domingo, junho 02, 2019

História da Filosofia Ocidental (1945)

O melhor do livro é sem dúvida o derrube de vários mitos e ideias criadas no imaginário ocidental a propósito da extensa linha temporal de filósofos que liga Sócrates a Russell. Pode-se dizer que se aprende imenso, que no final da leitura se vê a produção de conhecimento, e os seus principais responsáveis, a uma luz totalmente distinta. Apesar de sabermos que temos de colocar algum travão nas impressões imediata, já que Russell não se coíbe nunca de ser crítico, mesmo quando está a falar de milhares de anos atrás, em contextos sociais completamente opostos àquele em que hoje vivemos. Leia-se com calma, sempre com o filtro crítico ativo, preparado para por vezes ter de dar a volta a cabeça tentando compreender o que Russell nos quer dizer, mas acima de tudo leia-se pelo prazer de viajar pela história das ideias.


Para se poder criar um bom crivo crítico desta leitura é preciso começar por compreender a bagagem de Russell, alguém que começou por estudar matemática e filosofia naquilo que mais une ambas as disciplinas, a lógica, a partir do que viria lançar a corrente de pensamento que ficou conhecida como: filosofia analítica. Como se depreenderá, este cenário faz de Russell um positivista, e é exatamente por isso que precisamos de ler todo o livro com algumas cautelas. O positivismo funciona a partir de propriedades imensamente relevantes no que toca à criação de conhecimento, assente numa base em que a argumentação lógica é o cerne, contudo padece de alguns problemas. Desde logo, os positivistas assumem que tudo tem de ter uma lógica, que tudo tem de ter uma causa, que o conhecimento se constrói à imagem de uma equação matemática que tudo pode explicar. Na verdade, existem domínios em que esta forma de inquirir faz sentido, contudo não é passível de se poder aplicar a toda a realidade, menos ainda quando entramos na órbita da definição do ser-humano.

Por isso, não é de estranhar que Russell ataque praticamente todos os filósofos que lista ao longo das várias centenas de páginas. Russell realiza a sua História como arguente de provas, estando sempre à procura nas teses dos outros de problemas e defeitos, falhando demasiadas vezes no enaltecimento dos seus feitos e contributos, agravando as acusações realizadas pelo olhar totalmente racional que usa. Ou seja, a sua filosofia analítica não comporta espaço para uma análise contextualizada pelo tempo em que as ideias foram produzidas, interessado apenas no como se comportam essas ideias quando passadas pelo filtro da lógica atual. Deste modo Russell começa logo por atacar fortemente Sócrates, seguido de Platão, e até mesmo Aristóteles que diz admirar, e a quem tece alguns dos maiores elogios, acaba bastante mal-tratado. Por vezes, é preciso dar alguma razão a Russell, a "República" de Platão é realmente um manifesto em defesa do autoritarismo, mas daí a dizer que Sócrates provavelmente nunca existiu e pode ter sido inventado por Platão... Noutro campo, e graças à sua veia crítica, é interessante ver como desmonta os mitos de Esparta, nomeadamente o seu criador Plutarco.

Repare-se também como Russell imbuído do seu espírito lógico descarta totalmente Seneca, numa única linha, simplesmente porque este foi imensamente rico, o que para Russell choca totalmente com os valores professados. Adianto que me deixei convencer alguns dias por esta abordagem, mas refletindo sobre alguns dos personagens mais ricos da nossa contemporaneidade como Warren Buffet ou Bill Gates, podemos ver como o facto de ser rico não é incompatível com os valores estóicos. O problema dos sistemas estritamente lógicos é que não admitem exceções. Do mesmo modo, ou talvez ainda mais agressivamente, Russell ignora completamente a Fenomenologia, apesar de no entanto nos apresentar nos dois últimos autores, toda a escola do Pragmatismo, ainda que essa sua apresentação sirva apenas para demonstrar o quão errada estava, para Russell.

