas passem por ver o seu filho tirar boas notas, e vê-lo progredir ao longo da escola. Isto quer dizer que à partida um professor deveria ser capaz de pegar num aluno e meter dentro da cabeça dele os conhecimentos necessários para ele chegar ao exame e tirar 20, os tais 100%. Mas todos sabem o quão diferente da realidade isto é, e quantas nuances existem no caminho de um aluno para ele atingir esses resultados.

Apesar de tudo isso algumas pessoas como Geoffrey Canada aparecem no filme a enaltecer modelos de escola capazes de resolver todos os problemas, umas espécies de balas mágicas. Mas a triste realidade é que as escolas especiais como a KIPP ou as Charter - as escolas que Malcolm Gladwell também refere como os modelos a seguir, nas quais os miúdos trabalham das 7 às 19h, trabalham ao Sábado, e as férias grandes de Verão não existem - não têm melhores resultados que os outros. Isso é demonstrado pelos estudos feitos entretanto e que se podem ver no gráfico abaixo.

Para podermos ter uma noção do quão escorregadio é o terreno da educação vejamos um pequeno filme que nos fala da normal evolução tecnológica que acontece no nosso dia-à-dia e pense-se sobre as implicações de tudo isso sobre os métodos que os nossos professores apreenderam durante anos na Universidade para ensinar os nossos filhos. Claramente que os seus métodos precisam de evoluir, e evoluem, mudaram muito, mas não chega, e o problema é até saber se mudar será melhor ou pior. Ou seja as interrogações e indefinições são muitas e de difícil resposta.


Pay Attention (2007) filme da Jordan School District

Para fechar este comentário ao filme Waiting for Superman, tenho de dizer que esta não é uma perspetiva crítica apenas minha, são várias as que se podem encontrar online a favor e contra, claro está. Opto por transcrever para aqui a crítica de Cornel West professor da Universidade de Princeton, reconhecido como um dos pensadores mais influentes da América, muito pelo seu espírito provocativo, como ele próprio refere no seu site. Alguém que ainda ontem e a respeito da crise no Japão e nos países do norte de África escrevia no seu Facebook - "What a wonderful time to be alive!".
"I have great love and respect for brother Geoffrey Canada. But I had a deep critique of the film, in which he was central. Waiting for Superman scapegoat’s teachers’ unions. Yet those countries with the best education systems in the world, like Finland, have over 90% of their teachers unionized, and their students take few, if any standardized tests.

In Finland there are 2 teachers in classrooms of 14. Teachers receive the salaries of many of our businesspeople. 15% of their college graduates teach in schools rather than make their way to Wall Street to be millionaires. They reflect a fundamentally different set of priorities in America. And if we don’t adapt to those priorities, we will cont to scapegoat, demonize & thereby undercut the morale of our teachers."

março 20, 2011

Arduino The Documentary (2010)

Arduino The Documentary (2010) trata sobre as origens e impactos de uma das peças de eletrónica mais importantes da última década no que toca à arte digital. As imensas facilidades de controlo dos ambientes eletrónicos e digitais proporcionadas por esta placa são responsáveis por uma cada vez maior fusão entre a ciência e a arte, entre a engenharia e o humanismo. Claramente que em grande medida esta fusão foi também proporcionada pelo custo muito baixo de aquisição, e em consequência disso tornou o Arduino quase omnipresente no mundo da instalação artística e digital.
O uso do Arduino conjuntamente com o Linux como sistema operativo, o Processing como linguagem de programação, e a RepRap uma impressora 3d construída através de planos disponíveis online, é capaz de providenciar todo um laboratório de arte digital a um custo baixíssimo. A única coisa verdadeiramente em falta aqui e que nenhum dinheiro pode comprar, são as células que formam a massa cinzenta dos criadores e autores.
Assim o mais importante de tudo, e à semelhança do que se passa com o mundo do cinema digital com projetos como os que venho falando aqui, para o desenvolvimento de projetos de arte digital como os que podemos ver no livro Digital Body (2010), está: na motivação; na vontade de criar, de fazer e desenvolver; num espírito criativo e experimentalista; tudo alicerçado por uma boa educação.
E sobre a educação falarei aqui em breve também. É um assunto complexo e controverso, mas o que sabemos é que sem ela é impossível atingir os níveis de autonomia necessários para realizar o tipo de projetos de que falamos, seja de cinema digital ou arte digital.
Seguindo os bons princípios de Creative Commons (CC) o documentário foi disponibilizado integral e gratuitamente online.


