segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Espelhos na selva

Xavier Hubert-Brierre e Michel Guiss Djomou decidiram espalhar espelhos enormes de 180 cm X 120 cm no meio da savana africana perto de Noyné, no Gabão. Nenhum deles é investigador, resolveram apenas realizar a experiência por pura curiosidade, pelas leituras que fizeram sobre o fenómeno da consciência e a relação desta com o espelho. Deixo aqui apenas dois vídeos dos chimpanzés, de um primeiro contacto e depois de um segundo contacto. No canal YouTube podem encontrar vídeos similares com Elefantes e Leopardos. Vale a pena perderem uns minutos e ver pelo menos estes dois que aqui coloco, são absolutamente fascinantes.


Os vídeos foram captados por câmaras escondidas no final de 2012, e os animais que vemos nas imagens vivem em liberdade no seu estado mais selvagem, essa acaba por ser a parte mais interessante. Porque muitos dos estudos que se têm feito são feitos em cativeiro. No primeiro encontro com o espelho, este grupo de chimpanzés selvagens tem reações de medo e agressão para com o objeto desconhecido na floresta. Inevitável relembrar a cena dos macacos com o monólito no início do fabuloso 2001: A Space Odyssey (1968) de Stanley Kubrick. Já no segundo encontro podemos ver uma evolução das reações. Alguns sujeitos atingiram novas etapas da sua aprendizagem do novo. Já se nota que compreendem o sincronismo, e mais, quando veem um congénere no espelho, conseguem voltar-se para trás para verificar se ele está lá mesmo. Impressionante.

Primeiro Encontro

Segundo Encontro

O que está em causa neste encontro com o espelho foi definido em 1970 por Gordon Gallup como um fenómeno capaz de destacar a auto-consciência, atribuído ao facto do reconhecimento da imagem de si. O indivíduo que é capaz de se reconhecer num espelho será capaz de atribuir estados mentais aos outros, portanto capaz de expressar empatia, ou seja colocar-se  no lugar do outro, sentindo o que o outro sente. O livro do primatologista Frans de Waal, The Age of Empathy que já aqui analisei, fala extensivamente dos efeitos do teste do espelho, na tentativa de demonstrar a maior proximidade que existe entre nós e os animais ao nível da consciência. Tendo em conta que o simples reconhecimento de sincronismo era pouco elaborado, o método foi aprimorado mais recentemente, e por isso adicionou-se um novo elemento ao teste, que passa por marcar os animais numa parte do corpo visível ao espelho. E depois verificar se o animal quando se vê ao espelho se dá conta que a mancha está no seu próprio corpo. Quando assim é, o animal tem uma total consciência do seu corpo, da sua existência. Apenas um reduzido número de espécies consegue passar no teste da marca no espelho. Os primatas têm uma enorme facilidade, e surpreendentemente os elefantes também conseguem, quando por exemplo os cães não ligam nenhuma aos espelhos.

Entretanto encontrei um outro vídeo que demonstra o teste da marca no espelho feito com golfinhos e que é absolutamente impressionante. Acabado de ver o vídeo, torna-se impossível não ficar a pensar na inteligência destes animais, em tudo o que separa, e o que não separa, a sua espécie da nossa.

Dolphins see themselves in mirror
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