domingo, maio 24, 2015

Em Busca do Tempo Perdido - Volume V

Depois de no volume anterior Proust nos ter torrado a paciência com a 'snoberia' social, neste volume afunda totalmente em si, arrastando-nos para o interior de si. Por um fluxo de consciência escrito, abre-nos um acesso directo até à sua não-consciência. Temos quase todo o livro dedicado às interrogações de Marcel, a propósito do seu amor/ciúme (chegando ao sadismo) por Albertine, que passa todo o livro "prisioneira" em casa deste. Contudo, Proust consegue fazer deste quinto volume o mais agitado, criando mesmo verdadeiras sequências de suspense — gerando expectativa sobre o futuro de Charlus, ou sobre o futuro de Albertine — houve várias partes do livro em que não o conseguia pousar, as páginas sucediam-se e eu sentia a ânsia por saber o que ia acontecer aos personagens.

Em Busca do Tempo Perdido - Volume V - "A Prisioneira"

Uma das coisas mais relevantes em Proust, e que faz dele um dos mais importantes escritores de sempre, está no modo como ele produz essa ligação entre o não-consciente e o consciente, externalizando o pensamento por via do texto, para se dar a nós (para compreender melhor a ideia de consciência recomendo a leitura de um texto anterior). Não se trata de simplesmente descrever minuciosamente os estados de alma e os sentires, é verdade que Proust perscruta dentro de si de forma profunda e hábil, mas mais hábil e dotado é ainda na arte de transformar ideias mentais em palavras e frases.
What compels my admiration for M. Proust’s work is that it is great art based on analysis. . . . I don’t think there is in [all] creative literature an example of power of analysis such as this.” — Joseph Conrad
Na semana passada lia num blog, um comentário a propósito da nova geração, incapaz de descrever o real sem recorrer a expressões “tipo isto“, “tipo aquilo”, “a coisa”. Lia também, numa abordagem distinta, algumas ideias sobre a eliminação de palavras supérfluas para uma comunicação de ideias mais concreta. E lendo Proust, está ali tudo, uma enorme riqueza de vocabulário aliada a um virtuosismo na composição de ideias.

Sobre este ponto, que não se diga que as crianças não aprendem porque não se lhes explica, porque não se fala com elas. Esta capacidade de Proust, é verdade que desenvolvida a um ponto extremo, difícil de igualar, se existe, foi trabalhada por si, por duas formas apenas, a leitura e a escrita. Acredito que ajudou, como com muitos outros escritores, o facto de estar doente e recluso em casa que acabaria por lhe dar todo o tempo necessário à leitura. Não existe outra forma de desenvolver a externalização do pensamento que não seja  através da leitura e escrita. Ler para construir uma bagagem de vocabulário, de composição e potencial gramatical. Escrever para se construir o veio que conduz o pensamento do não-consciente ao consciente.
"Foi efectivamente uma morta que vi quando depois entrei no quarto dela. Adormecera logo que se deitara; os lençóis enrolados no corpo como um sudário haviam tomado, nas suas belas pregas, uma rigidez de pedra. Dir-se-ia que, como em certos Juízos Finais da Idade Média, apenas a cabeça surgia fora do túmulo, esperando no seu sono pela trombeta do Arcanjo. Aquela cabeça fora surpreendida pelo sono quase caída para trás, com o cabelo hirsuto. E ao ver aquele corpo insignificante ali deitado, perguntava a mim mesmo que tábua de logaritmos constituiria ele para que todas as acções em que pudesse ter estado envolvido, desde um gesto do cotovelo até um roçagar de vestido, pudessem, prolongadas até ao infinito de todos os pontos que ocupara no espaço e no tempo, e de vez em quando bruscamente revivificadas na minha memória, causar-me angústias tão dolorosas, e que porém eu sabia serem determinadas por movimentos, por desejos dela que, cinco anos antes, ou cinco anos depois, numa outra qualquer, ou nela própria, tão indiferentes me teriam sido. Era uma mentira, mas para a qual eu não tinha a coragem de procurar outra solução que não fosse a minha morte." (p.352)
Neste livro, e como já vem sendo hábito nos livros anteriores, o melhor fica guardado para a última parte, momento em que Marcel 'estica a corda' no relacionamento com Albertine, para descobrir mentiras que até aqui tinham feito parte da paisagem do livro como verdades. Já nas derradeiras linhas, também mais uma vez, Proust abre o motivo para o livro seguinte, deixando-nos ansiosos por prosseguir a leitura, ainda mais agora que já só faltam 2 volumes.


[Marcel Proust, (1923), “Em Busca do Tempo Perdido - Volume V - A Prisioneira”, Relógio D'Água, ISBN 9789727087792, trad. Pedro Tamen, 2004, p. 418]

Ler também
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume I
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume II
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume III
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume IV
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume V
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume VI
"Em Busca do Tempo Perdido"- Volume VII
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