sábado, maio 19, 2007

Kutaragi, o media center, o blu-ray

O "pai da Playstation", Ken Kutaragi, reforma-se da sua posição de CEO da Sony Computer Entertainment Inc., e ficará a servir como "Honorary Chairman" da SCEI.

Mais uma vez as notícias pouco fundamentadas aparecem na imprensa portuguesa (Visão, etc.), dando a saida de Kutaragi da Sony como um efeito da fraca performance da Playstation 3. A verdade é que Kutaragi chegou a CEO da Sony Computer Entertainment sem vontade para tal. Kutaragi foi um criativo e o engenheiro visionário que revolucionou o mercado das consolas. Criador da marca Playstation, responsável pela superação de todos os recordes da indústria dos videojogos inclusive o encostar à box de vários players como a Sega e até em parte a Nintendo no final dos anos 90. Durante anos na guerra de consolas, pareciam existir apenas dois nomes, Sega e Nintendo, até que Kutaragi desenvolveu a marca Playstation. Um engenheiro, um criativo uma pessoa com grandes dotes para a criação de produto mas poucos dotes para as tarefas típicas de um cargo de responsabilidade executiva, nomeadamente toda a sua linha de gestão politica. Kutaragi disse a Newsweek em Novembro passado que o seu sonho era reformar-se aos 50 anos, acabou por o fazer 6 anos mais tarde.

Quanto às histórias que dão a PS3 como um falhanço ou a Wii como a consola vencedora, aconselha-se vivamente uma melhor análise dos números, nomeadamente na comparação dos valores das vendas tendo em conta por exemplo o facto que a PS3 custar 2.4 x Wii. Além de que a Wii foi desenhada para estar na mercado 2 a 3 anos a contrário da PS3 que está concebida para uma duração de 7 a 10 anos. Os factores são muitos, e não se pode apenas falar de valores brutos de venda. Esperemos também mais algum tempo para ver a verdadeira adesão ao conceito da Wii, que na verdade é extremamente apelativo numa primeira abordagem mas que rapidamente se desvanece, podendo manter alguma chama com jogos pontuais ligados aos desportos. Experimente-se jogar um jogo de acção/aventura com narrativa e controlar um personagem em terceira-pessoa que circula por um gigantesco mundo virtual, e facilmente se perceberá o quanto aquela interface é pouco adequada (aliás acreditamos que parte do insucesso de Zelda na Wii esteja relacionado com este facto apesar de Miyamoto não o referir abertamente, procurando outras desculpas, que em nosso entender são bem menos válidas). Quanto aos gráficos é natural que neste momento ainda mantenham alguma actualidade, mas em breve serão completamente relegados para um nível inaceitável pelas pessoas já habituadas a outros níveis de visualização e isso levará a Nintendo a um obrigatório upgrade da consola.

Relativamente ao conceito da PS3, que está completamente centrado no media center e menos no game only, por oposição à Wii, podemos dizer que se olharmos à nossa volta, esse conceito é uma necessidade. Não queremos as nossas salas invadidas de caixas plásticas e telecomandos. Queremos a convergência das caixas, assim como queremos a convergência dos media em si mesmos. A experiência fílmica, não se deve dissociar da experiência interactiva nem da experiência sonora e para isso nada melhor que uma black box capaz de dar respostas. O blu-ray foi um risco, mas temos poucas duvidas que contrariamente à guerra Beta x VHS, aqui a Sony levará a melhor, e isto não por o Blu-ray ser melhor tecnologicamente, o que até nem é (ao contrário do Beta que era bastante superior ao VHS) mas porque desta vez a Sony é dona de um dos maiores estúdios de cinema de Hollywood (Columbia Pictures). Assim sendo, facilmente se percebe como a Sony inundará o mercado com os seus filmes em formato Blu-ray.

Julgamos contudo que talvez o problema maior do Blu-ray seja o mesmo do HD-DVD, e que passa antes pela saturação do mercado digital a preços altamente competitivos. Num curto espaço de anos, aliás nunca antes visto na história das tecnologias, o DVD tornou-se no senhor do audiovisual. Ora se passados pouquissimos anos (o DVD surge em 1997 e massifica-se entre 2002-2004) de as pessoas aderirem a esta nova tecnologia lhe dizemos que já está obsoleta, as pessoas vão pensar o quê? Que a nova tecnologia, é muito boa e que é muito superior à anterior? Não. Provavelmente vão pensar que foram enganados, quando lhes disseram que o suporte DVD por ser óptico-digital iria superar a durabilidade das antigas VHS em muitos muitos anos.

Por um lado os entusiastas do formato, vão pensar que investiram milhares de euros em colecções de filmes num curtíssimo espaço de tempo, de tal modo que muitos nem tempo tiveram para ver alguns dos filmes comprados nesse formato, uma vez que se destinavam às suas colecções particulares e esperavam por um noite de folga para serem revistos em todo o esplendor da qualidade DVD. No entanto agora, esse desejo, evaporou-se, pois a revisão vai ter um sabor amargo, sabendo que a cópia que vê no seu ecrã de 42' é já de baixa qualidade face ao que existe no mercado.

Por outro lado, as pessoas não entusiastas, mas que acabaram por aderir tardiamente ao novo formato, porque o próprio mercado abandonou as VHS (e ainda bem), vê-se agora confrontado com um novo suporte digital, que lhes dizem ter muito mais qualidade, mas que eles na sua grande maioria não conseguem sequer percepcionar. Ou porque não tem televisões que o suportem, ou porque simplesmente a sua percepção audiovisual carece de literacia que normalmente só os especialistas ou os entusiastas normalmente possuem.

Apesar de tudo isto, a imprensa continuará a despejar sound bites sobre as tecnologias, nomeadamente a badalada alta-definição, tal como o faz com os números extraídos à pressa das tabelas de vendas das consolas, ou ainda pior quando dedicam notícias de primeira página de jornais de referência (ex: Diário de Noticias) a "factos" retirados de blogs não sujeitos à menor confirmação de fontes.
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