quinta-feira, junho 26, 2014

As escolhas que nos definem

A filósofa Ruth Chang realizou uma TED sobre “How to make hard choices” apresentando toda uma nova forma de nos posicionarmos face às escolhas difíceis. Todos nós já passámos por escolhas complexas, escolhas que tivemos de enfrentar - terminar ou manter uma relação; escolher um curso ou outro; escolher abrir uma empresa ou procurar um emprego - e para as quais não encontrámos respostas concretas. Quando chegados a um destes dilemas entramos em desespero porque ficamos ansiosos. É assim que funcionam as nossas emoções, quando não existe um efeito conhecido e concreto, a ansiedade toma conta de nós para nos obrigar a focar no problema e a resolvê-lo. O que Chang vem dizer é que podemos olhar para as escolhas difíceis como algo mais do que uma escolha entre o melhor e o pior.


Antes de avançar com a sua proposta Chang realiza um enquadramento sobre a racionalidade científica que domina o pensamento da sociedade atual na qual tudo precisa de ser quantificável, tudo precisa de ser medível, e tudo precisa de ser comparável com precisão. Nesse sentido, a racionalidade empurrou-nos para um precipício no qual conseguimos apenas racionalizar o mundo segundo três vectores: menor “<“; igual “=“; ou maior “>”.
"As post-Enlightenment creatures, we tend to assume that scientific thinking holds the key to everything of importance in our world, but the world of value is different from the world of science. The stuff of the one world can be quantified by real numbers. The stuff of the other world can't. We shouldn't assume that the world of is, of lengths and weights, has the same structure as the world of ought, of what we should do."
Deste modo Chang propõe que se deixe de pensar as escolhas como tendo de existir uma melhor que a outra. A ideia é passar a refletir sobre estas como nenhuma delas sendo melhor ou pior, assumindo antes que estão a par. Ou seja, a escolha será importante mas nenhuma é melhor que a outra. Desta forma o que Chang nos propõe é que sejamos então nós a decidir o que queremos para nós. Estando as opções a par, cabe-nos a nós, e só a nós, criar razões para escolher uma das opções. Ao fazê-lo estamos a definir aquilo em que acreditamos, aquilo que queremos ser em vez daquilo que os outros querem que nós sejamos. Tomamos a vida nas nossas mãos e tornamo-nos autores dela.
“When we choose between options that are on a par, we can do something really rather remarkable. We can put our very selves behind an option. Here's where I stand. Here's who I am. I am for banking. I am for chocolate donuts. This response in hard choices is a rational response, but it's not dictated by reasons given to us. Rather, it's supported by reasons created by us. When we create reasons for ourselves to become this kind of person rather than that, we wholeheartedly become the people that we are. You might say that we become the authors of our own lives.

So when we face hard choices, we shouldn't beat our head against a wall trying to figure out which alternative is better. There is no best alternative. Instead of looking for reasons out there, we should be looking for reasons in here: Who am I to be?”

terça-feira, junho 24, 2014

Expressividades do papel

Nos últimos dois anos tenho colecionado links de trabalhos realizados com recurso a materiais em papel. Desde animações a videojogos, passando por simples ilustrações, vários têm sido os meios expressivos que têm recorrido ao papel para plastificar a sua forma. Na verdade quando comecei a coleccionar estes objectos tinha intenção de aprofundar as potenciais razões estéticas por detrás do uso desse meio, objectivo para o qual nunca consegui tempo. Por isso, e em virtude de ter hoje visto mais um desses belíssimos objectos, resolvi listar os mesmos num pequeno apontamento, e assim deixar fluir as ideias.

"11 Paper Place" (2014) de Daniel Houghton

O papel é algo muito comum em nosso redor, mas é-o normalmente sob a forma de mero envelope, ou seja de suporte, de transporte de ideias que se socorrem de outras formas para se expressar seja o texto, o gráfico ou simplesmente a cor. E é em parte por isso que quando alguém usa o papel como elemento expressivo nos soa estranho, ou exótico. O papel está em todo o lado, mas raramente o vemos, menos ainda lhe damos importância. Quando ele serve directamente a expressão é um pouco como se de repente ganhasse vida, fosse além daquilo a que estava confinado.

Não é a primeira vez que aqui trato obras criadas sobre papel, exemplos como as animações "Train of Thought" (2010) ou "Much Better Now" (2011), os videojogos "And Yet it Moves" (2010) "Lume" (2011) são apenas alguns dos que me têm fascinado ao longo dos anos. Pelo meio tenho encontrado artistas que se dedicam apenas a trabalhar com papel como Ingrid Siliakus ou Zim and Zou, ou Apps como "The Paper Fox" (2013) de Jeremy Kool, ou ainda um colectivo online que se dedica à construção de brinquedos em papel. Deixo então abaixo vários que fui coleccionando.


"11 Paper Place" (2014) de Daniel Houghton


"The Wolf I Used To Be..." (2012) dos Nearly Normal 


"Curriculum Vitae" (2011) de weareflink



"Moleskine Mini Planners" (2011) de Rogier Wieland



"Star Wars in Paper" (2010) de Eric Power. Do mesmo autor, Zelda on Paper e Mario on Paper.



"Cardboard Warfare" (2010) de Clinton Jones



"Cardboard Tron Lightcycles" (2008) de Miké e Vinz

domingo, junho 22, 2014

“Blue Is the Warmest Colour”

O poder do cinema na comunicação de emoção é absolutamente impressionante, “Blue Is the Warmest Colour” (2013) é capaz de transmitir emoções humanas a um nível de vivacidade que só estamos habituados a experienciar no contacto direto entre humanos. Desde o surgimento da arte cinematográfica, o movimento primeiro, a montagem depois, e por fim a adição de som e música foram determinantes na criação daquela que continua no século XXI a ser a arte das emoções. Mas “Blue Is the Warmest Colour” não é apenas emoção, é também mensagem, é uma obra que expressa essências sobre o que nos define enquanto humanos. Para tornar isto possível foram necessários três ingredientes essenciais, ou melhor, três pessoas: Adèle Exarchopoulos (actriz principal), Abdellatif Kechiche (realizador) e Julie Maroh (história).





