quarta-feira, setembro 19, 2018

Aquilo Que Eu Amava (2002)

O meu primeiro livro de Siri Hustvedt fez-me ganhar respeito e admiração pela escritora. Não que a história seja magnífica nem que a escrita seja bela. O que me marca em Hustvedt é a sua capacidade de descamar, de modo subtil, as fachadas sociais de cada personagem até chegar ao âmago, os seus núcleos psicológicos da vontade e do sentir. A isto junta-se uma capacidade descritiva em modo narrativo, que nos vai apresentando torrentes de factos, à medida que vai relatando. E por isso se por vezes tendo a pensar em Philip Roth, pelo lugar de NY e a posição dos personagens, rapidamente descolo não só porque Roth tem uma escrita muito mais poética, mas porque Hustvedt é bastante mais elaborada e densa. Dito de outra forma, é mais fácil e prazeroso ler Roth, mas é bastante mais rico absorver as nuances dos mundos e personagens de Hustvedt.


O livro está dividido em três partes, e existe uma certa ideia, que vi nalgumas resenhas, de que o livro começa verdadeiramente com o início da segunda parte. Mas se a tragédia se inicia nesse ponto, nem por isso Hustvedt usa esse clímax negativo para transformar o livro num melodrama, o que poderia facilmente acontecer, e com certeza lhe teria granjeado muito mais público. Existe muita contenção, muito controlo e gestão da história no sentido de garantir um equilíbrio no leitor entre racionalidade e emocionalidade. Hustvedt não está interessada em fazer-nos sofrer ou sentir felizes, está bastante mais interessada em dar-nos a compreender o sentir de um conjunto de pessoas que passaram por momentos complexos, e como esses momentos afetam e alteram as suas vidas. Como e apesar de tragédias que marcam, as vidas prosseguem continuando a ser colocadas à prova, independentemente de tudo o que já viveram.

O contexto não será o mais universal, temos duas famílias, cada uma com um filho, cada uma com as suas separações e acoplamentos de madrastas e padrastos, mas todos estes vivendo numa cidade de elite e trabalhando nas esferas artísticas e culturais — das artes, crítica, e ambientes universitários. Os pais e mães encontram-se e atravessam um longo período de crescimento e afirmação social até que os filhos, ao começar a erguer-se e de formas completamente distintas, abrem rasgos nos vários adultos à volta, que por sua vez produzem aproximações e separações sobre as relações existentes e que Hustvedt muito habilmente vai explorando.

A estrutura segue uma lógica próxima dos livros de memórias (“memoir”) com o personagem principal, já no fim da sua vida, a recitar as suas memórias em primeira-pessoa, oferecendo-nos os momentos e simultaneamente a análise crítica em perspetiva dos mesmos. “Aquilo que eu Amava” é assim uma viagem no tempo da consciência, em que a realidade já se consolidou e nos é oferecida uma janela para ver do melhor ponto de vista possível, no que ao escrutinar do pensar e sentir se refere. Ao optar por este caminho, Hustvedt abriu para si uma via mais fácil de apresentação das introspeções do principal interveniente nos eventos relatados, explicando também a riqueza do relato psicológico e ao mesmo tempo a densidade analítica apresentadas pela obra.

Tive apenas um pequeno apontamento que me desgostou, o modo como se constrói o suspense à volta de Mark, nomeadamente o arrastar da revelação do seu carácter, camaleónico, ainda que tenha de aceitar que o carácter escolhido para o mesmo era tudo menos fácil de definir ou fechar em meia-dúzia de páginas. Este arrastamento é atenuado com algum apimentamento de caráter criminal da louca cena artística de Nova Iorque que acaba por contribuir para o incremento do suspense, mas que pouco contribui para a essência da obra, acabando por, tudo junto, me desconectar em vários momentos dos personagens e relações centrais do livro.

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