quinta-feira, março 27, 2014

“To Save Everything, Click Here: The Folly of Technological Solutionism” (2013)

Neste seu segundo livro Evgeny Morozov fala-nos do solucionismo tecnológico. Ainda sem ter completado 30 anos e nascido na Bielorússia, Morozov é detentor de um curto mas já bastante impressionante currículo na área dos Estudos da Internet. Além do primeiro livro “The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom” (2011), que tal como este foi muito bem recebido, Morozov já escreveu para quase todos os grande jornais de referência mundial, The New York Times, The Wall Street Journal, Financial Times, The Economist, The Guardian, The New Yorker, The New Republic, etc. Em termos académicos esteve na Stanford University, na Georgetown University e está agora fazer o seu doutoramento em Harvard. Em 2009 foi nomeado TED Fellow.


Morozov assenta a sua motivação num cepticismo quanto aos impactos positivos da internet nomeadamente no campo da democratização do poder. No seu primeiro livro procurou demonstrar porque razão devemos estar atentos ao lado negro da liberdade da internet (e.g: vigilância, destruição de privacidade, repressão política, propaganda extremista), alertando dois anos antes para aquilo que se tornaria uma preocupação de todos com as revelações de Snowden sobre a NSA. Neste segundo livro vai bastante mais longe, e trabalha uma abordagem que se estende às tecnologias em geral e ao posicionamento de Silicon Valley, abordando não apenas a atitude das pessoas em geral, mas apontando o dedo, e atacando sem rodeios, alguns evangelistas das tecnologias, como Jeff Jarvis, Clay Shirky, Kevin Kelly, Steven Johnson ou Jane McGonical.

Uma das coisas que mais impressiona na leitura de “To Save Everything…” é o lastro de bibliografia lida, digerida e discutida, que vai desde a política económica, à educação passando pela filosofia, tudo isto entremeado com muita tecnologia. Sendo um campo tão vasto e multidisciplinar é muito pouco comum ver alguém capaz de apresentar um lastro tão diverso, vasto, e discutido com tanta profundidade. Isto contribui para a enorme riqueza do trabalho apresentado, e para uma sustentação imensamente sólida das teses apresentadas. Por outro lado torna o livro um bocado denso, mais próximo de um tom académico do que livro de divulgação, o que acaba sendo inevitável dado aquilo que está em jogo.

O cerne da tese que Morozov apresenta ao longo deste segundo livro, defende que no momento atual nos encontramos à mercê de uma ideologia assente no "solucionismo". Morozov refere-se assim a um tipo de abordagem ao mundo que assenta numa constante procura de problemas e de soluções para os mesmos. No fundo estamos a falar da abordagem realizada pelas Engenharias e pelo Design, algo com que eu próprio trabalho no dia à dia na minha investigação. Aquilo que fazemos todos os dias no campo da investigação em tecnologia, é perceber que problemas são mais prementes e requerem soluções novas, acabamos chamando a isto também inovação. Deste modo reconheço facilmente muito do que é aqui dito, mas por estranho que pareça tendo a concordar com Morozov. Porque este não vê o contributo do solucionismo para a inovação de modo linear, ele analisa em detalhe como isso se processa, e acaba levantando vários problemas desta abordagem ao mundo. Desde logo com a citação de Gilles Paquet,
“‘Solutionism’ [interprets] issues as puzzles to which there is a solution, rather than problems to which there may be a response.”
É isto que preocupa, que deixemos de pensar os problemas em si, para apenas nos preocuparmos com as soluções. Uma questão filosófica que ainda há pouco tempo aqui trouxe através de um trabalho de banda desenhada, "A Day at the Park" (2013), em que Kostas Kiriakis discute a importância das Perguntas versus Respostas. Neste sentido Morozov ataca forte dizendo que o solucionismo acaba funcionando “como um martelo, para o qual tudo é um prego”. E isto leva-nos a uma das constatações mais perspicazes e relevantes do livro,
what many solutionists presume to be “problems” in need of solving are not “problems at all; a deeper investigation into the very nature of these “problems” would reveal that the inefficiency, ambiguity, and opacity—whether in politics or everyday life—that the newly empowered geeks and solutionists are rallying against are not in any sense problematic. Quite the opposite: these vices are often virtues in disguise. That, thanks to innovative technologies, the modern-day solutionist has an easy way to eliminate them does not make them any less virtuous.
Ou seja, aplicando esta abordagem da engenharia/design a todas as outras áreas, como a Educação, a Justiça, Política ou os Serviços Sociais pode parecer à primeira vista muito atractivo no sentido de permitir chegar a soluções para problemas complexos, que muitas vezes são até difíceis de enunciar enquanto problemas, dadas as complexidades do ser humano e seus aspectos sociais. Isto não é algo propriamente novo, Morozov refere vários académicos e trabalhos do passado que referiram este mesmo problema, ainda que não o tenham propriamente identificado como uma tendência ou efeito do progresso. Aliás isto configura uma discussão bastante atual sobre o lugar das humanidades na academia que parece cada vez mais apenas preocupada com as tecnologias e a engenharia, e que se resume nesta frase de Morozov,
“[solutionists] have a very poor grasp not just of human nature but also of the complex practices that this nature begets and thrives on. It’s as if the solutionists have never lived a life of their own but learned everything they know from books—and those books weren’t novels but manuals for refrigerators, vacuum cleaners, and washing machines.”
Ainda recentemente aqui trouxe Damásio que falava disto mesmo, no que toca às Neurociências e à necessidade de perspectivar o humano como algo mais do que um conjunto de processos. O Don Norman fala disto também na sua última revisão do livro "The Design of Everyday Thing, Revised and Expanded Editions" (2013) a propósito do modo como os engenheiros abordam o design de interacção e de experiência, colocando normalmente as culpas nas pessoas por não quererem aprender a lidar com os sistemas por si criados. E o Dan Ariely fala disto em "Predictably Irrational" (2008) a propósito do modo como os economistas abordam o mundo, como se os seres humanos fossem peças de um qualquer sistema lógico e racional.

