domingo, setembro 03, 2017

Teatro Vertical (2017)

O autor é mestre-contista, bastam-lhe poucas linhas para nos prender à leitura, para nos cativar e colocar num estado de querer saber o vai acontecer a seguir. A edição independente do livro vem com um excelente tratamento e o trabalho de ilustração oferece coerência ao todo que Vieira vai construindo, conto a conto.


São 12 contos com temas bem distintos — “O filho”, “A festa”, “A estátua”, …—, mas a escrita e estrutura oferecem-nos um padrão estético que dão conta do livro como um todo, uno e coerente. São contos curtos, rápidos, diretos e ao mesmo tempo minimais e enigmáticos. Em cada um, Vieira elege um foco que oferece na forma de título com o objetivo de iluminar o caminho do leitor à entrada. Esses títulos são depois suportados por personagens dotadas de enorme proximidade e naturalidade, muito fáceis de seguir ainda que nem sempre, ou nunca, saibamos para onde e porquê.

A beleza da arte de Vieira reside no modo como cose enredo e escrita num antagonismo formal. Se os enredos apresentados são matrizes complexas e obscuras, que se esforçam por nos impedir de aceder aos porquês, a escrita é todo o seu contrário, dando-nos a sorver os mundos e personagens, como se de realidades imensamente familiares tudo se tratasse.

Dos textos, junto às ilustrações de Sebastião Peixoto, emana algo que já conhecemos bem, um realismo mágico, em que o fantástico adentra a realidade sem pedir licença. A diferença de Vieira, face aos grandes mestres do género, é que o faz na forma de conto curto, o que o obriga a ser extremamente económico, ou seja rápido e eficaz, na criação de universos e dos personagens que os habitam. Neste sentido, interessa mais o processo, a viagem, do que a chegada, os fechos e os porquês.

Interessante como sendo eu algo avesso a contos, por razões genéricas como preferir leituras focadas no desenvolvimento de personagens e exploração de teias sociais, elementos dificilmente suportados por textos curtos, acabei gostando bastante deste “Teatro Vertical”. Lê-se muito bem e deixa uma marca atmosférica, como se tivéssemos visitado um outro planeta, quase igual, paralelo, mas ligeiramente distinto. Uma viagem pela imaginação do outro.
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