Arduino The Documentary (2010) de Rodrigo Calvo e Raul Alejos

março 19, 2011

Le Souffle Extraordinaire (2010)

Aqui está um uma excelente campanha publicitária da Renault relativamente aos seus novos modelos elétricos e o potencial impacto na sociedade. A campanha serve-se de um filme de animação 3d, criado pela Digital District e baseado numa ideia de Luc Besson.
Dans un Paris gris, un bourdon se repose aux abords d'une voiture électrique. Le véhicule démarre et ne laisse derrière lui qu'un doux chuchotement et un souffle extraordinaire lié à l'accélération. Ce courant d'air provoque l'envol de quelques feuilles mortes et embarque contre son gré le bourdon vers les toits parisiens où deux pigeons somnolent .
Les 2 oiseaux furieux d'être réveillés se lancent à la poursuite du bourdon, qui tel un pilote chevronné cherche à éviter à tous prix ces 2 adversaires et les nombreux obstacles de la ville. Cette course poursuite entre nos 3 héros crée un tourbillon de pétales de fleur, de feuilles... Un véritable ouragan de couleur se forme au fur et à mesure de leur passage.
La tornade s'amenuise et un Paris calme, comme nous ne l'avons jamais vu, plein de douceurs et de parfums agréables a désormais remplacé la grisaille de la capitale.




Le Souffle Extraordinaire (2010) de Edouard Salier


Mais detalhes sobre o modo como a campanha foi elaborada e distribuída em França podem ser vistos numa pequena peça do Groupe Bleu.

Modern Warfare: Frozen Crossing Alpha (2011)

Para fan video, Modern Warfare: Frozen Crossing Alpha (2011), ultrapassa tudo o que possamos ter visto até ao momento. A ideia não é nova, é uma técnica que ficou conhecida por carousel devido ao fabuloso anúncio Carousel (2009) da Philips. Contudo este é um daqueles casos em que a ideia só não basta, para levar um projeto destes até ao final, Niko Pueringer e Sam Gorski precisaram de muito know-how, muito planeamento, e muito trabalho.
O filme é uma homenagem à série de videojogos Call of Duty (2003), e faz parte de uma série de curtas, Modern Warfare: Frozen Crossing (2010) dirigidas por Niko Pueringer e Sam Gorski, a dupla por detrás da denominada Corridor Digital.




Modern Warfare: Frozen Crossing Alpha (2011) de Niko Pueringer e Sam Gorski


E aqui é mesmo imprescindível ver o making of.

"Making of "Modern Warfare: Frozen Crossing Alpha (2011)

Vale a pena ver mais alguns dos trabalhos da Corridor Digital no seu canal YouTube, dos quais aconselho vivamente, Minecraft: The Last Minecraft (2011).

março 18, 2011

Killzone: Extraction (2011)

Este últimos meses têm sido fantásticos em termos de vídeo Fan Art dedicada aos videojogos, alguns desses foram mencionados aqui: Trashmaster (2010), Beyond Black Mesa (2011) e Fallout: Nuka Break (2011).



Killzone: Extraction (2011) de Clinton Jones

Killzone: Extraction (2011) é um trabalho, e à semelhança dos acima mencionados, visualmente fascinante baseado na série de videojogos Killzone (2004). A primeira coisa que me chamou à atenção foi o guarda-roupa: desde os coletes à prova de bala, capacetes, relógios, lenços até às máscaras dos Helghast é impressionante a qualidade e o nível de detalhe colocado em todo o trabalho. Em segundo lugar os efeitos especiais não se limitam aqui ao uso de software, mas são utilizados verdadeiros efeitos de pirotecnia para criar um maior realismo nas explosões. Em terceiro lugar, a cinematografia que é irrepreensível, com uma correcção de cor muito detalhada e bem executada e o uso de um sistema de steadicam circular que assegura imagens da acção muito próximas e vividas.

O que menos gostei foi da montagem porque existem falhas de ritmo que se devem a problemas de edição. Bem sei que lidar com material explosivo deixa pouca margem para repetições, mas é uma questão de mais planeamento. Entretanto para se perceber em maior detalhe tudo o que está em jogo no desenvolvimento deste projecto veja-se o Behind the Scenes.



Killzone: Extraction - Behind the Scenes (2011) de Clinton Jones

Entretanto fui explorar um pouco mais sobre a equipa que desenvolveu este projecto e salta à vista o nome de Clinton Jones aka "pwnisher". E o interessante é que Killzone é fruto de uma série de outros trabalhos empreendidos por este autor e que podem ser vistos no seu canal YouTube. Destaco por exemplo - District 9 Short Film - Dissolution (2009) e Official S. T.A.L.K.E.R. Short Film (2010) - que são claramente de qualidade inferior, mas que mesmo assim valem a pena.