"A Day at the Park" (2013) de Kostas Kiriakis

Ou seja, Morozov toca em algo real e com profundas influências em todos os domínios da sociedade. Muitos preferem atacá-lo e apelidar de reaccionário ou conservador, mas a realidade é aquilo que temos à nossa volta, em que cada vez mais somos dominados por sistemas tecnológicos, que não levam em conta as necessidades do ser humano, mas apenas e só as necessidades dos próprios sistemas. Todo este solucionismo tem uma génese concreta, a necessidade de inovação a qualquer custo, provocada por uma competição despoletada pela globalização, que acaba conduzindo a sociedade para um abandono das práticas reflexivas em virtude das solucionistas.

Partindo daqui Morozov vai apresentar uma imensidade de situações e casos da contemporaneidade que correspondem a esta descrição desde os MOOCs ao Big Data, passando pela obsessão pela Quantificação e Transparência, ou dos ideais de Free, Openness, Democracia Directa, ou Gatekeeping Algorítmico. Daqui emerge a tentação de tudo resolver pelo digital desde o crime à corrupção, poluição, avaliação de docentes e da ciência e até da obesidade, através da quantificação digital, do tracking e da gamificação. Algumas destas mesmas discussões tenho-as feito aqui em textos como "Comunicação e as falácias da Sociedade de Informação (Copyright, MOOC, Democracia Directa, Open Access, Rankings)" ou ainda a minha crítica ao livro de McGonigal, "Reality Is Broken: Why Games Make Us Better and How They Can Change the World" (2011)" ainda que Morozov seja bastante mais duro com McGonigal que eu.

Morozov aponta o dedo a Silicon Valley e as suas abordagens profundamente solutionistas, assim como a todos aqueles que professam a defesa do progresso tecnológico a qualquer custo, nomeadamente usando a desculpa da internet como o novo paradigma, a nova revolução. A tecnologia é sacrossanta, "a Internet" o seu deus, e a nós seres-humanos resta-nos aprender a viver com essa realidade, adaptar-nos ou morrer. Morozov fala de alguns dos impactos destes avanços tecnológicos, como a perda de privacidade, o abandono da ética e da moral  (self-tracking, lifelogging, nudges), o imperialismo dos números (quantification, gamification, digital preemption). Para Morozov existe uma causa aparente que sustenta toda esta viragem discursiva nas últimas décadas, e que não está apenas fundamentada na tecnologia ou inovação, vai mais fundo que isso em termos de produção de conhecimento, e tem que ver com aquilo que distingue uma abordagem científica de uma abordagem humanista,
“At great risk of oversimplifying things, we can say that one way to make design more self-conscious and more sensitive to critiques of solutionism is to replace its fetish for psychology (and, increasingly, neuroscience) with a fetish for philosophy—both moral and political… The triumph of psychology over philosophy is not limited to industrial design; policy designers and social engineers have succumbed to this trend as well—all in the name of science, for psychology and neuroscience are presumed to be more scientific than philosophy simply because they run experiments and tests. But the fact that matters of morality do not lend themselves to easy measurement does not mean we should disregard such concerns and recast them in neuroscientific and psychological terms.”
Contra a mim falo quando cito este excerto de Morozov, já que nos últimos anos tenho defendido sempre a abordagem psicológica, em detrimento da filosófica, no domínio do design de interação. É verdade que o faço no âmbito de um trabalho que procura inovar o produto, e nesse sentido recorro à psicologia para poder moldar o mesmo em função das necessidades do humano. Mas sempre vi esta abordagem como um caminho para colocar a tecnologia ao serviço do ser humano, nunca tive, nem tenho qualquer intenção de moldar o humano face à produto (ler mais sobre esta abordagem).