Não fossem a história e a realização tão boas, diria que o filme é Adèle Exarchopoulos, porque o filme vive totalmente à flor da sua pele, a câmara que a segue por todo o lado, da cama à escola, colada ao seu respirar, ao seu sentir, às suas lágrimas... O filme não é só Adèle, mas ”Blue…” não seria ”Blue…” sem Adèle. Adèle dá-se totalmente à obra, nada mais lhe podia ser aqui pedido, ela encarna o personagem com um brilhantismo raro, seguimos sempre no seu encalce, não conseguimos desligar de si, que transporta todo o sentir, toda a expressividade. Adèle cria uma verdadeira personagem de carne e osso, alguém que poderia ter sido nossa colega de escola, e ao mesmo tempo alguém que tem dúvidas sobre o mundo, sobre a sua existência e essência (Sartre é discutido a meio do filme). Alguém que recria na nossa frente as dúvidas sobre a essência do Amor, sobre a essência do Ser, com quem não conseguimos deixar de empatizar. Adéle é o nosso filme, é absolutamente brilhante.

Claro que para que toda esta transcendência de Adèle pudesse chegar até nós, foi preciso alguém que dirigisse a sua performance e a canalizasse por meio de um enquadramento audiovisual. Esse alguém foi Abdellatif Kechiche reconhecido por trabalhar com um método, pouco ortodoxo para uma arte cara como é o cinema, que assenta numa lógica de improviso, de privilegiar constantemente o momento, buscando captar a autenticidade no seu estado bruto e puro. E é exactamente isso que vemos em toda a obra, Adéle não é apenas Adéle, o que vemos no filme é aquilo que Kechiche capta, preserva e enfatiza. Impressiona como Adéle chora e ruboriza, impressiona como Adéle Exarchopoulos e Léa Seydoux se dão sem reservas à câmara expondo tudo a todo o momento. Se por momentos cheguei a sentir um ultrapassar do risco, em termos de grafismo sexual, não posso deixar de conceder que esses momentos contribuíram para a marca de autenticidade, de emocionalidade captada em estado bruto pela lente de Kechiche.

Por fim, a história sustentada no livro de banda-desenhada homónimo de Julie Maroh é o que abre espaço à discussão do “Ser e o Nada”, alicerçada sobre uma história de amor adolescente homosexual. A mensagem passa com uma força impressionante, dando bem conta de que vivemos no século XXI, e de que a homosexualidade entrou finalmente na paisagem da sociedade europeia. Maroh leva-nos pela mão, fazendo-nos experienciar os sentimentos de Adéle, que são totalmente independentes do género da figura amada, já que o que conta é aquilo que esta sente, e aquilo que sente é simplesmente Amor. “Blue Is the Warmest Colour” é um tratado sobre o Amor, esse sentimento indefinível que faz os seres humanos correrem toda uma vida...

“Blue Is the Warmest Colour” (2010) de Julie Maroh

Para fechar, e voltando ao início deste texto, li o livro de Julie Maroh depois de ver o filme, e apesar de me ter tocado, são experiências completamente diferentes, essencialmente pelo que já disse acima. Enquanto o livro nos transporta através da alma de Maroh, o filme cria um universo mais amplo e rico, nomeadamente porque além de Maroh, temos ainda Adèle Exarchopoulos e Abdellatif Kechiche. A viagem é mais profunda, mais emocionante, gerando uma experiência com um grau de autenticidade quase chocante, muito para além daquilo que o livro nos consegue dar.

quinta-feira, junho 19, 2014

O homem que transformou o papel em píxeis

Adam Westbrook publicou mais um brilhante ensaio audiovisual no Delve, sobre "The Man Who Turned Paper Into Pixels" (2014) com o subtítulo "How our digital world was born and the surprisingly simple idea that makes it work". São apenas 5 minutos mas valem todos os segundos. De uma forma absolutamente simples e extremamente eficaz Westbrook explica a base que dá suporte ao mundo digital, tornando muito fácil para qualquer pessoa perceber como foi possível converter o mundo analógico em meros "0" e "1".




Para todos os que se interessam pela Comunicação este é um filme a não perder. Ao contrário de se centrar apenas na tecnologia que suportou o surgimento do digital, o transístor, como tem sido feito por muitos outros analistas do processo, Westbrook baseado no texto do professor Andrew Lih sustenta o digital no modelo matemático criado por Claude Shannon, um dos pais das Ciências da Comunicação. O transístor sem um modelo capaz de sustentar o seu uso não teria passado de uma mera aplicação.

"The Man Who Turned Paper Into Pixels" (2014) de Adam Westbrook

Os video-ensaios anteriores de Adam Westbrook podem ser vistos em O longo jogo do génio.

quarta-feira, junho 18, 2014

Recriação de grande quadro em 3D

O pintor húngaro Gyula Benczúr pintou em 1896 uma representação em grande escala (705x356 cm) da Recaptura do Castelo de Buda em 1686, ocorrida durante a batalha contra o Império Otamano. Entretanto em 2014 Zsolt Ekho Farkas resolveu dar vida ao quadro e recriar o mesmo totalmente em 3D.




Se a obra de Gyula Benczúr impressiona pela dimensão, quantidade de personagens e detalhe histórico (roupas, objectos e local) o trabalho de Farkas não impressiona menos, já que ele não se limitou a recriar uma parte da obra apenas, mas a obra em toda a sua extensão mantendo o seu aspecto visual praticamente intacto. Tanto que se torna quase impossível distinguir a trabalho final 3D do trabalho pintado.

Para a recriação foram modelados 32 personagens no Lightwave que resultaram num total de 8.5 milhões de polígonos. Para conseguir o efeito final tão próximo do quadro original, foi necessário adicionar 8 layers de cor, 8 bump maps, 4 reflection maps, 4 specular maps e 4 normal maps. No total foi gasto um mês inteiro em modelação, 3 semanas para pintar, e mais algumas semanas para o masking e efeitos finais. Mais detalhes e imagens sobre a reconstrução podem ser vistas no Béhance.

