domingo, julho 15, 2018

Humor com poder transformador

Acabo de ver uma hora inteira de stand-up com um único performer, e tenho de dizer que foi uma das experiências mais intensas que experienciei nas últimas semanas. Hannah Gadsby encheu a famosa Sydney Opera House para uma atuação de 60 minutos. Fala de arte, criatividade, género, política, fala de técnicas do storytelling, fala sobre o vitimismo e o poder, fala sobre pedofilia e reputação, fala sobre a raiva e o riso. É uma performance como nenhuma outra, por isso não admira o enorme buzz que está a gerar nas redes e nos jornais internacionais de referência. "Hannah Gadsby: Nanette" (2018) é uma experiência transformadora que recomendo absolutamente que vejam, homens, mulheres, heteros, homos e trans.

"Hannah Gadsby: Nanette" (2018), Netflix

Gadsby não conta apenas piadas, traz para o palco a sua vida, os seus dramas, a sua raiva e tensão. Como diz Gadsby, um performer não pode apenas dizer mal de si próprio, porque para contar uma história é preciso algo mais, é preciso uma conclusão, uma chegada, uma lição. E ao longo desta hora, que vivemos de forma tão intensa apenas a partir das palavras, histórias e vida desta artista, somos conduzidos pela mão, através de todo o arco dramático. E Gadsby é brilhante, porque nos conduz e controla a tensão de forma altamente precisa, e quando menos damos por isso, estamos ali presos pelo pescoço, de boca aberta, sem crer no que estamos a ouvir e a sentir.


Não sou grande seguidor de stand-up, vi alguns espetáculos, nada de grandes estrelas, mas acredito no que dizem alguns dos críticos e comediantes por esse mundo fora, temos aqui algo muito diferente, competente, poderoso, e acima de tudo transformador. A comédia não deve, nem pode servir apenas para passar o tempo, para entreter a mente, a comédia pode ser muito mais, se se decidir a contar a histórias. Esta é a conclusão da Hannah, e tendo em conta todo o meu trabalho com narrativa nas últimas duas décadas, não poderia estar mais de acordo com ela.


Quanto aos que se sentirem incomodados, ou atacados pelo espetáculo, peço que interiorizem, empatizem, compreendam o mundo a partir da perspectiva do outro, e perceberão que não há lugar para tal. Que há lugar sim, para mudar, todos. Porque é mais do que tempo de mudarmos.
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