“Designers and social engineers don’t have to become unambitious bureaucrats scared of innovating, but perhaps they could practice innovation in a different key. The goal of their interventions - in both products and policies - should be not just to provide answers but also to make it easier to pose new questions.” Evgeny Morozov
Agora quando se aplica esta abordagem a outros domínios, nomeadamente quando se transfere estes modelos de produção de conhecimento tecnológico para sistemas em que os agentes de base são os seres humanos, aí corre-se o risco de se esquecer que o mundo é bem mais complexo do que um conjunto de parâmetros simplificados. Corre-se o risco de acreditar que se podem introduzir ou gerar mudanças sociais por meio de alguns cliques sobre uma tabela de excel. Sobre esse facilitismo, Morozov diz a certa altura algo que espelha bem todo essa abordagem do conhecimento,
“The world out there is a complex place, and those who want “easiness” can always gorge themselves on TED talks…”
Julgo que o maior problema de tudo aquilo que Morozov aponta ao longo do livro, assenta no problema de se ter deixado extravasar as abordagens aplicadas dos meios concretos da Engenharia e do Design para quase todas as outras áreas do conhecimento. São áreas de extrema relevância no momento atual, porque produzem impactos rápidos, o problema é que estamos a deixar-nos empurrar para a frente sem nos darmos conta sobre todos os reais impactos que tudo isto está a produzir na sociedade. Cada domínio de estudo, investigação e aplicação de conhecimento deve ser preservado no sentido de garantir a multiplicidade de que somos feitos. Tudo o que é reduzido e passado pelo mesmo filtro, cedo ou tarde acaba por nos trazer dissabores.

Isto leva-nos a uma outra questão que é amplamente discutida no livro, e que tem que ver com um dos resultados do solucionismo, que acaba por transbordar para uma espécie de fundamentalismo tecnológico. Ou seja, a assunção de que a tecnologia representa a inovação e o progresso, e que isso é sempre benéfico para o ser humano. Este fundamentalismo, sempre que é atacado por alguém, é rápido a reagir acusando os detractores da tecnologia de conservadores ou luditas, alheios à evolução e aversos à mudança. Para uma parte significativa, principalmente os promotores e investidores, não é a tecnologia que deve ser questionada, os seres humanos é que precisam de aprender a adaptar-se àquilo que a tecnologia lhes propõe.

Ora o que Morozov faz aqui é desmontar todo este discurso, defendendo que nada tem apenas uma solução, que a realidade é bem mais complexa, e que a reflexão sobre a mesma não deve ser vista como um impedimento do avanço, mas antes como uma preocupação com o aspecto central da equação, que é o ser humano. Uma das maiores discussões atuais em redor deste assunto diz respeito à não-regulação da internet, tendo por base a preservação da liberdade de expressão, mas acima de tudo da sua potenciação de inovação. Muitos defendem que as consequências desta não-regulação em áreas como os direitos de autor, a privacidade, o terrorismo, ou a pedofilia devem ser vistas como uma inevitabilidade do novo paradigma de comunicação que a tecnologia proporciona. Defendem que somos nós que temos de nos adaptar e aprender a lidar com a nova realidade tecnológica!

Isto é puro fundamentalismo, defende-se a tecnologia acima do ser humano. Defende-se que o acaso que produz determinadas tecnologias, e não outras, determine o modo como vivemos! Morozov usa e muito bem o exemplo do início do século passado em que a industrialização começou a produzir poluição sonora. Quem ousasse exigir regulamentação do ruído produzido pelas maquinarias, era visto como um inimigo do desenvolvimento e do progresso. O ruído era nessa altura visto como um sinal de progresso, de comunidades avançadas. Mas posso trazer aqui outros exemplos, o que dizer da produção de energia nuclear, o que dizer da clonagem reprodutiva de seres humanos, ou o que dizer das bombas nucleares, das bombas de fragmentação, etc. etc. Os avanços da tecnologia não podem de ser vistos de modo cego. Não ser fundamentalista, permite em cada caso tomar decisões em função daquilo que a sociedade decidir ser o melhor, independentemente do potencial de progresso que essa possa representar. Não ser fundamentalista, permite tomar decisões distintas que podem até ser do ponto vista da lógica argumentativa opostas, mas que podem fazer todo o sentido porque se apoiam na coerência das incoerências do ser humano, e não na mera coerência lógica da tecnologia.


Links a seguir...

Comunicação e as falácias da Sociedade de Informação (Copyright, MOOC, Democracia Directa, Open Access, Rankings), in Virtual Illusion
Damásio fala da Criatividade e do Social, in Virtual Illusion
"Reality Is Broken: Why Games Make Us Better and How They Can Change the World" (2011), in Virtual Illusion
Dicotomia em banda desenhada, in Virtual Illusion

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