Reconstrução da Recaptura do Castelo de Buda em 1686 em 3D (2014)

Entretanto outros trabalhos do género têm sido feitos, o mais próximo deste será sobre Battle of Grunwald de Jan Matejko reconstruída em 3D, mas por 22 pessoas, da empresa polaca Platige. Outros trabalhos de autores como Picasso, Munch ou Van Gogh têm também sido adaptados..

terça-feira, junho 17, 2014

A animação no jornalismo

O New York Times é conhecido por investir em múltiplas formas de expressão para comunicar com os seus leitores, mas foi com alguma surpresa que descobri que agora também o faz por meio de filmes de animação. A coluna Modern Love do jornal que já tinha direito a ilustração, passou a ter também direito a uma extensão em animação. Já existem na página da coluna vários trabalhos publicados, mas o desta semana é deveras surpreendente, a história é muito boa e a animação eleva toda a sua expressão dramática.


"Tim and Sarah McEown never saw their 22-year age difference as an obstacle in their relationship, until Tim had a heart attack."

A animação foi criada por Freddy Arenas, reconhecido motion designer, que procurou aqui adaptar a linguagem do motion, mais abstracta e menos narrativa, à linguagem mais canónica da animação, de representação e storytelling. O Motiongrapher fez-lhe uma pequena entrevista que vale a pena ler assim como analisar os storyboards que aí nos são apresentados.

"Modern Love: Beyond Years" (2014) de Freddy Arenas

segunda-feira, junho 16, 2014

"Seguir em frente"

O mais recente album dos James vem inspirado em algumas das experiências de Tim Booth (vocalista) com a morte ao longo de 2012. O album acabou mesmo por receber o título “La Petite Mort” (2014) (A Pequena Morte), que é uma espécie de eufemismo francês para o estado de quase inconsciência que sucede o orgasmo, e nesse sentido é também uma resposta de Booth à morte, como que a dizer que é momentânea e passageira, e que é preciso “Moving On”. E é exactamente por causa do teledisco realizado para “Moving On” por Ainslie Henderson que trouxe aqui hoje os James. Não que não me faça recordar 20 anos atrás, noite dentro, “Sometimes” em todas as discotecas em que entrava.




“Moving On” apresenta um belíssimo trabalho de stop motion com malhas de lã amarela, capaz de nos dar a volta, porque a vida e a morte literalmente dão a volta. O filme começa ligeiramente como é apanágio dos James, mas à medida que vai avançando vamos sentido a sua honestidade e frontalidade entrar por nós adentro. Quando termina, estamos ali, percebemos que é assim, faz parte, e é preciso “seguir em frente”. Deixo algumas das ideias que inspiraram este belíssimo trabalho, pela voz de Tim Booth e Ainslie Henderson.
"There is such a variety of death. I had three major losses last year in my life. My mum died in my arms when she was 90 and it was euphoric. It was just beautiful - and then another person died.
I didn't know they were ill because they kept it from me. It was a shock and really devastating for me because I didn't know. I didn't get to say goodbye. So death is not straightforward. It's not necessarily depressing. It's a lot of things and that has fed into a lot of the songs on the album.
That makes it sound depressing but some of it is uplifting – about letting go of things and not waiting for anything any more, about living life to the fullest."
Tim Booth [Daily Record]
“It’s 2014, and I’m on the phone to Tim. He is describing how the band came to write “MOVING ON”, and what the words mean to him. The story he tells me is deeply moving; one thing that stayed with me is his describing death as a birth. Days later this conversation echoes around my mind while I’m listening to the song as I walk past a typical Scottish woollen knitwear shop. My eyes flit over a ball of wool in the window while the vid2word “unwinding” is sung and pretty quickly I’m leaving a garbled over-excited message on Tim’s phone about the music video I have in my head” Ainslie Henderson [Mouth Mag]

"Moving On" (2014) por Ainslie Henderson, música de James

sexta-feira, junho 13, 2014

Filmes e jogos de Maio 2014

Ainda não tinha aqui deixado a lista de filmes e jogos do mês passado porque tenho andado numa corrida a fechar tarefas, mas quantas mais fecho mais novas se abrem. Assim com algum atraso, aqui fica a lista, no cinema sem dúvida que a nota especial é para Ida de Pawlikowski, mas também para o The Lego Movie e para um filme da vaga romena que ainda não tinha visto de Serban, assim como para um dos primeiros de Farhadi. Já como desilusão, embora não o devesse ser, fica a inacreditável produção 47 Ronin, como foi possível atirar 175 milhões assim pela janela fora?

xxxxx Ida 2013 Pawel Pawlikowski Poland [Análise]

xxxx The Lego Movie 2014 Phil Lord, Christopher Miller USA

xxxx If I Want To Whistle, I Whistle 2010 Florin Serban Romania

xxxx Fireworks Wednesday 2006 Asghar Farhadi Iran [Análise]

xxx Grand Central 2013 Rebecca Zlotowski France

xxx Babycall 2011 Pål Sletaune Norway

x 47 Ronin 2013 Carl Rinsch USA

Já no campo dos videojogos Maio foi o mês de Mass Effect, entretanto só agora em Junho consegui terminar a trilogia, espero dar conta aqui da experiência, mas pode demorar, porque ando a tentar escrever um artigo em maior profundidade sobre a série, vamos ver.

xxxxx Papo & Yo 2012 Minority Adventure/Action Canada [Análise]

xxxxx Mass Effect II 2010 BioWare RPG/Action USA [análise brevemente]

xxxxx Mass Effect 2007 BioWare RPG USA [análise brevemente]

quarta-feira, junho 11, 2014

"O Código do Talento"

Depois de ler “Outliers: The Story of Success” (2008) de Malcolm Gladwell e “Talent Is Overrated: What Really Separates World-Class Performers from Everybody Else” (2008) de Geoffrey Colvin, acabei por chegar a “The Talent Code: Genius Isn’t Born. It’s Grown. Here’s How.” (2009) de Daniel Coyle. Os três livros formam um trio que questiona as origens do talento, criatividade e modelos de aprendizagem. Se tinha gostado de Gladwell e tinha adorado Colvin, Coyle é ainda mais interessante e incisivo. Não que traga algo de muito novo, mas a ligação que estabelece entre os processos neurofisológicos e os estudos empíricos é profundamente enriquecedora para quem quer que se interesse pelo tema. Desde os jogadores de futebol brasileiros, às tenistas russas, passando pelos violinistas, skateboarders e produtores de música pop, vários são os exemplos que nos abrem um mundo novo sobre o fundamento do talento, os processos de aprendizagem e de coaching.


