domingo, julho 29, 2018

Leitura armadilhada

"Catch-22" avança com uma premissa de excelência que é um conjunto de regras que se definem como paradoxo lógico. Neste paradoxo temos uma lógica para a ação que é definida por regras que se opõem e que por isso impedem a ação de decorrer. Exemplificando, o protagonista, Yossarian, quer deixar de fazer missões aéreas enquanto em guerra, para o que precisa de ser declarado insano pelo médico da companhia, contudo esta declaração só pode acontecer a pedido do próprio, ora se o soldado está em condições de fazer um pedido de avaliação de insanidade, não pode estar insano, logo não pode deixar de fazer as missões como pretende. Esta armadilha de regras está presente naquilo que no livro é conhecido por artigo nº22 do código militar, e que define a lógica subjacente à vivência em tempo de guerra que Joseph Heller procura trabalhar ao longo de todo o livro, e no fundo conduzir à sua conclusão maior, de que as guerras são em si mesmo paradoxos de lógica.


Não discordando em nada, admirando a premissa e a sua aplicação ao cenário de guerra, assim como estimando a enorme qualidade da escrita e estrutura apresentadas pela obra de Heller, é com muita pena que chego ao final apenas com a racionalização do que li. Ou seja, não senti o universo nem os seus personagens, os seus problemas não me tocaram, nem me demoveram. Li o livro até ao final porque me obriguei, porque é um livro extremamente citado, referenciado em dezenas e dezenas de listas, e por imensas pessoas que respeito, e por isso senti que poderia acontecer alguma espécie de revelação mais perto do seu desfecho. Na verdade pouco mais acontece, sim há um pouco mais de comoção, mas o livro é isto, e no meu caso nunca senti qualquer vontade de virar páginas, nunca senti que queria saber mais sobre Yossarian.

Sim, a guerra é algo sem sentido, obtusa, não existe qualquer lógica que se lhe aplique, está errada do início ao fim. E até podia dizer que por isso julgo que é algo contra o qual devemos lutar com maior sensibilização dos leitores, mas estaria a incorrer em erro. Não foi por isso que não me liguei, não senti qualquer menosprezo de Heller por quem teve ou tem de combater em guerras, antes senti uma elevação acima do quotidiano daquilo que as guerras criam, e uma tentativa de compreender algo que não é compreensível, tornando mesmo a premissa de "Artigo 22" extremamente significante. Contudo, e apesar de reconhecer tal, reconheço-o apenas no seu racional.

Dito isto, poderia ter lido um livro não-ficcional sobre o tema, filosofando sobre a problemática, e talvez me tivesse aproximado mais. A opção de seguir pelo humor, a sátira, não funcionou comigo. Senti-me a olhar para algo vazio. Teria preferido um conto sobre o assunto, que me pudesse dar a compreender o ardil, e não tivesse exigido tantas horas para oferecer o mesmo que tinha oferecido ao fim de 100 páginas. Dito isto, e porque não quero que esta análise sirva para demover alguém de ler uma obra que continua sendo tão amada, passado mais de meio-século, recomendo que leiam o primeiro terço do livro, se não sentirem qualquer ligação, então podem encostar, não vai acontecer nada de muito diferente depois disso.
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