Repare-se que aquilo que Russell apresenta e aquilo que ignora não é fruto de falta de espaço, Russell chega a dedicar um capítulo a Byron, um poeta. Por isso, na verdade aquilo que Russell faz é montar uma História que vá de encontro à sua mundovisão, e nesse sentido fá-lo com grande qualidade, já que não se limita a trabalhar ideias e conceitos, contextualiza, nalguns casos de modo muito profuso, com o sentir social e seus impactos políticos. Aliás, é por isso mesmo que cita Byron, pelo impacto que teve no desenvolvimento do romantismo que por sua vez viria a contaminar todo um século intelectual. Mas não deixo de considerar estranho que alguém profundamente ateu, e determinado na defesa do racional lógico, invista tanto tempo do livro à discussão da filosofia católica. Sobre este último ponto, tenho de dizer que é algo que sempre me tinha feito alguma confusão, o modo como a filosofia estava tão carregada de religião, de deuses ou forças universais que tudo explicavam. Russell interessantemente não embarca, antes expõe o problema como um dos maiores da filosofia: paradoxalmente os pensadores mais racionalistas eram quem mais acreditava numa entidade externa, já que ao definirem o universo como um sistema lógico, em que tudo tinha de obedecer a um conjunto de regras perfeitas, matematicamente puras, os tornava reféns de uma entidade superior, a única capaz de gizar tal molde. Seria apenas com Darwin, e a partir do seu evolucionismo que faria surgir a teoria do Big Bang, que os racionalistas se conseguiriam desprender dessa entidade.

O livro é extenso, mas considero que uma parte demasiada grande foi dedicada à pre-história da filosofia e aos seus intervalos, isto porque ao chegar à Filosofia Moderna, final da era medieval, renascentismo, iluminismo e atualidade, teria sido bom dedicar-lhe muito mais espaço. São muito, demasiado curtas, as discussões sobre Descartes, Spinoza, Hume, Kant, James e Dewey e ficaram de fora nomes que mereciam ter sido chamados à discussão, nomeadamente homens da ciência, que como o próprio Russell diz, passou a fazer parte da própria história da filosofia: Galileu, Newton, Einstein. Por outro lado, a História termina em 1945, o que deixa de fora muito do que se germinava nesses anos e viria a ganhar relevo, para além de toda a segunda metade do século XX. Ainda assim, o trabalho realizado por Russell é imensamente detalhado, mais ainda se tivermos em atenção que foi feito sem recurso à internet que hoje a tudo dá acesso imediatamente, e num tempo de segunda guerra mundial.

Deixo um testemunho do próprio Russell sobre os vieses que lhe apontam no livro, que deixou num apontamento na sua autobiografia:
"I regarded the early part of my History of Western Philosophy as a history of culture, but in the later parts, where science becomes important, it is more difficult to fit into this framework. I did my best, but I am not at all sure that I succeeded.

I was sometimes accused by reviewers of writing not a true history but a biased account of the events that I arbitrarily chose to write of. But to my mind, a man without a bias cannot write interesting history – if, indeed, such a man exists. I regard it as mere humbug to pretend to lack of bias. Moreoever, a book, like any other work, should be held together by its point of view. This is why a book made up of essays by various authors is apt to be less interesting as an entity than a book by one man. Since I do not admit that a person without bias exists, I think the best that can be done with a large-scale history is to admit one’s bias and for dissatisfied readers to look for other writers to express an opposite bias. Which bias is nearer to the truth must be left to posterity.”
 Russell, (1968), "Autobiography", p. 444


Nota: A leitura foi feita entre a edição audio em inglês da Audible e a edição em livro em português da Relógio d'Água. Muitas vezes me vi obrigado a parar o audio, para poder mais tarde retomar a leitura no papel e em maior sossego para confrontar e compreender as ideias.

Resenhas consultadas:
"A History of Western Philosophy reviewed" (1947) de Isaiah Berlin

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