Algumas das críticas ao livro de Coyle dizem respeito ao seu fascínio com as mais recentes descobertas em torno da mielina, uma substância que se encontra no cérebro e sobre a qual ainda decorrem estudos. Mas neste momento suspeita-se que a sua função assente no isolamento das ligações neuronais, de modo a garantir que os impulsos eléctricos possam circular de forma mais eficiente. Ou seja, uma função parecida com aquela que o plástico executa em redor dos cabos eléctricos. Sendo essa a sua função, o modo como esta se desenvolve nos nossos cérebros parece ocorrer a partir de prática focada e repetida. À medida que vamos repetindo exercícios, a prática em nós vai-se sedimentando por meio de mielina junto aos nossos neurónios. Quanto mais grossa for ficando a camada de mielina em redor da ligação neuronal responsável pela competência que estamos a treinar, melhor isolada fica, permitindo que possamos agir de cada vez com maior eficácia.

Apesar da relevância que Coyle atribui à mielina, o mais relevante do seu livro não depende propriamente dessa descoberta, que acaba por funcionar mais como curiosidade, porque aquilo que Coyle nos demonstra advém do seu trabalho etnográfico sobre o talento, realizado um pouco por todo o mundo, em centros de treino de algumas das maiores estrelas do planeta. Coyle chama a esses centros, “hotbeds”, locais dotados de um design e condições específicas, capazes de contribuir para um aperfeiçoamento e aceleramento do processo de formação de talento.

Das hotbeds mencionadas ao longo do livro a primeira foi a que mais me impressionou, por tudo o aquilo em que eu acreditava ter sido posto em causa, mas também por exemplificar na perfeição a base de design conceptual de uma hotbed. Falo dos locais de treino das estrelas mundiais do futebol brasileiro, de Pele ou Zico a Romário ou Robinho. Todos eles começaram a jogar futebol num campo de cimento com metade do tamanho de um campo relvado, com uma bola metade do tamanho e com o dobro do peso de uma de futebol normal, e com equipas de apenas 5 jogadores de cada lado, no fundo aquilo que hoje conhecemos como Futebol de Salão ou Futsal. À primeira vista, nada de especial, mas a realidade é que estes campos mais pequenos, proporcionaram condições para treinos mais intensivos. O espaço reduzido obriga a maiores velocidades de arranque e paragem, a bola pequena e pesada obriga a um maior domínio da mesma, as balizas mais próximas permitem chegar mais vezes perto e treinar mais vezes as situações de golo. Por minuto os jogadores tocam mais 6 vezes na bola do que no futebol de campo, os passes certeiros e o trabalho colaborativo é fundamental. Ou seja, a ideia de que os jogadores brasileiros são treinados na praia é um mito que fica bem nos postais de turismo. Claro que não basta o futebol de salão, ele tem um impacto concreto no domínio da prática intensiva, mas falta o resto, aquilo que Coyle considera ser o código do talento, e de que darei conta a seguir.

"Nenhum tempo mais nenhum espaço é igual a melhores habilidades. O futsal é o nosso laboratório nacional de improvisação." Emilio Miranda, professor da Universidade de São Paulo, a propósito do treino em salão

Coyle identifica várias hotbeds espalhadas pelo planeta, falando das piscinas abandonadas em LA que se transformaram em centros de treino de skaters, do centro de treino russo em que se formou Kournikova e da consequência num número de tenistas russas no WTA, assim como do número de Coreanas no LPGA Tour (Golf), ou ainda do modelo de escola americana KIPP, tocando ligeiramente no fenómeno da Nova Vaga de Cinema Romeno proveniente da Bucharest National University of Drama and Film, ou das estrelas Pop da Disney, etc. E assim a partir destas hotbeds, e de vários outros estudos, Coyle vai dividir o talento, e o livro, em três grandes partes, que considera serem o Código do Talento: “Prática Profunda” -  ”Ignição” - “Mestres de Instrução”. Coyle considera que cada um destes vectores é relevante à sua maneira, mas é da convergência dos três que emerge  a competência. Segundo ele, a sua simples convergência pode em poucos minutos contribuir para construir no sujeito competências que sem os três vectores simultâneos, pode arrastar-se por anos.

Diagrama do Código do Talento, os três elementos base - "Prática Profunda", "Ignição" e "Mestres de Instrução". Pode ver-se como a Deep Practice é destacada como se se tratasse de mielina em formação, camada a camada, em função da quantidade de prática.

VECTOR 1: Prática Profunda (Prática)

Coyle segue aqui trabalhos anteriores de estudos académicos, dando conta do percurso e estudos realizados por Anders Ericsson, uma das maiores autoridades no campo do talento, reconhecido pela teoria das 10 mil horas, e pelo conceito “Deliberate Practice” que Coyle aqui converte em “Deep Practice”. Ericsson define a prática como algo que precisa de ser realizada de modo voluntário para criar competência, já Coyle seguindo as lógicas da produção de mielina, aposta numa ideia de prática em profundidade, de modo a poder gerar mielina. Deste modo Coyle apresenta três regras para realizar prática profunda: Chunk, Repeat e Learn to Feel.