Cardboard Warfare (2010) de Clinton Jones

Um outro trabalho de Clinton Jones muito interessante e que pode ser visto no seu canal é Cardboard Warfare (2010), ainda inferior a Killzone, mas faz uso de um conceito muito interessante, que é o facto de todo o material bélico ser fabricado em cartão e daí o nome do filme. Para além disso o filme faz um uso extensivo de efeitos visuais criados com recurso a Cinema 4d e After Effects e para quem se interessa por isto, nomeadamente os meus alunos, o excelente making of abaixo mostra como muitos dos efeitos foram realizados.



Making of Cardboard Warfare (2010) de Clinton Jones

Não consegui encontrar muita informação sobre o autor destes trabalhos, para além de saber que é um jovem de Atlanta nos EUA (ver deviantART). Mas se chegaram até aqui já perceberam que Clinton Jones é alguém não só com muito talento mas também com uma capacidade empreendedora fenomenal. Falamos aqui de projectos sem financiamento, ou seja filmes feitos por fãs com recursos próprios. Filmes que à partida não estão pensados para gerar retorno económico directo. No entanto claramente que podem gerar retorno indirecto, uma vez que graças à web é hoje possível fazer chegar as obras a uma plateia imensa e assim tornar-se conhecido junto daqueles que podem ter interesse em contactar e até contratar para a realização de trabalhos na área. O filme Cardboard tem neste momento mais de 2 milhões de visualizações e o Killzone lançado há duas semanas conta com quase 1 milhão. Espero sinceramente que estes projectos possam servir de motivação a muitos dos que ainda andam à procura de algo em que investir o tempo livre que possuem, falo dos estudantes mas não só, de pessoal que está à procura de trabalho nestas áreas e para já se encontra parado.

março 16, 2011

Digital Body (2011) para iPad

Já aqui falei do João Martinho Moura em outros momentos - YMYI, Smuggi, Balleteatro. Para quem acompanha este blog ou os trabalhos do Mestrado em Tecnologia e Arte Digital da UM (MTAD) não é de todo uma novidade o seu trabalho no campo da arte digital. No entanto desde que o conheço que ando para lhe fazer uma entrevista aqui para o blog mas acabamos sempre por não arranjar tempo. Entretanto este ano tive o prazer de contar com o João como colega de docência no MTAD o que foi mais uma boa experiência partilhada.

Assim esta entrevista acontece motivada pelo lançamento do seu livro, Digital Body (2011), um livro desenhado exclusivamente para iPad que conta com cerca de 80 páginas com imagens e vídeos de exibições. Contém ainda três zonas interactivas que podem ser exploradas com o movimentar dos dedos no ecrã. É um livro através do qual podem ficar a conhecer o melhor do trabalho do João Martinho Moura dos últimos 5 anos.


1 - O que pensas da tua condição de conseguir produzir trabalhos de grande complexidade tecnológica e simultaneamente estética? Que formação formação formal fizeste e porquê?
Pertenço ao conjunto de alunos, que na fase de entrada para o ensino superior teve dúvidas entre as artes e as ciências. Optei pelas ciências, segui a área das ciências da computação e dos sistemas de informação, na Universidade do Minho. Este caminho cimentou os meus conhecimentos técnicos na área do software e da programação, principalmente na computação gráfica, à qual dediquei sempre parte do meu tempo de estudo e evolução. Esforcei-me bastante para atingir bons resultados, mas durante este meu primeiro ciclo de estudos, sentia sempre a necessidade de explorar as tecnologias mais relacionadas com a arte digital, como a arte generativa, a estética computacional, a algoritmia gráfica, sonora, enfim, tudo o que estivesse ligado à parte mais estética do digital.
Mais tarde, soube que iriam abrir vagas para o novo curso de Mestrado em Tecnologia e Arte Digital (MTAD), na Universidade do Minho. Esta seria certamente a hipótese tanto esperada de me poder aproximar mais da minha vocação nativa. Pertenci assim ao pioneiro grupo de alunos deste Mestrado, único e inovador em Portugal. Esta foi a minha grande oportunidade de evoluir, e acima de tudo, seguir os meus estudos na arte digital. É realmente um mundo maravilhoso, onde me sinto muito bem a trabalhar, e a investigar.
Sempre gostei de explorar ferramentas relacionadas com a criatividade, e este mestrado proporcionou-me a possibilidade de desenvolver as minhas próprias ferramentas, que mais tarde viria a usar em exibições que tenho vindo a fazer. A simples hipótese de termos os conhecimentos para criar, em vez de usar software já existente, abre a quem cria um leque infinito de possibilidades.


