quarta-feira, junho 13, 2018

Análise do vídeo "US-NK Singapore Summit"

Como é que surge um trailer de cinema de Hollywood sobre os dois líderes — Kim e Trump —, no meio de uma cimeira política? O que é que diz esse trailer, sobre os seus criadores e destinatários? E no final, qual o seu significado? A ideia de usar o formato de trailer cinematográfico para sintetizar ideas é excelente por várias razões: primeiro, porque usa todo o poder do contar de histórias (storytelling) para passar uma mensagem (aliás atente-se no título do trailer — "A Story of Opportunity"), nomeadamente imagens universais que facilitam a comunicação entre povos de culturas e línguas distintas. Segundo, porque consegue em poucos minutos sintetizar o objeto do que se pretende e tornar claro com que se conta. E por fim, talvez o atributo mais poderoso, porque vai ao âmago da emoção e sentimento, tornando-se poderosamente persuasivo, preparando o terreno para o que se deve seguir, no caso negociações políticas.



Sobre quem o cria, independente do seu conteúdo, demonstra desde logo uma clara boa-vontade e abertura negocial, para o que der e vier. Sobre quem recebe, e partindo do princípio que o trailer foi construindo tendo em mente o público-alvo, ou seja Kim, dá conta de alguém que vive num mundo de fantasia, que tendo um povo a morrer à fome, vive no seu reduto principesco, rodeado de ilusões prazeirosas, como o cinema de um país distante que comunica cultura sem qualquer relação com o povo ou país que governa. Visto assim, a estratégia parece perfeita. Podemos dizer que Trump habilmente soube construir a armadilha para apanhar o seu adversário. Mas será mesmo assim? Precisamos de desconstruir o filme, na sua forma e texto, ligando o mesmo ao contexto dos dois intervenientes, para chegar ao seu significado.

Assim temos 4 minutos de filme, realizados seguindo uma estética marcada pelo tom do cinema de ação de Hollywood do final dos anos 1980, início de 1990. Temos desde a imagem alaranjada, quase a roçar o vídeo gasto, à música épica, a que se adiciona o hábito que existia de contar a história de modo didático no próprio trailer, e depois tudo muito bem reforçado com o uso de uma sequência em que Silvester Stallone, ícone desse cinema, visita Trump já presidente. Ou seja, na forma, e tendo em conta o ideário do recetor, temos todo o sentimento propício a puxar pela nostalgia do recetor, e desse modo a fragilizá-lo emocionalmente, tornando-o mais aberto, mais suscetível à influência externa. Podemos quase dizer que o trailer funciona como um domador de ímpetos emocionais, por via do adocicar da realidade através do alimentar de fantasias do interlocutor.


Olhando depois ao texto, temos um conjunto de construções históricas da humanidade — Pirâmides do Egipto, Coliseu de Roma, Taj Mahal, Muralha da China —, criadas ao longo de milénios, misturadas com imagens dos dois e únicos líderes — Kim e Trump —, com uma perspectiva para um futuro imobiliário grandioso e por analogia também ele histórico e desse modo inesquecível. Ou seja, a fantasia da plástica é elevada pelo texto, já que coloca os intervenientes no patamar mais alto da relevância de todo o planeta, equiparando-os aos feitos de milhões de seres-humanos anteriores, não se limitando à metáfora mas afirmando-o, pela voz do narrador: "Seven billion people inhabit planet Earth. Of those alive today, only a small number will leave a lasting impact." ao que se segue "History is always evolving, and there comes a time when only a few are called upon to make a difference."

"US-NK Singapore Summit" (2018), vídeo criado pela comitiva americana para a Cimeira entre EUA e Coreia do Norte, decorrida a 12.6.2018

O texto segue contando a história da oportunidade que um dos homens dá ao outro, mas para dramatizar, apenas uma oportunidade é dada, ao mesmo tempo que se confronta a pobreza do país atual com o brilho do futuro, caso o segundo homem aceite juntar-se ao primeiro, e assim poderem tornar-se ambos, donos do mundo. Ou seja, segue-se aqui um pouco a narrativa dos irmãos (muito comum no cinema de ação dos anos 1980/90), no caso, os de sangue separados a nascença que se reencontram, e um deles terá de  deixar para trás a família adotiva para seguir caminho com o outro, se quiser continuar a ser seu amigo. Mas diga-se que aqui a concessão é bem maior, já que não existe propriamente nenhuma exigência de alteração de rumo na vida da pessoa, apenas se pede o abandono de uma das suas atividades (produção de armamento nuclear), podendo ele manter todas as regalias que tinha, e ganhar ainda com isso.


Numa entrevista dada imediatamente a seguir ao final da Cimeira, Trump explicava como tinha abordado Kim, tendo-lhe dito: "You know, instead of doing that, you could have the best hotels in the world right there. Think of it from a real-estate perspective.”

Espremido, Trump diz a Kim neste trailer: larga as armas e eu te ajudarei a erguer um império como nunca antes sonhaste, contribuirei para manteres o teu povo agrilhoado, ganharemos os dois muito dinheiro por meio da especulação e prosperidade imobiliária das tuas estâncias de turismo, e o teu povo te respeitará como a nenhum outro líder, marcando o teu lugar imortal, não apenas na história do teu país, mas na de todo o planeta, ao meu lado e para todo o sempre. Não admira que os jornalistas presentes na cimeira tivessem pensado que o vídeo tinha sido produzido pela propaganda da Coreia do Norte.
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