Regra 1: “Chunk”
“Deep practice feels a bit like exploring a dark and unfamiliar room. You start slowly, you bump into furniture, stop, think, and start again. Slowly, and a little painfully, you explore the space over and over, attending to errors, extending your reach into the room a bit farther each time, building a mental map until you can move through it quickly and intuitively.”
A ideia central passa por absorver a totalidade da acção a realizar, e depois quebrá-la em pequenas partes, que podem ser mais facilmente realizadas e apreendidas, no fundo a velha ideia de “baby steps”. Dos vários locais de treino intensivo que Coyle visitou, a mesma prática era repetida,
“First, the participants look at the task as a whole — as one big chunk, the megacircuit. Second, they divide it into its smallest possible chunks. Third, they play with time, slowing the action down, then speeding it up, to learn its inner architecture. People in the hotbeds deep-practice the same way a good movie director approaches a scene—one instant panning back to show the landscape, the next zooming in to examine a bug crawling on a leaf in slo-mo.”
Regra 2: “Repeat”

A repetição é condição essencial para produzir mielina. Vendo pelo lado oposto, a melhor forma de transformar um grande pianista num mau, é impedi-lo de treinar durante um mês. Mas isto não quer dizer que a repetição deva acontecer sem fim, sem descanso nem pausa. Dos estudos de Ericsson os grandes talentos mundiais praticam entre 3 e 5 horas diárias. Mas nas hotbeds visitadas por Coyle os treinos andam sempre abaixo das três horas diárias, para crianças mais novas (6 a 8 anos) 3 a 5 horas semanais é mais do que suficiente. Ou seja, depende muito de se conseguir reunir os três vectores simultaneamente - prática, ignição e mestre.

Regra 3: “Learn to Feel”
“I hate to practice! Hate, hate, hate! So what I did, I forced myself to make it as productive as it could be… You guys have to realize this is top sport. You are athletes. Your playing field is a few inches long, but it still is your field. You need to find a place to stand, know where you are. First, tune your instrument. Then tune your ear… If you hear a string out of tune, it should bother you… It should bother you a lot. That's what you need to feel. What you're really practicing is concentration. It's a feeling.” Skye Carman, concertmaster of the Holland Symphony
Ao longo do trabalho de Coyle, quando questionava as pessoas sobre as sensações que sentiam quando estavam a treinar de forma produtiva, referiam: “Attention; Connect; Build; Whole; Alert; Focus; Mistake; Repeat; Tiring; Edge; Awake.” Uma lista de sentimentos que evoca a ideia de se estar a atingir algo, a caminho de se conseguir algo, uma linguagem própria de montanhistas, descrevendo a sensação incremental, passo a passo. A ideia de esforço para atingir um objetivo concreto, e de se estar muito perto de o conseguir. A ideia de praticar muito não pode ser um mero exercício de repetição e esforço, mas deve ser antes uma busca por atingir algo que ainda não se atingiu, repetindo e iterando,
  1. "Pick a target.
  2. Reach for it.
  3. Evaluate the gap between the target and the reach. 
  4. Return to step one."
Ou seja, como diz Coyle, uma lista de palavras que nunca ouviu nos locais de treino foi - "natural, effortless, routine, automatic" - ou ainda "genius". Não que não existam génios, mas todos os mestres confirmam o mesmo, que eles surgem apenas num ratio de um para um milhão. A generalidade do talento humano é filho do treino, esforço, repetição, e aperfeiçoamento continuado.


VECTOR 2: Ignição (Motivação)

Se o primeiro vector depende exclusivamente do indivíduo já o segundo vector é uma mistura entre o indivíduo e o ambiente, ambos têm que dar para que as coisas funcionem e o talento possa emergir. Ou seja, o indivíduo necessita de estar atento ao mundo que o rodeia, procurar pistas, seguir pistas, auto-motivar-se, construir a sua ideia do mundo, mas para o fazer precisa que o mundo lhe prepare o terreno, construa um ambiente adequado a tal.

Nesse sentido nós, pais, temos trabalhado contra a criação destas condições. Quando acreditámos que o ideal seria garantir as condições óptimas, ou garantir o acesso ao máximo de actividades para que as crianças pudessem escolher o que lhes falava ao coração, estávamos a entrar por um caminho completamente contrário à realidade das necessidades do treino do talento. Sei que custa ouvir isto, porque também me custa a mim, porque é muito difícil aceitar que o caminho para a construção de competências seja penoso e duro, mas é o que é. E é por isso que a prática deliberada, ou em profundidade, exige ignição, “combustível motivacional” como lhe chama Coyle.

Assim quando falamos do futebol no Brasil, do futebol de salão, isso não chega como condição para criar tantos bons jogadores. Existem duas outras condições que são fundamentais na criação de grandes jogadores brasileiros: a pobreza e a dureza das condições de vida. As mesmas que fizeram surgir Kournikova, que fazem surgir grandes violinistas em meios pobres da periferia, ou que fazem surgir grandes visionários da ciência ou construtores de fortunas. As condições de que se parte estão longe daquelas a que se pretende chegar, e é essa distância que dinamiza a força necessária para conquistar terreno. A tenacidade incutida pela dureza dá-lhe capacidade para aguentar o árduo caminho que terá de ser realizado para lá chegar. Ter um instrumento só meu, aceder a uma escola boa sem esforço, ter todo o tempo disponível para treinar, se tudo isto existir à partida, quer dizer que já chegámos a meio do caminho sem termos dado muito de nós, e assim sendo só muito dificilmente se poderá fabricar "combustível" para dar os passos que ainda são necessários dar até se conseguir atingir o talento.

Mas o ambiente é ainda responsável por criar o objectivo último a atingir, porque ninguém caminha por sentir um chamamento esotérico. O ser humano aprende por imitação, segue copiando e imitando. Para isso são precisos exemplos, ídolos, ícones, celebridades, estrelas que nos mostram o caminho, e nos referem o que podemos almejar. São eles que dizem que é possível. É o Cristiano Ronaldo que veio da aldeia mais pobre da Madeira e chegou a melhor Jogador do Mundo, que nos diz que todos podem também conseguir. É a Kournikova que todas as meninas tenistas da Russia querem imitar, ou a Madonna ou Michael Jackson que todos querem seguir. Todas estas pessoas, abrem o caminho para que os outros sigam os seus exemplos. Como se pode ver no atletismo, sempre que alguém quebra um recorde impossível, logo a seguir temos vários atletas a conseguir quebrar esse mesmo recorde. É um fenómeno de imitação, de cópia, “se outro alguém consegue, eu também consigo”.

