domingo, agosto 22, 2010

3-D, um desastre estético

Vi apenas dois filmes no, actualmente muito badalado pelo marketing da indústria cinematográfica, “modo 3-D”, que na realidade é o “modo estereoscópico” de sempre - Avatar (2010) e Toy Story 3 (2010). Para mim foi suficiente, para poder classificar esta “moda” de mero interesse económico e como um desastre estético na história da arte cinematográfica.

Apesar de nem sempre estar de acordo com Ebert como no caso dos videojogos, em relação ao 3-D estou inteiramente de acordo com o seu artigo para a Newsweek. O maior problema apontado por Ebert já tinha sido apontado por Coppola entre outros, o facto de isto não passar de um mero artifício de extorsão de uma “taxa 3D” e de funcionar como elemento "aparentemente inovador" contra a pirataria e o home-cinema.

Mas o que mais me preocupa não são estas artimanhas perpetradas por executivos dos cêntimos, mas sim os impactos que isso pode ter sobre a arte em si. Não sou claramente o único a dizê-lo um dos mais claros ataques ao 3-D veio agora da parte de Christopher Nolan,

"The truth is, I think it's a misnomer to call it 3-D versus 2-D. The whole point of cinematic imagery is it's three-dimensional. ... You know, 95% of our depth cues come from occlusion, resolution, color and so forth, so the idea of calling a 2-D movie a '2-D movie' is a little misleading."
Exactamente. Não é apenas o cinema, é a pintura, a fotografia toda a arte visual possui hoje conhecimento capaz de engendrar visualmente a ilusão da terceira dimensão, ou seja da profundidade, e essa técnica chama-se perspectiva e tem hoje mais de 500 anos de história. Veja-se os dois exemplos abaixo que representam a mesma cena A Última Ceia, o de Ugolino da Siena anterior à descoberta da perspectiva, e o de Da Vinci no momento em que esta começava a implantar-se na arte.

A Última Ceia de Ugolino de Siena, 1315

A Última Ceia de Leonardo Da Vinci, 1495

Um princípio matemático criado por artistas e padronizado por matemáticos que nos permite hoje “ver através”. A obra de Panofsky sobre o assunto é algo que muito destes senhores deviam ler para perceberem o que está em jogo quando falamos de tridimensionalidade visual.

Para uma melhor compreensão do fenómeno veja-se uma excelente explicação interactiva da webexhibits.org.

A questão que se coloca então de um ponto de vista estético é, o que é que este efeito 3-D adiciona ao Cinema? Pouco, ou até diria nada, porque subtrai mais (essencialmente distraindo o espectador) do que aquilo que verdadeiramente adiciona. A estereoscopia funciona perceptivamente como se estivéssemos perante dois planos distintos. O problema é que nessa planificação apenas os personagens e objectos podem recorrer do efeito, o Espaço, esse continua igual. Assim para além de não representar qualquer acrescento, traz problemas à composição cinematográfica, uma vez que este efeito conseguido com a estereoscopia tem uma enorme tendência para se centrar no meio da imagem. Ou seja os nossos olhos vêem melhor a distinção de planos se esta acontecer no centro da imagem. Como tal os nossos olhos estão constantemente a ser atraídos para o centro. Isto é de todo inaceitável em termos expressivos para qualquer realizador que se preze.

A acrescentar a tudo isto temos ainda o facto de a projecção 3-D resultar imensamente escura. O simples facto de retirar os óculos numa qualquer sessão dá-nos uma ideia do que estamos a perder.
"The truth of it is when you watch a film in here, you're looking at 16 foot-lamberts, When you watch through any of the conventional 3-D processes you're giving up three foot-lamberts. A massive difference. You're not that aware of it because once you're 'in that world,' your eye compensates.” Christopher Nolan
“Half the light goes to one eye and half to the other, which immediately results in a 50 percent reduction in illumination.” Then the glasses themselves absorb light.” Ebert

Julgo que estas são algumas das evidências que nos devem alertar para algo que não está a ser promovido com interesse genuíno e que mesmo os próprios media pouco ou nada têm feito para desmistificar. Aliás os media têm sido embalados por todo este fogo de artifício como se isto se tratasse de uma das mais interessantes tecnologias da actualidade, sem contudo realizarem um mínimo de trabalho de análise ou mesmo procurar ouvir quem emite pareceres sobre o assunto.
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