sábado, dezembro 28, 2013

A poesia da chuva

“Rain” (2013) é uma espécie de conto de fadas transformado em videojogo. De um lado o mal, o Desconhecido e seus lacaios, do outro o bem, duas crianças, um menino e uma menina que se perderam numa cidade Europeia à noite, e procuram o caminho de volta a casa. O fantástico surge porque os “nossos” meninos são invisíveis, tornando-se apenas visíveis quando estão à chuva. Desta forma terão de utilizar o espaço para controlar a sua invisibilidade e assim fugir aos monstros.


Como conto de fadas “Rain” tem quase tudo que é preciso, desde o perigo e medo ao atmosférico mágico-poético. É fácil entrar pelo universo adentro e sentir-se envolvido pela forma e trama. O pior surge no desenho de jogo, com situações apenas resolúveis por tentativa e erro, uma câmara que apesar de quase sempre bem posicionada cinematograficamente, falha demasiado nas aproximações à acção dificultando a percepção do que se espera de nós. Mas talvez o pior esteja no desenho de um final de jogo em certa medida feito à pressa que falha em passar para o ecrã tudo aquilo que se pretende dizer sobre o que se está ali a passar. Fiquei com a sensação que o final do jogo terá sido feito um pouco a correr, provavelmente para cumprir deadlines editoriais.

Apesar dos vários problemas aqui apontados, a experiência de "Rain" é bastante impressiva. A arte visual é muito rica começando e terminando a história com um conjunto de belíssimas aguarelas, sendo que o resto do jogo nos faz sonhar como devem fazer os contos de fadas, por meio do tratamento gracioso dado aos meninos quando visíveis à chuva. Para complementar o aspecto visual, as performances de ambos os personagens são de uma enorme ternura, tornando a sua presença no ecrã quase sempre uma delícia. Por outro lado no campo sonoro, além da constante presença do som da chuva, que contribui fortemente para todo o tom de melancolia, somos presenteados com uma banda sonora trabalhada a partir da serenidade de "Claire de Lune" de Debussy.


“Rain” é a pequena jóia de 2013 da Sony Playstation que sucede a “The Unfinished Swan” (2012). Ambos se baseiam em mecânicas inovadores, simples mas visualmente forte, e ambos se socorrem da fantasia dos contos de fadas para criar os seus universos. São videojogos que saem do enquadramento clássico de jogo, que procuram explorar as fronteiras entre o jogo e a contemplação interactiva. Ambos criam motivação nos jogadores pelo envolvimento com a experiência audiovisual interactiva, deixando de lado os mecanismos próprios de gestão e manutenção de atenção das correntes clássicas de jogo.

É uma experiência curta, 3 a 4 horas, mas é um dos meus 10 videojogos de 2013.
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