Antes de avançar, preciso de fazer aqui um parênteses sobre um dos maiores problemas da atualidade, que veio toldar esta formula da imitação. Falo da televisão e revistas do jornalismo cor-de-rosa. Ou ainda dos reality shows, não dos Big Brothers, mas dos concursos de talentos, que têm emergido como cogumelos por aparentarem trazer algo de útil à sociedade. Ora o que todos estes realmente fazem, é destruir tudo aquilo de que falei até aqui. De que é preciso muita prática, muito esforço, muita dedicação para se atingir o auge. Porque estes nos mostram apenas partes da realidade, como faz normalmente o discurso audiovisual. O concurso de talentos não mostra tudo o que deu origem aos indivíduos que nos aparecem pelo ecrã adentro. Vozes são lançadas em programas de televisão como se nunca tivessem praticado em toda a sua vida e que de repente por chegarem à televisão surgem tal qual o cisne que emerge de patinho feio. Ou seja, a televisão vende-se a si própria como caixa mágica capaz de produzir talento, e as pessoas seguem porque querem acreditar que o talento depende de sorte, de ser bonito, de ser famoso, de um concurso!

"Everybody said Jessica [Simpson] was a Texas girl who'd been singing in her church choir. That's ridiculous — that girl worked to become the singer she was. They said [American Idol winner] Kelly Clarkson was a waitress, like she never sang before. Waitress? Excuse me? Kelly Clarkson was a singer — we all knew Kelly Clarkson. She had training, and she worked her tail off like anybody else does. She didn't come from nowhere any more than Jessica came from nowhere. It's not magic, you know." Linda Septien professora de voz
Voltando à ideia da imitação, ela continua sendo central, porque é a partir dela que se constrói a Ignição, ela é central e determinante para o futuro do talento. Como demonstra um excelente estudo de Gary McPherson que procurou perceber o factor que determina a progressão das crianças no estudo de um instrumento musical. McPherson realizou estudos com centenas de crianças que aprendiam instrumento, para perceber porque umas eram melhores que outras, e foi eliminando variáveis - IQ, IE, sensibilidade, capacidades motoras, nível financeiro, etc -. A diferença fez-se notar fortemente apenas quando este lhes lançou uma simples questão, how long do you think you'll play your new instrument?"
"They mostly say Th, I dunno' at first… But then when you keep digging and ask them a few times, eventually they will give you a real solid answer. They have an idea, even then. They've picked up something in their environment that's made them say, yes, that's for me."
As hipóteses de resposta eram: “ao longo deste ano”, “ao “longo da primária”, “até ao liceu”, ”toda a minha vida”. Isto foi condensado em Pequeno, Médio e Grande Comprometimento. Estes dados foram cruzados com o tempo que cada criança praticava por semana  - 20, 45 e 90 minutos por semana. O que daria o gráfico abaixo,

Os alunos quando motivados por um comprometimento de longo termo com o instrumento, conseguem performances 400% superiores aos que apresentam um comprometimento de curto termo.

Ou seja, tendo em conta o mesmo tempo de prática/semana entre crianças, nada além do comprometimento tinha impacto no nível que se atingia de evolução na performance. E quando se juntava o comprometimento de longo termo com a prática mais elevada, a performance disparava para mais de 400% face aos restantes. Ou seja, duas crianças poderiam treinar o mesmo tempo toda a semana, mas aquela que estava profundamente motivada conseguia fazer disparar o rendimento dessa prática. Ou seja, não era a mera repetição, mas aprendizagem profundamente produtiva.
“We instinctively think of each new student as a blank slate, but the ideas they bring to that first lesson are probably far more important than anything a teacher can do, or any amount of practice. It’s all about their perception of self. At some point very early on they had a crystalizing experience that brings the idea to the fore, that says, ‘I am a musician’. That idea is like a snowball rolling downhill.”
Algo que nos deve fazer refletir enquanto pais, mas também enquanto professores. Ensinar alguém que não tem uma motivação interna, pode muito bem não representar mais do que o velho ditado “chover no molhado”. Por isso continuo a defender as escolas técnico-profissionais, profissionalizantes, vocacionais, o que lhe queiram chamar. Nada pode ser pior do que manter uma criança fechada num espaço durante 18 anos a fazer de conta que aprende. Esta é também a razão pela qual digo a todos os meus mestrandos e doutorandos que uma tese com valor, só se pode fazer sobre algo que se ama, de outra forma é tempo perdido, para eles e para mim.


VECTOR 3: Mestres de Instrução

Apesar de tudo o que se disse até aqui, do primeiro vector fundamentalmente dependente do indivíduo (interno), do segundo vector dependente deste e do meio-ambiente (interno-externo), existe um terceiro vector extremamente relevante e totalmente dependente do ambiente (externo). Falo do professor ou simplesmente instructor (coach). Aquela figura que por vezes é tida como secundária, como quase irrelevante, que qualquer um pode fazer! Aliás de tanto se acreditar na sua irrelevância nos últimos anos começámos a pensar que seria possível substituir o mesmo por meros jogos de computador, ou criar cursos para milhares de alunos em simultâneo.

Coyle abre o capítulo com uma ideia muito atual nomeadamente no campo do treino animal, os Whisperers. E é verdade que costumamos olhar para estas pessoas como dotadas de um qualquer dom mágico, porque capazes de comunicar numa linguagem indecifrável para nós, normalmente a do animal. O que não anda muito longe da realidade.

