quarta-feira, fevereiro 27, 2013

Programação sim, mas não só

Esta semana chega-nos uma curta da CODE.org, What Most Schools Don't Teach, com depoimentos de Bill Gates, Mark Zuckerberg, Gabe Newell, Drew Houston em conjunto com citações de Steve Jobs e Mike Bloomberg pondo a programação num verdadeiro pedestal. Sou um grande defensor do ensino da programação nas escolas, mas é preciso alguma calma com toda esta euforia. Ainda há poucas semanas tínhamos visto a TED Talk Let's teach kids to code do Mitch Resnick. Utilizar um computador criativamente não se faz apenas programando. Uma grande parte de toda a programação - tempo e recursos - é dedicada a criar interfaces e sistemas que qualquer ser humano possa entender. Não faz sentido pensar que todos precisam de saber programar, para se poder criar. Aliás este entusiasmo vai no sentido do que ainda há dias aqui falava sobre o facto de não ser porque agora todos podem criar filmes, que vamos ter melhores filmes. Percebo que se parte do zero e por isso é preciso aliciar, mas falar em superpowers não é um pouco demais?!


Quanto aos benefícios da aprendizagem da programação, esta pode ser tão benéfica quanto estudar filosofia, porque aquilo que está por detrás da base da algoritmia é o pensamento lógico que tem por base a filosofia evoluído depois com o pensamento matemático. Em termos de benefícios cognitivos, aprender a programar pode ser tão bom como aprender a tocar um instrumento musical (Steele et al, 2013), e sabemos disto há algum tempo, mas nem por isso lhe temos dedicado a devida atenção. Aprender a programar não tem de ser obrigatoriamente mais importante do que aprender a ler uma pauta, do que aprender a criar e a interpretar artefactos audiovisuais, do que aprender retórica, ou do que aprender uma segunda língua estrangeira.

Dizer que todos devem aprender a programar porque o futuro do emprego está aí é uma falácia. Obviamente que precisamos de mais programadores, mas nem por isso vamos precisar de menos criadores de literatura, de filmes, de jogos. Programar é apenas um dos muitos acto criativos que podemos desenvolver, mas não é o único, e muito menos pode existir sem os outros. Estão a imaginar a plataforma YouTube sem quem criasse as imagens em movimento que todos os dias ali são vistas por milhões? Ou o iTunes sem quem criasse música? Ou o Kindle sem quem criasse literatura?




Agora se me dizem que se deveria ensinar nas escolas, sim sem dúvida alguma. As disciplinas de TIC deveriam começar por aqui, e não por ensinar Word ou Dreamweaver. Cada vez teremos mais plataformas facilitadoras da entrada no mundo do publishing online. A essência das tecnologias da comunicação deve ter na sua base a programação porque todo este pensamento facilitará imenso tudo o que vier a seguir no campo das tecnologias. Não para criar génios da programação mas para ganhar um melhor conhecimento daquilo a que obedece cada ferramenta informática. Aqui estou em total acordo com Mitch Resnick.

Mitch Resnick Let's teach kids to code (2013) TED

Mas mesmo aqui não chega a programação, as TIC devem incluir ainda pensamento e processos de criação fomentados pelo Desenho. Ou seja para que exista um bom domínio das TIC são fundamentais estes dois itens na aprendizagem - a programação e o desenho. A falta de qualquer um destes criará sempre um défice no uso mais elaborado das TIC.


Não é à toa que a Comissão Europeia tem vindo a introduzir nos quadros de financiamento à investigação em ICT cada vez mais a componente da Criatividade procurando dessa forma fomentar um maior envolvimento entre as comunidades das artes e das tecnologias. Ensinar Word é irrelevante, porque é através da programação e do desenho que se obtém as bases para poder partir para a criação seja em Word, Dreamweaver, ou Flash/HTML5.

What Most Schools Don't Teach (2013) CODE.org

(Existem duas versões desta curta, a mais pequena só com os grandes nomes e que dura cerca de 5 minutos sendo a mais partilhada. E esta que tem quase 10 minutos mas tem os depoimentos inicias das crianças que são uma delícia, tem alguns depoimentos mais extensos, e tem ainda um professor que fala do Scratch.)

Outros Links de Interesse
Universidade e Emprego, nas Áreas Criativas
TED sobre a criação de escolas melhores
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