maio 04, 2023

Plágio no Design Português: roubar à descarada

Em novembro de 2022 o jornal Público iniciou a publicação de uma coleção de livros — designada "História do Design Gráfico em Portugal" — criada pelo professor José Bártolo, um crítico e curador de referência do design português. Em dezembro 2022, dois professores da Universidade do Porto deram o alerta para problemas graves de plágio. Em poucos dias o Público retirou a coleção de venda e passados mais alguns dias anunciava que, em vez de abandonar a coleção e pedir explicações ao autor, iria ser realizada uma segunda edição com a revisão de todos os "erros", leia-se plágios! Foi dito aos leitores que poderiam depois pedir a substituição dos primeiros livros. Não houve uma palavra do Público para com os autores plagiados. No final de fevereiro 2023, saiu a reedição, alegadamente revista, e desta vez com nomes do design português a assegurar, dizem, uma completa revisão por pares. Hoje, 4 de Maio, e para nossa total estupefacção, os mesmos professores da U. Porto publicaram os resultados da análise desta 2ª edição e não só uma boa parte dos plágios da 1ª edição continuam lá, como surgiram novos problemas! Irá o Público agora realizar uma 3ª edição e substituir todos os livros vendidos da 1ª e 2ª edições? 

abril 30, 2023

A Mente Sonora

Esperava mais de "Of Sound Mind: How Our Brain Constructs a Meaningful Sonic World" (2021), de um livro escrito por uma neurocientista especializada no processamento auditivo, Nina Kraus. Esperava aprofundar mais os modos como ouvimos, como damos sentido ao som e como este nos afeta. Kraus dá conta destes pontos, mas fá-lo de uma forma bastante superficial. O tom escolhido para a divulgação de ciência acaba sendo algo infatilizado, com demasiadas vezes a dar conta de suposições, repescando ideias do passado que entretanto a ciência demonstrou não estarem tão corretas como pensávamos. A ciência faz-se de constantes incertezas, mas no caso de temas tão amplamente estudados esperamos que se siga o conhecimento atual, e não aquele que tem mais alcance poético. Ainda assim, vale a leitura rápida pela primeira parte, já a segunda parte, fragmentada nos impactos em múltiplas áreas distintas, poderá interessar a quem trabalhe em cada uma dessas áreas.

abril 25, 2023

Humanamente Possível (2023)

Sarah Bakewell é reconhecida por dois belíssimos livros, um sobre Montaigne (2010) e outro sobre a corrente do Existencialismo (2016), neste seu último livro — "Humanly Possible: Seven Hundred Years of Humanist Freethinking, Inquiry, and Hope" (2023) — foi à procura da definição de Humanismo. Partindo do estilo que a caracteriza — a fusão fluída de biografia, arte, história e filosofia — atravessa 700 anos de ideias para dar conta das origens, evolução e relevância do Humanismo, um termo apenas cunhado no século XIX, e para o qual ainda hoje temos dificuldade em encontrar uma definição que sirva a todos. Para o efeito, convoca as vidas e ideias de Petrarca, Boccaccio, Da Vinci, Erasmus, Montaigne, Voltaire, Spinoza, David Hume, Thomas Paine, Frederick Douglass, Robert G. Ingersoll, John Stuart Mill, Harriet Taylor, Bertrand Russell, Zora Neale Hurston, Thomas Mann e Vasily Grossman.

abril 22, 2023

O Retrato do Casamento (2022)

O livro abre com a seguinte nota histórica: "Em 1560, com quinze anos, Lucrezia de' Medici, deixou Florença para iniciar a sua vida de casada com Alfonso II d'Este, duque de Ferrara. Menos de um ano depois estaria morta. A causa oficial de morte foi "febre pútrida", mas houve rumores de que teria sido assassinada pelo marido." E fecha com uma nota da autora, em que aprendo uma nova palavra "uxoricídio" (do latim uxor, esposa + cídio, matar; "assassínio da mulher pelo próprio cônjuge"), apresentada a propósito do rumor do uxoricídio da irmã de Lucrezia, Isabella em 1575, e ainda da cunhada Dianora, pelas mãos do irmão Pietro de' Medici, que tendo-o admitido nada lhe aconteceu.

abril 20, 2023

Valores humanistas

Em 1952, no primeiro Congresso Humanista Mundial, os fundadores da Humanists International acordaram numa declaração sobre os princípios fundamentais do Humanismo moderno, a que chamarm "Declaração de Amesterdão". Essa declaração foi actualizada em 2002, na comemoração dos 50 anos, novamente em 2022, para comemorar os 70 anos, para reflectir as realidades modernas da época. A seguir apresenta-se a declaração completa. Toda a informação pode ser encontrada em Humanists International.