Na realidade o velho provérbio, “quem não sabe fazer, ensina” é meia verdade, porque só quem já soube fazer, e já não faz, pode ensinar. Normalmente quem ensina são pessoas que por algum motivo pararam de o fazer, e se dedicaram desconstruir os processos de fazer, a compreender o detalhe e as minudências, a ponderar os prós e os contras, a encontrar os defeitos e os atalhos, a definir as metas e os objectivos. Se dedicaram a criar uma linguagem, o “whispering”, capaz de colocar em palavras entendíveis por quem faz, os processos para atingir a melhoria. Quando lá atrás se disse que temos de, escolher um objectivo, trabalhar para o atingir e avaliar a diferença entre o que se atingiu e o que falta, é preciso compreender aquilo de que falamos. É preciso perceber que objectivo nos falta atingir, compreender quais devemos percorrer em primeiro lugar, compreender porque não conseguimos ainda lá chegar, compreender que treinos podemos realizar em repetição, para aperfeiçoar e chegar a ser aquele modelo abstracto que temos em mente. E é isso que faz o professor, o coach, comunica e guia, orienta e claro motiva. Mas é ele quem desconstrói as etapas a realizar por nós, que nos mostra os passos que já demos, e aqueles que ainda nos faltam dar, que nos mostra por onde podemos seguir para conseguir dar os passos em falta, e mais importante de tudo, que nos faz ver que além do objectivo final, existem múltiplos objectivos intermédios que precisamos de atingir para chegar ao que tanto desejamos.

A propósito dos treinadores Coyle fala de um contraste muito interessante entre as certezas e o conhecimento em profundidade que estes detêm sobre os detalhes da arte em si, e as dúvidas que estes demonstram sobre o todo, sobre a capacidade um indivíduo pegar em tudo o que sabe e ir além, de uma equipa de estrelas se superar. Na verdade, isto faz todo o sentido, e demonstra apenas a humildade imprescindível a qualquer professor que se reflecte no simples facto de que por mais que se faça, a última palavra depende sempre da capacidade interna do indivíduo, o coach é apenas um dos vectores como já vimos. Ele molda, ele ajuda a crescer, mas é o indivíduo quem decide, quem a determinada altura tem de tomar em mãos o seu caminho.

Deixo um estudo empírico sobre o treinador de basquete, John Wooden, considerado o melhor treinador da história da NCAA, realizado por dois psicólogos educacionais, Ron Gallimore e Roland Tharp que procurava compreender a sua fórmula de sucesso.
“practice began… Wooden didn't give speeches. He didn't do chalk talks. He didn't dole out punishment laps or praise. In all, he didn't sound or act like any coach they'd ever encountered… Wooden ran an intense whirligig of five to fifteen-minute drills, issuing a rapid-fire stream of words all the while. The interesting part was the content of those words… teaching utterances or comments were short, punctuated, and numerous. There were no lectures, no extended harangues ... he rarely spoke longer than twenty seconds… Here are some of Wooden's more long-winded "speeches":

"Take the ball softly; you're receiving a pass, not intercepting it."
"Do some dribbling between shots."
"Crisp passes, really snap them. Good, Richard—that's just what I want."
"Hard, driving, quick steps."

Gallimore and Tharp were confused… This was great coaching?… As weeks and months went by, an ember of insight began to glow… it came mostly from the data they collected in their notebooks. Gallimore and Tharp recorded and coded 2,326 discrete acts of teaching. Of them, a mere 6.9 percent were compliments. Only 6.6 percent were expressions of displeasure. But 75 percent were pure information:

What to do, how to do it, when to intensify an activity.

One of Wooden's most frequent forms of teaching was a three-part instruction where he modeled the right way to do something, showed the incorrect way, and then remodeled the right way, a sequence that appeared in Gallimore and Tharp's notes as M+, M-, M+… Wooden's demonstrations rarely take longer than three seconds, but are of such clarity that they leave an image in memory much like a textbook sketch… The information didn't slow down the practice; to the contrary, Wooden combined it with something he called "mental and emotional conditioning," which basically amounted to everyone running harder than they did in games, all the time."
O coach ou mestre é isto, alguém que dá feedback muito objectivo e muito concreto sobre cada uma das acções, alguém que indica se estamos no caminho correcto, e se não estamos explica como podemos retomar esse caminho. A construção de talento não acontece no vazio, por mais motivação que se detenha, aprendemos com os erros mas precisamos de saber como fazer na vez seguinte. Podemos até fazê-lo a solo, por tentativa e erro, mas isto vai demorar muito mais tempo, correndo o risco sério de destruir o combustível motivacional que se detém. A motivação é algo frágil que precisa de ser continuamente alimentada, e um desses alimentos é o sentimento de progressão, se nos sentirmos a encalhar mais facilmente entraremos na espiral de desistência.


Para concluir, Coyle tudo faz ao longo deste livro para demonstrar que o talento é algo que se constrói, algo que se produz, algo que todos podem atingir. O talento não é dom, não nasce, não é mágico, nem existe sob a forma de pó de estrelas. Ou seja, a velha discussão Natureza ou Cultura é aqui bem evidenciada, e fica claro que apesar da natureza nos criar diferentes, podemos cada um gerar os nossos próprios talentos e destacarmo-nos à nossa maneira. Ainda assim Coyle sabe, e todos sabemos, que de tempos a tempos vão surgindo indivíduos fora do normal, os que apelidamos de génios, o tal um num milhão, mas mesmo esses se não tiverem a sorte de ter em seu redor a triangulação - Prática, Motivação e Mestres - dificilmente emergirão.


Epílogo

No final do livro Coyle tenta aplicar algumas destas ideias à Educação, e na verdade podemos questionar-nos, porque sabendo a fórmula isto não funciona nas nossas escolas? Não me julgo detentor de respostas, mas ao fim de alguns anos a trabalhar como professor e a estudar este assunto, julgo que o centro nevrálgico acaba por estar na motivação, na Ignição. Por isso falei lá em cima que acredito na escola vocacional. Julgo que tudo neste mundo é possível para todos quando estes estão motivados, sem essa motivação nada se pode fazer. E se é verdade que o sistema escolar americano KIPP tem conseguido enormes resultados, para mim não restam dúvidas que se devem ao meio social em que se inserem, um pouco como acontece com o futebol no Brasil. A filtragem para essas escolas acontece de uma forma natural, sendo procuradas por um grupo de pessoas muito específico, pais e filhos fortemente motivados pela ideia de que para sair do ciclo de pobreza é preciso chegar à Universidade. Daí que as ideias de mais horas de escola, mais dias por semana, menos férias, mais exames e testes, etc. funcionem muito bem, porque tudo isso é apenas mais combustível para manter a motivação acesa.

