segunda-feira, agosto 22, 2011

"What Technology Wants?" de Kevin Kelly

Kevin Kelly foi editor da Whole Earth Catalog, editor fundador da Whole Earth Review, ajudou a criar a primeira comunidade virtual The WELL, e depois disso fundou e editou a revista Wired durante os seus primeiros 7 anos. Kelly não é um académico, esteve apenas um ano na Universidade de Rhode Island e desistiu, mas isso não faz dele um pensador menor, antes pelo contrário. Aliás na sua casa nos EUA, sem TV, sem PDA ou smartphone, sem computador portátil, recebe todos os dias novos produtos tecnológicos de empresas de todo o mundo para que possam ser analisados e referidos por ele numa qualquer intervenção, ou no seu blog.


What Technology Wants é o seu segundo livro, o primeiro data de 1994, Out of Control: The New Biology of Machines, Social Systems, and the Economic World. Da minha leitura retive quatro pontos que me parecem valer a pena refletir mais em profundidade e levar para outras leituras e outras interjeições. Kelly é um pensador capaz de colocar em discussão várias perspetivas distintas da ciência, de interrogá-las e extrair delas novas análises, e novas conclusões. O seu livro não é um livro clássico no sentido académico da referenciação exaustiva, mas nem por isso se sente que os dados apresentados não estejam sustentados por estudos de referência, recentes e de reconhecida qualidade.


1 - O que é que a Tecnologia Quer?
Kelly diz-nos que a tecnologia é tudo aquilo que criamos, é todo um sistema cultural que que se pode definir como “technium”, ou seja, “uma ideia de um sistema de criação auto-suportada" (p.12). E é aqui que está o cerne do livro, no auto-suporte da tecnologia, que fundamenta a ideia do que a Tecnologia Quer ou Precisa. Nesse sentido Kelly diz-nos que a tecnologia quer aquilo para que a desenhámos, aquilo para o qual a direcionámos, mas para além disso tem desejos próprios.
A tecnologia quer hierarquizar-se, tal como os grandes e interligados sistemas. Quer o que qualquer sistema vivo quer: perpetuar-se a si própria, manter-se. E à medida que vai crescendo estes desejos internos vão ganhando força e complexidade. Ainda assim Kelly diz-nos que estes não são desejos conscientes, estes funcionam mais como uma compulsão para algo.
Este é um dos pontos mais controversos do livro, no sentido em que se debate contra uma perspectiva científica do acaso, apostando numa ideia criacionista, do “design inteligente”. Do meu lado não sinto que Kelly esteja apostado nessa batalha, apesar da referência a Deus aparecer no livro. Julgo que o que Kelly nos quer dizer é que a tecnologia se define como um sistema complexo, e que dessa complexidade resulta um conjunto de forças que empurram e sistematizam a evolução da mesma.


2 - O Impacto da linguagem
Kelly baseado em vários autores (Richard Klein, Ian Tattersall, William Calvin, Daniel Dennett) diz-nos que a primeira grande tecnologia inventada pelo ser humano foi a Linguagem.
“The creation of language was the first singularity for humans. It changed everything (..) A new idea can be spread quickly if someone can explain it and communicate it to others before they have to discover it themselves."
O impacto desta tecnologia sobre a espécie foi tremendo, no diagrama abaixo podemos ver a explosão populacional ocorrida há 50 mil anos quando a linguagem apareceu na nossa espécie.


Mas o poder da linguagem não se refletiu apenas sobre a comunicação entre pessoas, foi mais fundo do que isso, alterou o modo como vemos e como pensamos o mundo.
“Language is a trick that allows the mind to question itself; a magic mirror that reveals to the mind what the mind thinks (..) If our minds can't tell stories, we can't consciously create; we can only create by accident. Until we tame the mind with an organization tool capable of communicating to itself, we have stray thoughts without a narrative.”
Mark Pagel numa recente TED Talk, How Language Transformed Humanity, explica uma possível lógica para o aparecimento da linguagem entre nós, baseado na “aprendizagem social”, na chamada habilidade para aprender copiando o outro, imitando o outro, refere a necessidade de um modo estandardizado de troca de informação. Para mim parece-me algo simplista, ainda que possa ter algum reflexo de realidade. Mas na verdade acredito que a linguagem tenha aparecido mais como um reflexo da necessidade de comunicar sentires, do que de comunicar ideias materiais.
Finalmente Kelly diz-nos que sem tecnologia, duraríamos pouco mais de alguns meses.
“Technology has domesticated us. As fast as we remake our tools, we remake ourselves. We are coevolving with our technology, and so we have become deeply dependent on it. If all technology every last knife and spear were to be removed from this planet, our species would not last more than a few months. We are now symbiotic with technology.”

3 – O Poder da Ciência


Kelly vai referir que a Ciência foi o segundo grande momento da evolução tecnológica da nossa espécie. No mapa acima podemos ver como a evolução da população se manteve estável depois do aparecimento da linguagem, mas começou a subir em meados do século 17th, e explodiu por completo no século 18th com a Revolução Industrial.
“By systematically recording the evidence for beliefs and investigating the reasons why things worked and then carefully distributing proven innovations, science quickly became the greatest tool for making new things the world had ever seen. Science was in fact a superior method for a culture to learn. Once you invent science which allows you to quickly invent many things you have a grand lever that can propel you forward very quickly.”

Kelly questiona-se sobre a razão pela qual isto não aconteceu com os Gregos ou os Egípcios anos antes. A sua explicação é muito interessante, porque assenta na maturidade das sociedades, na capacidade destas verem o progresso no tempo, e não no imediato. Ou seja os custos de produção de ciência são muito elevados, requerem muita tentativa e erro, muito investimento até haver real retorno. Para isso é necessário que uns produzam, e outros investiguem. Mas sem meios que facilitem a produção, não nos podíamos dar a luxo de termos muitos a investigar.
“Science requires a certain density of leisured population willing to share and support failures to thrive. That leisure is generated by pre-science inventions such as the plow, grain mills, domesticated power animals, and other techniques that permit a steady surplus of food for large numbers of people. In other words, science needs prosperity and populations.

4 - Aumento ou Diminuição da População
A última questão que me interessa salientar do livro, se bem que existam muitas mais, é o facto de Kelly apontar constantemente a prosperidade, o bem-estar da nossa espécie em função do aumento da nossa população no planeta. Até agora tem sido, quantos mais somos, mais temos conseguido produzir, e mais elevada é a qualidade de vida em geral. Como vimos no ponto anterior, a necessidade de mais população foi uma condição para a germinação de ciência.
Aparte os problemas de sustentabilidade, os números mais recentes mostram que as sociedades mais desenvolvidas têm vindo a evoluir no sentido contrário. Ou seja no declínio populacional dos seus países, Europa, Japão e EUA. Na Europa nascem 1.3 filhos por casal, quando o mínimo para substituir a geração precedente é de 2.1. A questão de Kelly é saber até que ponto estamos ou não dependentes do aumento populacional para progredir, ou não.

“The question is, if rising prosperity hinges on rising population, what happens to deep technological progress if there are centuries of slow population decline?”

Em jeito de fechamento e deixando espaço para que leiam o livro e tirem as vossas conclusões, deixo um mapa de projeção da ONU para os próximos 300 anos. Existem três cenários, vamos ver o que nos espera.


Se precisarem de mais um incentivo para ler o livro, aqui fica a Ted Talk de Kevin Kelly de 2005, aonde ele já traça em linhas gerais aquilo que depois viria a ser este livro.



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