domingo, outubro 22, 2017

Nada (2010)

É difícil atribuir significado ao nada, e é por isso que o próprio livro acaba batendo contra a parede, nomeadamente por tentar trabalhar a questão de um ponto de vista romanceado mas estritamente objetivo. Se temos milhares de páginas não-ficcionais escritas sobre o assunto, recorrendo a ferramentas epistemológicas que tanto nos atraem como repelem, pelo modo como simultaneamente nos abrem e fecham os olhos, não seria expectável esperar respostas num livro escrito para provocar a indagação nas camadas mais jovens.

Janne Teller, (2010), "Nada", Bertrand Editora, 2017

“Nada” apresenta uma escrita simples, indicada para um público juvenil, apresentado a partir da perspectiva dos protagonistas que se situam numa turma de 7º ano de uma escola tipo europeia. Ao longo do livro várias das ações apresentadas surgem de forma bastante questionável pela tenra idade dos participantes, ainda assim o livro mantém o véu de credibilidade controlado. Para ajudar, a história vai apresentando os elementos em crescendo de horror e espanto, o que nos mantém cada vez mais interessados e expectantes, sobre o que poderá acontecer a seguir.

A base do conflito surge pela luta entre o Nada e o significante, ou seja, entre a ausência de propósito para a vida e a definição desse propósito naquilo que em toda a nossa realidade nos é mais caro e imprescindível. Nesse sentido parece-me que Teller trabalha melhor o lado da ausência de propósito do que a do significante. Apesar de se colocar um aluno apenas em defesa do Nada e do outro lado toda uma turma contra, com visões próprias, diversas e distintas, a ideia central de que o significante está dentro de nós acaba por ser de certo modo abafada pela necessidade de exteriorizar materialmente essas visões, ou significantes. Compreendo que a autora tenha sentido a necessidade de dar corpo ao oposto do Nada, e compreendo ainda mais que o tenha feito pelo público que tinha em mente, que sendo tão jovem precisa de objetos concretos para fixar conceitos, mas acaba sendo daqui que emergem as suas maiores fragilidades.

O livro não foi proibido como se diz, aliás foi inicialmente financiado pelo Ministério da Cultura da Dinamarca e depois premiado pelo mesmo, mas é verdade que algumas escolas procuraram que este não fosse recomendado. Esta não é uma questão simples, porque se os questionamentos são mais do que bem-vindos, por muito assustadores que possam ser para a formação de valores de crianças, julgo que o mais perturbador não está nesses questionamentos, mas antes naquilo que aproxima este texto de “O Deus das Moscas” (1954). Ao longo da narrativa aquilo que acaba impactando de perto o leitor, não é a luta entre o Nada e o significante, mas a pressão social exercida dentro do grupo de alunos, a capacidade para impor e obrigar cada indivíduo a comportar-se segundo os interesses do grupo. Se a pressão de grupo reflete a orgânica humana, a nossa incapacidade para agir e pensar individualmente sem a confirmação dos demais, acaba por dizer pouco diretamente sobre o Nada. É evidente que a metaforização do indivíduo Pierre-Anthon como esse Nada, e o modo como o grupo acaba por o tratar, dá conta de algo fundamental em nós, uma inerente recusa desse Nada.

Provavelmente não seríamos capazes de construir um reduto de argumentos suficientemente forte para escapar ao Nada, daí que a natureza providencie algo mais inato, uma força interior, que estimula a motivação intrínseca para lhe escapar (e que ao longo da nossa História tem tendendo a externalizar-se em significantes de caráter religioso). Neste sentido, a depressão juvenil que esteve na base da premissa deste livro acaba por fazer ainda mais sentido ser respeitada, não pela incompreensão dos demais como a autora parece querer apontar, mas porque que dá conta de algo que interiormente se deteriora em quem a sente, e que impossibilita a ação pela criação de um colete de forças mental.

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