2 - Qual é a tua opinião sobre as oportunidades para trabalhar no campo da arte digital em Portugal? É sustentável viver disso apenas ou tem de funcionar como hobby?
É necessária muita persistência, e resistência. Esse é o principal desafio na área da arte digital, que é transdisciplinar pela sua natureza. É muito difícil, como em qualquer outra arte, superarmos os nossos erros e aprender com isso. Tive o privilégio de o meu trabalho ser bastante referido logo nas primeiras fases da sua apresentação. A publicação constante em conferências académicas na área, com toda a colaboração da comunidade de docentes do MTAD, foi também fundamental, para que a divulgação do trabalho acontecesse. As minhas exibições são sempre comissionadas pela instituição/organização que a recebe, e tem existido todo o suporte por parte das instituições que exibiram as minhas peças. Na área da arte digital dificilmente existe a venda directa de uma obra, como acontece por exemplo em outro tipo de obras de arte. Mas os museus e espaços estão cada vez mais receptivos a este tipo de obras. Estas obras atraem pessoas, pela sua natureza interactiva, imersiva, e sensorial.

3 - Quando comparado com os outros países aonde tens exposto o teu trabalho o que te parece que falta em Portugal ou aos portugueses?
Sempre fui muito bem recebido em Portugal e no estrangeiro. A abertura perante as organizações/instituições que receberam as minhas peças foi sempre total. Lamento é não ter tempo e disponibilidade para aceder a todos os convites que tenho recebido. Em Portugal existe uma crescente aceitação para este tipo de obras. A comunidade artística na área da arte digital em Portugal é também já relevante. É importante, a existência de blogs como o Virtual Illusion, que abordam muito estas temáticas. Acredito na crescente curadoria relativamente à arte digital em Portugal, por parte das Organizações, dos Museus, e o pelo próprio Ministério da Cultura.

4 - Que conselhos podes dar a quem queira trabalhar na área da arte digital e dos media interactivos em Portugal? Que apostas devem fazer, em termos de saberes, de tecnologias ou outros?
É necessário ser muito ponderado em relação a dois eixos essenciais: a arte e a ciência. Estes dois eixos deverão estar sempre muito bem equilibrados, de modo a que a mensagem do autor, da sua obra, sejam bem transmitida. Não podemos descorar um eixo em relação ao outro. Se dermos demasiada importância à tecnologia, o resultado final é efémero, passageiro. Se dermos demasiada importância ao conceito, descorando a sustentação tecnológica que lhe dará suporte, ficamos perdidos. O importante é mesmo errar. E quanto mais errarmos, mais assertivos seremos na próxima. Nesta área é sempre bom errar. Os erros só acontecem quando nos dedicamos. A tecnologia por si só cria muitas expectativas no autor que está a criar uma obra digital. Essas expectativas facilmente são defraudadas quando não assentes numa base crítica sólida. Após a fase de confronto com a tecnologia, e com as dificuldades associadas à programação de código, cujo domínio é essencial, começa a surgir o espaço para que a criatividade aconteça, de uma forma natural. Recomendo o ciclo de estudos no Mestrado em Tecnologia e Arte Digital, da Universidade do Minho, a todos os interessados no estudo e desenvolvimento de Arte Digital.
5 - Finalmente, parece-te que o iPad e outros tablets podem servir de plataforma e inspiração para que surjam mais produtos de entretenimento digital nacionais como os livros interactivos e os videojogos?
Sim, sem sombra alguma de dúvidas. O iPad não irá substituir os livros, mas poderá cobrir um conjunto de produtos, para as áreas do entretenimento ou educação, que tirem partido das suas potencialidades interactivas. É muito bom exemplo o caso do livro Alice and Andy in the Universe of Wonders - The Planet Earth (2010), da ScienceOffice, projecto no qual participei, liderando a equipa de programação e desenvolvimento da TECField. Este livro é uma magnífica obra, com uma história muito interessante de dois irmãos gémeos que exploram o planeta terra, e que contou com o contributo de bons profissionais nas áreas da narrativa, da música, da locução, e da ilustração. Um projecto português que está disponível em seis línguas, e com bastante sucesso fora de Portugal. A leitura de um livro como este possibilita a exploração de uma história que seria impossível no livro tradicional.

Entretanto fica a notícia de que Digital Body (2011) entrou directamente para o 1º lugar da secção New & Noteworthy da App Store, e o livro Alice & Andy (2010) da Science Office, desenvolvido pela equipa da TECField, liderada pelo João Martinho, aparece também destacado pela Apple na secção What's Hot.