Mas esta abordagem se aplicada a crianças de classe média, com pais com estudos superiores em casa, ou com acesso a uma boa qualidade de vida, simplesmente não funcionará. E é por isso que numa grande maioria das escolas, um pouco por todo o mundo, os professores em vez de funcionarem como instrutores de cada área de conhecimento, têm de funcionar como psicólogos, produtores de motivação, para manter os alunos interessados em algo que na verdade não lhes interessa, não os motiva, não lhes acende a combustão. E desiludam-se aqueles que pensam que para produzir essa combustão basta adicionar tecnologias ou videojogos à equação...

A questão que temos então de nos colocar neste momento é saber como orientar para a motivação, e não tanto como motivar. Este é um assunto que Ken Robinson tenta trabalhar em "The Element: How Finding Your Passion Changes Everything" (2009) mas que é complexo e de difícil resposta. A ideia central passa por estar atento, às crianças e pessoas, e contribuir para que estas possam auto-descobrir-se, mas a linha entre o ajudar e o formatar é muito ténue. E o risco é elevado, já que quando a pessoa se sente empurrada, pode sentir-se acossada, com a liberdade individual posta em causa, e pode reagir pela negação. A motivação para funcionar com toda a sua combustão, tem de ser algo interno, algo muito próprio, muito individual, só nosso. Algo que outros seguem, mas que apenas alguns conseguem seguir tanto como nós, dá-nos prazer ter uma área em que nos destacamos dos demais, em que temos ídolos, mas no nosso contexto somos nós os melhores naquela atividade. Não é uma questão competitiva com o mundo, é antes uma afirmação da nossa identidade, do nosso ser perante os outros.


Links de interesse
“Outliers” de Malcolm Gladwell, in Virtual Illusion
"The Element" de Ken Robinson, in Virtual Illusion
"O Talento é Sobrestimado", in Virtual Illusion

domingo, junho 01, 2014

“Ida” (2013), imagens pintadas

Não tenho muito para dizer sobre “Ida” (2013) de Pawel Pawlikowski, porque as ideias que sinto são audiovisuais, é cinema no seu estado mais puro. Como tal, escolha as palavras que escolher nunca vos poderei passar o sentimento de experienciar “Ida”. É preciso ver, ouvir e deixar-se tocar, "Ida" é uma espécie de sopro compacto de emoções estéticas.




O centro das atenções está na cinematografia, que é absolutamente espantosa, não por seguir os cânones, mas por ser tecnicamente tão cuidada e tão coerente com o todo. Várias nuances retiram a abordagem do cânone atual, o uso do quadro 1:33 que praticamente desapareceu, e depois toda a composição visual em antítese com tudo aquilo que se ensina nas escolas de cinema. Grande parte do filme é passado com os personagens colados ao fundo da imagem, ficando um enorme espaço vazio por cima das suas cabeças que contribui para a criação de um peso imenso, intensificando o drama da narrativa que se vai desenrolando. Em termos plásticos a técnica de preto e branco é cristalina, sem cristalizar os contrastes, que acabam por se esbater através de difusos cinzas, criando a sensação de imagem pintada, em vez de fotografada.
"There were no cuts. Each scene was done mainly from one angle. We didn’t rearrange lights for each scene…

The general thing is to take things away. With production designers, the obvious thing to do is to create a realistic environment with bits and pieces from the period. And what I was doing was constantly taking away and leaving only a limited number of objects in the shot, which would carry more force. So the image isn’t an imitation of reality, but it’s a reality in its own right. It works through suggestion rather than replicating reality…

I would cut out images that seemed too beautiful. I tried hard for the images not to feel like beautiful images in their own right. They would never be divorced from the emotional content and the actors’ presence, from the dramatic subtext of the scene. I get annoyed by pretty photography that's in love with itself, that doesn't point beyond itself…" 
Pawel Pawlikowski
Muito interessante saber que o cinematógrafo original se demitiu do filme, por não aceitar a abordagem visual pouco ortodoxa de Pawlikowski. Desse modo a cinematografia acabou por ficar a cargo do operador de câmara, Lukasz Zal, que por não ter nada a perder aceitou as ideias do realizador.

Pawlikowski não refere influências directas, mas assume ver regularmente 8 1/2 (1963) de Fellini, daí que o entenda e siga tão bem, já que é também dos poucos filmes que revisito com alguma regularidade, acima de tudo pela cinematografia, que parece claramente inspirar Pawlikowski. E sigo-o mais ainda, no modo como vê o cinema da atualidade e se pode ver no parágrafo abaixo, em que expressa uma certa desilusão, algo que ainda há poucas semanas aqui expressei também.
“The real inspiration for how this film looks was my impatience with cinema, where the vein of cinema is going. I wanted to make an anti-cinema film where there are no pointless camera moves, no pointless close-ups. I’m not emotionally excited by the power of cinema’s tricks anymore. Maybe it’s my personal midlife crisis. I’d love to see something that was calm and meditative, where you suggest more than show, where each kind of shot has some kind of density and tension, not just in the drama and the acting, but in the visuals, and where acting and image and sound are all part of the same thing. When I watch most films, with some exception, I always ask myself: “Why is the camera moving? Why is there a close-up now? Why does this have to be handheld now?” It was a way of purifying, getting rid of habits, and doing something really simply. Looking at a picture, contemplating it, while not really reading the emotional charge. But staying away from the kind of cinema rhetoric that I’m finding myself more and more impatient with.” Pawel Pawlikowski