sábado, dezembro 15, 2012

Amour, o talento da realização de Haneke

Amour vai aparecer em muitas listas como o filme do ano de 2012, além de vários prémios Haneke levou mais uma Palma de Ouro. Amour é um filme de essência Europeia, não apenas na forma mas também no conteúdo. Trata o assunto do momento, os últimos anos, com uma abordagem cultural claramente nossa. Haneke não é propriamente minimalista, em parte porque não tem pejo em mostrar a decadência da idade para com ela construir a essência do título do seu filme. Por outro lado ao não construir a típica estrutura de causalidade no ecrã deixa no ar muitas interrogações. Se lhe pedirmos para explicar, a resposta é,

"you are asking me to interpret, and I will not. Every meaning is fine, all interpretations are OK. I do not choose between them, because I dislike explanations (..) When I am asked this kind of thing, I usually say I don't know the answer because I don't have such a good relationship with the author."[1]
Haneke foge porque o autor, escritor e o realizador, é ele próprio. Mas se Haneke reage assim é por uma razão muito simples,
"I give the spectator the possibility of participating, the audience completes the film by thinking about it; those who watch must not be just consumers ingesting spoon-fed images. A film cannot stop at the screen. Cinema is a dialogue." [1]
E esta forma de criar sentido audiovisualmente tem os seus frutos. É por demais evidente ler as críticas a Amour e perceber o quão diferentes são as análises de crítico para crítico. Apesar de haver unanimidade sobre a qualidade da obra, encontrei muito pouca unanimidade em redor daquilo que nos é apresentado. Haneke faz-nos o favor de dar um título fortemente sugestivo, que de certo modo tolda a nossa compreensão da obra. Mas é apenas e só isso, nada mais, tudo o resto está à nossa responsabilidade. E cada um verá, sentirá, consoante a sua própria bagagem cultural. A forma como Haneke trabalha obriga a que cada um de nós traga para obra o seu próprio mundo, as suas relações pessoais, os seus mais próximos, porque são esses que servem de suporte à construção de empatia necessária para entrar adentro o filme. Porque o filme claramente também não surge do vazio, o historial de Haneke, tanto cinematográfico como pessoal trouxe-o até aqui. É inevitável pensar em The Seventh Continent, é necessário saber que Haneke foi criado por uma tia que aos 90 anos lhe pediu para a ajudar a morrer, e que este lhe terá dito não o poder fazer por ser seu herdeiro, o que não evitou que esta o tivesse feito por si. Será um filme complicado para jovens, por lhes faltar esse referencial cultural, é-lhes difícil compreender o que está ali a acontecer, ler nas entrelinhas do tempo, não apenas do tempo do filme, mas do tempo daquelas vidas, da vida em si.


Conhecendo o trabalho de Haneke esperamos um determinado finale, pré-anunciado na própria abertura do filme, mas o climax do filme surpreende-nos, incomoda-nos, provoca-nos. Um misto de raiva e tristeza que se apodera de nós, consoante aquilo em que acreditemos. Percebo, mas é muito súbito, é forte, é inevitável ao mesmo tempo que é inaceitável. E o filme ainda assim tudo faz para o anunciar. Aliás Haneke conjuntamente com Trintignant e Riva fazem um trabalho magistral que nos conduz ali. O filme começa calmamente num ambiente culturalmente rico e cheio de possibilidades, que depois inicia um crescendo desvelador do amor incondicional, totalmente carregado nas costas daqueles dois actores. A meio do filme aqueles dois personagens, são dois seres reais de tão impressionantes que são ambos no ecrã, poderiam ser nossos familiares, e é isso que tanto custa. A empatia criada, é feita à custa da total imersão do espectador, do facto deste contribuir para o desenrolar interpretativo daquilo que se passa no ecrã, obrigado a trazer para o centro do filme os seus entes mais queridos, e a colocá-los ali. Dependente da fase da vida em que se veja o filme, teremos um acesso diferente à obra. No meu caso é inevitável ver-me como a pessoa de fora que assiste sem poder, à semelhança de Huppert, a filha que "quer ver", que quer transformar o estado das coisas mas se sente incapaz, que quer falar de "coisas sérias" como se essas pudessem resolver alguma coisa. E é em resposta a essas "coisas sérias" que Haneke puxa para título, o resumo do sentido de tudo aquilo a que assistimos.




Contra algumas ideias que tenho vindo a defender, Haneke demonstra aqui porque apesar de a imagem mostrar em vez de descrever, consegue ainda assim conter tanto poder expressivo como o texto. Haneke obriga o espectador a participar, a envolver-se com a obra, sem o envolvimento o filme não se abre, entende-se, mas não se sente. E julgo que é aqui que reside o talento, muito acima da média, da sua direcção, ser capaz de manter uma obra compreensível, não descendo ao incompreensível pelo minimalismo ou meramente simbólico, mas esculpindo na obra os sucalcos que precisam de ser preenchidos pelo espectador, os sucalcos da empatia e da emocionalidade.


[1] Michael Haneke: There's no easy way to say this…, The Guardian, 4 de Novembro 2012
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