domingo, maio 22, 2016

“Humans Are Underrated" (2015)

Depois de um livro que tinha gostado bastante, “Talent is Overrated” (2008), Colvin acaba desiludindo fortemente com esta espécie de sucessor, “Humans Are Underrated”. Apesar de seguir o mesmo estilo gladwelliano que tinha seguido antes, arrisca demasiado e espalha-se completamente, ou então, o facto de eu estar muito mais por dentro desta matéria, permitiu-me perceber o quanto esta fórmula de escrita pseudo-científica pode fazer mais mal do que bem à divulgação científica.

Todo o livro assenta num conjunto de generalizações destiladas a partir de meia-dúzia de estudos, escolhidos apenas por suportarem as ideias do que se pretende veicular, uma fórmula iniciada por Malcolm Gladwell (daí o “gladwelliano”). São imensos os estudos — de sociologia, psicologia, psicologia social, economia, etc. — usados de forma isolada, sem contexto nem qualquer outro suporte, para se especular sobre o futuro, cometendo assim não apenas o erro da generalização dos pequenos estudos mas ainda exponenciando todo esse erro por meio da extrapolação realizada no tempo.

Colvin, seguindo a linha que tinha desenhado no seu livro anterior, tenta encontrar nos humanos, não aquilo que os separa das máquinas, mas aquilo que os pode vir a separar. Pelo meio decide assumir um recorte sem explicar porquê, que as máquinas nunca poderão vir a ser semelhantes a nós, e que por isso não precisa de se preocupar com essa questão. Verdade que facilita o seu próprio trabalho, especular apenas sobre máquinas que não se podem confundir com os humanos, contudo fica-se com uma interrogação entrecortada, e sem nexo.

A proposta essencial de Colvin assenta num conjunto de conceitos chave amplamente discutidos por toda a comunidade científica, e mesmo empresarial, ao longo de toda a última década, ficando nós a pensar qual o objetivo do livro, bastaria um artigo de resenha. Porque para Colvin tudo assenta na Empatia, é ela, e só ela que nos poderá ajudar. Questiono-me o que dizer dos robôs que têm vindo a ser desenvolvidos com estes objetivos e com algum sucesso, na verdade o estabelecimento de laços de empatia com máquinas não é assim tão complexo, e é algo que se vem discutindo desde os anos 1990 com o livro “Media Equation” de Clifford Nass e Byron Reeves.

Depois disso vem a Criatividade e o Storytelling, confessando eu aqui que já não posso mais com toda esta loucura em redor destes dois conceitos. Sim são essenciais, mas se todos já sabemos disso dispensava-se bem o enchimento de páginas e páginas. A última parte volta à empatia, mas agora para discutir a elevação da mulher a sexo forte, pela razão do seu superior poder de empatia, que diga-se não se distingue entre mulher e homem, mas entre testosterona e oxitocina, e Colvin acaba por o admitir. Mas não deixa de ser ingénuo da parte do autor, saltar para a conclusão de que no futuro não precisaremos de mais engenheiros, e as nossas mais valias irão resumir-se aos relacionamentos, quando por muito que as máquinas avancem, elas precisarão sempre de nós para nos compreenderem melhor, e darem-nos aquilo de que precisamos.

E com isto chego ao final do que vale a pena neste livro, das conclusões a que cheguei logo nos primeiros capítulos mas que Colvin apenas toca levemente quase no final, e tem que ver com a nossa relação com a Arte e a Máquina. Refletindo sobre aquilo que nos move enquanto apreciadores de arte, não são as obras, mas os criadores das mesmas. Não quero saber de um desenho num guardanapo até que me digam que foi Picasso que o desenhou, ou que foi um familiar já desaparecido que o concluiu antes de morrer. O que nos interessa na arte é aquilo que o Outro tem para dizer através da mesma, tudo o que enquadra um artefacto assenta na externalização de ideias do seu criador.

Será muito difícil algum dia convencer as pessoas a interessarem-se pelas ideias de uma máquina, sendo ela tão diferente, não tendo as mesmas necessidades que nós (comida, sexo, medo,...) ou não subsistindo o mesmo tempo de vida que nós (a imortalidade). Como diz Colvin, pode até ser interessante a música criada por máquinas mas para usar como música ambiente no shopping ou no elevador, já que nunca iria deslocar-me à Casa da Música para ouvir um concerto composto e interpretado por uma máquina, menos ainda ver um filme, ou ler um livro criados por esta. Em certa medida isto é já o que acontece entre humanos com culturas demasiado distantes, em que a ausência de conhecimento dos códigos culturais nos impede de compreender o que está em questão. No caso da máquina, a alternativa será fazê-la falar como humano, e isso ainda fará pior, pois no momento em que o público perceba que não era um humano o autor do livro ou filme, vai sentir-se totalmente defraudado.

Dito isto, fica evidente a região de exclusão entre máquinas e homens, a qual Colvin peca por trabalhar pouco, apesar de dedicar capítulos inteiros à criatividade e ao storytelling, e que tem que ver com a comunicação humana, aquilo que transmitimos de uns para os outros, e acaba por muitas vezes redundar na produção de obras artísticas, de menor ou maior qualidade, mas por sua vez contendo expressões pessoais de cada um de nós que interessam aos demais, porque nos ajudam a compreender o mundo à nossa volta já que provêm de pessoas com os mesmos problemas que nós.

Filme sobre o poder da interpretação, que dá conta da imposição da expressividade pessoal sobre aquilo que se diz, contaminando tudo o que se diz com o sentir pessoal de cada um.

É um livro que pode fazer-nos pensar um pouco sobre o assunto, mas pouco. Para dizer o que diz, um artigo na revista Fortune, que é onde costuma escrever, tinha chegado perfeitamente, e na verdade esse artigo já existe, leiam-no em vez do livro ficarão a saber o mesmo.
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