sábado, novembro 27, 2010

Videojogos... vício, habituação e depêndencia...

Acaba de ser publicado no Pediatrics o artigo Video-Gaming Among High School Students: Health Correlates, Gender Differences, and Problematic Gaming da autoria de Rani A. Desai, Suchitra Krishnan-Sarin, Dana Cavallo e Marc N. Potenza do Departamento de Psicologia da Universidade de Yale. Um estudo que vem colocar a nu o vazio das acusações de vício e dependência que os videojogos alegadamente criam sobre as camadas mais jovens.

Existe uma crença popular e prevalente sobre uma hipotética dependência e vicio criados pelos videojogos. Já perdi a conta ao numero de vezes que me entrevistaram ou tentaram entrevistar sobre o assunto. Digo tentaram porque dado a falta de nexo da crença por vezes recuso-me falar sobre isso. Entretanto e como não é todos os dias que os nossos colegas do campo da Psicologia nos trazem estudos de suporte resolvi trazer aqui o estudo e falar sobre o assunto.

Os videojogos tal como se pode confirmar por este estudo não possuem qualquer componente capaz de gerar habituação psíquica ou fisiológica na generalidade das pessoas (95% da amostra deste estudo).


Assim à semelhança de qualquer outra actividade cultural ou desportiva posso gostar tanto de jogar videojogos, como de ver cinema, ler romances, ou mesmo jogar futebol, basquetebol ou andar de bicicleta. Então porque raio é que os videojogos têm de ser vistos popularmente como uma “coisa má”, uma droga com efeitos perversos de vício e as actividades que referi acima não têm?
A resposta é bastante simples e está enraizada na nossa cultura e remonta ao jogo em si que diferentemente do brincar implica um acto competitivo e que por consequência oferece recompensas no campo da realização pessoal bastante elevadas. Ou seja, o acto de jogar implica a mobilização de todo um quadro motivacional que vai operar sobre um conjunto de regras e obstáculos erigidos por forma a dificultar a tarefa. A ultrapassagem dos obstáculos realizada através de um trabalho aprofundado no conhecimento e domínio das regras permite que o sujeito se posicione face aos outros sujeitos podendo numa determinada actividade/jogo ser “melhor”, ou mais eficaz, que os restantes. E é isto que vai alimentar a noção de realização pessoal que por sua vez incrementa a auto-estima e que justifica o declínio dos estados depressivos na raparigas que jogam, evidenciado neste estudo.
O problema disto, é que estamos a gerar bem estar nas pessoas através de actividades desprovidas de valor aparente para a comunidade. Ou seja o acto de jogar é por norma não produtivo, está situado num circulo mágico (Huizinga), fora da realidade. Deste modo, facilmente qualquer detractor do jogo dirá que o perigo está à espreita, que as pessoas preferirão jogar a trabalhar, dado as possibilidades de realização pessoal embebidas na actividade. E que isso induzirá a uma sociedade alienada e hedónica.


E este rancor ou barulho de fundo contra o acto de jogar aumenta com a introdução dos jogos de tabuleiro e videojogos, ou melhor, eu diria contra os jogos intelectuais ou sentados. Porque ao contrário das actividades desportivas, ou seja que possuem como motor central de jogo um esforço físico, estas actividades possuem como motor o esforço cognitivo. Ora o esforço cognitivo por não ser visível foi desde sempre considerado como um não trabalho. Ora se não é trabalho, não exige esforço, se não exige esforço pode realizar-se infinitamente, então as pessoas poderiam passar toda uma vida apenas a jogar.

No fundo quem vemos por detrás deste detractor, nada mais que a eterna visão cristã de um mundo oprimido [1]. O ideal de um mundo no qual o sujeito não passa de um peão insignificante à mercê de um destino desenhado por um suposto Deus. Neste cenário qualquer acto de regozijo pessoal é por norma encarado como uma prova da autodeterminação, como um fuga ao controlo de uma entidade suprema, que só ela pode decidir como e quando pode e deve regozijar-se o sujeito. Com isto facilmente se etiquetou desde cedo o acto de jogar como um acto pecaminoso, assim como a ficção dada ao humor e comédia foi metida no mesmo saco.


Deixo a discussão à volta da diferença de género que também é relevante neste artigo para outro texto.
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