quarta-feira, novembro 27, 2013

Somos animais sociais, antes de sermos racionais

“The Social Animal: The Hidden Sources of Love, Character, and Achievement” (2011) de David Brooks é um livro sobre a revolução científica que decorre há quase duas décadas na ciência, e que procura dar conta da importância dos aspectos sociais e emocionais dos indivíduos, alertando para o enviesamento que a sociedade comete quando apenas valoriza os aspectos da racionalidade.


Brooks é um jornalista, e colunista de política do NYT, não é um académico. Este seu livro é um trabalho de reflexão que à semelhança de Malcolm Gladwell, e outros, se serve de resultados de estudos académicos para desbravar alguns caminhos que preocupam a sociedade na atualidade. Brooks é um divulgador, é alguém que escreve bem e torna o difícil em algo fácil de ler e compreender. Assim para apresentar alguns dos avanços na ciência atual, nomeadamente das neurociências e ciências sociais, Brooks criou dois personagens fictícios que acompanha desde que nascem até que se reformam, ao longo do livro. Deste modo cria a metáfora perfeita para que o leitor se identifique e aproxime de cada um dos pontos em discussão, quase não se apercebendo que a história daquele casal é apenas o meio escolhido pelo autor para transmitir factos e reflexões sobre algo maior.

O livro é muito fluído, e de rápida leitura, ainda assim nem sempre bem conseguido. Existem partes em que se sente claramente o despejar de dados e estudos, por outro lado noutras partes sente-se que os personagens são meros fantoches para fazer avançar os dados que se pretende. Ainda assim em termos de storytelling Brooks consegue um trabalho de excelência, nomeadamente a parte final do livro, quando já estamos tão próximos daqueles personagens, que mais parecem sermos nós próprios ali retratados, somos levados e conduzidos por toda uma força emocional e dramática muito bem executada pelo autor. Dá vontade reler a parte final e saborear.

Aliás, dividindo o livro em três partes, temos uma primeira expositiva do que interessa à discussão, onde percebemos do que se está a falar e de um modo interessante. Depois temos uma segunda de desenvolvimentos e passagem de informação mais mediana, e que podemos encontrar em outros livros mais bem trabalhado e com maior conhecimento de causa (ex. Kanehamn, 2011). Finalmente a terceira parte arranca deixando para trás o carácter de divulgação para nos levar totalmente adentro do drama e novelo do enredo. Fica aqui um dos primeiros parágrafos que introduz ao que vem Brooks,
“We have inherited an image of ourselves as Homo sapiens, as thinking individuals separated from the other animals because of our superior power of reason. This is mankind as Rodin’s thinker—chin on fist, cogitating alone and deeply. In fact, we are separated from the other animals because we have phenomenal social skills that enable us to teach, learn, sympathize, emote, and build cultures, institutions, and the complex mental scaffolding of civilizations. Who are we? We are like spiritual Grand Central stations. We are junctions where millions of sensations, emotions, and signals interpenetrate every second. We are communications centers, and through some process we are not close to understanding, we have the ability to partially govern this traffic—to shift attention from one thing to another, to choose and commit. We become fully ourselves only through the ever-richening interplay of our networks. We seek, more than anything else, to establish deeper and more complete connections.” (p.12)
Aliás neste sentido, existe um parágrafo no final desta primeira parte do livro a propósito da educação e das escolas, que me parece fundamental referir aqui, e partilhar. Aliás partilhei-no facebook assim que o li, e partilho-o de novo porque nunca é demais repetir. A ideia de que a escola é o centro da inteligência, dos exames, do estudo, dos livros, do aprender factos é aqui colocada em cheque, e exige-se de nós todo um outro posicionamento face ao que a escola se supõe ser,
"high school was structured like a brain. There was an executive function—in this case, the principal and the rest of the administrators—who operated under the illusion that they ran the school. But down below, amidst the lockers and in the hallways, the real work of the organism took place—the exchange of notes, saliva, crushes, rejections, friendships, feuds, and gossip. There were about 1,000 students and therefore roughly 1,000 x 1,000 relationships, the real substance of high-school life.
The people in the executive suites believed that the school existed to fulfill some socially productive process of information transmission—usually involving science projects on poster boards. But in reality, of course, high school is a machine for social sorting. The purpose of high school is to give young people a sense of where they fit into the social structure. " (p.85)
Brooks define assim a escola e vai mais longe acusando a política e os responsáveis de nunca terem verdadeiramente procurado entender o que é o ser-humano, olhando apenas às métricas e quantificações para desenhar e aplicar leis,
“Since 1983 we’ve reformed the education system again and again, yet more than a quarter of high-school students drop out, even though all rational incentives tell them not to. We’ve tried to close the gap between white and black achievement, but have failed. We’ve spent a generation enrolling more young people in college without understanding why so many don’t graduate.

The failures have been marked by a single feature: Reliance on an overly simplistic view of human nature. Many of these policies were based on the shallow social-science model of human behavior. Many of the policies were proposed by wonks who are comfortable only with traits and correlations that can be measured and quantified. They were passed through legislative committees that are as capable of speaking about the deep wellsprings of human action as they are of speaking in ancient Aramaic. They were executed by officials that have only the most superficial grasp of what is immovable and bent about human beings. So of course they failed. And they will continue to fail unless the new knowledge about our true makeup is integrated more fully into the world of public policy, unless the enchanted story is told along with the prosaic one.” (p.10)
E é exactamente isto que Brooks se propõe fazer com este livro, ajudar a re-contar a história daquilo que somos, sob ângulos cientificamente informados. Apesar de muito daquilo que é dito aqui poder ser encontrado em vários livros recentes, é importante continuar a batalhar nesse sentido, a discutir o nosso interior, para que não se fixem os objectivos das sociedades humanas apenas sobre aquilo que é exteriorizável e quantificável.
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