sábado, março 26, 2016

"O leilão do lote 49"

Queria ler Pynchon, mas sabendo da sua tendência pós-moderna para a fragmentação narrativa, resolvi começar por um dos seus livros menos fragmentados e mais curtos. “O leilão do lote 49” tem apenas 136 páginas, e apesar de procurar constantemente furtar-se à linearidade, mantém uma linha coesa de enredo do início ao fim. As distorções narrativas que Pynchon vai imprimindo surgem mais pela via do constante lançamento de novas questões, às quais não vai dando respostas, perdendo-se assim a tão desejada estrutura de causa e efeito que nos apazigua na leitura do romance tradicional.


Pynchon impressiona, apresenta todo um arsenal formal e de ideias que rapidamente tomam conta de nós, arrebatando-nos para o seu universo. A escrita, apesar de prosa e contadora de histórias, é entrosada e elaborada numa forma a que apenas se costuma aceder na poesia. Aliás, as próprias ideias, por serem trabalhadas num constante confronto entre real e ficcional, parecem muitas vezes mais apropriadas ao poema do que à prosa, redigidas como comédia negra parecem estar constantemente no reino do irreal e do fantasioso.

Se admirei todo este labor, puro virtuosismo técnico, de Pynchon, o objeto final deixa-me um pouco indiferente. Não que precise de um sentido para o que se diz ou procura aludir no livro, mas acredito que assim aconteceu pelo tom satírico e, sim, de algum modo inconsequente do texto. Aliás, enquanto lia recordava “Piada Infinita” (DFW) e “Ulisses” (Joyce), ambos trabalhos imensamente fragmentados, ambos também profundamente satíricos, e ambos provocam reações adversas no meu sentir. No caso de “Piada Infinita” consegui ultrapassar essa minha reação instintiva, porque a sátira é profundamente justificada pelo tema nuclear da obra, contudo “Ulisses” foi um dos poucos livros nos últimos anos que não consegui terminar, lá voltarei, só não sei quando.

Logo e acrónimo centrais no enredo do texto, tal como a organização Tristero

Dito isto, gostei de conhecer Pynchon, mas não sei quando aqui voltarei, muito provavelmente apenas depois de ter ultrapassado Ulisses.
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