Desenho de Leonardo da Vinci baseado nos escritos de Vitruvius que definiu as dimensões proporcionais do ser humano por meio da cricunferência e quadrado por forma a demonstrar a centralidade do ser humano na natureza.


abril 16, 2023

Assassin's Creed Valhalla (2020)

85 horas. São muito poucos os jogos em que investi tanto tempo. Mas surpreendente é ter feito isto apesar do jogo apresentar uma história fraca, cutscenes horríveis e um gameplay por vezes sofrível. Então porque andei tanto tempo por ali? Julgo que a explicação está no facto do mundo interactivo ser deslumbrante, visualmente assombroso. De cada vez que entrava no jogo, imergia, e ficava não menos de um par de horas a explorar o mundo. As mecânicas conhecidas da série tornam o universo muito amigável, permitindo que entremos no trilho da experiência e nos deixemos levar pelas atividades que conduzem à progressão ao longo do jogo. Tirando algum grinding, a viagem fez-se sem grandes sobressaltos, oferecendo a cada investida espaço de descoberta para contínua exploração e diversão.


abril 10, 2023

"Pachinko", emigração e humildade

"Pachinko" é maravilhoso pela forma como nos enreda na saga de uma família de emigrantes coreanos que migra para o Japão no início do século XX, levando-nos a experienciar os efeitos profundos dessa decisão sobre múltiplas gerações posteriores. É uma lição de História sobre o modo intolerável como o Japão tratou os seus vizinhos no século passado, com Min Jin Lee a dar conta do mais profundo racismo japonês, algo de que já aqui tinha dado conta na relação com os vizinhos chineses. "Pachinko" não é um grito ativista, como “The Rape of Nanking” (1997), é uma novela de ficção histórica, dá-nos a conhecer pessoas "reais" repletas de medos e desejos. Mas através da imensidão de personagens apresentadas consegue transportar-nos para cada uma das décadas desse século, consegue acima de tudo dar conta de um modo de estar que aparenta ser próprio da emigração coreana, mas que aproximo tremendamente da emigração portuguesa ocorrida nesse mesmo século para a Europa. É um modo baseado numa enorme humildade e simultaneamente numa vontade de trabalhar e aprender para oferecer às gerações seguintes mais do que aquilo a que tiveram acesso. Pessoas com muito pouco, mas dotadas de enorme resiliência, capazes de aguentar a humilhação, a infâmia, e ainda assim continuar a remar para que os seus, a sua família, possa encontrar um porto seguro. Quando chegamos ao fim da odisseia de Sunja, a protagonista, é impossível não sentir o peso das decisões que cada geração foi forjando, mas também do acaso que contribuiu para a transformação de cada uma das personagens, ecoando um sentimento de orgânico, de vida vivida, plena de significado. 

Seria fácil para Lee usar e abusar da tragédia, algo que abunda, mas nunca o faz. Por vezes, somos surpreendidos com um murro no estômago, mas Lee desvia dali o foco. Cabe ao leitor dar significado ao que está a ler, e não ser subjugado pelo sentimentalismo imediato. Por isso, não se esperem acusações gratuitas contra o Japão e japoneses, mas elas estão lá. Ler, compreender e interpretar fará com que sintam um nó bem fundo com todo o normativo xenófobo e divisor de classes que contribui para a destruição interior de cada ser humano. Ainda assim, os personagens dotados de uma resiliência avassaladora, inspiram-nos e continuam a fazer-nos acreditar nesse humano, mesmo quando a alguns essa resiliência falta... Mas é de realismo que Lee nos fala, algo que se torna claro quando chegamos aos agradecimentos finais e percebemos que o livro esteve quase 30 anos em desenvolvimento, tendo sido suportado não apenas por pesquisa literária, mas também por muito trabalho de campo.

abril 07, 2023

Guerra do Peloponeso, 431 a.C. a 404 a.C.

"História da Guerra do Peloponeso" foi escrito no século V a.C por Tucídides, sendo por isso mesmo um registo histórico de incomensurável valor, mas é também um marco da História enquanto disciplina académica. Neste último sentido, fez-me compreender que apesar de na última década me ter dedicado a ler mais e mais História, na verdade continuo longe da mesma, em termos académicos. Interessam-me as histórias sobre a História, não me interessam tanto os relatos descritivos, mesmo que mais fidedignos ou verdadeiros. Não me move chegar “à verdade”, move-me mais a ideia de que aquilo que se conta é baseado numa realidade. Desde logo, porque mesmo num livro tão descritivo, tão emocionalmente neutro e objetivo, é possível denotar viés a ponto de hoje alguns historiadores o classificarem mesmo como apenas literatura. Claro que falo de um ponto de vista externo, não leio estas obras para documentar a minha investigação, se assim fosse falaria de modo distinto. Como leio apenas pelo prazer de ler, esse é maior quando a História usa o melhor da arte narrativa para chegar a nós, mesmo colocando em causa parte da sua factualidade que aceito bem quando é feito por via da especulação, mas não tanto quando pela mera invenção.

abril 02, 2023

Os Europeus e a cultura cosmopolita do século XIX

A experiência de "The Europeans" (2019) de Orlando Figes funciona como uma grande viagem cultural através de toda a Europa — da Rússia a Portugal — ao longo de todo o século XIX. Figes escolheu para companheiros de viagem: o ícone literário Ivan Turgenev, a renomeada cantora de ópera Pauline Viardot, e o seu marido Louis Viardot, crítico e historiador de arte. Três inseparáveis companheiros que percorreram toda a Europa durante as suas vidas, pondo em contacto as mais diversas culturas, dando assim suporte ao subtítulo: "Three Lives and the Making of a Cosmopolitan Culture". O registo apresenta uma simbiose perfeita entre a exposição de factos e o contar de histórias que poderiam quase ser ficcionais, quase checkovianas, mantendo-nos enredados ao longo das mais de 500 páginas. Figes faz-nos sentir nostalgia daquilo que não vivemos, nomeadamente quando dá conta do nascimento de correntes, de movimentos e renovados interesses da sociedade pela cultura e arte florescentes num tão diverso continente suportadas pela evolução tecnológica desse século, em particular os caminhos de ferro, o telégrafo, a imprensa, a fotografia, assim como a criação do copyright e do canône literário.