segunda-feira, junho 20, 2016

“Viagem ao Fim da Noite” (1932)

Com uma escrita distinta, inovadora e brilhante, e um contar de histórias genuíno, Céline dá-nos um relato que não sendo existencial, é pessimista, um distilar de pura misantropia. Escrito aos 32, podíamos pensar que se trataria de um relato tardio de crise existencial do autor, já que trata aspetos semi-autobiográficos, mas a leitura de entrevistas dadas em final de vida, dão conta de uma personalidade vincada, com uma visão muito particular da condição humana.


Este lado misantropo de Céline fica bem evidente a meio do livro quando este define o propósito da vida:
"E o pior é pensar como vamos arranjar forças bastantes para continuar a fazer no dia seguinte o que fizemos na véspera e em tantos outros dias já passados, onde encontraremos forças para as diligências imbecis, para mil e um projectos que não conduzem a nada, essas tentativas de vencer a  pesada necessidade, tentativas que abortam sempre e todas destinadas a convencer-nos, uma vez mais, de que o destino é insuperável, que todas as noites temos de cair da muralha com a angústia de ser sempre mais precário, mais sórdido, esse dia seguinte.
Talvez seja a idade que surge, traidora,  e nos ameaça com o pior. Em nós já não temos música suficiente para fazer dançar a vida, ora aí está. Toda a juventude foi morrer no fim do mundo, num silêncio de verdade. Para onde havemos de sair, pergunto eu, se em nós já não há uma suficiente soma de delírio? A verdade é uma agonia sem fim. A verdade deste mundo é a morte. Temos de escolher: mentir ou morrer. Eu  cá nunca pude matar-me."
(p.194)
Algo que se repete ao longo da entrevista à The Paris Review, na altura com 66 anos,  com a confirmação do texto acima a surgir numa questão muito direta:
Entrevistador: "Quando na sua vida foi feliz?"
Céline: "Raios nunca, penso eu."
Na escrita, “Viagem ao Fim da Noite” apresenta-se como uma espécie de discurso oral escrito, parecendo simples mas longe de o ser, capaz de nos oferecer momentos de verdadeiro êxtase literário, permitindo ao mesmo tempo ao autor introduzir mundos de puro grotesco, naturais nalguma oralidade mas sempre distantes da literatura que habitualmente nos protege higienizando as formas descritivas, levando-nos assim a recordar a crueza de Henry Miller. Por outro lado esta oralidade, apesar de muitas vezes direta e na primeira-pessoa, nem sempre é acessível destacando-se por alguns breves rasgos de fluxo de consciência.

No tema, temos o relato de uma grande viagem, uma vida ou várias vidas, através das quais vamos descobrindo o interior do personagem, uma espécie de autobiografia do autor, que vai dando conta da diversidade do mundo, no qual convive uma certa harmonia de falso viver, de mentira na aceitação do quão difícil é o simples ato de respirar. Viajar, um pouco à semelhança da música de António Variações, parece ser a única reposta possível à platitude da vida, uma busca por algo nunca encontrado, ou um alimentar da esperança por esse encontro, por forma a dar resposta à insustentável motivação de viver, já que o credo do amor aqui não entra.
“Como não passamos de recintos com tripas mornas e quase apodrecidas, havemos sempre de ter dificuldades com o sentimento. Estarmos apaixonados não é nada, mantermo-nos os dois juntos é que é difícil. A imundície, essa, não procura resistir nem desenvolver-se. Aqui, neste ponto, somos bem mais infelizes do que a merda; no nosso estado, a fúria de preservação constitui uma tortura incrível.” (p.312)
Reconhecendo a arte do grotesco, continuo a não me rever na mesma, seja na literatura, pintura ou qualquer outra arte, considerando que a mesma se alicerça em muito daquilo que nos edifica verdadeiramente enquanto humanos, vou preferindo, bem sei que de algum modo ilusório, o belo, porque continuo a acreditar na arte como uma, necessária, fuga ao real, como composição e reamostragem desse real capaz de de nos garantir espaços de fuga, momentos de recolha, de reencontro connosco próprios.


Edição: Editora Ulisseia, 2010, 458 páginas
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