domingo, julho 05, 2015

"To Kill a Mockingbird" (1960)

Em português, “Mataram a Cotovia”, um clássico da literatura escrito em 1960, por Harper Lee, colega de infância de Truman Capote, sendo este o seu único livro publicado até à data. Espera-se este mês, ao fim de 55 anos, o seu segundo romance.

"To Kill a Mockingbird" (1960) Harper Lee

Todo o clássico encerra mais do que aquilo que nos é dado a sorver à sua superfície, seja na história que nos conta, seja no modo como usa o texto para nos contar, embora o clássico, para o ser, precise de se distinguir em toda a sua plenitude, e este é um desses clássicos.

Começando pela ideia que Harper Lee desejava expressar, a história criada para a fazer passar. O livro é pequeno, mas é o suficiente para entrançar e tratar múltiplos temas, não apenas complexos, como imensamente pesados, tais como o racismo, o incesto, a violação e o alcoolismo por um lado, e no seu contra-peso, a inocência e a dignidade. Todos estes temas são tratados de forma imensamente subtil, por vezes quase nos deixando na dúvida, se ela está mesmo a dizer, o que está a dizer. Tudo assuntos que toda a criança precisa de esgrimir consigo própria, e que qualquer adulto tem dificuldade em abordar e tratar, e também porque não basta falar, é preciso exemplificar, e é preciso ir trabalhando no tempo. Ter um livro que o faz desta forma, tão subtil mas ao mesmo tempo tão directa, numa linguagem das próprias crianças e por meio de uma história que as envolve, conseguindo assim desenvolver o interesse na compreensão dos porquês, é algo que só a arte pode oferecer, e por isso mesmo não admira que a obra seja de leitura obrigatória nas escolas anglo-saxónicas há décadas. Sinto que nos falta, em português, algo a este nível, não porque não se possa ler esta obra por cá, mas para além de distar no tempo, dista também geograficamente, decorrendo num lugar pitoresco do sul dos EUA, envolvendo toda uma cultura muito particular.

Sobre a forma, ou o modo como Lee conta a sua história, podemos começar por dizer desde logo que os vários episódios do seu relato, apesar de se apartarem no tempo e espaço, estão tão bem cozidos que em momento algum sentimos a transição entres eles. Lee constrói uma malha de eventos tão clara e credível, com personagens tão sólidos e empáticos, que nos vão atraindo para junto de si, fazendo com que cada evento não seja um momento, mas antes façam parte de um fluxo de realidade, para o qual fomos totalmente transportámos. Claro que tudo isto é imensamente suportado pela característica mais saliente da obra, a voz do narrador, que é servida sempre na primeira-pessoa, por uma mesma pessoa, mas em idades distintas, desde menina (6 anos) até à idade adulta. A menina vivendo o presente que se relata, fala com a linguagem da sua idade, e assume os olhos da inocência, a adulta, que recorda o passado, perscruta as diferentes camadas de significado de cada um desses eventos, desvelando-lhes as múltiplas e complexas intenções humanas. E é deste choque entre as diferentes capacidades de interpretação, fruto das diferentes idades, que emergem os momentos mais belos do livro, tornando a obra num clássico obrigatório.
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